Universidade de lisboa faculdade de letras



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2.1.3 Masculinidades
 
 
                                                 
105
 Idem,  Ibidem,  p. 3. 
 
106
 Idem,  Ibidem, pp. 53-54. 
 


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Opondo-se  à  multiplicidade  das  feminilidades,  os  homens  que  são  construídos  e  as 
máximas  acerca  de seu  comportamento  se revelam  muito  mais  planos  e menos  intencionalme nte 
trabalhados.  Se  sobre  as  mulheres  é  discutida  as  suas  subjetividades,  paixões  e  sentimentos,  os 
homens  são representados  a partir  de sua funcionalidade  no espaço público  sem haver  espaço para 
a  discussão  de  seus  desejos.  Assim,  eles  aparecem  enquanto  rei,  filósofos,  soldados,  pastores, 
trabalhos  que dependem  exclusivamente  de sua racionalidade  e de suas experiências.  Isso não quer 
dizer,  no  entanto,  que  os homens,  de maneira  geral,  sejam  apresentados  enquanto  seres perfeitos. 
As críticas  que  lhe  foram  feitas,  em sua  grande  maioria,  tangem  as suas funções  e apenas durante 
o discurso  de Delmeter  é que ela  propõe uma  reflexão  sobre as relações  entre  homem  e mulher,  a 
partir  de seus estados de marido  e esposa, trazendo  a discussão  para o conceito  de masculinidade. 
 
A principal  personagem  masculina  que é construída  é Diófanes-Antionor  o qual  apresenta 
uma  personalidade  muito  menos  real  do  que  as  femininas,  quando  comparadas.  Assim,  ele  é 
primeiramente  apresentado  enquanto  o  rei  de  Tebas  e  nessa  função  deve  adotar  características 
condizentes  com  a sua  função.  Vale  ressaltar,  no  entanto,  que a separação  entre  rei  e pai  é muito 
tênue,  fazendo  com que ele  exerça  uma  paternalidade  sobre seus súditos.  Enquanto  rei,  cabe-lhe  o 
reconhecimento  das  dificuldades  e,  principalmente,  o  controle  da  situação.  Dessa  forma,  o  seu 
discurso  sempre vai  de encontro  a conselhos  e recomendações.  Quando escondido  sob a identidade 
de  Antionor,  Diófanes  assume  o  papel  de  filósofo  como  consequência  de  sua  sabedoria  e 
experiência.  Ao  contrário  das  personagens  femininas,  ele  sempre  se  encontra  exercendo  algum 
papel social  mesmo  quando  este se encontra  com Delmeter,  ele  tende a permanecer  no controle  de 
suas emoções não deixando  que elas sejam  demonstradas.  Diófanes,  no limite,  encarna  o grau  mais 
alto  da  hierarquia  político-social  devendo  mostrar  o  controlo  e  superioridade  em  relação  a  sua 
esposa, a sua rainha,  aos seus  filhos  e aos seus  súditos. 
 
A outra personagem  masculina  de destaque nessa obra é Arnesto,  príncipe  de Delos e noivo 
de Hemirena.  No Livro  I, apenas  é referido  enquanto  o futuro  marido  da princesa  tebana  e a partir  
do  Livro  V,  aparece  enquanto  personagem  ativa.  Sintetiza  o  príncipe  ilustrado,  mais  do  que 
Diófanes,  cujas  ações vão sempre  de encontro  à sua função  de futuro  rei.  É por meio  do casamento 
com Hemirena  que, no final  da narrativa,  Arnesto  atinge  o seu destino  de um rei justo e responsável 


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pelos  seus súditos.  Consequentemente,  as ações dentro  do espaço público  e no espaço privado  são 
bem  delimitadas  pela  divisão  sexual  do trabalho. 
 
É importante  ressaltar,  no entanto,  que embora  haja  a correlação  direta  entre  rei  e pai, essa 
só existe  no  que  respeita  à  questão  da autoridade,  a qual  a autora  não  questiona  diretamente  em 
nenhum  momento.  As  críticas  feitas  ao  homem  no  espaço  doméstico  sempre  caminham  para  a 
tentativa  de  correção  do  comportamento  e  não  uma  crítica  à  estrutura  marcada  pelo  género. 
Hemirena  aparece por duas vezes  como  a desgraça  para a vida  de dois  homens  que  se apaixonam 
por ela.  O primeiro,  um  pastor de nome  Túrnio,  o qual  cego pela  sua paixão  defende  a amada  das 
maldades  de Anquísia,  assim,  ao interceder  por Hemirena  e ver o seu pedido de casamento  negado 
pela  primeira  e a partida  da segunda,  comete  suicídio.  O segundo,  príncipe  de Atenas  e irmão  de 
Beraniza,  Ibério  se  declara  duas  vezes  sendo  rejeitado  duplamente.  Hemirena  argumenta  que 
apesar de ser tratada enquanto  uma  mulher  livre  por Beraniza  e pela  nobreza  ateniense,  ainda  era 
uma  escrava  e,  portanto,  o casamento  e  até  os  sentimentos  entre  um  homem  da  nobreza  e  uma 
escrava seriam  proibidos.  Com o intuito  de manter  a sua pureza,  após a morte  da princesa  ateniense 
e não mais  podendo resistir  às próprias  paixões,  Hemirena  foge  de Atenas  para preservar  todas as 
suas virtudes.  Ibério  decide  se afastar  da corte e renunciar  ao trono para se dedicar a uma  vida  sem 
luxo  e privilégios  no  campo,  após seu  pai  e rei  negar  a autorização  para o casamento  e a procura 
pela  princesa  tebana. 
 
Esses  dois  episódios  revelam  as  implicações  de  uma  paixão  desmedida  no  espírito 
masculino.  Sendo um  tema  que Teresa  Margarida  da Silva  e Orta sempre  apresenta  de uma  forma 
negativa,  procura  por  diversas  formas  apresentar  os  malefícios  que  a  paixão  romântica  pode 
acarretar  no  fim  da vida  do homem,  seja de forma  direta  como  foi  o caso do pastor  ou simbólica 
no  caso  do príncipe.  Assim,  faz-se  necessário  que  homens  e mulheres  consigam  controlar  seus 
impulsos  a fim  de cumprirem  com  as suas  obrigações  sociais.  Se o primeiro  experiencia  um  fim 
trágico  ao se  ver  privado  de seu  amor,  o segundo  com  a sua  reclusão,  revela  a sua  incapacidade 
para se tornar  o sucessor  ao trono  ateniense.  Ainda  cego pela  sua paixão,  inicia  uma  guerra  contra 
o seu pai  pelos  domínios  do reino  na qual  recebe a ajuda de  Arnesto.
 


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Apesar de Aventuras de Diófanes ou Máximas da virtude e formosura ser escrito  de acordo 
com  os  moldes  das  grandes  aventuras  do  século  XVIII  e  tendo  como  inspiração  as  grandes 
epopeias  gregas,  as personagens  masculinas  aqui  pouco reverberam  os ideais  heróicos  de tradição 
clássica.  O que se observa  é exatamente  esta transformação  das expectativas  heróicas  masculinas 
que não  buscam  mais  honra  e virtude  na guerra,  mas  sim  na cultura  cortesã.  Assim,  a guerra  que, 
até  então  era  um  traço  significativo  da cultura  masculina,  nesta  obra é  posta  de lado  trazendo  à 
discussão  o papel  do homem-marido  e do homem-pai. 
 
Delmeter,  no  seu  discurso  durante  as festividades  do casamento  entre  Olímpia  e  Learco, 
responde  a  questões  sobre  comportamentos  masculinos  e  femininos,  exemplifica  essa 
transformação  não  apenas  naquilo  que  se observa  na  sociedade,  mas  também,  a partir  do que  se 
espera do comportamento  desse novo homem.  Antes  de iniciar  as ponderações  acerca do discurso
devem-se fazer  duas observações. A primeira  é no que tange  o mau comportamento  feminino  como 
marca  de uma  visão  preconceituosa  por parte  dos homens  e, a segunda,  é  no que  diz  respeito  aos 
próprios  vícios  masculinos  os quais  muitas  vezes  são ignorados  frente  a  uma  ideal  de perfeição 
masculina  amplamente  popularizada  na  sociedade.  Assim,  Delmeter  apresenta  desvios  morais  de 
maneira  generalista  enquanto  os protagonistas  de Aventuras de Diófanes ou máximas de virtude e 



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