Universidade de lisboa faculdade de letras



Baixar 0.76 Mb.
Pdf preview
Página25/58
Encontro30.06.2021
Tamanho0.76 Mb.
1   ...   21   22   23   24   25   26   27   28   ...   58
2.1.1 Feminilidades
 
 
Diogo  Manuel  Aires  de Azevedo  publicou  em  1734 Portugal ilustrado pelo sexo feminino 
no  qual  por  meio  de  três  partes  procurou  compilar  vidas  ilustres  de  portuguesas  cujos  feitos 
deveriam  ser  utilizados  como  exemplos  comportamentais.  A  primeira  parte  seria  destinada  a 
mulheres  religiosas  sendo  o  primeiro  grupo  representado  por  santas  reconhecidas  por  Roma 
                                                 
94
Patrick  Charaudeau, “Os estereótipos muito bem.  Os imaginários  ainda melhor.”  Entrepalavras, vol. 7.  Fortaleza: 
jan/jun 2017,  p. 587.
 
95
 Idem,  Ibidem, p. 587. 
 


53 
 
enquanto  o segundo  por aquelas  que  deveriam  ser santificadas  por conta  de seu  comportamento. 
A segunda  parte seria  composta  por mulheres  que se destacam  nas ciências  e nas artes e a terceira 
por aquelas  que têm  nas  armas  a sua  habilidade  e reconhecimento.  Todas  essas mulheres,  apesar 
de suas  mais  diversas  trajetórias,  apresentam  vidas  muito  semelhantes:  repletas  de sacrifícios,  de 
violências,  de autoflagelos  e, principalmente,  de uma  resignação  e aceitação  de seus  destinos
96
.  A 
mulher  louvável,  dessa forma,  apresentava-se  enquanto  um  estereótipo  o qual  deveria  ser seguido 
dentro  dos ideais  de servidão  e submissão,  de um  ser imperfeito  e pecador o qual  deveria  sempre 
buscar  a sua redenção.
 
Essa imagem  da mulher  pecadora e imperfeita  é conhecida  por ser um  lugar-comum  dentro 
do imaginário  dos países  tradicionalmente  cristãos,  apresentando  pouquíssimas  possibilidades  que 
não  fossem  esta.  É  curioso  notar  que  no  caso português,  ainda  que  se  exaltassem  mulheres  que 
tivessem  habilidades  e conhecimentos  e não  somente  por aquilo  que  tange  a sua  moralidade  e a 
sua  virtuosidade,  elas  ainda  continuam  sujeitas  à  lógica  do  martírio.  Assim,  as  personagens 
apresentadas  por Teresa Margarida  da Silva  e Orta possibilitam  uma  nova  visão  sobre o conjunto 
mulher,  o qual  não é, necessariamente,  definido  somente  a partir  da mitologia  cristã. 
 
Um  dos traços mais  interessantes  da obra de Teresa  Margarida  da Silva  e Orta diz  respeito 
à multiplicidade  de  personagens  femininas  com  características  tão  distintas  entre  si.  Sejam  elas 
pertencentes  à nobreza  urbana  ou  rural,  ricas  ou  pobres, novas  ou  velhas,  a autora  consegue,  em 
determinado  nível,  apresentar  diferentes  realidades  com  diferentes  questões  e redigir  conselhos  a 
serem  adotados por todas elas,  além  de compor personagens  com estereótipos  de acordo com a sua 
posição social.  A partir  de todas essas diferenças  postas, é importante  reconhecer  que para a autora 
não há dúvidas  sobre o que é ser mulher,  ou seja, estava dado pela condição  biológica,  continua ndo 
a tradição  clássica  apresentada. 
 
                                                 
96
  Carla  Maria  Pinto  Avelino,  Portugal ilustrado pelo sexo  feminino de Diogo Manuel Aires de  Azevedo (Lisboa, 
1734). Estudo preliminar, notas e estabelecimento de texto . Dissertação (Mestrado). Porto: Faculdade de Letras  da 
Universidade do Porto, 2008. 
 


54 
 
Dentro  do  estrato  social  da  nobreza,  Hemirena
97
,  Climineia  e  Beraniza,  ainda  que 
pertençam  à primeira  nobreza,  possuem  características  que  ora se  manifestam  da mesma  forma, 
ora se manifestam  de formas  contrárias.  Anquísia  e Franésia,  pertencentes  aos setores  médios  da 
sociedade,  por  sua  vez,  se  apresentam  enquanto  contraexemplos,  ou  seja,  personagens  cujos 
comportamentos  e morais  não  devem  ser emulados.  Nas camadas  baixas,  tem-se  Leda,  Olímpia, 
Amartice,  Pachina  e  Atília  sendo  estas  apresentadas  de  forma  superficial.  Apesar  de  todas  as 
diferenças  existentes  entre  elas,  o  que  existiria  em  comum  é  que  possuem  a  mesma  natureza  e, 
consequentemente,  a mesma  função  social  tal  como Platão e Aristóteles  arguem.  No entanto,  é por 
meio  das  máximas  verbalizadas  por  Climinéia  e  a  sua  defesa  apaixonada  pela  educação  das 
mulheres  e da sua equidade  para com os homens  que se apresenta  o discurso  mais  consistente  entre 
todas essas mulheres.
 
 



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   21   22   23   24   25   26   27   28   ...   58


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal