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Ocidente, vol 3.  Porto: Edições Afrontamento, 2002,  p.140-179. 
 
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 Lígia  Belini.  Vida  monástica e práticas da escrita entre mulheres em  Portugal no Antigo Regime.  Campus Social
n.º 3/4.  Lisboa:  2006-2007,  p. 211.   
 
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  Ainda que não se ignore a  existência  de outras realidades para  fora  da Europa  no período analisado, o  presente 
artigo não tem  pretensão alguma  de englobá-las. Além  disso, os marcos temporais aqui tratados foram  escolhidos de 
acordo com o impacto cultural,  político e social causado na formação da sociedade europeia do século XVIII.
 
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 Regine Pernoud. A mulher no tempo das catedrais. Lisboa: Gradiva,  1984,  pp. 60-69.
 
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 Durante o século XVII,  podemos citar os trabalhos de Sóror Violante  do Céu e Sóror Maria do Céu. Já para o século 
XVIII,  tem-se Leonor de Almeida  Lorena,  mais conhecida como Marquesa de Alorna.
 
67
 Violeta  Crespo de Figueiredo. “Papéis volantes do século XVIII”.  História, n.º 5.  Lisboa: março  1979,  pp. 54-64.
 
68
Ana Vicente,  As mulheres portuguesas vistas por viajantes estrangeiros (séculos XVIII,  XIX e XX). Lisboa: Gótica, 
2001.
 


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silenciamento  é fruto  direto  das políticas  de memória,  como discutido  por Michelle  Perrot
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, e do 
forte  peso da oralidade,  uma  vez  que homens  brancos  e ricos  exerciam  o monopólio  da tinta. 
 
Paradoxalmente,  é do enclausuramento  dessas  mesmas  mulheres  membros  da elite  que  se 
possibilita  a apreensão  de  uma  extensa  produção  de  manuscritos  existentes,  em  decorrência  da 
educação  recebida  nessas  instituições.  Se,  para  os  homens,  a  escrita  era  um  exercício  da 
materialidade  das suas  ideias  e  da preservação  da  sua  existência  por  meio  da  memória,  para  as 
mulheres  era o espaço de liberdade,  dificultando  a delimitação  entre esfera pública  e esfera privada. 
Dessa forma,  perpetuar  ideias  de que as mulheres  são sempre vítimas  e prisioneiras  da sua condição 
biológica,  tem-se  revelado  uma  afirmação  infundada  e  descabida,  posto  que,  os  exemplos  das 
participações  no espaço público  revelam-se  cada vez  mais  plurais.  Embora  haja  poucos vestígios 
dessas mulheres,  apenas  um  seria  o suficiente  para questionar  esse suposto  monopólio  masculino 
da  esfera  pública,  pensando  em  um  predomínio  da  narrativa  e, consecutivamente,  da memória. 
Consequentemente,  ao invés  de pensá-las  enquanto  exceções  à regra,  ou  seja, que  apesar  do seu 
género,  elas  foram  capazes  de  feitos  excepcionais  tal  como  os  homens  de  sua  época,  deve-se 
valorar  as  suas  ações  em  si  mesmas  rompendo  definitivamente,  com  o que  Simone  de Beauvoir 
nomeia  de "eterno  feminino"
70
.   
Não se deve,  portanto,  pensar  em  uma  literatura  feminina  ou  em  uma  escrita  feminina  a 
partir  da  sua  autoria,  mas  como  essas  obras  se  inserem  dentro  da  tradição  literária  portuguesa. 
Assim,  a  tomada  da  palavra  por  mulheres  portuguesas  do  século  XVIII  tem  começado  a  ser 
estudada  recentemente  e  tem  possibilitado  uma  nova  perspectiva  sobre  a  cultura  escrita  e  a 
circulação  do conhecimento  para  além  das instituições  educativas.  Se,  a educação  masculina  se 
tornava  cada vez  mais  leiga  com o progressivo  protagonismo  das universidades,  a feminina  ecoava 
dentro  dos muros  dos conventos.  Dessa forma,  mesmo  que  Teresa  Margarida  da Silva  e Orta não 
seja a única  mulher  de seu tempo  a escrever  críticas  políticas  e a pensar  a própria  condição  do seu 
                                                 
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 Michelle  Perrot, “Práticas da memória  feminina”.  Revista brasileira de História, vol. 9,  n.º 18.  São Paulo:  ago/set 
1989,  pp. 09-18.    
 
70
 O  conceito desenvolvido pela filósofa  tem  como  objetivo sustentar a tese de que a mulher  definir-se-ia  enquanto 
um ser sexual, ao contrário do homem  que nunca o faz  de tal maneira.  Dessa forma,  toda a sua agência estaria sempre 
vinculada a essa condição biológica a qual, ela mesma,  faz  questão de frisar que tanto em termos  biológicos quanto 
em  termos  sociais, já  não é mais  sustentável. Ver:  Simone  De  Beauvoir.  O  segundo sexo, vol.  1.  Lisboa:  Quetzal 
Editores, 2009.
 


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género  nesse  período,  os estudos  sobre essas  mulheres  ainda  é  feito  pontualmente,  objetivando, 
por meio  da biografia,  a retomada  da memória  dessas autoras.  Ainda  que tal  trabalho  se revele  da 
mais  pura  importância,  posto  que  muitas  ainda  se  encontram  desconhecidas,  uma  análise 
sistemática  desse corpo documental  se faz  mais  urgente  para que se possa compreender  a história 
da escrita  e das ideias  políticas  portuguesas  como  um  todo. 
 
No que tange, especificamente,  às ideias  portuguesas  durante  o Iluminismo,  apesar da praxe 
não envolver  personagens  femininas  no pensamento  clássico,  é inegável  a sua presença  no debate. 
Seja por tornarem-se  objetos de estudo,  seja por abrirem  a porta de suas casas para tais  debates ou 
ainda  pela  posição  social  ocupada  a  qual  permitia  o contato  com  as  ideias  estrangeiradas,  essas 
mulheres  estavam  cientes  das principais  discussões  da época. Dessa  forma,  a sua  participação  se 
revela  de uma  forma  muito  mais  sensível,  uma  vez  que,  não  se manifestam  pelas  formas  oficia is 
da  burocracia.  Raquel  Bello  Vázquez,  por  exemplo,  sugere  que  as  damas  do  paço  teriam  uma 
função  política  muito  mais  ativa  e  importante  do  que  se  imagina,  mas  que  ainda  se  carece  de 
estudos  apronfudados  e sistemáticos  sobre isso
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Teresa  Margarida  da Silva  e  Orta,  além  de ser  irmã  de Matias  Aires,  autor  de  Reflexões 



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