Universidade de lisboa faculdade de letras


PARTE  I   31      1. Palavra  de Mulher



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PARTE  I
 


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1. Palavra  de Mulher
 
 
A história  da escrita  está  intimamente  atrelada  à história  dos grupos  dirigentes,  assim,  ela 
se  constitui  enquanto  uma  ferramenta  ao  serviço  de  interesses  particulares  e  específicos.  Se  a 
escrita  se constitui,  em  sua  primeira  fase,  em  um  aparato  à construção  do Estado  de justiça  e de 
finanças  calcado  na burocracia,  nos arquivos  e na comunicação  diplomática  e administrativa,  logo 
ela  começa  a romper  com  esses  limites,  espalhando-se  para  outros  setores  da sociedade  como  o 
religioso  e o cultural
46
.  Isso, no  entanto,  não  significa  que  a história  da escrita  tenha  sido  sempre 
livre  de qualquer  regulação  ou normatização.  O mesmo  grupo  que a monopolizava  era responsável 
por censurá-la  e enquadrá-la  dentro  de seus  próprios  ideais,  movimento  que  toma  cada vez  mais 
corpo ao longo  da Idade Média  europeia  culminando  na criação  de listagens  de livros  proibidos  e 
nas instituições  de censura,  sejam  elas  religiosas  ou laicas.  Falar  sobre a escrita,  portanto,  é tratar, 
também,  de seus  silêncios,  mas  acima  de tudo,  é a compreensão  a partir  da sua  materialidade,  ou 
seja, de todos os suportes  dos quais  dependia  para ser veiculada.   
 
É  importante  fazer  a  distinção  entre  leitura  e  escrita,  as  quais,  por  influência  da  atual 
realidade,  induz  a aproximação  das duas.  Ler  e escrever,  portanto,  ao contrário  do que  acontece 
hoje,  eram  atividades  que  não  estavam  necessariamente  relacionadas.  Sem  pretender  fazer  uma 
pequena  história  da  escrita  e  da  leitura,  propõe-se  a  retomada  de  dois  aspectos,  os  quais  são 
fundamentais  para  a  compreensão  desse  sistema  no  qual  Teresa  Margarida  da  Silva  e  Orta  se 
insere.  A primeira  delas refere-se,  exatamente,  à separação entre  essas duas. É sabido que a escrita 
surge  enquanto  ferramenta  administrativa,  portanto,  ela se restringia  ao mundo  da necessidade.  Por 
se tratar  de uma  técnica  a qual  deve ser dominada  em todos os seus  aspectos formais  e simbólicos, 
esteve vinculada  a trabalhos  específicos  os quais  dependiam  dela para desenvolver  as suas funções. 
Assim,  o número  de pessoas  que tem  acesso  à escrita  até ao século  XVIII,  ainda  que  ao longo  da 
história  da  Europa  tenha  aumentado,  revela-se  ínfimo.  Mesmo  assim,  é  possível  propor  uma 
                                                 
46
 Roger Chartier,  “Escutar os mortos com  os olhos” Estudos Avançados, vol. 24,  n.º 69.  São Paulo:  2010,  p. 15. 
 


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arqueologia  da escrita  como  diversos  historiadores  e a própria  disciplina  da linguística  têm  feito 
ao  longo  dos  anos,  principalmente, 
pelos  seus  resquícios 
materiais. 
A  dificuldade, 
consequentemente,  reside  em  traçar  a história  da leitura  a qual,  muitas  vezes,  tem  as  suas  raízes 
fincadas  na oralidade,  dificultando  o acesso à sua prática.  Se ao longo  da Idade Média  as práticas 
da escrita  estavam  praticamente  limitadas  aos muros  dos mosteiros  com  os seus  monges  copistas 
- os quais  poderiam  copiar  manuscritos  sem,  necessariamente,  compreenderem  o seu  conteúdo  -, 
foi  a  partir  do “século  XVI  que  os  homens  tomaram  posse  da Palavra.  Durante  o século  XVII, 
começaram  a descodificar  o ‘livro  da  natureza’.  E  no  século  XVIII,  aprenderam  eles  próprios  a 
ler”
47
.  Muito  mais  do que  circunscrita  a um  determinado  grupo  sociológico,  a escrita  se configura 
enquanto  uma  técnica  a qual  pode  ser  apreendida  a  partir  da sua  utilidade.  Essa  distinção  entre 
quem  sabe ler  e quem  sabe escrever  faz  com  que  os estudos  acerca do conceito  da alfabetização 
na Europa  pré-1789 sejam  muito  mais  sensíveis  e complexos  do que se deseja
48
.  
 
O segundo  aspecto  seria  a respeito  do que  tange  a questão  de género.  É senso  comum  que 
ao longo  da história  as mulheres  sempre  foram  privadas  de acesso à educação.  Essa  afirmação  é 
feita  a partir  de  duas  premissas:  a  primeira  levando  em  consideração  uma  pretensa  exclusão  da 
mulher  ao espaço público  e a segunda  a ausência  delas  enquanto  autoras  de manuscritos.  Não se 
pretende  negar,  no  entanto,  que  a sociedade  europeia  se estruturou  de maneira  patriarcal  e que as 
mulheres,  de  forma  geral,  tenham  sofrido  privações  ao  longo  da  história.  O  que  se  pretende  é 
propor uma  suspensão  dessas assertivas  políticas,  a fim  de se pensar relações  de poder e de género 
as quais  se manifestam  de maneiras  menos  estáticas  de acordo com os grupos sociais  e as condições 
geográficas.  Para  isso,  é  importante  ressaltar  que  quando  se  pretende  uma  categorização  de 
mulheres  neste  trabalho,  tem-se  em  mente  que ela  abarca somente  mulheres  livres  e pertencentes 
à nobreza  e aos grupos  médios  europeus  , assim,  a forma  como as relações de poder se estabelece m 
ganha  contornos  distintos  daqueles  partilhados  pelas  mulheres  das  camadas  populares,  por 
exemplo.  Para  além  disso,  frisa-se  a  preocupação  com  a  normatização  da  moral  e  do 
comportamento  feminino  presente  ao longo  dos  textos  deixados  por  homens  e por  mulher es  ao 
longo  da tradição  cultural  europeia.  Partindo  da máxima  de  que  a escrita  se coloca  no  limiar  da 
                                                 
47
Robert Darnton, “História  da leitura”.  In: Peter Burke  (org.),   A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: 
Editora  UNESP,  1992,  p. 237.
 
48
Idem,  Ibidem, pp. 203-241.
 


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realidade  e  da ficção,  depreende-se,  portanto,  que  o alto  número  de  publicações  de manuais  de 
comportamento  se  justifica  no  entrelaçamento  entre  a  sua  vertente  positiva  e  negativa,  ou  seja, 
entre  o que se vislumbra  e entre  os hábitos  sociais,  respectivamente.
 
Pontuada  a  questão  do  conteúdo,  cabe  agora  uma  pequena  reflexão  sobre  a  produção 
feminina.  O conceito  de autoria  tal  como  é assimilado  hoje,  tem  a  sua  constituição  ao  longo  do 
século  XVIII.  Para tal,  tem-se  como base a sedimentação  da ideia  de indivíduo  ao longo  da Idade 
Moderna,  a qual  substitui,  paulatinamente,  a concepção  agostiniana  de que  o mundo  e, assim  os 
homens,  comportar-se-iam  à imagem  e semelhança  do mundo  divino  e de Deus.  No que  se aplica 
ao mundo  dos ofícios  da arte e da escrita,  tem-se, progressivamente,  a concentração  da criação  em 
torno  de uma  pessoa ao invés  da divisão  do trabalho.  Assim,  se uma  escultura  feita  em  um  ateliê 
contava  com inúmeros  artesãos na sua confecção,  a cópia de um  documento  e, até a criação de um, 
contava  também  com diferentes  pessoas as quais  se condensavam  sob um  único  nome,  quando  as 
obras eram  assinadas.  Assim,  a escrita  era uma  atividade  técnica.  É a partir  do século  XV, dentro 
dos setores  alicos  da sociedade,  que se observca  a valorização  do domínio  dela e da leitura  com o 
incentivo  da  educação  das  crianças  nobres.  A  educação  delas,  ainda  que  privilegie  o  género 
masculino,  não  exclui  nos  primeiros  anos  a  formação  das meninas.  De  uma  forma  ou  de outra, 
pode-se  concluir  que  a  linha  divisora  entre  a  alfabetização  e  o  analfabetismo  se  estabelece  de 
acordo com  a sua  posição  na  sociedade  de uma  maneira  muito  mais  direta  do que de acordo com 
o seu género.   
 
 



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