Universidade de brasília



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Palavras-chaves: aspirina, ácido salicílico e medicamento.  

 

 



 

 

 

 



Introdução 

 

Nenhum  outro  medicamento  é  tão  conhecido  e  tão  amplamente  ingerido  quanto  a 



Aspirina

®

,  só  no  Brasil,  em  2009,  cerca  de  92  milhões  de  comprimidos  foram  ingeridos. 



Quando se fala em remédios imagina-se que eles foram simplesmente criados em laboratórios 

misturando-se  líquidos  coloridos  feitos  por  homens  de  jaleco  utilizando  seus  instrumentos 

exóticos. Todavia, grande parte dos medicamentos produzidos em escala industrial tem o seu 

berço nas plantas. A história deste fármaco não é diferente, entretanto nos dias de hoje devido 

a sua gigantesca produção foi necessário buscar outra matéria prima para a  Aspirina

®

 já que 



com a original não se conseguia atender a demanda de consumo.  

O homem primitivo era nômade, extremamente dependente das plantas para se abrigar 

e  se  alimentar  dos  seus  frutos  e  raízes.  Com  o  passar  do  tempo  aprendeu  a  diferenciar  as 

plantas  que  serviam  como  alimento,  que  possuíam  propriedades  medicinais,  propriedades 

alucinógenas e venenosas. Esta prática foi sendo transmitida através das gerações, tornando-se 

um  saber  popular,  que  é  o  conhecimento  baseado  no  empirismo.  A  escrita  possibilitou  o 

acúmulo de mais conhecimento

,

 e a possibilidade de maior difusão dos saberes. Nos dias de 



hoje observa-se este saber popular enraizado na cultura, é bem comum, em algum momento 

da vida, uma pessoa receber indicação do uso de alguma planta para tratar de patologia que o 

aflige, por exemplo, tomar chá de boldo para curar indisposição devido ao abuso do consumo 

de álcool. 

Apesar de ser produzida em  laboratório,  a Aspirina

®

,



 

foi obtida a partir da salicilína, 

substância  que  é  extraída  da  casca  do  Salgueiro.  As  plantas  são  seres  vivos  estáticos  e  com 

isso  levam  desvantagem  em  alguns  aspectos  da  sobrevivência.  A  evolução  diz  que  a 

capacidade de se adaptar é a chave para a resistência da espécie. O fato de ser estático forçou 

estes  seres  a  criar  meios  eficazes  para  defesa  contra  parasitas  e  do  excesso  de  raios  solares, 

também a necessidade de criar meios para atrair insetos facilitando sua polinização e com isso 

sua  multiplicação  e  perpetuação.  Estas  substâncias  são  produzidas  pela  própria  planta  por 

meio  do  chamado  metabolismo  secundário.  Muitos  dos  metabólitos  secundários  têm  valor 

medicinal e dentre eles se encontra a salicilína. 

Encontrada  no  mundo  inteiro  a  árvore  do  Salgueiro  de  onde  se  extrai  a  salicilína, 

possui diversos tipos chegando a 400 diferentes. As mais comuns são o Salgueiro branco e o 

Salgueiro  chorão.  Crescem  em  climas  temperados  e  frios  e  em  solos  úmidos.  A  árvore  do 



Salgueiro  é  mencionada  em  textos  de  povos  antigos  do  oriente  médio,  Egito,  Assíria  e 

Suméria,  além  de  ser  citada  no  salmo  137  escrito  em  aproximadamente  586  a.  C.  o  que 

evidencia  a  sua  importância.  O  Salgueiro  possui  significado  religioso  para  os  judeus  tendo 

participação  na  Festa  dos  Tabernáculos,  uma  das  três  maiores  festas  comemoradas  pelos 

judeus.  Seu  simbolismo  na  China  é  de  imortalidade,  visto  que  o  Salgueiro  cresce  sendo 

plantado normalmente ou de cabeça para baixo. No campo  da medicina o grego Hipócrates, 

pai da medicina autor de 70 obras na área, no século V a. C. em uma de suas obras relata que 

a  casca  do  Salgueiro  aliviava  dores  e  febres.  O  Salgueiro  foi  esquecido  pela  medicina 

científica, mas continuou sendo usado na medicina popular.  

Em  1763  uma  carta  enviada  por  Edmund  Stone,  reverendo  do  Reino  Unido,  a  Sir. 

Macclesfield,  presidente  da  Royal  Society,  instituição  incentivadora  do  conhecimento 

científico, colocou uma vez mais o salgueiro em evidência. Na carta relatava o uso de um pó 

branco extraído  da casca do Salgueiro que foi  administrado em  pacientes tendo sua eficácia 

sido  observada.  O  reverendo  reparou  que  o  gosto  amargo  da  casca  do  Salgueiro  era 

semelhante  ao  da  Cinchona,  planta  utilizada  para  combater  febres  causadas  pela  malária,  e 

com  isso  associou  que  talvez  o  Salgueiro  pudesse  ter  ação  semelhante.  Edmund  Stone  se 

baseou  na  Doutrina  das  Assinaturas,  filosofia  que  teve  em  Paracelsus  um  dos  seus  maiores 

expoentes. Nesta doutrina acreditava-se que a cura de enfermidades poderia vir da semelhança 

da cor do fruto, da forma das folhas e do formato da planta com órgãos ou partes do corpo. 

Durante  o  século  19  outros  personagens  também  contribuíram  nas  pesquisas  com  a 

casca do Salgueiro. Em 1826 dois químicos italianos Brugnatelli e Fontana tentaram isolar a 

substância ativa da casca do Salgueiro e, em 1828, Johann Buchner, enfim, conseguiu isolar a 

substância  ativa  da  casca  do  salgueiro,  de  aspecto  cristalino  amarelado  e  sabor  amargo.  e  a 

chamou  de  Salicilína  ou  Salicina.  No  ano  seguinte,  em  1829,  um  significativo 

aperfeiçoamento  da  técnica  de  extração  da  Salicilína  foi  feito  por  Henri  Leroux  que  obteve 

30g a partir de 1,5 kg de casca do Salgueiro. 

 

Rafaelle Piria, químico italiano, conseguiu separar a Salicina em dois compostos, um 



deles,  após  uma  posterior  etapa  de  hidrólise  oxidativa,  chegou  ao  ácido  livre,  chamado  de 

ácido salicílico.  

O ácido salicílico era utilizado para minimizar sintomas de artrite e gripe, mas diante 

das  grandes  quantidades  que  eram  necessárias  para  efeito  terapêutico  a  parede  do  estômago 

sofria  irritações  com  a  acidez  do  produto,  o  sabor  desagradável  era  mais  uma  característica 

desfavorável que limitava o uso do ácido salicílico. Trabalhos posteriores foram na tentativa 

de amenizar o caráter fortemente ácido do derivado da salicilína, Frédéric Gerhardt, químico 



francês, logrou êxito. Em 1859, o químico alemão Kolbe conseguiu sintetizar em laboratório 

o  ácido  salicílico  –  fato  que  evidenciou  a  ascensão  da  recém-criada  química  orgânica, 

possibilitando  a  síntese  de  novos  compostos  –  processo  chamado  de  síntese  de  Kolbe.  A 

síntese  de  Kolbe  possibilitou  a  produção  em  maiores  quantidades  e  a  aceitação  médica  do 

ácido  salicílico  levou  uma  empresa  norte  americana  à  obter  autorização  junto  a  Kolbe  para 

produzir e comercializar este novo remédio.  

Aos poucos cada um dos personagens foi contribuindo significativamente para que se 

chegasse  ao  produto  final  Aspirina

®

,  sem  essas  etapas  e  o  conhecimento  delas  o 



desdobramento  da  história  seria  diferente  e  Felix  Hoffmann  não  se  tornaria  o  „‟pai‟‟  da 

Aspirina


®

.  Um  industrial  que  sofria  de  reumatismo  crônico  teria  papel  importante  para  a 

descoberta da Aspirina

®

, mas não atuando nos laboratórios e sim incentivando seu filho, Felix 



Hoffmann,  farmacologista  de  formação  e  químico  por  paixão,  a  buscar  meios  de  atenuar  o 

constante  desconforto  gerado  pelo  uso  do  ácido  salicílico.  Foi  então  que  em1897  Hoffmann 

trabalhando  no  laboratório  da  empresa  Bayer  &  Co  sintetizou  a  Aspirina

®

,  que  até  então 



estava sem nome, ele percebeu que sua criação era menos tóxica e tinha ação analgésica mais 

potente.  Em  1899  a  empresa  Bayer  registra  o  novo  produto  e  começa  a  comercializar  o 

primeiro  fármaco  sintético  da  história.  Aspirina

®

  nome  dado  pela  empresa  tem  origem  no 



prefixo „‟A‟‟ que vem do acetil mais o infixo „‟Spir‟‟ remetendo a planta de onde se obtém a 

salicilina originadora do ácido salicílico e o sufixo „‟in‟‟ era uma comum terminação da época 

para  se  referir  a  medicamentos,  em  português  o  sufixo  ganhou  um  „‟a‟‟  e  se  tornou 

Aspirina


®1,2,3

.

 



 

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