Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância


particular o chamavam para a alcova. Raimundo via-se provocado por várias damas



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O Mulato

particular o chamavam para a alcova. Raimundo via-se provocado por várias damas,


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solteiras, casadas e viúvas, cuja leviandade chegava ao ponto de mandarem-lhe
flores e recados, que ele fingia não receber, porque, no seu caráter educado, achava
a coisa ridícula e tola. Muitos e muitos dias não se despregava do quarto, senão
para comer ou, o que sucedia com freqüência, para ir à varanda dar dois dedos de
palestra à prima.
Estes cavacos faziam-se pelo alto dia, a horas de mais calor, e, muita vez,
também a noite, das sete às nove, durante o serão. O rapaz, sempre respeitoso,
assentava-se, defronte da maquina em que Ana Rosa costa, e com um livro entre os
dedos ou a rabiscar algum desenho, conversavam tranqüilamente, com grandes
intervalos. As vezes dava lhe para pedir explicações sobre a costura; queria saber,
com um interesse pueril e carinhoso, o modo de arrematar as bainhas, de tirar os
alinhavos; outras vezes, distraídos, falavam de religião, política, literatura, e
Raimundo, de bom humor, concordava em geral com tudo o que ela entendia, mas,
quando lhe dava na cabeça, discordava, de manhoso, para que a menina se
exaltasse, discorresse sobre o ponto, e ralhasse com ele, procurando, muito seria,
chamá-lo a verdade religiosa, dizendo-lhe “que não fosse maçom e respeitasse a
Deus!”
Raimundo, que nunca, depois de homem, vivera na intimidade da família,
dedicava-se com aquilo. D. Maria Bárbara, porem, vinha quase sempre quebrar com
o seu mau gênio aquele remanso de felicidade. Em cada vez mais insuportável o
diabo da velha! berrava horas inteiras tinha ataques de cólera; não podia passar
muito tempo sem dar pancadas nos escravos. O rapaz, por diversas vezes, enterrara
o chapéu na cabeça e saíra protestando mudar-se.
— Que carrasco! dizia a descer a quatro e quatro os degraus. Da bordoada
por gosto! Diverte-se em fazer cantar o relho e a palmatória!
E aquele castigo bárbaro e covarde revoltava-o profundamente, punha-o
triste, dava-lhe ímpetos de fazer um despropósito na casa alheia. “Estúpidos!”
exclamava a sós, indignado. Mas, como a mudança não fosse tão fácil,
contentava-se ele com o passar uma parte do dia no bilhar do único restaurante da
província, não sem pena de abandonar as inocentes palestras da varanda.
Em breve criou fama de jogador e bêbado.
O fato era que, por tudo isto, lhe minava o espírito uma surda repugnância
pela província e contra aquela maldita velha. Quando o estalo do chicote ou dos
bolos rebentava no quintal ou na cozinha, Raimundo repelia a pena com que
trabalhava no quarto.
— Lá está o diabo! Nem me deixa fazer nada! arre!
E saía furioso para o bilhar.
Ora, Ana Rosa, era também contra o castigo, e o procedimento da avó foi um
pretexto para a sua primeira solidariedade de pontos de vista com o primo; os dois
conversavam em voz baixa contra Maria Bárbara, e esta conspiração aproximava-os
mais um do outro, unia-os. Mas um belo dia, em que o Benedito le vou uma mela
mais estrada, Raimundo chegou-se a Manuel e falou-lhe resolutamente em
mudança. “Que sabia estava incomodando e não queria abusar. O Sr. Manuel que
tivesse paciência e lhe arranjasse uma casinha mobiliada e um criado...”


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— O que, homem!... protestou logo Manuel, a quem não convinha a mudança
do seu hóspede antes de realizada a compra da fazenda. O doutor pensa que está
na Europa ou no Rio?... Pois então casinhas mobiliadas e com criado, isto é lá coisa
que se encontre por cá?... Ora deixe-se disso!
E, como o sobrinho insistisse, continuou declarando que semelhante
exigência, sobre ser quase inexeqüível acarretava para ele, Manuel, certa
odiosidade. “Que não diriam por ai?... Diriam que Raimundo fora tão maltratado
pelos parentes de seu pai que preferira sepultar-se entre quatro paredes a ter de
aturá-los!”
— Não senhor! concluiu ele, afagando-lhe o ombro com uma palmada,
deixe-se ficar cá em casa, pelo menos ate o verão - em agosto, iremos juntos ver a
fazenda — e, como por esse tempo já todos os seus negócios estarão liquidados. ou
o senhor volta para a Corte, ou se instala aqui mesmo na província, porém com
decência! Não lhe parece isto acertado? Para que fazer as coisas mal feitas?...
Raimundo consentiu afinal, e, desde então, esperava o mês de agosto com
uma impaciência de faminto. Não era tanto a vontade de fugir a Maria Bárbara o que
lhe fazia desejar com tamanha febre aquela viagem ao Rosário, mas o empenho a
sede velha de tornar a ver o lugar, em que lhe diziam, tão secamente, ter ele nascido
e vivido os seus primeiros anos. “E daí, quem sabe lá se não iria encontrar a
decifração do mistério da sua vida?...”
Esperou, e na espera entretinha-se todos os dias com Ana Rosa, tanto e com
tal satisfação, que ainda nos princípios de junho, confessava já não lamentar a
dificuldade da mudança. Ao contrario, pressentia até que já não podia realizá-la,
sem sofrer pela falta daquele conchegozinho de família sem curtir grandes saudades
por aquela irmã, sua amiga, franca e delicada, que lhe dera a provar pela primeira
vez o suavíssimo prazer da convivência em família.
Efetivamente, a filha de Manuel já era muito chegada a Raimundo...
O tratamento de excelência desaparecera como inútil entre parentes que se
estimam; os sustos, os sobressaltas, as desconfianças, que dantes a acometiam na
presença daquele moço austero e na aparência tão pouco comunicativo, foram
substituídos, graças às providências do negociante sobre Maria Bárbara, por
momentos agradáveis, cheios de doçura, em que o primo, ora contava com graça as
peripécias de uma jornada; ora desenhava a lápis a caricatura dos conhecidos da
casa; ora solfejava alguma melodia alemã ou algum romance italiano; ou, quando
menos, lia versas e contos escolhidos.
Ana Rosa sentia em tudo isso um grande encanto, mas incompleto:
Raimundo, pelos modos, parecia que lhe não tributava mais do que respeitosa
amizade de irmão; e isto, para ela, não bastava. Raro era o dia em que a maca sob
qualquer pretexto, não lhe fazia uma carícia disfarçada; dizia por exemplo: 'Esta
varanda e muito fresca... Não acha primo? Olhe, veja como tenho as mãos frias...” E
entregava-lhe as mãos, que ele tenteava frouxamente, com medo de ser indiscreto.
Outras vezes fingia reparar que o rapaz tinha os dedos muito longos e vinha-lhe à
fantasia medi-los com os seus. ou queixava-se de ameaças de febre e pedia-lhe que
lhe tomasse o pulso. Mas, a todas estas dissimulações da ternura. a todas estas
tímidas hipocrisias do amor, sujeitava-se ele frio, indiferente e por vezes distraído.
Este pouco caso desesperava-a; doía-lhe aquela falta de entusiasmo, aquele
nenhum carinho. por ela, que tanto se desvelava em merecê-lo. Cercos dias a pobre


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moca aparecia sem querer dar lhe palavra e com os olhos vermelhos s e pisados;
Raimundo atribuía tudo a qualquer indisposição nervosa e procurava distraí-la por
meio da conversa, da música. sem nunca lhe falar do aspecto triste e abatido que
lhe notava; tinha receio de impressioná-la e só conseguia afligi-la mais, porque Ana
Rosa, quando, ao levantar-se da rede, se percebia pálida e triste, esforçava-se por
conservar intacta na fisionomia a expressão da sua mágoa, na esperança de
comovê-lo; de ser interrogada por ele, de ter enfim uma ocasião de confessar-lhe o
seu amor. O ar friamente atencioso de Raimundo, as suas perguntas calmas,
cristalizadas pela delicadeza, com que ele se informava da saúde da prima, a
imperturbabilidade médica com que falava daquelas tristezas, daquela insônia e
daquela falta de apetite, a formal condescendência que afetava, como por obséquio
a uma pobre convalescente que se não deve contrariar, enchiam-na de raiva e
despedaçavam-lhe a esperança de ser correspondida.
Uma ocasião, em que ela se lhe apresentou muito mais desfeita e pálida,
Raimundo chamou a atenção de Manuel para a saúde da filha:
— Tenha cuidado! disse-lhe Aquela idade é muito perigosa nas mulheres
solteiras... Talvez fosse acertado uma viagem... Em todo o caso, não há efeito sem
causa.. E bom consultar o médico.
Manuel coçou a cabeça, em silêncio; a verdadeira causa já o Jauffret lhe
havia declarado; mas. como Raimundo voltasse à questão e pintasse o caso muito
feio, insistindo em que era preciso fazer alguma coisa, teve o bom português, nessa
mesma tarde, uma conferência com o compadre e com o seu caixeiro Dias a quem
prometeu sociedade comercial, na hipótese de que se efetuasse para o seguinte
mês, como ficava resolvido, o casamento dele com Ana Rosa.
— Mas a D. Anica levará em gosto?... perguntou o Dias, abaixando os olhos,
com o melhor sorriso hipócrita do seu repertório.
— Naturalmente... respondeu Manuel. porque da última vez que lhe toquei
nisso, ela deu-me esperança... agora é provável que dê certeza!
— De não casar talvez! observou o cônego.
— Como não casar?...
— Como? Eu lho digo...
E o cônego apresentou as suas razões, fez bons argumentos, estabeleceu
premissas, tirou conclusões, citou máximas latinas, e declarou que aquela
hospedagem do cabrocha, no seio da família, nunca fora do seu gosto; e que, para
se tratar do casamento de Ana Rosa, a primeira coisa a fazer era afastá-lo da casa.
Mas o negociante, que colocava os seus interesses pecuniários acima de
tudo, abanou as orelhas às palavras do compadre, e descreveu a atitude respeitosa
e desinteressada de Raimundo ao lado de Ana Rosa; falou no empenho com que o
sobrinho quis mudar-se; no seu honor pela província; no seu entusiasmo pela Corte;
e lembrou que fora ele próprio até, coitado! quem provocara aquela conferência dos
três. Terminou dizendo que, por esse lado, nada temia. Além de que, depositava
bastante confiança no bom senso de sua filha. “Não! por ai podiam estar
descansados! Não havia perigo a recear!”
— Veremos... veremos... Enquanto não assistir ao casamento deste aqui com
a minha afilhada, estou no que disse!... Cui fidas vide!


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E o cônego assoou-se com estrondo.
Nessa mesma noite, Manuel, aproveitando a ausência do hóspede, levou a
filha ao quarto de Maria Bárbara.. A velha embalava-se na rede, “bebendo” o seu
fumo de corda no cachimbo e fitando um velho oratório de pau-santo. Ana Rosa,
intrigada com a situação, encostou-se a uma cômoda, e o pai, depois de discorrer
sobre várias coisas indiferentes, disse que, no dia seguinte, viriam as amostras da
casa do Vilarinho, para a noiva escolher as fazendas do seu enxoval!
— Quem vai casar?... perguntou a menina, num alvoroço.
— Faze-te desentendida, minha sonsa!... Ora qual de nós aqui tem mais cara
de noivo — eu ou tua avó?...
E Manuel fez uma festinha no queixo da filha.
— Casar! eu? mas com quem, papai?
E Ana Rosa sorriu, porque calculou que Raimundo a pedira em casamento.
— Ora com quem havia de ser, minha disfarçada?
E desta vez foi Manuel que riu, iludido pelo bom acolhimento que a filha dera
à noticia.
— Não sei, não senhor... respondeu ela, com ar de quem sabe perfeitamente.
Com quem é?...
— Anda lá, sonsinha? Não sabes outra coisa!...
E, enquanto Ana Rosa parecia muito ocupada em raspar com a unha uns
pingos de cera velha, espalhados pela madeira da cômoda, continuou o negociante:
— Mas por que não me falaste com franqueza há mais tempo, sua
caprichosa, fazendo o pobre rapaz supor que o não querias?...
Ana Rosa ficou seria.
O pai acrescentou:
— A fazê-lo, coitado! andar por ai tão derreado, que até metia dó!...
— Como?!
— Pois então não sabes como andava o nosso Dias?...
— O Dias?! interrogou Ana Rosa empalidecendo.
E fez-se muda, a cismar; só despertou, com estas palavras:
— Ora senhores!... Tem graça!
—Tem graça, não senhora! vossemecê disse que o aceitava para marido!
Que diabo quer dizer agora esta mudança?... Ah, que temos mouros na costa! ..
Bem me dizia o compadre!...
— Não sei o que lhe disse o padrinho, mas o que eu lhe digo, papai, é que
definitivamente não me casarei com o Dias. Nunca, percebe?
— Mas, tu, se já não o queres, e porque tens outro de olho!...


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— Não sei não senhor...
E abaixou os olhos.
— Bem! vê lá! Isto já me vai cheirando mal!... Ora dizes uma coisa; ora dizes
outra!.. O mês passado respondeste-me na varanda: “Pode ser” e agora, às duas
por três, dizes que não! Sabes que só quero a tua felicidade... não te contrario.. mas
tu também não deves abusar!...
— Mas, gentes, o que foi que eu fiz?...
— Não estou dizendo que fizesses alguma coisa!... Só te aviso que prestes
toda a atenção na tua escolha de noivo!.. Nem quero imaginar que seda capaz de
escolher uma pessoa indigna de ti!...
— Mas, como, papai?... Fale claro!
— Isto vai a quem toca! Não sei se me entendes!...
— Ora, seu Manuel! exclamou Maria Bárbara, levantando-se e pousando no
chão o enorme cachimbo de taquari do Pará Você às vezes tem lembranças que
parecem esquecimento! Pois então, uma menina, que eu eduquei, ia olhar...— E
gritou com mais forca — para quem, seu Manuel!?
— Bem, bem...
— Vejam se não é mesmo vontade de provocar uma criatura!...
— Bem, bem! Eu não digo isto para ofender!... desculpou-se o negociante.
Mas é que temos cá um rapaz bem-aparecido, que...
— Um cabra! berrou a sogra. E era muito bem feito que acontecesse qualquer
coisa, para você ter mais cuidado no futuro com as suas hospedagens! Também só
nessa cabeça entrava a maluqueira de andar metendo em casa crioulos cheios de
fumaças! Hoje todos eles são assim! Súcia de apistolados! Dá-se-lhes o pé e tomam
a mão! Corja! Julgue-se mas é muito feliz em não lhe ter recebido o coice! porém
fique você sabendo que só a mim o deve! — sei a educação que dei a minha neta!...
por esta respondo eu!.. E, quanto ao cabra... é tratar de despachá-lo já, e já, se não
quiser ao depois ter de pegar-se com trapos quentes!...
— Pois bem, pois bem, senhora! Amanhã mesmo tratarei disso! Oh!
E Manuel pensou logo em aconselhar-se com o cônego.
Ana Rosa continha o choro.
— Vou para meu quarto! disse ela, com mau modo.
— Ouça!... opôs-lhe o pai, detendo-a. A senhora...
— Não diga asneiras!... atalhou a velha, empurrando a neta para fora. Vai-te!
e reza à Virgem Santíssima para que te proteja e te dê juízo!
Ana Rosa fechou-se, no seu quarto, rezou muito, não quis tomar chá, e
soluçou até às quatro horas da manhã.
No dia seguinte, Manuel, depois de entender-se com o compadre, preveniu a
Raimundo que se preparasse para ir ao Rosário.
— Estou às suas ordens, mas o senhor tinha dito que iríamos no mês de
agosto.
— É certo! porem o tempo está seco e para a semana temos lua cheia.
Podemos ir no sábado Convém-lhe?
— Como quiser. estou pronto.


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E, daí a pouco, Raimundo foi ao quarto verificar se os seus pertences de
viagens, a borracha de aguardente, as botas de montar, as esporas e o chicote,
achavam-se em bom estado de servir. Estranhou encontrar tudo isso mexido e
remexido de muito fresco, como se alguém houvera se servido daqueles objetos Já
não era o primeiro reparo que fazia desse gênero. por outras vezes quis parecer que
alguém curioso de mau gosto se divertia a remexer-lhe os papéis e a roupa “Talvez
bisbilhotice do moleque!”
Mas, no dia seguinte, por ocasião de deitar-se achou sobre o travesseiro um
atracador de tartaruga preso a um laço de veludo preto. Reconheceu logo estes
objetos; pertenciam a Ana Rosa. “Mas, como diabo vieram eles imoralmente parar
ali, na sua cama?... Havia nisso, com certeza, um mistério ridículo, que convinha por
a limpo!...” Lembrou-se então de ter ficado uma vez muito intrigado por descobrir, na
escova e no pente de seu uso, fios compridos de cabelo, cabelo de mulher, sem
dúvida, e mulher branca.
Já maçado, resolveu passar busca minuciosa em todo o quarto e encontrou
os seguintes corpos de delito: dois ganchos de pentear, um jasmim seco, um botão
de vestido e três pétalas de rosa. “Ora. estes objetos lhe pertenciam tanto quanto o
pentinho de tartaruga e o laço de veludo.. Quem fazia a limpeza e arrumava o quarto
era o Benedito; este também não usava laços nem ganchos na cabeça... Logo,
como havia pensado, alguém se divertia em vir, na sua ausência, revistar o que era
dele, e esse alguém só poderia ser Ana Rosa!... Mas, que diabo vinha ela fazer
ali?... Como adivinhar o fim daquelas visitas extravagantes?... Seria simples
curiosidade ou andaria naquilo a base de alguma intriga maranhense, tramada
contra o morador do quarto, ou talvez, quem sabe? contra a pobre menina?... Fosse
o que fosse, em todo o caso, era urgente pôr cobro a semelhante patacoada!”
Desde esse dia, Raimundo prestou atenção a todos os objetos que deixava
no quarto; marcou o ponto em que ficava o álbum, o despertador um livro, o estojo
de barba ou qualquer coisa, que o moleque não precisasse tirar do lugar para fazer
a limpeza. E com estas experiências, cada vez mais se convencia das visitas
misteriosas; os corpos de delito reproduziam-se escandalosamente; uma vez
encontrou toda riscada a unha a cara da dançarina, cuja fotografia ele, com tanto
cuidado, escondera de sua prima, porque nas costas do cartão, havia a seguinte
dedicatória: A mon brésillen bien-aimé, Raymond.
Que dúvida! Todas as suspeitas recaiam sobre a bela filha do dono da casa!
A graça, porem. é que Raimundo, apesar de não agradar à sua índole de homem
sério e franco tudo que cheirasse a subterfúgio e ilegalidade, sentia no entanto certo
gosto vaidoso em preocupar tanto a imaginação de uma mulher bonita;
lisonjeava-lhe aquele interesse, aquela espécie de revelação tímida e discreta;
gostou de perceber que seu retrato era de todos os objetos, o mais violado, e, como
bom policia chegou a descobrir-lhe manchas de saliva que significavam becos. Mas
ou fosse levado pela curiosidade ou fosse na desconfiança de ser tudo aquilo obra
de algum patife, ou fosse, enfim, porque o fato repugnasse ao seu caráter honesto
verdade é que deliberou aproveitar a primeira oportunidade para acabar com aquela
mistificação.
Poucos dias depois, saindo de casa e demorando-se defronte da porta a
conversar com alguém, viu da rua fecharem cuidadosamente as rótulas do seu
quarto. Não hesitou - subiu pé ante pé, atravessou a varanda deserta, e foi direito ao
seu aposento.


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