Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
CAPÍTULO V
Era Ana Rosa. Logo que ela se recolhera ao quarto, gritara pela Mônica.
— Mãe-pretinha!
Assim tratava a cafuza que a criara e que dormia todas as noites debaixo da
sua rede...
— Mãe-pretinha! Ó senhores!
— O que é, laiá? Não se agaste!
— Você tem um sono de pedra! oh!
Deu um estalo com a língua.
— Dispa-me!
E estendeu-se negligentemente em uma cadeira, entregando à criada os pés
pequeninos e bem calçados.
Mônica tomou-os, com amor, entre as suas mãos negras e calejadas;
descalçou-lhe cuidadosamente as botinas, sacou-lhe fora as meias; depois, com um
desvelo religioso, como um devoto a despir a imagem de Nossa Senhora, começou
a tirar as roupas de Ana Rosa; desatou-lhe o cadarço das anáguas; desapertou-lhe
o colete e, quando a deixou só em camisa, disse, apalpando-lhe as costas:
— laiá? vos vossemecê está tão suada!...
E correu logo ao baú.
A senhora pusera-se a cismar, distraída, coçando de leve a cintura, o lugar
das ligas e as outras partes do seu corpo que estiveram comprimidas por muito
tempo. Mônica voltou com uma camisola toda cheirosa, impregnada de junco, a
qual, abrindo-a com os braços, enfiou pela cabeça de Ana Rosa, esta ergueu-se e
deixou cair a seus pés a camisa servida e conchegou a outra à pele, afagando os


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seus peitos virgens num estremecimento de rola. Depois suspirou baixinho e deu
uma carreira para a rede, na pontinha dos pés, como se não quisesse tocar no chão.
A cafuza ajuntou zelosamente a roupa dispersa pelo quarto e guardou as
jóias.
— laiá quer mais alguma coisa?
— Água, disse a moça, aninhando-se já nos lençóis defumados de alfazema.
Só se lhe via a graciosa cabeça, saindo despenteada dentre nuvens de pano
branco.
A cafuza trouxe-lhe uma bilha de água, e a senhora, depois de servida,
beijou-lhe a mão.
— Boas noites mãe-pretinha. Abaixe a luz e feche a porta.
— Deus te faça uma santa! respondeu Mônica, traçando no ar uma cruz com
a mão aberta.
E retirou-se humildemente, toda bons modos e gestos carinhosos.
Mônica orçava pelos cinqüenta anos; era gorda, sadia e muito asseada; tetas
grandes e descaídas dentro do cabeção Tinha ao pescoço um barbante, com um
crucifixo de metal, uma pratinha de 200 réis, uma fava de cumaru, um dente de cão
e um pedaço de lacre encastoado em ouro. Desde que amamentara Ana Rosa,
dedicara-lhe um amor maternalmente extremoso, uma dedicação desinteressada e
passiva. Iaiá fora sempre o seu ídolo, o seu único 'querer bem”, porque os próprios
filhos esses lhos arrancaram e venderam para o Sul. Dantes, nunca vinha da fonte,
onde passava os dias a lavar, sem lhe trazer frutas e borboletas, o que, para a
pequenina, constituía o melhor prazer desta vida. Chamava-lhe “sua filha, seu
cativeiro” e todas as noites, e todas as manhãs, quando chegava ou quando saia
para o trabalho, lançava lhe a bênção, sempre com estas mesmas palavras: “Deus
te faça uma santa! - Deus te ajude! Deus te abençoe!” Se Ana Rosa fazia em casa
qualquer diabrura, que desagradasse a mãe-preta, esta a repreendia imediatamente,
com autoridade; desde, porém, que a acusação ou a reprimenda partissem de outro,
fosse embora do pai ou da avó, punia logo pela menina e voltava-se contra os mais.
Havia seis anos que era forra. Manuel dera-lhe a carta a pedido da filha, o que muita
gente desaprovou, “terás o pago!...” diziam-lhe. Mas a boa preta deixou-se ficar em
casa dos seus senhores e continuou a desvelar-se pela laia melhor que até então,
mais cativa do que nunca.
Ana Rosa, mal ficou sozinha, no aconchego confidencial da sua rede, intima
tranqüilidade do seu quarto frouxamente iluminado à luz mortiça do candeeiro de
azeite, principiou a passar em revista todos os acontecimentos desse dia. Raimundo
avultava dentre a multidão dos fatos como uma letra maiúscula no meio de um
período de Lucena; aquele rosto quente, de olhos sombrios, olhos feitos do azul do
mar em dias de tempestade, aqueles lábios vermelhos e fortes, aqueles dentes mais
brancos que as presas de Uma fera, impressionavam-na profundamente. “Que
espécie de homem estaria ali!...”
Procurava com insistência recordar-se dele em algum dos episódios da sua
infância—nada! diziam-lhe. entretanto, que brincara com ela em pequenino, e que
foram amigos, companheiros de berço criados juntos, que nem irmãos. E todas
estas coisas lhe produziam no espírito um efeito muito estranho e singular. As meias
sombras, as reservas e as reticências, com que a medo lhe falavam dele, ainda mais


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interessante o tomavam aos olhos dela. “Mas, afinal, quem seria ao certo aquele
belo moço?... Nunca '“o explicaram; paravam em certos pontos, saltavam sobre
outros como por cima de brasas; e tudo isto, todos estes claros que deixavam
abertos a respeito do passado de Raimundo, todos esses véus em que o envolviam
como a Uma estátua que se não pode ver emprestavam-lhe atrações magnéticas,
Um encanto irresistível e perigoso de mistério, uma fascinação romântica de abismo.
Entontecia de pensar nele. O hibridismo daquela figura, em que a distinção e a
fidalguia do porte se harmonizavam caprichosamente com a rude e orgulhosa
franqueza de um selvagem produzia-lhe na razão o efeito de Um vinho forte, mas de
Uma doçura irresistível e traidora ficava estonteada; perturbava-se toda com a
lembrança do contraste daquela fisionomia, com a expressão contraditória daqueles
olhos, suplicantes e dominadores a Um tempo; sentia-se vencida, humilhada
defronte daquele mito; reconhecia-lhe certo império, certa preponderância que
jamais descobrira em ninguém; quanto mais o comparava aos outros, mais o achava
superior, único, excepcional.
E Ana Rosa deixava-se invadir lentamente por aquela embriaguez
esquecendo-se, alheando-se de tudo, sem querer pensar em outro objeto que não
fosse Raimundo. De repente surpreendeu-se a dizer: “Como deve ser bom o seu
amor!...” E ficou a cismar, a fazer conjeturas, a julgá-lo minuciosamente, da cabeça
aos pés. Parou nos olhos: “Quantos tesouros de ternura não estariam neles
escondidos? neles, do feitio de amêndoas, banhados de bondade e cercados de
pestadas crespas e negras, como os pêlos de um bicho venenoso; aquelas pestanas
lembravam-lhe as sedas de uma aranha caranguejeira.” Estremeceu, porém,
vieram-lhe desejos de os apalpar com os lábios. “Como devia ser bom ouvir dizer -
Eu te amo! - por aquela boca e por aquela voz!...” E ficava assustada, como se de
fato, no silêncio da alcova, Uma voz de homem estivesse a segredar-lhe, junto ao
rosto, palavras de amor.
Mas logo tomava a si com a idéia do porte austero e frio de Raimundo. Esta
indiferença, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o orgulhoso,
levanta-lhe. na sua vaidade de mulher, Um apetite nervoso de ver rendida a seus
pés aquela misteriosa criatura, aquele espectro inalterável e sombrio, que a vira e
contemplara sem o menor sobressalto.
E entre mil devaneios deste gênero, com o sangue a percorrer-lhe mais
apressado as artérias, conseguir afina! adormecer. vencida de cansaço. E, quem
pudesse observá-la pela noite adiante. Vê-la-ia de vez em quando abraçar-se aos
travesseiros e, trêmula, estender os lábios, entre abertos e sôfregos. como quem
procura um beijo no espaço.
Na manhã seguinte acordara pálido e nervosa, a semelhança de uma noiva
no dia imediato às núpcias. Faltava-lhe animo até para se preparar e sair do quarto:
deixava-se ficar deitada na rede, a cismar, sem abrir de todo os olhos cheia de
fadiga.
Parecia-lhe sentir ainda na face o calor do rosto de Raimundo.
Decorreram duas horas e ela continuava na mesma irresolução: as pálpebra]s
lânguidas, as narinas dilatadas pelo hálito quente e doendo: os beiços secos e
ásperos; o corpo moído sob um fastio geral, que lhe dava espreguiçamentos de
febre e má vontade. E., assim prostrada, deixava-se ficar entre os lençóis, tolhida de
vexame e enleio, pelas loucuras da noite.
A voz clara de Raimundo que conversava na varanda enquanto tomava café,
despertou-a; Ana Rosa estremeceu, mas, num abrir e fechar de olhos, ergueu-se.
lavou se e vestiu-se. Ao fitar o espelho, achou-se feia e mal enforcada, posto não


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estivesse pior que nos outros dias, endireitou-se toda, cobriu o rosto de pó de arroz,
arranjou melhor os cabelos e escovou um sorriso.
Apareceu lá fora com grande acanhamento; deu a Raimundo um “Bons dias”
frio. de olhos baixos. Não podia encará-lo. Maria Bárbara já lá estava na labutação,
a cuidar da casa, a dar voltas. a gritar com os escravos.
— Olha esse bilhete da Eufrásia. disse ela, ao ver a neta. E passou-lhe uma
tira de papel. engenhosamente dobrada em laço com um galhinho de alecrim
enfiado no centro.
Ana Rosa teve um gesto involuntário de contrariedade. Aborrecia-lhe agora
sem saber por quê, a amizade da viúva, dela, que era ate ai a sua íntima, a sua
confidente, a sua melhor amiga; dos outros havia muito que se tinha enfastiado o
seu desejo, naquele instante, era ficar só, bem só, num lugar em que ninguém
pudesse importuná-la.
Serviu-se de uma xícara de café, deu-se por incomodada.
— V. Exª sente alguma coisa? perguntou Raimundo com delicadeza.
Ana Rosa sobressaltou-se ligeiramente, ergueu os olhos, viu os do rapaz,
abaixou logo os seus e entressorrindo, gaguejou:
— Não é nada... Nervoso...
— É isto! acudiu Maria Bárbara, que parara para ouvir a resposta da neta.
Nervoso! Olhem que estas moças de agora são tão cheias de tanta novidade e de
tantas invenções!... E o nervoso! é a tal da enxaqueca! é o flato! é o faniquito! Ah,
meu tempo, meu tempo!...
Raimundo riu-se e Ana Rosa deu de ombros, simulando indiferença pelo que
dizia a velha.
— Não faça caso, moço! Esta menina está assim já de tempos, e ninguém me
tira que foi quebranto que lira botaram!...
Raimundo tomou a rir. e Ana Rosa endireitou-se na cadeira em que acabava
de assentar-se. 'Esta vovó!... pensou ela envergonhada. Que idéia não ficará ele
fazendo da gente!...”
— Não se ria, nhô Mundico! não se ria, prosseguiu a sogra de Manuel, que
aqui esta — e bateu no peito — quem já andou de quebranto a dar-não-dá com os
ossinhos no Gavião!
E, tirando do seio um trancelim, com uma enorme figa de chifre encastoada
em ouro:—Ai, minha rica figa, a ti o devo! a ti o devo, que me livraste do mau-olhado!
— Mas, Srª D. Maria Bárbara, conte-me como foi essa história do quebranto,
pediu Raimundo.
— Ora o quê! Pois então o senhor não sabe que o mau-olhado pegando Uma
criatura de Deus — está despachadinha?... Então, credo! que andou o senhor
aprendendo lá por essas paragens que correu?!


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— V. Ex.ª, minha prima, também acredita no quebranto? interrogou o moço,
voltando-se para Ana Rosa.
— Bobagens... murmurou esta, afetando superioridade.
— Ah, então não é supersticiosa?...
— Não, felizmente. Além disso - e abaixou a voz, rindo-se mais - ainda que
acreditasse, não corria risco... dizem que o quebranto só ataca em geral as pessoas
bonitas...
E sorriu para Raimundo.
— Nesse caso, é prudente acautelar-se... volveu ele galanteando.
E, como se Ana Rosa lhe chamara a atenção para a própria beleza passou a
considerá-la melhor; enquanto a velha taramelava:
— Meu caro senhor Mundico, hoje em dia já não se acredita em coisa
alguma!... por isso é que os tempos estão como estão — cheios de febres, de
bexigas, de tísicas e de paralisias, que nem mesmo os doutores de carta sabem o
que aquilo é! Diz que é “beribéri” ou não sei quê; o caso é que nunca vi em dias de
minha vida semelhante diabo de moléstia, e que o tal como-chama está matando de
repente que nem obra do sujo, credo! Até parece castigo! Deus me perdoe! Isto vai,
mas é tudo caminhando para uma república há de dar-lhes uma. que os faça ficar ai
de dente arreganhado! Pois o que, senhor! se já não há tementes de Deus! já
poucos são os que rezam!.. Hoje, com perdão da Virgem Santíssima — e bateu uma
palmada na boca - até podres! até há padres que não prestam!
Raimundo continuava a rir.
— Quanto mais, observou ele de bom humor para a fazer falar quanto mais
se V. Ex.a conhecesse certos povos da Europa meridional.
Então e que ficaria pasma deveras!
— Credo, minha Nossa Senhora! que inferno não irá: ir esse mundão de
esconjurados! Por isso e que agora está se vendo li sue se vê, benza-me Deus!
E, benzendo-se ela própria com ambas as mãos, pediu que a deixassem ir
dar uma vista de olhos pela cozinha.
— É eu não estar lá e o serviço fica logo pra trás!. Caem no remancho, diabo
das pestes!
Afastou-se gritando, desde a varanda pela Brígida: Aí estavam a pingar as
nove, e nem sinal de almoço!...”
Raimundo e Ana Rosa ficaram a sós defronte um , outro, ela de olhos baixos,
confusa, na aparência quase aborrecida; e ele. de cara alegre, a observá-la com
interesse, gozando em contemplar, assim de perto, aquela provinciana simples e
bem disposta, que se lhe afigurava agora uma irmã, de quem ele estivera ausente
desde a infância “Deve ser, com certeza, uma excelente moca... calculou de si para


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si Pelo seu todo esta a dizer que é boa de coração e honesta por natureza Além do
que, bonita...”
Sim, que até ai Raimundo ainda não tinha reparado que sua prima era bonita.
Notou-lhe então a frescura da pele, a pureza da boca, a abundância cabelos.
Achou-a bem tratada; as mãos claras, os dentes asseados, a tez muito limpa, fina e
lustrosa, na sua palidez simpática de flor do Norte.
Principiaram a conversar, depois de algum silêncio, com muita cerimônia. Ele
continuava a dar-lhe excelência, o que a constrangia um tanto, perguntou lhe pelo
pai.
Que tinha ido para o armazém, como de costume, e só subiria para almoçar e
para jantar. Daí, queixou-se da solidão em que vivia no aborrecimento daquela casa
“Um cemitério de triste!...” Lamentou não ter um irmão e, em resposta a uma
pergunta que lhe fez o rapaz, disse que lia para se distrair, mas que a leitura muitas
vezes a fatigava também. O primo, se tinha um romance bom, que lho emprestasse.
Raimundo prometeu ver entre os seus livros, logo que abrisse um caixão que ainda
estava pregado.
A propósito do romance, entrou a conversa pelas viagens. Ana Rosa
lamentou não ter saído nunca do Maranhão. Tinha vontade de conhecer outros
climas, outros costumes; entusiasmava-se com a descrição de certos lugares; falou,
suspirando, da Itália. “Ah, Nápoles!...””
— Não, não! objetou o rapaz. Não é o que V. Exª supõe! Os poetas exageram
muito! É bom não acreditar em tudo o que eles dizem, os mentirosos!
E, depois de uma ligeira súmula das impressões recebidas na Itália,
perguntou à prima se queria ver os seus desenhos. A menina disse que sim e
Raimundo, muito solicito, correu a buscar o seu álbum.
Logo que ele se levantou, Ana Rosa sentiu um grande alívio: respirou como
se lhe houvessem tirado um peso das costas. Mas já não estava tão nervosa e até
parecia disposta a rir e gracejar; é que Raimundo, no meio da conversa, dissera
despretensiosamente que simpatizava muito com ela; que a achava interessante e
bonita, e isto sem precisar de mais nada, tornou-a logo bem disposta e restituiu-lhe
ao semblante a sua natural expressão de bom humor.
Ele voltou com o álbum e abriu-o de par em par defronte da rapariga.
Começaram a ver. Ana Rosa era toda atenção para os desenhos; enquanto
Raimundo, ao seu lado ia virando as folhas com os seus dedos morenos e roliços. e
explicando as paisagens montanhosas da Suíça os edifícios e os jardins de França,
os arrabaldes de Itália. E contava os passeios que realizara, os almoços que tivera
em viagem, as serenatas em gôndola; ia dizendo tudo o que aqueles desenhos lhe
chamavam à memória: como chegara a certo lago; como passara tal ponte; como
fora servido em tais e tais hotéis e o que sabia daquele chalezinho verde, que a
aquarela representava escondido entre árvores sonolentas e misteriosas.
Ana Rosa escutava com um silêncio de inveja.
— Que é isto? perguntou ela, ao ver um esboço, que expunha dois bispos, já
amortalhados dentro dos competentes caixões de defunto, como à espera do
momento de baixarem a tenra. Um estava imóvel, de mãos postas e olhos cerrados;
o outro, porém, erguia-se a meio e parecia voltar à vida. Ao lado deles havia um
frade.


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— Ah! fez ele rindo, e explicou: Isso é copiado de um quadro, que vi na
sacristia do velho convento de São Francisco, da Paraíba do Norte. Não vale nada,
como todos os quadros que lá estão, e não poucos, pintados sobre madeira; um
colorido impossível; as figuras mal desenhadas, muito duras. Esse é um dos mais
antigos; copiei-o por isso. Pura curiosidade cronológica. Vê esse escudo nas mãos
do frade? Tenha a bondade de virar a página; que V. Exª encontrará um soneto que
aí estava escrito a pincel.
Ana Rosa virou a folha e leu:
“Este quadro, Leitor, onde a figura Vivo um Bispo te põe. que morto estar a,
Mostra quanto Francisco o estimava Pois não quer vá com culpa à sepultura.
Olha o outro defronte. em que a pintura Jugulado o expõe: este formava
Contra a Ordem mil queixas. que esperava Fossem dos Frades trágico jatura.
Tu agora, Leitor, que a diferente Sorte u es nestes dois acontecida Toma a ti
a que for mais conducente:
O primeiro ama a Ordem e toma à vida: O segundo a aborrece e o golpe
sente. Ambos prêmios têm por igual medida.”
— Quem há de gostar disto. é vovó... ela tem muita devoção com São
Francisco!
— Olhe! ai tem Vossa Exª um dos pontos mais bonitos de Paris.— É desenho
de um pintor meu amigo; muito forte! — Essas ruínas, que aparecem ao fundo, são
das Tulherias.
E passaram a conversar sobre a Guerra Franco-Prussiana, extinta pouco
antes. Ana Rosa, sem desprender os olhos do álbum, via e ouvia tudo, com muito
empenho; queria explicações; não lhe escapava nada. Raimundo, debruçado nas
costas da cadeira em que ela estava. tinha às vezes de abaixar a cabeça para
afirmar o desenho e rogava involuntariamente o rosto nos cabelos da rapariga.
Ao virar de uma folha deram de súbito com um cartão fotográfico, que estava
solto dentro do livro; um retrato de mulher sorrindo maliciosamente numa posição de
teatro: com as suas saias de cambraia, curtíssimas, formando-lhe uma nuvem
vaporosa em torno dos quadris; colo nu, pernas e braços de meia.
— Oh! articulou a moça, espantando-se como se o retrato fosse uma pessoa
estranha que viesse entremeter-se no seu colóquio.
E maquinalmente, desviou os olhos daquele rosto expressivo que lhe sorria
do cartão com um descaramento muito real e uma ironia atrevida. Declarou-a logo
detestável.
— Ah, certamente!... E uma dançarina parisiense, explicou Raimundo,
fingindo pouco caso. Tem algum merecimento artístico...
E, tomando a fotografia com cuidado, para que Ana Rosa não percebesse a
dedicatória nas costas do retrato, colocou-a entre as folhas já vistas do álbum.
Ao terminarem, ele falou muito da Europa e, como a música viesse à
conversa, pediu a Ana Rosa que tocasse alguma coisa antes do almoço.
Passaram-se para a sala de visitas, e ela, com um grande acanhamento e um pouco
de desafinação, executou vários trecho italianos.


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Benedito apareceu à porta de corpo nu.
— laiá! Sinhô está chamando pra mesa.
O almoço correu pilheriado e alegre. O cônego Diogo viera a convite de
Manuel, no propósito de saírem os dois mais o Raimundo. para dar uma vista
d'olhos pelas casinhas de São Pantaleão.
Servida a segunda mesa, os caixeiros subiram com grande ruído de pés.
Por esse tempo aqueles três surgiam na rua, formando cada qual mais vivo
contraste com os outros: Manuel no seu tipo pesado e chato de negociante, calças
de brim e paletó de alpaca; o cônego imponente na sua batina lustrosa, aristocrata,
mostrando as meias de seda escarlate e o pé mimoso, apertadinho no sapato de
polimento; Raimundo, todo europeu, elegante, com uma roupa de casimira leve
adequada ao clima do Maranhão, escandalizando o bairro comercial com o seu
chapéu-de-sol coberto de linho claro e forrado de verde pela parte de dentro.
“Formavam dizia este último, chasqueando, sem tirar o charuto da boca uma
respeitável trindade filosófica, na qual, ali, o Sr. Cônego representava a teologia, o
Sr. Manuel a metafísica, e ele, Raimundo, a filosofia política; o que, aplicado à
política, traduzia-se na prodigiosa aliança dos três governos - o do papado, o
monárquico e o republicano!”
Ana Rosa espreitava-os e seguia-os com a vista, curiosa, por entre as folhas
semicerradas de uma janela.
Por onde seguiam, Raimundo ia levantando a atenção a todos. As negrinhas
comam ao interior das casas, chamando em gritos a sinhá-moça para ver passar
“Um moço bonito!” Na rua, os linguarudos paravam com ar estúpido, para
examiná-lo bem; os olhares mediam-no grosseiramente da cabeça aos pés, como
em desafio; interrompiam-se as conversas dos grupos que ele encontrava na
calçada.
— Quem e aquele sujeito, que ali vai de roupa clara e um chapéu de palha?
— Or'essa! Pois ainda não sabes? respondia um Bento. É o hóspede de
Manuel Pescada!
— Ah! este é que é o tal doutor de Coimbra?
— O cujo! afirmava o Bento.
— Mas Brito, vem cá! disse o outro, com grande mistério, como quem faz uma
revelação importante. — Ouvi dizer que é mulato!...
E a voz do Brito tinha o assombro de uma denúncia de crime.
— Que queres, meu Bento? São assim estes pomadas cá da terra dos
papagaios! E ainda se zangam quando queremos limpar lhes a raça, sem cobrar
nada por isso!
— Branquinho nacional! É gentinha com quem eu embirro. ó Bento, como
com o vento, disse Brito com uma troca e baldroca de VV e BB, que denunciava a
sua genealogia galega.
Em outra parte, dizia-se:
— Olé Um cara nova? Que achado!
— É o Dr. Raimundo da Silva...


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— Médico?
— Não. Formado em Direito.
— Ah! É advogado? Que faz ele? do que vive? o que possui?
— Vem advogar a própria causa por cá! Está tratando do que lhe pertence e
do que lhe não pertence!
— O que me conta você, homem?...
— Coisas da vida, meu amigo! Estes doutores pensam que aqui os
casamentos ricos andam a ufa!...
Em uma casa de família:
— Sabem? passou por aí o Raimundo!
— Que Raimundo? perguntam logo em coro.
— Aquele mulato, que diz que é doutor e está às sopas do Manuel Pescada!
— Dizem que ele tem alguma coisa...
— Pulha, minha rica, todos estes aventureiros, que arribam por cá, trazem o
rei na barriga!
— E o Pescada para que o quer em casa?
Qual quer o quê! O Manuel despachou-o bonito, porem o mitra deixou-se
ficar!
— Sempre há muita gente sem vergonha!...
Em outras partes, juraram que Raimundo era filho do cônego Diogo e que
vinha dos estudos; ainda noutras, viam em Raimundo uma carta do Partido
Conservador; o redator do “Maritacaca” dizia a um correligionário: “Espere um
pouco! deixe chegarem as eleições e então você verá este sujeito de cama e mesa
com o presidente. Olhe! eles hão de dar-se perfeitamente, porque, tanto cara de
safado tem um, como o outro!”
E assim ia Raimundo, sendo inconscientemente, objeto de mil comentários
diversos e estúpidas conjeturas.
À noite estava fechado o negócio das casas, e decidido que, mel fizesse bom
tempo, iria ele ao Rosário com o Manuel, resolver o da fazenda.
No dia imediato, Raimundo deu um passeio ao Alto da Carneira; no outro dia
foi até São Tiago; no outro percorreu a praça do Mercado; foi três ou quatro vezes
ao Remédios; repetiu a visita aos pontos citados e — não tinha mais onde ir.
Meteu-se em casa, disposto a cultivar as relações familiares do tio e visitá-las de vez
em quando, para se distrair; mas, posto lhe repetissem com insistência que o
Maranhão em uma província muito hospitaleira, como é de fato, reparava
despeitado, que, sempre e por toda a parte, o recebiam constrangidos. Não lhe
chegava as mãos um só convite para baile ou para simples sarau; cortavam muita
vez a conversação, quando ele se aproximava; tinham escrúpulo em falar na sua
presença de assuntos, aliás, inocentes e comuns; enfim - isolavam-no, e o infeliz,
convencido de que era gratuitamente antipatizado por toda a província, sepultou-se
no seu quarto e só saía para fazer exercício, ir a uma reunião pública, ou então
quando algum dos seus negócios o chamava à rua. Todavia, uma circunstância o
intrigava, e era que, se os chefes de família lhe fechavam a casa, as moças não lhe
fechavam o coração; em sociedade o repeliam todas, isso e exato, mas em
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