Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância


Partiu. A viagem correu-lhe estúpida, como de costume naquele tempo, em



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O Mulato

Partiu. A viagem correu-lhe estúpida, como de costume naquele tempo, em
que o Maranhão ainda não tinha vapores. Demais, a sua fazenda era longe, muito
dentro, a cinco léguas da vila. Urgia, por conseguinte, demorar-se aí algumas horas
antes de internar-se no mato; comer, beber, tratar dos animais; arranjar condução e
fazer a matalotagem.
Os poucos familiarizados com tais caminhos tomam sempre, por precaução,
um “pajem”, é este o nome que ali romanticamente se dá ao guia; e o pajem menos
serve para guiar o viajante, que a estrada é boa, do que para lhe afugentar o tenor
dos mocambos, das onças e cobras de que falam com assombro os moradores do
lugar.
Não é tão infundado aquele tenor: o sertão da província está cheio de
mocambeiros, onde vivem os escravos fugidos com suas mulheres e seus filhos,


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formando uma grande família de malfeitores. Esses desgraçados, quando não
podem ou não querem viver da caça, que é por lá muito abundante e de fácil venda
na vila, lançam-se à rapinagem e atacam na estrada os viajantes; travando-se, às
vezes, entre uns e outros, verdadeiras guerrilhas, em que ficam por terra muitas
vítimas.
José da Silva comprou na vila o que lhe convinha e seguiu, sem pajem para a
fazenda.
Ah! Ele conhecia perfeitamente essas paragens!...
E quantas recordações não lhe despertavam aquelas carnaubeiras solitárias,
aqueles pindovais ermos e silenciosos e aqueles trêmulos horizontes de verdura!
Quantas vezes, perseguindo uma paca ou um veado, não atravessou ele, a galope,
aqueles barrancos perigosos que se perdiam da estrada!
Pungia-lhe agora deixar tudo isso; abandonar o encanto selvagem das
florestas brasileiras O europeu sentia-se americano, familiar às vozes misteriosas
daqueles caités sempre verdejantes, habituado à companhia austera daquelas
árvores seculares, às sestas preguiçosas da fazenda, ao viver amplo da roga,
descalço, o peito nu, a rede embalada pela viração cheirosa das matas, o sono
vigiado por escravos.
E tinha de deixar tudo isso!
“Para que negar? Havia de custar-lhe muito!” considerou ele, fazendo estacar
o seu animal. Havia andado quatro léguas e precisava comer alguma coisa.
No interior do Maranhão o viajante, de ordinário, “pousa” e come nas
fazendas que vai encontrando pelo caminho, tanto que todas elas, contando já com
isso, têm sempre cômodos especiais, destinados exclusivamente aos hóspedes
adventícios; mas com José da Silva, que, aliás muitas e muitas vezes pernoitara em
diversas e conhecia de perto a hospitalidade dos seus vizinhos, a coisa mudava
agora de figura: não queria de forma alguma suportar a companhia de ninguém;
receava que o interrogassem sobre a morte da mulher. Preferiu pois jantar mesmo
ao relento, e seguir logo sua viagem.
Não obstante, ia já escurecendo, as cigarras estridulavam em coro; ouvia-se o
lamentoso piar das rolas que se aninhavam para dormir; toda a natureza se
embuçava em sombras, bocejando.
Anoitecia lentamente.
Então, José da Silva sentiu mais negra por dentro a sua viuvez; sentiu um
grande desejo de chegar a casa, mas queria encontrar uma boa mesa, onde
comesse e bebesse à vontade, como dantes; queria a sua cama larga, de casados,
o seu cachimbo, o seu trajo de casa.
Ah! Nada disso encontraria!... O quarto, em que ele, durante tantos anos,
dormia feliz, devia ser àquela hora um ermo pavoroso; a cozinha devia estar gelada,
os armários vazios, a horta murcha, os potes secos, o leito sem mulher!
Que desconsolo!
Apesar de tudo sentia fundas saudades da esposa.
— Como o homem precisa de família! .. lamentava ele no seu isolamento. Ah
padre! Aquele maldito padre! E daí, quem sabe?... se eu perdoasse?... ela talvez se
arrependesse e viesse ainda a dar uma boa companheira, virtuosa e dócil!... Mas... e
ele?... Oh nunca! Ele existiria! A duvida continuava na mesma! Ele, só ele é que eu
devia ter matado!
E depois de refletir um instante:


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— Não! antes assim! Assim foi melhor!
Esta conclusão, arrancada só pelo seu espírita religioso, foi seguida de um
movimento rápido de esporas. O cavalo disparou. Fez-se então um correr
vertiginoso, em que José, todo vergado sobre a sela, parecia dormir na cadeia do
galope. Mas, de súbito, contraiu as rédeas e o animal estacou.
O cavaleiro torceu a cabeça, concheando a mão atrás da orelha. Vinha de
longe uma toada estranha de vozes sussurrantes, e um confuso tropel de
cavalgaduras.
A noite exalava da floresta. Sentiam-se ainda as derradeiras claridades do dia
e já também um crescente acumular de sombras. A lua erguia se, brilhando com a
altivez de um novo monarca que inspeciona os seus domínios, e o céu ainda estava
todo ensangüentado da púrpura do último sol, que fugia no horizonte, trêmulo. como
um rei expulso e envergonhado.
José da Silva, entregue todo aos seus tormentos. assistia, sem apreciar, ao
espetáculo maravilhoso de um crepúsculo de verão no extremo norte do Brasil.
O sol descambava no ocaso, retocando de tons quentes e vigorosos, com a
minuciosidade de um pintor flamengo, tudo aquilo que o cercava. Desse lado,
montes e vales tinham orlas de ouro; era tudo vermelho e esfogueado: ao passo
que, do ponto contrário, lhe opunha o luar o doce contraste da sua luz argentina e
fresca, debuxando contra o horizonte o trêmulo e duvidoso perfil das carnaubeiras e
dos pindovais.
Destas bandas, no conflito boreal daquelas duas luzes inimigas, um grupo
mal definido e rumoroso agitava-se e crescia progressivamente.
Era uma caravana de ciganos que se aproximava.
Vinha lentamente, com o passo frouxo de uma boiada. Na solidão tristonha e
sombria da floresta iam-se pouco a pouco distinguindo vozes de tons diversos e
acentuavam-se grupo de homens. mulheres e crianças, de todas as cores e de todas
as idades, cavalgando magníficos animais. Uns cantavam ao embalo monótono da
besta; outros tocavam viola; esta acalentava o filho, aquela repetia as modas que lhe
ensinara a gajoa. Viam-se moços. de calça e quinzena, cabelos grandes, o ar
indolente, o cachimbo ao canto da boca, o olhar vago e cheio de volúpia, ao lado de
raparigas fortes, queimadas do sol, com as melenas muito negras e lisas escorrendo
sobre a opulência das espáduas. Sentavam-se à moda de odaliscas em volumosas
trouxas, que serviam, a um tempo, de alforje e de sela. Algumas delas traziam filhos
ao colo ou na garupa do cavalo.
E, lenta e pesadamente, a caravana dos ciganos se aproximava. José
escondeu-se no mato, para a ver passar.
Com certeza vinha enxotada de alguma fazenda, porque o chefe, um velho
membrudo, de grandes barbas brancas, olhos cor de fumo, cavados e sombrios,
mas irrequietos e vivos, erguia, de vez em quando, o braço e ameaçava o poente:
— Jacarés te piquem diabo! Atravessado tu sejas na boca de um bacamarte!
E a voz rouca e profunda do ancião perdia-se na floresta.
Meio deitada nas pernas dele, cingindo-lhe a cintura, uma mulher bela, o colo
nu e fresco, a garganta lisa e carnuda, procurava, com o olhar muito mole de uma
ternura úmida e escrava, diminuir-lhe a cólera.


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E a caravana, iluminada pelos últimos raios da claridade poente, foi
passando. E a pouco e pouco o sussurrar das vozes foi se perdendo no tristonho
murmúrio das matas, como no horizonte se perdia a última réstia de luz vermelha.
Em breve, tudo recaiu no silêncio primitivo, e a lua, do alto, baldeava com a
sua luz misteriosa e triste a solidão das clareiras.
José ficou imóvel, pensativo, perdido num desgosto invencível. O espetáculo
daquele velho boêmio, abraçado a uma mulher bonita e sem dúvida fiel, mordia-o
por dentro com o dente mais agudo da inveja. “Aquele. um vagabundo, um
miserável. sem lar, sem dinheiro, sem mocidade ao menos, tinha contudo nesta vida
uma fêmea que o acarinhava e seguia como escrava: ao passo que ele, ali, no meio
do campo, desacompanhado, inteiramente esquecido, chorava, porque lhe
arrancaram tudo, tudo - a casa, a mulher e a felicidade!” E depois pela associação
natural das idéias, punha-se a lembrar do rosto pálido de Diogo. A despeito do ódio
que lhe votava, achava-o bonito, com o seu cabelo todo anelado, o sorriso temo e
piedoso, olhos e lábios de uma expressão sensual e ao mesmo tempo religiosa. Este
contraste devia por força agradar às mulheres, vencê-las pelos mistérios, pelo
incognoscível. E chorava, chorava cada vez mais.
“Como eles não se amariam!... Quanto prazer não teriam desfrutado!... “
Instintivamente comparava-se ao padre e, cheio de raiva, de inveja, reconhecia-se
inferior. De repente, veio-lhe esta idéia:
“E se eu o matasse?...”
Repeliu-a logo, sem querer nem ao menos escutá-la; mas a idéia não ia e
agarrava-se-lhe ao cérebro, com uma obstinação de parasita.
Então, vieram-lhe à lembrança, sob uma reminiscência lúcida e saudosa — o
seu casamento, os sobressaltos felizes do noivado, o namoro de Quitéria. Tudo isso
nunca lhe pareceu tão bom, tão apetecível como naquele momento. Agora,
descobria na mulher virtudes e belas qualidades, para as quais nunca atentara
dantes.
“Seria eu o culpado de tudo?... Não teria cumprido com os meus deveres de
bom esposo?.. Seriam insuficientes os meus carinhos?..” interrogava ele à própria
consciência; esta respondia opondo-lhe duvidas que valiam acusações. Ele
defendia-se, explicava os fatos, citava provas em favor, lembrava a sua dedicação e
a sua amizade pela defunta; mas a maldita rezingueira não se acomodava e não
aceitava razões. E José abriu a chorar como um perdido.
Surpreendeu-se neste estado; quis fugir de si mesmo, e cravou as esporas no
cavalo. Correu muito, à rédea solta como se fugira perseguido pela própria sombra.
“E se eu o matasse?...”
Era a maldita idéia que vinha de novo à superfície dos seus pensamentos.
“Não! Não!” E ele a repelia de novo empurrando-a para o fundo da sua
imaginação, como o assassino que repele no mar o cadáver da sua vítima; ela
mergulhava com o impulso, mas logo reaparecia, boiando.
“E se eu o matasse?...”
— Não! não! exclamou, desferindo um grito no silêncio da floresta. Já basta a
outra!
E assanhavam-se-lhe os remorsos.
Nesse momento uma nuvem escondera a lua. Espectros surgiam no caminho;
José suava e tremia sobre a sela; o mais leve mexer de galhos eriçava-lhe os
cabelos.


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No entanto — corria.
Pouco lhe faltava já para chegar à fazenda, muito pouco, uma miserável
distancia, e, contudo, mais lhe custava esse pouco do que todo o resto da viagem.
Fechou os olhos e deixou que o cavalo corresse à toa, galopando ruidosamente na
terra úmida de orvalho. Ele ofegava, acossado por fantasmas Via a sua vitima. com
a boca muito aberta, os olhos convulsos, a falar-lhe coisas estranhas numa voz de
moribunda, a língua de fora, enorme e negra, entre gorgolhões de sangue. E via
também surgir aquele padre infame, bater-lhe no ombro, apresentar-lhe, sorrindo,
um alvitre, propor uma condição e passar logo à ameaça brutal: “Tenho-te na mão,
assassino! Se quiseres punir-me, entrego-te à justiça! “
E José gritou, como doido, soluçando:
— E eu aceitei, diabo! Eu aceitei!
Nisto, o cavalo acuou. Um vulto negro agitou-se por detrás do tronco de um
ingazeiro, e uma bala, seguida pela detonação de um tiro, varou o peito de José da
Silva.
Os negros de São Brás viram aparecer lá o animal as soltas, e todo salpicado
de sangue, tinham ouvido um tiro para as bandas da estrada, correram todos nessa
direção à procura da vítima.
Foi Domingas que a descobriu, e, num delito, precipitou-se contra o cadáver,
a beijar-lhe as mãos e as faces.
— Meu senhor! meu querido' meus amores! exclamava ela, a soluçar
convulsivamente.
Mas, tomada de uma idéia súbita, ergueu-se, e gritou, apontando vagamente
para o lado da vila.
— Foi ele! Não foi outro! Foi aquele malvado! Foi aquele padre do diabo!
E pôs-se a rir e a dançar, batendo palmas e cantando. Era a loucura que
voltava.
O crime foi atribuído aos mocambeiros e o corpo de José da Silva enterrado
junto à sepultura da mulher, ao lado da capela, que principiava a desmoronar com a
mingua dos antigos cuidados.
A fazenda aos poucos se converteu em tapera e lendas e superstições de
todo o gênero se inventaram para explicar-lhe o abandono. O vigário do lugar,
pessoa insuspeita e criteriosa, nem só confirmava o que diziam, como aconselhava
a que não fossem lá. ''Aquilo eram terras amaldiçoadas!”
Anos depois, contavam que nas ruínas de São Brás vivia uma preta feiticeira,
que, por alta noite, saia pelos campos a imitar o canto da mãe-da-lua.
Ninguém se animava a passar perto dali, e o caminheiro descuidado, que se
perdesse em tais paragens, via percorrer o cemitério, a cantar e a rodar, um vulto
alto e magro de mulher, coberto de andrajos.
A morte inesperada de José causou grande abalo no irmão e ainda mais em
Mariana. Raimundo era muito criança, não a compreendeu; por esse tempo teria ele
cinco anos, se tanto. Vestiram-no de sarja preta e disseram-lhe que estava de luto
pelo pai. Manuel tratou do inventário; recebeu o que lhe coube e mais a mulher na
herança; depositou no recém-criado banco da província o que pertencia ao órfão e,


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apesar das vantagens que propôs para vender ou arrendar a fazenda de São Brás,
ninguém a quis. Isto feito, escreveu logo para Lisboa, pedindo esclarecimentos à
Casa Peixoto, Costa & Cia., e uma vez bem informado no que desejava, remeteu o
sobrinho para um colégio daquela cidade.
Muito custou à bondosa Mariana separar-se de Raimundo. Doía aquele
coração amoroso ver expatriar-se, assim, tão sem mãe, uma pobre criança de cinco
anos. O pequeno, todavia, depois de preparado com todo o desvelo, foi metido, a
chorar, dentro de um navio, e partiu.
Ia recomendado ao comandante e lamentava-se muito em viagem. Quando
chegou a Lisboa teve horror de tudo que o cercava. Entretanto, foi sempre bem
tratado: seu correspondente hospedou-o como a um parente, tratou o como filho;
depois, meteu-o num colégio dos melhores.
Raimundo envergou o uniforme da casa, recebeu um número, e freqüentou as
aulas. A princípio, logo que o deixavam sozinho, punha-se a chorar. Tinha muito
medo do escuro; à noite, cosia-se contra a parede, abraçado aos travesseiros. Não
gostava dos outros meninos, porque lhe chamavam “Macaquinho”. Era teimoso,
cheio de capuchos, ressentia-se muito da má educação que os portugueses
trouxeram para o Brasil.
No colégio era o único estudante que se chamava Raimundo e os colegas
ridicularizavam-lhe o nome, “Raimundo Mundico Nico!” diziam lhe, puxando-lhe a
blusa e batendo-lhe na cabeça tosquiada à escovinha; até que ele se retirava
enfiado, sem querer tomar ao recreio, a chorar e a berrar que o mandassem para a
sua terra. Mas, com o tempo, apareceram lhe amigos e a vida então se lhe afigurou
melhor. Já faziam as suas palestras; os companheiros não se cansavam de pedir-lhe
informação sobre o Brasil. “Como eram os selvagens?... E se a gente encontrava,
pelas ruas, mulheres despidas: e se Raimundo nunca fora varado por alguma flecha
dos caboclos.”
Um dia recebeu uma carta de Mariana e, pela primeira vez, deu-se ao
cuidado de pensar em si. Mas as suas reminiscências não iam além da casa do tio;
no entanto, queria parecer-lhe que a sua verdadeira mãe não era aquela senhora
aquela vinha a ser sua tia, porque era a mulher de seu tio Manuel: e até, se lhe não
falhava a memória, por mais de uma vez ouvira dela própria falar na outra, na sua
verdadeira mãe... 'Mas quem seria a outra? Como se chamava?... Nunca lho
disseram!...”
Quanto a seu pai, devia ser aquele homem barbado que, numa noite, lhe
apareceu, muito pálido e aflito, e por quem pouco depois o cobriram de luto. Da cena
dessa noite lembrava-se perfeitamente! Já estava recolhido, foram buscá-lo à rede e
trouxeram-no, estremunhado, para as pernas do tal sujeito, por sinal que as suas
barbas tinham na ocasião certa umidade aborrecida, que Raimundo agora calculava
ser produzida pelas lágrimas; depois foi se deitar e não pensou mais nisso.
Recordava-se também. mas não com tamanha lucidez, do tempo em que aquele
mesmo homem esteve doente, lembrava-se de ter recebido dele muitos beijos e
abraços, e só agora notava que todos esses afagos eram sempre ocultos e
assustados, feitos como que ilegalmente, às escondidas, e quase sempre
acompanhados de choro.
Depois destas e outras divagações pelo passado, Raimundo, se bem que
muito novo ainda, punha-se a pensar e os véus misteriosos da sua infância
assombravam-lhe já o coração com uma tristeza vaga e obscura, numa perplexidade
cheia de desgosto. Todo o seu desejo era correr aos braços de Mariana e pedir-lhe


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que lhe dissesse, por amor de Deus, quem afinal vinha a ser seu pai e,
principalmente, sua mãe.
Passaram-se anos, e ele permaneceu enleado nas mesmas dúvidas.
Concluiu os seus preparatórios, habilitou-se a entrar para a Academia. E sempre as
mesmas incertezas a respeito da sua procedência.
Matriculou-se em Coimbra. Desde então a sua vida mudou radicalmente; todo
ele se transformou nos seus modos de ver e julgar. Principiou a ser alegre.
Mas um golpe terrível veio de novo entristecê-lo — a morte da sua mãe
adotiva. Chorou-a longa e amargamente; não só por ela, mas também muito por si
próprio: perdendo Mariana, perdia tudo que o ligava ao passado e à pátria. Nunca se
considerou tão órfão. Todavia, com o correr dos tempos, dispersaram-se-lhe as
magoas e a mocidade triunfou; a criança melancólica produziu um rapaz cheio de
vida e bom humor; sentiu-se bem dentro da sua romântica batina de estudante;
meteu-se em pândega com os colegas; contraiu novos amigos, e afinal reparou que
tinha talento e graça; escreveu sátiras, ridicularizando os professores antipatizados;
ganhou ódios e admiradores; teve quem o temesse e teve quem o imitasse. No
segundo ano deu para namorador: atirou-se aos versos líricos, cantou o amor em
todos os metros depois vieram-lhe idéias revolucionárias, meteu-se em clubes
incendiários, falou muito, e foi aplaudido pelos seus companheiros. No terceiro ano
tornou-se janota, gastou mais do que nos outros, teve amantes, em compensação
veio-lhe a febre dos jornais, escreveu com entusiasmo sobre todos os assuntos,
desde o artigo de fundo até à crônica teatral. No quarto, porém, distinguiu-se na
Academia, criou gosto pela ciência, e daí em diante fez-se homem, firmou a sua
imputabilidade, tomou-se muito estudioso e sério. Seus discursos acadêmicos foram
apreciados; elogiaram-lhe a tese. Formou-se.
Veio-lhe então à idéia fazer uma viagem. Em Coimbra todos o diziam rico;
tinha ordem franca. Preparou as malas. Sua principal ambição era instruir-se,
instruir-se muito, abranger a maior quantidade de conhecimentos que pudesse; e
sinta-se cheio de coragem para a luta e cheio de confiança no seu esforço.
Às vezes, porém uma sombra de tristeza mesquinha toldava-lhe as
aspirações — não sabia ao certo de quem descendia, e de que modo e por quem,
fora adquirido aquele dinheiro que lhe enchia as algibeiras. Procurou o seu
correspondente em Lisboa, pediu-lhe esclarecimentos a esse respeito — Nada! O
Peixoto dizia-lhe, em tom muito seco, “que o pai de Raimundo havia morrido antes
da chegada deste a Portugal, e o fio, o tutor, esse estava no Maranhão, estabelecido
na Rua da Estrela com um armazém de fazendas por atacado”. De sua mãe — nem
uma palavra, nem uma atribuição!...
Era para enlouquecer! “Mas, afinal, quem seria ela?... Talvez irmã daquela
santa senhora que foi para ele uma segunda mãe... Mas então por que tanto
mistério?... Seta alguma história, a tal ponto vergonhosa, que ninguém se atrevesse
a revelar-lhe?... Seria ele enjeitado?... Não, decerto, porque era herdeiro de seu
pai...” E Raimundo, quanto mais tentava por a limpo a sua existência, mais e mais se
perdia no dédalo das conjeturas.
Das cartas que recebia do Brasil, nem uma só lhe falava no passado, e
todavia, era tanto o seu empenho em penetrá-lo, que às vezes, com muito esforço
de memória, conseguia reconstruir e articular fragmentos dispersos de algumas
reminiscências, incompletas e vagas, da sua infância. Lograva recordar-se da
Aniquinha, que tantas noites, adormecera a seu lado, na mesma esteira, ouvindo
cantar por D. Mariana o “Boizinho do curral, vem papar neném”; recordava-se
também da Sra. D. Maria Bárbara, a sogra de Manuel, que ia, com muito aparato,


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visitar a neta; passar dias. Em geral, ela chegava à boca da noite, no seu palanquim
carregado por dois escravos, vestida de enorme roda cercada de crias e moleques,
precedida por um preto encarregado de alumiar a n a com um lampião de folha,
oitavado, duas velas no centro. E o demônio da mulher sempre a ralhar, sempre
zangada, batendo nos negros e a implicar com ele, Raimundo, a quem, todas as
vezes que lhe dava a mão a beijar, pespegava com as costas destas uma pancada
na boca. E recordava-se bem do rosto macilento de Mana Bárbara, já então meio
descaído; recordava-se dos seus olhos castanho-claros, de seus dentes
triangulares, truncados a navalha, como barbaramente faziam dantes, por luxo, as
senhoras do Maranhão, criadas em fazenda.
Raimundo, uma vez, ainda em Coimbra, aspirando o cheiro de alfazema
queimada, sentiu, como por encanto, sugerirem-lhe à memória muitos fatos de que
nunca se recordara até então. Lembrou-se logo do nascimento de Ana Rosa: A casa
estava toda silenciosa e impregnada daquele odor; Mariana gemia no seu quarto;
Manuel andava, de um para outro lado da varanda, inquieto e desorientado; mas, de
repente, apareceu na porta do quarto uma mulata gorda, a quem davam o
tratamento de “Inhá comadre”, e esta, que vinha alvoroçada, chamou de parte o
dono da casa, disse-lhe alguma coisa em segredo, e daí a pouco estavam todos
felizes e satisfeitos. E ouvia-se vir lá de dentro um grunhido fanhoso, que parecia
uma gaita. Na ocasião, Raimundo nada compreendeu de tudo isto; disseram-lhe que
Mariana recebera uma menina de França, e ele acreditou piamente.
Assim lhe acudiam outras recordações; por exemplo a do macassar cheiroso,
então muito em uso na província, com que D. Mariana lhe perfumava os cabelos
todas as manhãs antes do café; mas, dentre tudo, do que melhor ele se recordava
era dos lampiões com que iluminavam a cidade. Ainda lá não havia gás, nem
querosene; ao bater d'AveMarias vinha o acendedor, desatava a corrente do
lampião, descia-o, abria-o, despejava-lhe dentro aguarrás misturada com álcool,
acendia-lhe o pavio, guindava-o novamente para o seu lugar, e seguia adiante. “E
que mau cheiro em todas as esquinas em que havia iluminação!... Oh! a não ser que
estivesse muito transformada a sua província devia ser simplesmente horrível!”
Não obstante, queria lá ir. Sentia atrações por essa pátria, quase tão
desconhecida para ele como o seu próprio nascimento misterioso. “Com a viagem
descobriria tudo! Mas, primeiro, era preciso dar um passeio à Europa.”
E, resolvido, foi ao escritório de Peixoto, Costa & Cia., sacou a quanta de que
precisava, abraçou os amigos, e fez-se de vela para a França.
Passou pela Espanha, visitou a Itália, foi à Suíça, esteve na Alemanha,
percorreu a Inglaterra, e, no fim de três anos de viagem, chegou ao Rio de Janeiro,
onde encontrou os seus antigos correspondentes de Lisboa. Demorou-se um ano na
Corte, gostou da cidade, relacionou-se, fez projetos de vida e resolveu estabelecer
ai a sua residência.
“E o Maranhão?... Oh, que maçada! Mas não podia deixar de lá ir! Não podia
instalar-se na Corte, sem ter ido primeiro à sua província! Era indispensável
conhecer a família; liquidar os seus bens e...”
— Verdade, verdade, dizia ele, conversando com um amigo, a quem confiara
os seus projetos, a coisa não é tão feia como quer parecer, porque, no fim de
contas, fico conhecendo todo o norte do Brasil, dou um pulo ao Pará e ao
Amazonas, que desejo ver, e, afinal, volto descansado para cá com a vida em
ordem, a consciência descarregada e o pouco que possuo reduzido a moeda. Não
posso queixar-me da sorte!


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O passeio à Europa não só lhe beneficiara o espírito, como o corpo. Estava
muito mais forte bem exercitado e com uma saúde invejável Gabava-se de ter
adquirindo grande experiência do mundo; conversava à vontade sobre qualquer
assunto tão bem sabia entrar numa sala de primeira ordem como dar uma palestra
entre rapazes numa redação de jornal ou na caixa de um teatro. E em pontos de
honra e lealdade, não admitia, com todo o direito, que houvesse alguém mais
escrupuloso do que ele.
Foi nessa bela disposição de espírito, feliz e cheio de esperanças no futuro
que Raimundo tomou o “Cruzeiro” e partiu para a capital de São Luís do Maranhão.

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