Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



Baixar 0.58 Mb.
Pdf preview
Página4/33
Encontro31.07.2022
Tamanho0.58 Mb.
#24396
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   33
O Mulato
CAPÍTULO III
Daí a pouco, entre as vistas interrogadoras dos curiosos, atravessou a Praça
do Comércio um rapaz bem parecido, que ia acompanhado pelo cônego Diogo e por
Manuel.
A novidade foi logo comentada. Os portugueses vinham, com as suas
grandes barrigas. às portas dos armazéns de secos e molhados os barraqueiros
espiavam por cima dos óculos de tartaruga: os pretos cangueiros paravam para
“mirar o cara-nova”. O Perua-gorda, em mangas de camisa, como quase todos os
outros, acudiu logo à rua:
— Quem será esse gajo, ó coisa? perguntou ele ruidosamente a um sucio
que passava na ocasião.
— Algum parente ou recomendado do Manuel Pescada. Veio do Sul.


www.nead.unama.br
23
— Ó aquele! sabes quem é o lanceiro que vai com o Pescada?
— Não sei, homem, mas é um rapagão!
Manuel apresentou o sobrinho a vários grupos. Houve sorrisos de delicadezas
e grandes apertos de mão.
— É o filho de um mano do Pescada... diziam depois. Conhecemo-lhe muito a
vida! Chama-se Raimundo Estava nos estudos.
— Vem estabelecer-se aqui? indagou o José Buxo.
— Não, creio que vem montar uma companhia...
Outros afiançavam que Raimundo era sócio capitalista da casa de Manuel.
Discutiam-lhe a roupa, o modo de andar, a cor e os cabelos. O Luisinha Língua de
Prata afirmava que ele “tinha casta”.
Entretanto os três subiam a Rua da Estrela.
Chegados a casa, onde já havia pronto um quarto para o Sr. Dr. Raimundo
José da Silva, o cônego e Manuel desfizeram-se em delicadezas com o rapaz.
— Benedito! vê cerveja! Ou prefere conhaque, doutor?... Olha moleque,
prepara guaraná! Doutor, venha antes para este lado que esta mais fresco... não
faça cerimônias! Vá entrando! vá entrando para a varanda! O senhor está em sua
casa!...
Raimundo queixava-se do calor.
— Está horrível! dizia ele, a limpar o rosto com o lenço. Nunca suei tanto!
— O melhor então é recolher-se um pouco e ficar à vontade. Pode mudar de
roupa, arejar-se A bagagem não tarda ai. Olhe, doutor, entre, entre e veja se fica
bem aqui!
Os três penetraram no quarto destinado ao hóspede.
— O senhor, disse Manuel, tem aqui janelas para a rua e para o quintal.
Ponha-se a gosto. Se precisar qualquer coisa, é só chamar pelo Benedito. Nada de
cerimônias!
Raimundo agradeceu muito penhorado.
— Mandei dar-lhe cama, acrescentou o negociante, porque o senhor
naturalmente não está afeito à rede, no entanto se quiser...
— Não, não muito obrigado. Está tudo muito bom. O que desejo é repousar
um pouco justamente. Ainda tenho a cabeça a andar à roda.
— Pois então descanse, descanse, para depois almoçar com mais apetite…
Até logo.
E Manuel e mais o compadre afastaram-se, cheios de cortesia e sorrisos de
afabilidade.
Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro se não
foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos lustrosos e
crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a


www.nead.unama.br
24
negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte
espaçosa. A parte mais característica da sua fisionomia era os olhos - grandes,
ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um
roxo vaporoso e úmido as sobrancelhas, muito desenhadas no rosto, como a
nanquim faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba raspada
lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel de arroz.
Tinha os gestos bem educados. sóbrios, despidos de pretensão, falava em
voz baixa, distintamente sem armar ao efeito; vestia-se com seriedade e bom gosto;
amava as artes, as ciências, a literatura e, um pouco menos, a política.
Em toda a sua vida, sempre longe da pátria, entre povos diversos, cheia de
impressões diferentes tomada de preocupações de estudos, jamais conseguira
chegar a uma dedução lógica e satisfatória a respeito da sua procedência. Não
sabia ao certo quais eram as circunstâncias em que viera ao mundo não sabia a
quem devia agradecer a vida e os bens de que dispunha. Lembrava-se no entanto
de haver saído em pequeno do Brasil e podia jurar que nunca lhe faltara o
necessário e até o supérfluo. Em Lisboa tinha ordem franca.
Mas quem vinha a ser essa pessoa encarregada de acompanhá-la de tão
longe?... Seu tutor, com certeza, ou coisa que o valha, ou talvez seu próprio tio pois,
quanto ao pai sabia Raimundo que já o não tinha quando foi para Lisboa. Não
porque chegasse a conhecê-lo, nem porque se recordasse de ter ouvido de alguém
o doce nome de filho, mas sabia-o por intermédio do seu correspondente e pelo que
deduzia de algumas vagas reminiscências da meninice.
“Sua mãe, porem, quem seria?...” Talvez alguma senhora culpada e receosa
de patentear a sua vergonha!... “Seria boa? Seria virtuosa?...”
Raimundo perdia-se em conjeturas e, malgrado o seu desprendimento pelo
passado, sentia alguma coisa atraí-lo irresistivelmente para a pátria. “Quem sabia se
ai não descobriria a ponta do enigma?... Ele, que sempre vivera órfão de afeições
legítimas e duradouras, como então seria feliz!... Ah, se chegasse a saber quem era
sua mãe, perdoar-lhe-ia tudo, tudo!”
O quinhão de ternura, que a ela pertencia, estava intacto no coração do filho.
Era preciso entregá-lo a alguém! Era preciso desvendar as circunstâncias que
determinaram o seu nascimento!
“Mas, no fim de contas, refletia Raimundo em um retrocesso natural de
impressões, que diabo tinha ele com tudo isso, se até ai, na ignorância desses fatos,
vivera estimado e feliz!... Não foi decerto para semelhante coisa que viera à
província! Por conseguinte, era liquidar os seus negócios, vender os seus bens e —
por aqui é o caminho! O Rio de Janeiro lá estava a sua espera!
“Abriria, ao chegar lá, o seu escritório, e, ao lado da mulher com quem
casasse e dos filhos que viesse a ter, nem sequer havia de lembrar-se do passado!
“Sim, que mais poderia desejar melhor?... Concluíra os estudos viajara muito,
tinha saúde, possuía alguns bens de fortuna. — Era caminhar pra frente e deixar em
paz o tal — passado! — O passado, passado! Ora adeus!”
E, chegando a esta conclusão, sentia-se feliz, independente, seguro contra as
misérias da vida, cheio de confiança no futuro. “E por que não havia de fazer
carreira? Ninguém podia ter melhores intenções do que ele?.. Não era um vadio,
nem homem de maus instintos; aspirava ao casamento, à estabilidade; queria, no
remanso de sua casa, entregar-se ao trabalho sério, tirar partido do que estudara, do
que aprendera na Alemanha, na França, na Suíça e nos Estados Unidos. Faltava-lhe
apenas vir ao Maranhão e liquidar os seus negócios. — Pois bem! cá estava — era
aviar e pôr-se de novo a caminho!”


www.nead.unama.br
25
Foi com estas idéias que ele chegou à cidade de São Luís. E agora, na
restauradora liberdade do quarto, depois de um banho tépido, o corpo ainda meio
quebrado da viagem, o charuto entre os dedos, sentia se perfeitamente feliz,
satisfeito com a sua sorte e com a sua consciência
— Ah! bocejou fechando os olhos. É liquidar os negócios e pôr-me ao
fresco!...
E, com um novo bocejo, deixou cair ao chão o charuto, e adormeceu
tranqüilamente.
No entanto, a história de Raimundo, a história que ele ignorava, era sabida
por quantos conheceram os seus parentes no Maranhão.
Nasceu numa fazenda de escravos na Vila do Rosário, muitos anos depois
que seu pai, José Pedro da Silva ai se refugiara, corrido do Pará ao grito de “Mata
bicudo!” nas revoltas de l83l.
José da Silva havia enriquecido no contrabando dos negros da África e fora
sempre mais ou menos perseguido e malquisto pelo povo do Pará; até que, um belo
dia, se levantou contra ele a própria escravatura, que o teria exterminado, se uma
das suas escravas mais moças por nome Domingas, não o prevenisse a tempo.
Logrou passar incólume ao Maranhão, não sem pena de abandonar seus haveres e
risco de cair em novos ódios, que esta província, como vizinha e tributária do
comércio da outra, sustentava instigada pelo Farol contra os brasileiros adotivos e
contra os portugueses. Todavia, conseguiu sempre salvar algum ouro; metal que
naquele bom tempo corria abundante por todo o Brasil e que mais tarde a Guerra do
Paraguai tinha de transformar em condecorações e fumaça.
A fuga fizeram eles, senhor e escrava, a pé, por maus caminhos,
atravessando os sertões. Ainda não existia a companhia de vapores e os transportes
marítimos dependiam então de vagarosas barcas, a vela e remo e, às vezes,
puxadas a corda, nos igarapés. Foram dar com os ossos no Rosário. O
contrabandista arranjou-se o melhor que pôde com a escrava que :. e restava, e,
mais tarde, no lugar denominado São Brás, veio a comprar uma fazendola, onde
cultivou café, algodão, tabaco e arroz.
Depois de vários abortos, Domingas deu à luz um filho de José da Silva.
Chamou-se o vigário da freguesia e, no ato do batismo da criança, esta, como a
mãe, receberam solenemente a carta de alforria.
Essa criança era Raimundo.
Na capital, entretanto, acalmavam-se os ânimos. José prosperou rapidamente
no Rosário; cercou a amante e o filho de cuidados; relacionou-se com a vizinhança,
criou amizades, e, no fim de pouco tempo, recebia em casamento a Sra. D. Quitaria
Inocência de Freitas Santiago, viúva, brasileira rica, de muita religião e escrúpulos
de sangue, e para quem um escravo não era um homem, e o fato de não ser branco,
constituía só por si um crime.
Foi uma fera! a suas mãos, ou por ordem dela, vários escravos sucumbiram
ao relho, ao tronco, à fome, à sede, e ao ferro em brasa. Mas nunca deixou de ser
devota, cheia de superstições; tinha uma capela na fazenda, onde a escravatura,
todas as noites com as mãos inchadas pelos bolos, ou as costas lanhadas pelo
chicote, entoava súplicas à Virgem Santíssima. mãe dos infelizes.
Ao lado da capela o cemitério das suas vítimas.


www.nead.unama.br
26
Casara com José da Silva por dois motivos simplesmente: porque precisava
de um homem, e ali não havia muito onde escolher, e porque lhe diziam que os
portugueses são brancos de primeira água.
Nunca tivera filhos Um dia reparou que o marido, a titulo de padrinho,
distinguia com certa ternura, o crioulo da Domingas e declarou logo que não admitia,
nem mais um instante, aquele moleque na fazenda.
— Seu negreiro! gritava ela ao marido, fula de raiva. Você pensa que lhe
deixarei criar, em minha companhia, os filhos que você tem das negras?... Era só
também o que faltava' Não trate de despachar-me, quanto antes, o moleque, que
serei eu quem o despacha, mas há de ser para ali, para junto da capela!
José, que sabia perfeitamente de quanto ela era capaz, correu logo à vila
para dar as providências necessárias à segurança do filho. Mas, ao voltar à fazenda,
gritos horrorosos atraíram-no ao rancho dos pretos. entrou descoroçoado e viu o
seguinte:
Estendida por terra, com os pés no tronco, cabeça raspada e mãos
amarradas para trás, permanecia Domingos, completamente nua e com as partes
genitais queimadas a ferro em brasa. Ao lado, o filhinho de três anos, gritava como
um possesso, tentando abraçá-la, e, de cada vez que ele se aproximava da mãe,
dois negros, a ordem de Quitéria, desviavam o relho das costas da escrava para
dardejá-lo contra a criança. A megera, de pé, horrível, bêbada de cólera, ria-se,
praguejava obscenidades, uivando nos espasmos flagrantes da cólera Domingas,
quase morta, gemia, estorcendo-se no chão O desarranjo de suas palavras e dos
seus gestos denunciava já sintomas de loucura.
O pai de Raimundo, no primeiro assomo de indignação, tão furioso acometeu
sobre a esposa, que a fez cair. Em seguida, ordenou que recolhessem Domingas à
casa dos brancos e que lhe prodigalizassem todos os cuidados.
Quitéria, a conselho do vigário do lugar, um padre ainda moço, chamado
Diogo, o mesmo que batizara Raimundo, fugiu essa noite para a fazenda de sua
mãe, D. Úrsula Santiago, a meia légua dali.
O vigário era muito da casa das Santiago; dizia-se até aparentado com elas.
O caso é que foi na qualidade de confessor, parente e amigo, que ele acompanhou
Quitéria.
José da Silva, por esse tempo, chegava à cidade de São Luís com o filho.
Procurou seu irmão mais moço, o Manuel Pedro, e entregou-lhe o pequeno, que
ficaria sob as vistas do tio até ter idade para matricular-se num colégio de Lisboa.
Feito isso, tornou de novo para a sua roga. “Agora contava viver mais
descansado. era natural que a mulher se deixasse ficar em casa da mãe.” Ao chegar
lá, sabendo que não o esperavam essa noite e como visse luz no quarto da esposa,
apeou-se em distância e, para não se encontrar com ela, guardou o cavalo e entrou
silenciosamente na fazenda.
Os cães conheceram-no pelo faro e apenas rosnaram. Mas, na ocasião em
que ele passava de fronte do quarto de Quitéria, ouviu aí sussurros de vozes que
conversavam. Aproximou-se levado pela curiosidade e encostou o ouvido à porta.
Reconheceu logo a voz da mulher.
“Mas, com quem diabo ela conversaria aquela hora?...”
Conteve a impaciência e esperou de ouvido alerta.
“Não havia dúvida! - a outra voz era de um homem!...”


www.nead.unama.br
27
Sem esperar mais nada, meteu ombros à porta e, precipitou-se dentro do
quarto, atirando-se com fúria sobre a esposa, que perdera logo os sentidos.
O padre Diogo, pois era dele a outra voz, não tivera tempo de fugir e caíra,
trêmulo, aos pés de José. Quando este largou das mãos a traidora, para se apossar
do outro, reparou que a tinha estrangulado. Ficou perplexo e tolhido de assombro.
Houve então um silêncio ansioso. Ouvia-se o resfolegar dos dois homens. A
situação dificultava-se; mas o vigário, recuperando o sangue-frio, ergueu-se,
concertou as roupas e, apontando para o corpo da amante, disse com firmeza:
— Matou-a! Você é um criminoso!
— Cachorro! E tu?! Tu serás porventura menos criminoso do que eu?
— Perante as leis, decerto! porque você nunca poderá provar a minha
suposta culpa e, se tentasse fazê-lo, a vergonha do fato recairia toda sobre a sua
própria cabeça, ao passo que eu, além do crime de injúria consumado na minha
sagrada pessoa, sou testemunha do assassínio desta minha infeliz e inocente
confessada, assassínio que facilmente documentarei com o corpo de delito que aqui
está!
E mostrava a marca das mãos de José na garganta do cadáver.
O assassino ficou aterrado e abaixou a cabeça.
— Vamos lá!... disse o padre afinal, sorrindo e batendo no ombro do
português. Tudo neste mundo se pode arranjar, com a divina ajuda de Deus... só
para a morte não há remédio! Se quiser, a defunta será sepultada com todas as
formalidades civis e religiosas...
E, dando à voz um cunho particular de autoridade: — Apenas pelo meu
silêncio sobre o crime, exijo em troca o seu para a minha culpa... Aceita?
José saiu do quarto, cego de cólera, de vergonha e de remorso.
— Que vida a sua! exclamava. Que vida, santo Deus!
O padre cumpriu a promessa o cadáver enterrou-se na capela de São Brás,
ao lado das suas vítimas; e todos os do lugar, até mesmo os de casa, atribuíram a
morte de Quitéria ao espírito maligno que se lhe havia metido no corpo.
O vigário confirmava esses boatos e continuava a pastorar tranqüilamente o
seu rebanho, sempre tido por homem de muita saudade e de grandes virtudes
teologais. Os devotos continuaram a trazer-lhe, de muitas léguas de distância, os
melhores bácoros, galinhas e perus dos seus cercados.
Em breve, as coisas voltavam todas aos eixos: José entregou a fazenda a
Domingas e mais três pretos velhos, que alforriou logo, e, acompanhado pelo resto
da escravatura, seguiu para a cidade de São Luís, no propósito de liquidar seus
bens e recolher-se à pátria com o filho.
A mãe de Raimundo conseguiu enfim descansar. São Brás criou a sua lenda
e foi aos poucos ganhando fama de amaldiçoada. Entretanto, o pequeno, quando
chegou à casa do tio na capital, estava, como facilmente se pode julgar, com a pele
sobre os ossos. A falta de cuidados espalhara-lhe na carinha opaca uma expressão
triste de moléstia; quase que não conseguia abrir os olhos. Todo ele era mau trato e
fraqueza; tinha o estômago muito sujo, a língua saburrenta, o corpo a finar-se de
reumatismo e tosse convulsa, o sangue predisposto à anemia escrofulosa. Apesar


www.nead.unama.br
28
do instinto materno, que a tudo resiste e vence, a pobre escrava não podia olhar
nunca pelo filho: lá estava Quitéria para desviá-la dele, para cortar-lhe as carícias a
chicote; tanto assim, que, quando José lhe anunciou que Raimundo ia para a casa
do fio na cidade, a infeliz abençoou com lágrimas desesperadas aquela separação.
Todavia, o desgraçadinho foi encontrar em Mariana, cunhada de seu pai, a
mais carinhosa e terna das projetoras. A boa senhora, como sabia que o marido o
pouco que tinha devia à generosidade do irmão, julgou-se logo obrigada a servir de
mãe ao filho deste. Ana Rosa, único fruto do seu casamento, ainda não era nascida
nesse tempo, de sorte que as premissas da sua maternidade pertenceram ao pupilo.
Dentro em pouco, no agasalho carinhoso daquelas asas de mãe, Raimundo, de feio
que era, tornou-se uma criança forte, sã e bonita.
Foi então que Ana Rosa veio ao mundo; a principio muito fraquinha e quase
sem dar acordo de si. Manuel andava aflito, com medo de perdê-la. Que luta, os três
primeiros meses de sua vida! Parecia morrer a todo instante, coitadinha! Ninguém
dormia na casa; o negociante chorava como um perdido, enquanto a mulher fazia
promessas aos santos da sua devoção.
Era por isto que a menina, mais tarde, se recordava agradavelmente de ter
feito o anjo da verônica nas procissões da quaresma.
E ao lado de Mariana, que noite e dia velava o berço da filhinha enferma,
estava Mundico, o outro filho, que este também a chamava de mãe e já se não
lembrava da verdadeira, da preta que o trouxera nas entranhas.
A menina salvou-se, graças aos bons serviços de um médico, que chegara
havia pouco da universidade de Montpellier, Dr. Jauffret, e, a partir daí Manuel não
quis saber de outro facultativo em sua casa.
Por essa época, mais ou menos, chegava do Rosário a notícia de haver D.
Quitéria sucumbido a uma congestão cerebral.
— Deu-lhe de repente! explicava o correio, com o seu saco de couro às
costas. Foi obra do sujo, credo!
E, pouco depois, José Pedro da Silva, todo coberto de luto, muito encanecido
e desfeito, vinha liquidar os seus negócios e partir logo para Portugal. Manuel
estimava-o deveras e sentia-se de vê-lo naquele estado.
Aprontou-se tudo para a viagem e José recolheu-se a última noite em casa do
irmão. Mas não pôde pregar olho, estava excitado, e a lembrança dos terríveis
sucessos, que ultimamente se haviam dado com ele, nunca o apoquentara tanto.
Levantou-se e começou a passear no quarto, a falar sozinho, nervoso, delirante,
vendo surgir espectros de todos os lados.
Pelas quatro horas da madrugada, Manuel, impressionado, porque, de todas
as vezes que acordava, via luz no quarto do hóspede e ouvia-lhe o som dos passos
trôpegos e vacilantes, e sentia-lhe os gemidos abafados e o vozear frouxo e
doloroso, não se pôde ter e levantou-se. “Terá alguma coisa o José?...” pensou ele,
embrulhando-se no lençol e tomando aquela direção. A porta achava-se apenas no
trinco, abriu-a devagar e entrou. O viúvo, ao sentir alguém, voltou-se assombrado e
dando com o fantasma que lhe invadia a alcova, recuou de braços erguidos, entre
gritos terror. Manuel correu sobre ele; mas antes que se desse a conhecer, já o
assassino de Quitéria havia caldo desamparadamente no chão.
Fez-se logo um grande motim por toda a casa, que era nesse tempo no
Caminho Grande, e na qual os caixeiros do negociante ainda não moravam com o
patrão. A boa Mariana acudiu pronta cheia de zelo. “Um escalda-pés! depressa!”


www.nead.unama.br
29
dizia, apalpando os contraídos e volumosos pós do cunhado. Tisanas, mezinhas de
toda a espécie, foram lembradas; pôs-se em campo a medicina doméstica, e, daí a
uma hora o desfalecido voltava a si.
Mas não pôde erguer-se: ficara muito prostrado. À síncope sobreveio-lhe uma
febre violenta, que durou até à noite, quando chegou afinal o Jauffret.
Era uma febre gástrica, explicou este. E mais: que a moléstia; requeria certo
cuidado — muito sossego de espírito! Nada de bulha, principalmente!
José, malgrado a recomendação do médico, quis ver o filho. Abraçou-o soluçando,
disse-lhe que estava para morrer. E no outro dia ainda de cama, perfilhou-o; pediu
um tabelião, fez testamento e, chorando, chamou Manuel para seu lado.
— Meu irmão, recomendou-lhe. Se eu for desta... o que é possível,
remete-me logo o pequeno para a casa do Peixoto em Lisboa.
Terminou dizendo “que o queria — com muito saber — que o metessem num
colégio de primeira sorte. Ficava ai bastante dinheiro... não tivessem pena de gastar
com o seu filho; que lhe dessem do melhor e do mais fino”. Estas coisas fizeram-no
piorar; já todos os choravam como morto, e, pelos dias de mais risco, quando José
delirava na sua febre, apareceu em casa do Manuel o pároco do Rosário; vinha
muito solicito, saber do estado do seu amigo José “do seu irmão” dizia ele com uma
grande piedade.
E daí, não abandonava a casa. Prestava-se a um tudo, serviçal discreto, às
vezes choramingando porque lhe vedavam a entrada no quarto do enfermo Manuel
e Mariana não se furtavam de apreciar aquela solicitude do bom padre, o interesse
com que ele chegava todos os dias para pedir noticias do amigo. Dispensavam-lhe
um grande acolhimento; achavam-no meigo, jeitoso e simpático.
— É um santo homem! dizia Manuel convencido.
Mariana confirmava acrescentando em voz baixa:
— Por adulação não é, coitado! Todos sabem que o padre Diogo não precisa
de migalhas!...
— É remediado de fortuna, pois não! Mas, olhe, que sabe aplicar bem o que
possui...
Seguia-se uma longa resenha dos episódios louváveis da vida do santo
vigário; citavam-se rasgos de abnegação, boas esmolas a criaturas desamparadas,
perdões de ofensas graves, provas de amizade e provas de desinteresse. “Um
santo! Um verdadeiro santo!”
E assim foi o padre Diogo tomando pé em casa de Manuel e fazendo-se todo
de lá. Já contavam com ele para padrinho de Ana Rosa; esperavam-no todas as
tardes com café, e à noite, nos serões da família, marido e mulher não perdiam
ocasião de contar as boas pilhérias do senhor vigário, glorificar-lhe as virtudes
religiosas e recomendá-lo às visitas como um excelente amigo e magnífico protetor.
Um dia em que ele, como sempre, cheio de solicitude, perguntava pelo “seu doente”
disseram-lhe que José estava livre de maior perigo e que o restabelecimento seria
completo com a viagem à Europa. Diogo sorriu, aparentemente satisfeito; mas, se
alguém lhe pudesse ouvir o que resmungava ao descer as escadas, ter-se-ia
admirado de ouvir estas e outras frases:


www.nead.unama.br
30
— Diabo!... Querem ver que ainda não se vai desta, o maldito?... E eu, que já
o tinha por despachado!...
No dia seguinte, dizia o velhaco ao futuro compadre: — Bom, agora que o
nosso homem está livre de perigo, posso ir mais sossegado para a minha paróquia...
Já não vou sem tempo!...
E despediu-se, todo boas palavras e sorrisos angélicos, acompanhado pelas
bênçãos da família.
— Senhor vigário! gritou-lhe Mariana do patamar da escada. Não faça agora
como os médicos, que só aparecem com as moléstias!... Seja cá de casa!
—Venha de vez em quando, padre! acrescentou Manuel. Apareça!
Diogo prometeu vagamente, e nesse mesmo dia atravessou o Boqueirão em
demanda da sua freguesia.
Essa noite, nas salas de Manuel, só se conversou sobre as boas qualidades e
os bons precedentes do estimado cura do Rosário.
José, com geral contentamento dos de casa, convalescia prodigiosamente.
Manuel e Mariana cercavam-no de afagos, desejosos por fazê-lo esquecer a
imprudência da madrugada fatal, o que, supunham, fosse o único motivo da
moléstia; daí a coisa de um mês, o convalescente resolveu tomar à fazenda, a
despeito das instâncias contrárias da cunhada e dos conselhos do irmão.
— Que vais lã fazer, homem de Deus? perguntava este. Se era por causa da
Domingas, que diabo! fizesse-a vir! O melhor porém, segundo a sua fraca opinião,
seria deixá-la lá onde estava. Uma preta da roça, que nunca saiu do mato!...
Não! não era isso! respondia o outro. Mas não iria para a terra, sem ter dado
uma vista d'olhos ao Rosário!
— Ao menos não vai só, José. Eu posso acompanhar-te.
José agradeceu. Que já estava perfeitamente bom. E, em caso de
necessidade, podia contar com os canoeiros, que eram todos seus homens.
E dizia as inúmeras viagens que tinha feito até ali; contava episódios a
respeito do Boqueirão. “E que se deixassem disso! Não estivessem a fazer daquela
viagem um bicho de sete cabeças!... Haviam de ver que, antes do fim do mês,
estava ele de velas para Lisboa.”
Baixar 0.58 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   33




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal