Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
CAPÍTULO XVIII
Entrementes, Ana Rosa chorava no seu quarto; Manuel continuava a passear
na sala, com as mãos cruzadas atrás e a cabeça descaída sobre o peito, como se
uma preocupação de chumbo a puxasse para baixo; e Maria Bárbara ceava na
varanda, resmungando, embebendo fatias de pão torrado na sua xícara de chá
verde. E a noite envelhecia, e as horas rendiam-se, que nem sentinelas mudas, e
nenhum dos três procurava dormir, afinal, Marta Bárbara obrigou o genro a
recolher-se, depois foi ter com a neta e dispôs-se a fazer-lhe companhia até
amanhecer Em breve, porém a velha ressonava, e tanto o pai, como a filha, viram,
através das suas lágrimas, nascer o dia.
Raimundo, esse vagara pelas luas da cidade, com o coração encharcado de
um grande desanimo. Apoquentava-o menos a estreiteza da situação do que a
brutal pertinácia daquela família, que preferia deixar a filha desonrada a ter de dá-la
por esposa a um mulato. “Com efeito!... Em preciso levar muito longe o escrúpulo de
sangue!...” E, malgrado o vigor e a firmeza com que ele até ai afrontara as
contrariedades, sentia-se agora abatido e miserável Na transtornada corrente das
suas idéias a do suicídio misturava-se, como uma moeda falsa que mareasse as
outras Raimundo repelia-a com repugnância, mas a teimosa reaparecia sempre.
Para ele o suicídio era uma ação ridícula e vergonhosa, era uma espécie de
deserção da oficina; então, para animar-se, para meter-se em brios, evocava a
memória dos fortes, lembrava-se dos que lutaram muito mais contra os preconceitos


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de todos os tepos; e, de pensamento em pensamento, sonhava se em plena
felicidade doméstica, ao lado de uma família amorosa, cercado de filhos, e feliz,
cheio de coragem, trabalhando muito, sem outra ambição, além de ser um homem
útil e honrado. Mas todas estas esperanças já lhe não acordavam no espírito o
mesmo eco de entusiasmo agora, o que mais o preocupava era a sua humilhação e
o seu amor ultrajado: desejava esposar Ana Rosa, desejava-o, como nunca, mas por
uma espécie de vingança contra aquela maldita gente que o envilecia e rebaixava;
queria amarrá-la ao seu destino, como se a amarrasse a um posto infamante: queria
espalhar bem o seu sangue, porque onde ele caísse, deixaria uma nódoa
escandescente; precisava, para sofrer menos, ver sofrer alguém; era necessário que
os outros chorassem muito, para que, por sua vez. risse um pouco. “Oh! havia de
rir!. Ana Rosa pertencer-lhe-ia. de direito! .. Por que não? . Ele tinha a lei por si!
Quem poderia impedir lhe de tirá-la por justiça?... Além de que, com um filho nas
entranhas. ela lhe obedeceria como escravas!...”
E ruminando estes projetos fingindo-se muito senhor de si, mas com grande
desespero a ladrar-lhe por dentro. Raimundo vagabundeava pelas mas, `a espera
que amanhecesse, com as mãos nas algibeiras. vacilante como um ébrio.
Impacientava-se pelo dia seguinte, perecia atraí-lo com a sua ansiedade crescente;
aquela noite, comprida e silenciosa, pesava-lhe nas costas, que nem a mochila do
soldado no meio da batalha. “Sim! urgia que amanhecesses!... queria tratar dos seus
interesses, liquidar aquela maçada. aquela grande maçada!. . Mais doze horas, doze
horas! e estaria tudo concluído! No dia seguinte estaria tudo pronto! ele no primeiro
vapor seguiria para a Corte, acompanhado da esposa, feliz, independente! sem
lembrar-se, nunca mais, do Maranhão, dessa província madrasta para os filhos!'
Ao chegar ao Largo do Carmo, assentou-se num banco. Um vento fresco
agitava as árvores: ameaçava chuva; ouvia-se o surdo e longínquo marulhar da
costa, e, por ali perto, em algum sarau, urna garganta de mulher cantava ao piano a
“Traviata”.
Raimundo passou a mão pela testa e reparou que estava suando] frio. Deram
duas horas. Um policia aproximou-se vagarosamente r pediu-lhe um cigarro e o
fogo, e seguiu depois, com ar preguiçoso de quem cumpre uma formalidade inútil
aborrecida. E Raimundo ficou a escutar os passos sonoros do rondante,
cadenciados com a regularidade monótona de uma pêndula.
Deram três horas Chuviscava.
Raimundo levantou-se e seguiu pela Rua Grande. “Agora talvez dormisse um
pouco... Estava tão fatigado!...”” Quando atravessou o campo de Ourique, pensou
sentir alguém acompanhando-o, olhou para os lados e não descobriu viva alma.
“Enganara-se com certeza... Era talvez o eco dos seus próprios passos...” Continuou
a andar, até chegar a casa.
Mas, do vão escuro, em que se formava 0 limite da parede, rebentou um tiro,
no momento em que ele dava volta à chave.
Este tiro partira de um revólver fornecido ao Dias pelo cônego Diogo. Todavia,
no instante supremo, faltara ao pobre-diabo coragem para matar um homem, mas as
palavras do padre ferviam-lhe na cabeça, em tomo da sua idéia fixa. “Como poderia
agora perder num momento o trabalho de toda uma existência, destruir o seu castelo
dourado a sua preocupação, a coisa boa da sua vida?... Perder o jogo no melhor
lance!... inutilizar-se reduzir-se a lama, quando, só com um ligeiro movimento de
dedo, estaria tudo salvo!...”
Isto pensava o caixeiro de Manuel escondido na treva, por detrás de um
montão de pedras e barrotes, ao lado dos espeques de um casebre em ruínas. Mas


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o tempo corria, e Raimundo ia entrar pra casa, sumir-se numa fronteira
inexpugnável, e só reapareceria no dia seguinte, à luz do sol. “Era preciso aviar!...
Um instante depois seda tarde, e Ana Rosa passaria às mãos do mulato e a cidade
inteira ficaria senhora do escândalo, a saboreá-lo, a rir-se do vencido! E, então,
estaria tudo acabado, para sempre! sem remédio! E ele, o Dias, coberto de ridículo
e... pobre! “
Nisto, rangeu a fechadura. Aquela porta ia abri-se como um túmulo, onde o
miserável sentia resvalar o seu futuro e a sua felicidade; no entanto, tamanha
calamidade dependia de tão pouco! O grande obstáculo da sua vida estava ali, a
dois passos, em magnífica posição para um tiro.
Dias fechou os olhos e concentrou toda a energia no dedo que devia puxar o
gatilho. A bala partiu, e Raimundo, com um gemido, prostrou-se contra a parede.
Amanhecera um dia enfadonho, cheio de chuviscos e umidade. Pouca gente
pela rua; nenhum sol, e um aborrecimento geral a abrir a boca por toda parte.
Grossas nuvens, grávidas e sombrias, arrastavam-se pelo espaço, no peso da sua
hidropisia; o ar mal podia contê-las. Ouvia-se um trovejar ao longe, que lembrava o
rolar de balas de peça por um assoalho.
A casa de Manuel tinha a silenciosa quietação do luto; as janelas fechadas;
os moradores tristes; a varanda e a sala de visitas totalmente desertas. Embaixo, no
armazém, os caixeiros fingiam não saber de nada. Os pretos cochichavam na
cozinha, com medo de falar alto, e iam dar trela à vizinhança, onde se comentava já
o escândalo da véspera
Manuel só apareceu fora do quarto à hora do almoço, que nesse dia foi tarde,
porque os escravos, privados da vigilância de Maria Bárbara e empenhados no
mexerico, descuidaram-se das obrigações O pobre homem trazia no rosto,
fotografada, a sua dor e a sua insônia tinha os olhos pisados e intumescidos. Mal
tocou nos pratos, cruzou logo o talher e limpou com o guardanapo uma lágrima, que
o lugar vazio de Ana Rosa lhe desprendera. Aquela cadeira sem dono parecia
dizer-lhe com a tristeza: “Descansa, desgraçado, que filha nunca mais terás tu!...”
Não quis descer ao armazém e fechou-se em cima, no seu escritório, recomendando
que mandassem lá o Dias quando chegasse.
O sabiá trinava desesperadamente na varanda. Tinham-se esquecido de
encher-lhe o comedouro.
Ana Rosa não saíra da rede; estava excitada, doente, toda nervosa, com uma
irritação de estômago. A avó, cheia de mau humor, levara lhe um bule de chá de
contra-erva, para a febre, e, depois de recomendar à neta que não saísse do quarto
e fizesse por dormir, fechou-se com os seus santos, a rezar.
A rapariga ignorava o que ia lá por fora. Amância foi a única visita que
apareceu, falando muito da palidez que lhe notara.
— Até lhe achei mau hálito, disse à Mônica, logo que saiu do aposento da
enferma.
— É do estômago, explicou a cafuza. Ela, coitada, ainda hoje não comeu
nada, e ainda não pregou olho desde ontem de manhã!
A velha passou à cozinha, à procura da Brígida, para indagar que diabo havia
sucedido naquela casa, que andavam todos a modos de assombrados!
Ana Rosa achava-se, com efeito, muito abatida, num estado perigoso de
irritação e fraqueza. Mônica obrigou-a a tomar um mingau de farinha, e ela
vomitou-o logo.


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— Hê, Iaiá! Isto assim não está bom!... censurava maternalmente a preta.
Não te fica nada no bucho!
— Mãe-pretinha, pediu depois a moça, eu posso ir até à sala? Não cone
vento; as vidraças estão fechadas!
— Vai, laiá, porém mete algodão no ouvido. Espera! agasalha a cabeça!
E envolveu-lhe a testa com um lenço encarnado de seda.
— laia quer que eu te ajude?
— Não, mãe-pretinha, fique; você deve estar cansada.
A preta assentou-se junto à rede, encolheu as pernas, que abrangeu com os
braços, e pôs-se a cochilar, escondendo a cara contra os joelhos. Ana Rosa
levantou-se muito fraca e, lentamente, apoiando-se nos móveis, atravessou por
entre o desarranjo do seu quarto e foi até à sala.
Fazia má impressão vê-la com aquele andar vagaroso e triste, acompanhado
de suspiros e descaimentos de pálpebras. Parecia convalescente de uma longa
moléstia grave; estava cor de cera, com grandes olheiras roxas; muito puxada, os
cabelos, despenteados e secos, caíam-lhe por debaixo do lenço vermelho, que lhe
dava à cabeça certa expressão pitoresca e graciosa Dela toda respirava um tom
melancólico e dolorido: o longo roupão, desabotoado sobre o estômago,
arrastando-se negligentemente pelo chão, os braços moles, as mãos frouxas, o
pescoço bambo, os lábios entreabertos, estalando de febre, o olhar morto, infeliz,
mas embebido de ternura. tudo nela transpirava um tácito queixume de fundas
mágoas escondidas. Seus pezinhos traziam de rastros umas chinelas de criança e,
por entre a abertura do vestidos, via-se-lhe a camisa de rendas amarrotada e um
cordão de ouro escorrendo pela brancura do seio, com um pequeno crucifixo que se
lhe balançava entre os peitos.
E, com a resignação dos doentes que não podem sair do quarto, passeava
pela saia o seu isolamento, procurando entreter-se a examinar os objetos de cima
dos consolos, minuciosamente, como se nunca os tivera visto. Tomou entre os
dedos um galgozinho de jaspe e ficou a observá-lo um tempo infinito. P que seu
pensamento não estava ali; andava lá fora, em busca de Raimundo em busca do
seu cúmplice estremecido, o autor daquele delito que ela sentia dentro de si,
enchendo-a de alegria e de medo. Amava-o muito mais agora, tal como se o seu
amor crescesse também como o feto que se lhe agitava nas entranhas. Apesar da
estreiteza da situação, achava-se cada vez mais feliz; sonhara a ventura de ser mãe
e sentia-a realizar-se no seu corpo, no seu ventre, de instante a instante, com um
impulso misterioso, fatal incompreensível. “Era mãe!... Ainda lhe parecia um
sonho!... “
Impacientava-se por preparar o enxoval do seu filhinho Um enxoval bom,
completo, a que nada, nada, faltasse Ah! ela sabia perfeitamente como tudo isso era
feito; qual a melhor flanela para os cueiros quais as melhores toucas e os melhores
sapatinhos de lã. Via em sonhos um berço junto a sua rede, com um entezinho
dentro, todo rendas e fitas cor-de-rosa, a vagir uns princípios de voz humana. E
fazia-se muito pressurosa, a queimar alfazema, para defumar os panos da criança; a
preparar água com açúcar, para curar-lhe as cólicas; a evitar em si mesma o abuso
do café e de todo o alimento que pudesse alterar-lhe o leite, porque ela queria ser a
própria a criar o seu filho, e por coisa nenhuma desta vida, o confiaria à melhor ama.
E, a pensar nestas coisas, que, aliás, nunca ninguém procurara ensinar-lhe,


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esquecia-se inteiramente dos vexames e das dificuldades que a sua falsa
posiçãoteria de levantar; nem sequer, lhe passava pela idéia a hipótese de não
casar com Raimundo. “Oh, isso havia de ser, desse por onde desse e sofresse quem
sofresse!”
Assim lhe correu o dia. Só despertou dos seus devaneios às duas e meia da
tarde, quando o sino da Sé badalou o dobre dos finados “Por quem estaria
dobrando?...” perguntou de si para si, tomada de compassiva estranheza.
Parecia-lhe absurdo que alguém cuidasse em morrer, quando ela só pensava em
dar à vida aquele outro alguém que tanto a preocupava.
Todavia, o dobre continuou ao longe, rolando no espaço, como um soluço que
se desdobra. E aquele som lúgubre, ali, na saia toda fechada, parecia fazer o dia
mais triste e o céu mais sombrio e chuvoso. Ana Rosa sentiu um ligeiro tremor de
medo indefinido arrepiar-lhe as carnes; lembrou-se de rezar, chegou mesmo a dar
alguns passos na direção da alcova, mas deteve-a um rumor de vozes que vinha da
nua.
Foi até à janela. O zunzum do povo crescia “Alguma briga!...” pensou ela,
encostando a cara na vidraça, para espiar o que se passava lá fora
O motim recrescia à proporção que um grupo imenso de homens e mulheres
se aproximava cheio de curiosidade Ana Rosa pôde então compreender a causa do
ajuntamento: dois pretos traziam um corpo dentro de uma rede, cuja taboca
carregavam no ombro
— Credo! Que agouro!... disse impressionada.
E quis afastar-se da janela, mas deixou-se ficar, por curiosidade. “Algum
pobre homem que ia doente para o hospital... ou talvez fosse algum defunto,
coitado!...” E procurou pensar no filho, para desfazer a impressão desagradável que
acabava de receber.
O corpo estava inteiramente coberto por um lençol de linho e parecia ser de
um homem de boa estatura. Algumas manchas vermelhas destacavam-se aqui e ali
na brancura do pano.
Ana Rosa sentia já certo interesse aterrorizado; quis de novo deixar a janela;
agora, porém, o que se passava lá na rua atraía-lhe irresistivelmente o olhar. A
fúnebre procissão aproximava-se entretanto chegando-se para a parede do lado em
que ela estava Ia deixar de ver, mas não lhe convinha abrir a janela, por causa do
vento; além disso ameaçava chuva; era até muito natural que estivesse
chuviscando. Continuou a olhar atentamente, com o rosto achatado de encontro aos
vidros.
A rede adiantava-se a pouco e pouco, jogando com a irregularidade da rua e
do caminhar desencontrado dos carregadores; o que obrigava o lençol a fazer e
desfazer fartas nugas instantâneas. Ana Rosa sentiu-se inquieta e sobressaltada,
como se aquilo lhe dissera respeito; a rede ia desaparecer de todo a seus olhos,
porque cada vez mais se aproximava da parede, já mal podia alcança-la com a vista.
Céus! Dir-se ia que se encaminhava para a porta de Manuel!
Uma rajada de nordeste esfuziou nos vidros. Os chapéus dos transeuntes
saltaram como folhas secas; as janelas de diversas casas bateram contra os
caixilhos num repelão de cólera; o vento zuniu com mais força e, numa segunda
refrega, arrancou de uma só vez o lençol que cobria a rede.


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Ana Rosa estremeceu toda, deu um grito, ficou lívida, levou as mãos aos
olhos. Parecia-lhe ter reconhecido Raimundo naquele corpo ensangüentado.
Duvidou e, sem animo de formular um pensamento, abriu de súbito as vidraças.
Era com efeito, ele.
O povo olhou todo para cima e viu uma coisa horrível. Ana Rosa, convulsa
doida, firmando no patamar das janelas as mãos, como duas garras, entranhava as
unhas na madeira do balcão, com os olhos a rolarem sinistramente e com um riso
medonho a escancarar-lhe a boca, as ventas dilatadas, os membros hirtos.
De repente, soltou um novo rugido e caiu de costas.
A mãe-preta acudira logo e arrastou-a para o quarto
A moça deixou atrás de si, pelo chão, um grosso rastro de sangue, que lhe
escorria debaixo das saias, tingindo-lhe os pés. E, no lugar da queda, ficou no
assoalho uma enorme poça vermelha.

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