Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
— Horresco referens!
E o cônego deu um salto para trás, ficando de boca aberta por muito tempo, ã
sacudir a cabeça.
— Sim senhora!... fê-la bonita!...
Ana Rosa chorava, escondendo a cara.
— Sim senhora!...
E o velho apalpava com o olhar o corpo inteiro da afilhada, como procurando
descobrir nele a confirmação material do que ela dizia.
— Sim senhora!...
E tomou uma pitada.
— Bem vê... arriscou afinal a rapariga, entre lágrimas, que não tenho outro
remédio senão...
— Está muito enganada! interrompeu o cônego energicamente. Está muito
enganada! O que tem a fazer é casar com o Dias! E logo! antes que a sua culpa se
manifeste!
Ela não deu palavra.
— Quanto a isso... acrescentou o lobo velho, apontando, desdenhoso, com o
beiço, o ventre da afilhada, eu me encarregarei de lhe dar remédio para...
Ana Rosa ergueu-se com um só movimento e ferrou o olhar no cônego
— Matar meu filho?!... exclamou lívida.
E, como se temesse que o padre lho arrancasse ali mesmo das entranhas,
precipitou-se correndo para fora da igreja
Saiu pelo lado que fronteia com o jardim público. Maria Bárbara só a pôde
alcançar já dentro do cano.
— Com efeito! disse lhe agastada. Parece antes que vens do inferno do que
da casa de Deus!
— É mesmo!
— Que diabos de modos são esses, Anica? repreendeu a velha. Ora vejam
se no meu tempo se dava disto! Por que estás com essa cara tão fechada, criatura?!
Ana Rosa, em vez de responder, virou o rosto. E não trocaram mais palavra até a
casa, apesar do muito que serrazinou a avó por todo o caminho


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E, no entanto, a pobre moça sentia se horrivelmente oprimida e precisava
desabafar com alguém. Um desejo doido a devorava: era correr em busca de
Raimundo, contar-lhe tudo e pedir-lhe conselhos e amparo, porque nele, e só nele,
confiaria inteiramente. Queimava-lhe o corpo uma necessidade carnal de vê-lo,
abraçá-lo, prendê-lo ela com todo o ardor dos seus beijos, e depois arrastá-lo para
longe para um lugar oculto, bem oculto, um canto ignorado de todos, onde os dois
se entregariam exclusivamente ao egoísmo feliz daquele amor.
Desde que se apercebera grávida, não podia suportar o seu acanhado quarto
de menina; a sua rede de solteira causava-lhe íntimas revoltas. E agora, depois de
disparatar com o padrinho sentia-se com forças para tudo; vibrava-lhe no sangue
uma energia estranha e absoluta; pensava no filho com transporte e orgulho, como
se ele fora uma concepção gloriosa da sua inteligência. E, na obsessão dessa idéia,
alheava-se de tudo mais, sem pensar sequer na falsidade da situação em que se
avinha.
Aguardava ansiosa os prazeres da maternidade, como se os conquistasse por
meios lícitos, e tremia toda em sobressalto só com a lembrança de que poderia vir a
faltar à criancinha o menor cuidado ou o mais dispensável conforto; vivia
exclusivamente para ela; vivia para esse entezinho desconhecido que lhe habitava o
corpo; o filho era o seu querido pensamento de todo o instante; passava os dias a
conjeturar como seria ele, menino ou menina, grande ou pequeno, forte ou franzino;
se puxaria ao pai. Tinha pressentimentos e tornava-se mais supersticiosa. Apesar,
porém de todos os perigos e dificuldades sentia-se muito feliz com ser mãe e não
trocada a sua posição pela mais digna e segura, se para isso fosse preciso sacrificar
o filho. O filho! só este valia por tudo; só este lhe merecia verdadeira importância, o
mais era mesquinho, incompleto, falso ou ridículo, ao lado daquela verdade que se
realizava misteriosamente dentro dela, como por milagre aquela felicidade, que Ana
Rosa sentia crescer de hora a hora de instante a instante no seu ventre, como um
tesouro vivo que avulta; aquela outra existência, que esgalhava da sua existência e
que era uma parcela palpitante do seu amado, do seu Raimundo, que ela trazia nas
entranhas!
Ao chegar a casa, correu logo para o quarto, fechou-se por dentro, tomou
pena e papel e escreveu, sem tomar fôlego uma enorme carta ao rapaz. “Vem,
dizia-lhe vem quanto antes meu amigo, que preciso de ti, para não acreditar que
somos dois monstros! Se soubesses como me fazes falta! como me dois ausente,
terias pena de mim! Vem, vem buscar-me! se não vieres até o fim do mês, irei ter
contigo, irei ao teu encontro, farei uma loucura!”
Mas Raimundo respondeu que ainda era cedo e pediu-lhe que esperasse com
resignação o momento de por em prática o que eles já tinham antes combinado.
O rapaz vivia agora muito aborrecido e muito nervoso estava macambúzio;
não queria ver ninguém. Às vezes assustava-se todo quando a criada lhe entrava
inesperadamente no quarta. Deixou crescer a barba; já mal cuidava de si; lia pouco
e ainda menos escrevia As suas relações, granjeadas por intermédio do tio,
fecharam-se logo como golpes em manteiga. Não se despregava nunca de casa
porque, sendo Ana Rosa o único motivo de sua demora no Maranhão, só ela o
interessava e o atraia à nua.
Ana Rosa, porém, era guardada a vista, desde a malograda partida do primo.
E, não obstante, as visitas de Manuel abstinham-se de falar em Raimundo;
estabeleceu-se uma hipócrita indiferença em torno do fato; ninguém dava palavra a
esse respeito, mas todos sentiam perfeitamente que o escândalo ainda, abafado
mas palpitante, espreitando a primeira ocasião para rebentar de novo E a panelinha


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da casa do negociante, esperava, esperava, reunida à noite até as horas
regimentais do chá com o pão torrado, conversando em mil assuntos, menos
naquele que mais interessava a todos eles, posto que nenhum tivesse coragem de
iniciá-lo.
Mas a primeira semana correu sem novidade, e a segunda, a terceira, a
quarta; foram-se dois meses, e a panelinha afrouxou desanimada. Eufrásia, a pouco
e pouco, ausentara-se de todo; Lindoca, chumbada à sua obesidade, prendera o
Freitas ao seu lado; o Campos moscara-se afinal para a roga; o José Roberto
afastara-se também, e vivia por ai, na pândega; só quem não desertou, e aparecia
com a mesma regularidade, era D Amância Sousellas pronta sempre para tudo,
sempre a dizer mal da vida alheia nunca deixando de clamar que os tempos
estavam outros e que hoje em dia os cabras queriam meter o nariz em tudo.
— Também se lhe dão confiança!... disse ela, uma noite, envesgando uma
olhadela indireta sobre Ana Rosa.
A filha de Manuel cruzou instintivamente os braços sobre o ventre.

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