Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
quan alinis! Por que chora?. . Diga. .
Ana Rosa tremia.
— Vamos! Não chore e abra-me o coração... Vai responder-me, como se
estivesse falando com o próprio Deus, que tudo escuta e perdoa. Faça o sinal da
cruz
Ela obedeceu.
— Diga-me, minha afilhada, não se tem ultimamente descuidado da
religião?...
— Não senhor, balbuciou Ana Rosa por detrás do lenço.
—Tem rezado todas as vezes que se deita e todas as vezes que se
levanta?...
—Tenho, sim senhor...
— E nessas rezas não promete obedecer a seus pais?...
— Prometo, sim senhor...
— E tem cumprido?
— Tenho, sim senhor.


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— E sente a sua consciência tranqüila? acha que tem cumprido, à risca, tudo
o que prometeu a Deus. e tudo o que lhe manda a Santa Madre Igreja?...
Ana Rosa não respondeu.
— Então!. . Vamos... disse o padre com brandura. Não tenha medo!... Isto é
apenas uma conversa que a senhora tem com a sua própria consciência, ou com
Deus, que vem a dar na mesma... Conte-me tudo!... Abra-me seu coração!... Fale.
minha afilhada!.. Aqui, eu represento mais do que seu pai; se fosse casada - mais do
que seu marido! sou o juiz, compreende, represento Cristo! - represento o tribunal do
céu! Vamos, pois, conte-me tudo com franqueza; conte-me tudo, e eu lhe
conseguirei a absolvição!... eu pedirei ao Senhor Misericordioso o perdão dos seus
pecados!...
— Mas o que lhe hei de eu contar?...
E soluçava.
— Diga-me: o que é que ultimamente a tem posto triste?... Sente-se possuída
de alguma paixão, que a atormenta?... Diga.
— Sim, meu padrinho, respondeu ela, sem levantar os olhos.
— Por quem?
— Vossemecê já sabe por quem é...
— Pelo Raimundo...
A moça respondeu com um gesto afirmativo de cabeça
— E quais são as suas intenções a esse respeito?
— Casar com ele..
— E não se lembra com isso, ofende a Deus por vários. Ofende, porque
desobedece a seus pais; ofende porque agasalha no seio uma paixão reprovada por
toda a sociedade e principalmente por sua família; e ofende, porque com
semelhante união, condenará seus futuros filhos a um destino ignóbil e acabrunhado
de misérias! Ana Rosa, esse Raimundo tem a alma tão negra como o sangue! além
de mulato, é um homem mau sem religião, sem temor de Deus! É um - pedreiro livre!
- é um ateu! Desgraçada daquela que se unir a semelhante monstro!... O inferno ai
está, que o prova! o inferno ai está carregado dessas infelizes, que não tiveram,
coitadas! um bom amigo que as aconselhasse, como te estou eu aconselhando
neste momento!... Vê bem! repara, minha afilhada, tens o abismo a teus pés! mede,
ao menos, o precipício que te ameaça!... A mim, como pastor e como padrinho,
compete defender-te! Não cairás, porque eu não deixo!
E, como a rapariga mostrasse um cerro ar de dúvida, cônego abaixou a
cabeça, e disse misteriosamente:
— Sei de coisas horrorosas, praticadas por aquele esconjurado!... Não é
somente o fato de cor o que levanta a oposição do teu pai... (Ana Rosa fez um gesto
de surpresa). Saberás, porventura, o que precedeu ao nascimento daquele homem;
saberás como veio ele ao mundo?!.. (E, alterando a voz, para um tom sinistro):
Horrible dictu!.. É filho de um enxame de crimes e vergonhas!... Aquilo é o próprio
crime feito gente!... E um diabo! E o inferno em carne e osso! Não te diria isto, minha


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filha, se assim não fosse preciso; sabe, porém, que ele, se quer casar contigo, é
porque tem a teu pai ódio de morte e pretende vingar-se do pobre homem na pessoa
da filha!...
— Mas do que quer ele vingar-se de papai?...
— Do quê?... De muitas e muitas coisas, que lhe não perdoa!... São segredos
de família, que ainda és muito criança para conhecer e Julgar!... Mas um dos
motivos é, digo-te aqui no sagrado sigilo do confessionário, o fato de haver teu pai
herdado consideravelmente do irmão!...
— Não é possível! exclamou Ana Rosa, tentando erguer-se.
— Menina! repreendeu o cônego, obrigando-a a ficar ajoelhada. Reze já!
incontinente, para que Deus se compadeça de tamanho desatino! De joelhos,
pecadora! que és muito mais culpada do que eu supunha!
A moça caiu de joelhos, tonta sob o bombardear daquelas imprecações, e
gaguejou: o confliteou, batendo muito no peito na ocasião de dizer o “Por mea culpa!
mea máxima culpa! E depois calaram-se ambos, por um instante.
— Então?... disse afina o padre, tornando à primitiva brandura. Ainda está na
mesma ou já entrou a razão nessa cabecinha?... Fale minha afilhada!
— Não posso mudar de resolução, meu padrinho...
— Ainda pensa em casar com. ?
— Não posso deixar de pensar... creia!
O padre velho levantou-se tragicamente, fechou as sobrancelhas e ergueu o
braço como um profeta.
— Pois então, declamou, sabe, infeliz, que sobre ti pesara a maldição eterna!
sabe que tenho plenos poderes de teu pai para retirar-te a sua bênção! sabe que...
Foi interrompido por um “Ai” de Ana Rosa que perdia os sentidos, caindo a
seus pés.
Ora bolas! resmungou ele, entre dentes.
E saiu do confessionário, para assentar a afilhada num dos longos bancos de
madeira preta, que havia ali junto.
Felizmente não era nada. A rapariga deu um profundo suspiro e encostou a
cabeça ao colo do padrinho, chorando em silêncio de olhos fechados.
Ele ficou algum tempo a contemplá-la naquela posição, que a fazia mais
bonita, e, perdido em saudosas reminiscências da sua mocidade, admirava a curva
macia dos seios, palpitantes, sob a compressão . da seda, a brancura mimosa das
faces, a engraçada harmonia das feições. “Ó têmpora! Ó mores!...” disse consigo e
depô-la, carinhosamente, contara o alto espaldar do banco.
— Vamos. continuou, quase em segredo, como um amante sequioso pelas
pazes, depois de um arrufo. Vamos.. não seja teimosa...
Não se faça má... Ponha-se bem com Deus e comigo...
— Se para isso, balbuciou Ana Rosa, sem abrir os olhos, é preciso desistir do
casamento, não posso...


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— Mas por que não podes, minha tolinha?... insistiu o confessor, tomando-lhe
as mãos com meiguice. - Hum?... por que não podes?...
— Porque estou grávida! respondeu ela, fazendo-se escarlate e cobrindo o
rosto com as mãos.

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