Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
CAPÍTULO XVI
A casa particular de Manuel Pescada tinha, pelo menos em aparência,
recaído no seu primitivo estado de paz e esquecimento. Tanto ai como pela cidade,
já bem pouco se falava de Raimundo.
Ele, ao sair do quarto da amante havia reformado seu programa de vida. No
mesmo dia partiu para Rosário; foi visitar a mãe, na esperança de trazê-la em sua
companhia para a capita e viver ao lado dela, mas Domingas não se deixou apanhar
e o infeliz teve de voltar só.
Instalou-se no Caminho Grande, numa casinha velha, escondido como um
criminoso de morte. Daí com muita dificuldade, escreveu uma carta a Ana Rosa,
confiando-lhe os seus projetos; a carta terminava assim: “O melhor é deixarmos que
tudo serene completamente e que de todo se esqueçam de nós, e então eu te
aparecerei na noite que combinarmos e poremos em prática o plano exposto no
começo desta. Quanto a teu pai, só me entenderei com ele, no dia em que esse
teimoso estiver resolvido a perdoar o genro e a filha. Adeus. Não desanimes e tem
plena confiança no teu noivo extremoso. - Raimundo.”
Com essa missiva Ana Rosa tranqüilizou-se tanto, que procurou dissuadir o
cônego da idéia da tal confissão. “No fim de contas, se era pecadora, fora-o
premeditadamente e não se arrependia. A consciência dizia-lhe que o casamento
resgatava a sua falta. Dindinho, por conseguinte, que tivesse paciência, ela não
sentia necessidade de perdão!...” Raciocinando deste modo, falou com franqueza ao
padre e retirou a promessa que lhe fizera; mas o reverendo repontou, ameaçando-a
com uma denúncia a Manuel. A rapariga chegou a suspeitar que o padrinho sabia de
tudo, e amedrontou-se.
— Mas, dindinho, vossemecê embirrou com este negócio da confissão!...
O cônego assentou os olhos no teto, à mingua de céu, e, recorrendo aos
efeitos artísticos da sua profissão, desenrolou uma prática, que terminava no
seguinte:
— Malos tueri haud tutum. Não sabes porventura, pecadora, vítima inocente
de tentações diabólicas! que eu devo à minha consciência e a Deus duplas contas
do que faço cá na terra?... Não sabes, minha afilhada, que todo sacerdote caminha
neste vale de lágrimas entre dois olhos perspicazes e penetrantes, dos juizes
austeros e inflexíveis, um chamado — Deus, e outro — Consciência?... Um que olha
de fora para dentro, e outro de dentro para fora?... E que o segundo é o reflexo do
primeiro, e que, satisfeito o primeiro, o segundo está também satisfeito?... Não
sabes que terei um dia de prestar contas dos meus atos mundanos, e que,
percebendo agora que uma ovelha se desgarra do rebanho e arrisca perder-se do
caminho da luz e da pureza, é de minha obrigação, como pastor, correr em socorro
da desgraçada e guiá-la de novo ao aprisco, ainda que se faça preciso a
violência?... Por conseguinte, filha de Eva, vem à igreja! vem! confessa-te ao
sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo! abre tua alma de par em par defronte dele
que teu coração se fechará logo aos imundos apetites da carne! Abraça-te, como
Madalena, aos pés do representante de Deus, até que este último se compadeça de
ti, pecadora! Deum colenti stat sua merces!
E o cônego ficou ainda um instante a olhar para o teto com os braços
erguidos e os olhos em branco.


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— Pois bem Dindinho, pois bem! disse Ana Rosa, impressionada. E
desarmou sem cerimônia a posição extática do padre. — Irei a tal confissão, mas
deixe-se dessas coisas e não esteja a falar desse modo, que isso me faz mal aos
nervos! Bem sabe que sou nervosa.
Ficou resolvido que a missa encomendada por Maria Bárbara seria no
primeiro domingo do seguinte mês, e que Ana Rosa iria à confissão.
Mônica, sempre desvelada e extremosa por sua filha de leite, iniciara-se nos
segredos desta e, como era lavadeira, todas as vezes que ia à fonte, dava um pulo à
casa de Raimundo para trazer noticias dele a laiá.
Uma noite o cônego Diogo, envolvido na sua batina de andar em casa
debruçado sobre uma velha mesa de pau-santo, com os pés cruzados sobre um
surrado couro de onça, ainda do tempo do Rosário, a cabeça engolida num
trabalhado gorro de seda, primorosamente bordado pela afilhada, lia, defronte do
seu candeeiro, um grosso volume de encadernação antiga, em cujo frontispício
estava escrito: “História Eclesiástica. Tomo undécimo. Continuação dos séculos
cristãos ou História do Cristianismo nos seus estabelecimentos e progresso: Que
compreende desde o ano de l700 até o atual Pontificado de N.S.P. Pio VI. Traduzida
do espanhol. Lisboa. Na Tipografia Rolandina, l807. Com a licença da mesa do
desembargo do Paço.” O bom velho perdia-se numas descrições enfadonhas sobre
a seita dos Pietistas, fundada nos fins do século XVIII por Spener, cura de Francfort,
quando bateram à porta do seu gabinete três pancadinhas discretas e
compassadas. Marcou logo o livro, com o palito com que escarafunchava os dentes,
e foi abrir.
Era o Dias. Estava cada vez mais magro e mais bilioso, porém com a figura
mascarada sempre por aquele inveterado sorriso de astuciosa passividade.
— Venho incomodá-lo, senhor cônego...
— Essa é boa!... Vá entrando.
E, como a visita não se animasse a falar, acrescentou depois de uma pausa:
— Mandou a carta que lhe dei?...
— Já ele a tem no papo. Atirei-a eu mesmo pelas rótulas da sua janela, na
véspera do tal embarque!
— Já descobriu onde ele mora presentemente?
— Ainda não consegui, não senhor, mas quer me parecer que o patife se
aninha lá pras bandas do Caminho Grande.
— Olho vivo. O traste pode surgir de repente e pregar-nos alguma partida!
— Olho vivo! Você tem feito o que lhe recomendei?
— A que respeito?
— A respeito da espionagem.
— Tenho, sim senhor.
— Então! o que já descobriu?
— Por hora nada que valha... E creia o senhor cônego que não me descuido.
Além daquela busca que dei no dia de São João, não há instantinho, que possa
roubar ao serviço, que não seja para dar fé do que se passa lá por casa. Mas, do
que tenho apanhado, só o que me disse respeito ao negócio foi uma conversa entre
a D. Anica e a velha...
— A Bárbara?


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— Sim senhor.
— E então?
— É que a pequena, depois de pedir muito à avó que se compadecesse dela
e obtivesse do pai liberdade para se casar com o cabra, abriu a chorar e a
lamentar-se como uma varrida! E “que era muito desgraçada; que ninguém em casa
a estimava; que todos só queriam contrariá-la... E porque faria isto, e porque faria
aquilo!...”
— Mas o que dizia ela que faria?... Ora que diabo de maneira tem você de
contar as coisas!...
— Tolices, senhor cônego, tolices de moça... Que se matava! Ou que fugia!
que se meda a freira!... E porque o casamento pra cá! e porque o casamento pra lã!
Enfim, queria dizer na sua, que uma mulher nunca devia casar obrigada! Afina!,
atirou-se aos pés da avó, soluçando e dizendo que, se não a deixassem casar com
o Raimundo, que ela não responderia por si!...
— Então, a velha já sabe que o Raimundo ficou?...
— Parece. A rapariga, pelo menos, disse que a avó, junto com o pai, haviam
de amargar muito desgosto por mor de não consentirem no casamento!...
— E o que fez ela?
— Quem, a pequena?
— Não, a velha.
— A velha enfezou-se e pô-la do quarto pra fora, jurando que antes queria
vê-la estrada debaixo da terra do que casada com um cabra, e que, se o patrão...
— Que patrão senhor?
— Seu Manuel, o pai!
— Ah! o compadre.
— Sim senhor Mas sim, se o patrão, por qualquer aquela, cedesse, ela é que
não consentiria no casamento da neta, e romperia com o genro!
— Bom, bom! Vamos bem! E a rapariga?
— Ora, a rapariga lá se foi choramingando para o quarto e, se me não
engano, meteu-se a rezar.
— Reza, hein?! perguntou o cônego com interesse.
— E! ela reza mais agora...
— Muito bem! muito bem! Vamos maravilhosamente!
— E está toda cheia de abusões... Ainda outro dia, dei fé que ela pendurava
alguma coisa no poço; logo que pude, corri para ver se descobria o que vinha a ser.
Ora o que pensa vossemecê que era?...
— Um Santo Antônio.
— Justo. Em um Santantoninho assinzinho!... confirmou o Dias, marcando
uma polegada no Index.
— Bem! disse o cônego. Continue a espreitar. Mas... todo cuidado e pouco!
Que ninguém perceba!... principalmente minha afilhada, compreende?... Se
descobrem que você anda farejando, está tudo perdido!... Finja-se tolo!... Tenha fé
em Deus! E animo! Quando apanhar qualquer novidade, apareça-me fogo! Não
deixe de espiar! lembre-se de que a arma com que havemos de esmagar o bode,
ainda está nas mãos dele!...
— Ora, senhor cônego, mas eu já vou perdendo a fé!... Confesso-lhe que...
— Não seja idiota, que você não tem razão nenhuma para desanimar! trate,
mas é de ver se descobre alguma coisa, porem coisa grossa, que dê para agarrar,
porque depois o mais fácil é o seu casamento! Olhe! Preste atenção para quem
entra e para quem sai! Se eles ainda não se correspondem, o que duvido, virão a


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correspondem-se mais tarde! em todo o caso, é prudente não recorrer por ora as
cartas - deixe-os escrever, deixe-os escrever, que lhe direi quando é que você terá
de apoderar-se de alguma delas. A fruta, para ser aproveitável, deve ser colhida de
vez!...
— Bem, senhor cônego posso retirar-me?...
— Viva!
— Então, vou-me chegando.
— Sim Félix!
— Como? perguntou o Dias, voltando-se.
— Não se descuide. Vá!
O caixeiro fez uma mesura e saiu Diogo fechou a porta e tomou à sua História
Eclesiástica, até que a caseira Inácia foi chamá-Io para a ceia. Então, depois de
abaixar a luz do candeeiro, passou-se à varanda e assentou-se, pachorrentamente,
defronte de uma tigela de canja. Veio logo um gato maltês, gordo, grande,
encarapitar-se-lhe nas cosas, miando ternamente e voltando para ele a sua
fosforescente pupila, que lhe suplicava carícias.
Dir-se-ia que naquele canto, modesto e asseado, reinava a paz abençoada
dos justos.
No domingo seguinte a Sé chamava para a missa, com um alegre repinicar de
sinos. Era a promessa de D. Maria Bárbara.
Havia grande afluência do povo. As beatas subiam piedosamente os
arruinados degraus do átrio e iam, de cabeça vergada, ajoelhar-se no corpo principal
da igreja. Sentia-se o frufru de vetustas e farfalhudas saias de chamalote,
restauradas com chá-preto, o estalar de fortes chinelas novas na sonora cantaria do
templo, e o tilintar das contas de coco babaçu, cujos rosários deslizavam entre os
trêmulos dedos das velhas, no fervoroso sussurro das orações. Viam-se-lhes as
camisas de cabeção bordado e cheias de rendas e labirintos; destacavam-se
também grandes toalhas de linho branco, penduradas dos ombros carnudos das
cafuzas e mulatas; reluziam os seus enormes pentes de tartaruga, enfeitados de
ouro, e as contas preciosas, que lhes circulavam, com muitas voltas, as tocinhudas
espáduas e as roscas taurinas do cachaço. Em cima, perto do altar-mor, em lugares
privilegiados, sobressaiam chapéus enfeitados de fitas e plumas, leques irrequietos,
que se agitavam desordenadamente, com um ruído casquilho de varetas batendo de
encontro aos broches e alfinetes de peito, numa confusão de cores espantadas;
eram devotas de fino trato, velhas e moças ostentavam jóias vistosas e perfumes
ativos segurando, com luva Horas Marianas encadernadas de marfim, veludo, prata
e madrepérola.
Recendia por toda a catedral um aroma agreste de pitangueira e trevo
cheiroso. Pela porta da sacristia lobrigavam-se de relance padrecos apressados, que
iam na carreira, vestindo as suas sobrepelizes dos dias de cerimônia. Havia na
multidão um n mor impaciente de platéia de teatro. O sacristão, cuidando dos
pertences da missa, andava de um para outro lado, ativo como um contra-regra,
quando o pano de boca vai subir.
Afinal, à deixa fanhosa de um padre muito magro que, aos pés do altar
desafinava uns salmos da ocasião, a orquestra tocou a sinfonia e começou o
espetáculo. Correu logo o surdo rumor dos corpos que se ajoelhavam; todas as
vistas convergiam para a porta da sacristia; fez-se um sussurro de curiosidade, em
que se destacavam ligeiras tosses e espirros; e o cônego Diogo apareceu, como se


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entrasse em cena, radiante, altivo senhor do seu papel e acompanhado de um
acólito que dava voltas frenéticas a um turibulo de metal branco.
E o velho artista, entre uma nuvem de incenso, que nem um deus de mágica,
e coberto de galões e lantejoulas, como um rei de feira, lançou, do ato da sua
solenidade, um olhar curioso e rápido sobre o público, inadiando-lhe na cara esse
vitorioso sorriso dos grandes atores nunca traídos pelo sucesso.
Com efeito, os espectadores adoravam-no, posto que ele agora raras vezes
trabalhasse; mas nessas poucas, em que se dignava mostrar-se por
condescendência a uma velha amiga, como naquela ocasião, o seu triunfo era
esplêndido e certo. Vinha gente de longe para vê-lo; para admirar a imponência, a
gentileza daquele porte de homem. Incomodaram-se muitas pessoas para não
perder aquela missa; sexagenárias do seu tempo mandaram espanar o palanquim,
havia longos anos esquecido debaixo da escada, e espantaram a vizinhança com
uma saída à nua; e ali, esses duros corpos encarquilhados, que envelheceram com
Diogo, pareciam reviver por instantes, como cadáveres sujeitos a uma ação
galvânica, e, trêmulos, mordiam o beiço roxo e franzido, palpitante de recordações.
Em caminho para o altar, o exímio artista olhou para os lados, falou em voz
baixa aos seus ajudantes, e encarou a platéia com um sorriso de discreta soberania;
mas de súbito o seu sorriso dilatou-se numa feição mais acentuada de orgulho: é
que distinguira Ana Rosa, entre as devotas, ajoelhada num degrau da nave, de
cabeça baixa, o ar contrito, a rezar freneticamente ao lado da avó.
Os turíbulos fumegaram com mais força; espirais de incenso
espreguiçaram-se, dissolvendo-se no espaço; o ambiente saturou-se de perfumes
sacros, e enervantes, e as mulheres, todas, se contraíram preparadas para místicos
enlevos. O celebrante chegara enfim ao altar, depois de ajoelhar-se de leve, como
fazendo uma mesura apressada, defronte dos santos grandes, aprumados nos seus
tronos de brocados falsos. Os janotas, separados do altar-mor por uma grade de
madeira preta, tiraram da algibeira, com a ponta dos dedos, o lenço almiscarado e
ajoelhavam-se sobre ele, numa atitude elegante. As moças escondiam a boca no
livrinho das rezas e passeavam furtivamente o olhar para o lado dos fraques pretos.
Os que até ai estiveram ajoelhados, rezando à espera da missa, mudavam de
posição; os opulentos quadris das pretas-minas rangiam; os ossos dos velhos
estalavam; criancinhas soltavam aclamações de aplauso pela festa, algumas
choravam. Mas, finalmente, tudo tomou um sossego artificial; fez-se silêncio, e a
missa principiou solene, ao som do órgão.
Ao repicarem de novo os sinos, toda a gente se levantou com algazarra; os
rapazes endireitavam as joelheiras das calças; as moças arranjavam os pufes e os
laçarotes; as beatas sacudiam as suas eternas saias, agora entufadas pela pressão
dos joelhos. A orquestra tocou uma música profana, alegre como uma farsa depois
de um drama; e o cônego Diogo, na sacristia, tirava o seu pitoresco vestuário de
seda bordada, que o sacristão recolhia religiosamente nas suas mãos de tísico, para
guardar nos extensos gavetões de pau-negro.
O povo, confortado de religião, mas estalando pelo almoço espremia-se
sôfrego pelas largas portas da matriz. Mendigos, alinhados à saída, pediam, com
chorosa insistência, uma esmola pelo amor de Deus ou pelas divinas chagas de
Nosso Senhor Jesus Cristo; as devotas desapareciam pelo largo, ligeiras como
baratas perseguidas; algumas senhoras, no vestíbulo, arejavam-se ao sol,
esperando quem lhes dizia respeito e conversando garrulamente sobre o bom
desempenho da missa sobre a excelência das vozes, a riqueza da roupa do padre e
da toalha do altar e sobre a boa observância das cerimônias. Tudo agradara.


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A igreja estava quase vazia. D. Maria Barbara e a neta esperavam pelo herói
da função.
— Cá está sua afilhada, senhor cônego! Comungue-a; veja se lhe arranca o
diabo de dentro do corpo! disse a velha ao vê-lo.
E, falando-lhe mais baixo, pediu-lhe com interesse que a aconselhasse bem;
que lhe sacasse da cabecinha a idéia do tal cabra. E afinal afastou-se, traçando no
espaço uma cruz na direção da neta.
— Vai! Deus te ponha virtude, que mau coração não tens tu, minha
estonteada!
E saiu, para esperá-la na sala do cortador Benedito, que nessa ocasião
aparecia trazendo um carro da cocheira do Porto.
O cônego Diogo calculara bem A encenação da missa, os amolecedores
perfumes da igreja, o estômago em jejum, o venerando mistério dos latins, o
cerimonial religioso, o esplendor dos altares, as luzes sinistramente amarelas dos
círios, os sons plangentes do órgão, impressionariam a delicada sensibilidade
nervosa da afilhada e quebrantariam o seu animo altaneiro, predispondo-a para a
confissão. A pobre moça considerou-se culpada; pela primeira vez, entendeu que
era um crime o que havia praticado com Raimundo. sentiu minguar-lhe aquela
energia de aço, que lhe inspirara o seu amor, e, ao terminar a missa, quando a avó a
depusera nas mãos do velho lobo da religião, a sua vontade era chorar.
Ajoelhou-se, muito comovida, na cadeira, junto ao confessionário e gaguejou,
quase sem fôlego, o confliteou. Mas, à proporção que rezava, os seus sentidos
embaciavam-se por um acanhamento espesso
— Vamos... disse-lhe o padrinho quando ela terminou a oração. Não tenha
receios, minha filha!. Confie em mim, que sou seu amigo... Plus videas tuis oculis

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