Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
— Suaviter in modo,fortiter in re!...
O outro calou-se logo, e prestou-lhe toda a atenção; conversaram uma boa
hora, em voz baixa, parados a uma esquina do Largo do Palácio, combinando sobre
o que melhor convinha fazer.
— Adeus, disse afinal o cônego. Não se esqueça, hein? E observe bem tudo
o que ela responda
— Você aparece por lá?
— Logo depois do almoço.
E, ambos cabisbaixos, cada qual tomou o seu rumo.
Comentava-se já o fato na Praça do Comércio e na Rua de Nazaré.
Manuel chegou a casa e foi atravessando o armazém.


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— O doutor Raimundo esteve ai em cima? perguntou ele ao Cordeiro.
— Esteve, sim senhor. porém já saiu. Metia-se no carro, justamente quando
eu chegava da cobrança.
— Há muito tempo?
— Há coisa de meia hora pouco mais ou menos.
— Vocês já almoçaram?
— Já, sim senhor.
— Bem! Diga ao seu Dias, quando vier, que não se esqueça de tirar aquelas
contas correntes do interior; e você vá à alfândega e veja se no manifesto do
Braganza estão aqueles fardos de estopa, número l05 a ll0. Olhe, tome o
conhecimento.
E passou-lhe um quarto de papel azulado, impresso. Depois ia subir, mas
voltou ainda.
— Ah! é verdade! seu Vila Rica!
— Senhor!
— O pequeno está aí?
— Não senhor, foi ao tesouro.
— Aviaram-se já aquelas encomendas de Caxias?
— Já estão duas caixas de chitas arrumadas. O vapor só sai depois de
amanhã.
— Bom...
E Manuel pensou um pouco.
— Ah! Sabe se seu Cordeiro despachou os fósforos?
— Ainda não senhor, porque o conferente, que está nos despachos sobre
água, não os pôde fazer ontem.
— Bem, diga ao Cordeiro que veja se acaba com isso hoje.
E o negociante subiu afinal.
A varanda estava deserta. Maria Bárbara rezava no seu quarto, agradecendo
a Deus e aos santos a suposta partida de Raimundo. Manuel tomou seu cálice de
conhaque ao aparador, e dirigiu-se depois para a cozinha.
— Que é de Anica?
— Está no quarto, deitada.
— Doente?
— Sim senhor, com febre.
— Que tem ela?
— Não sei, não senhor...
Manuel bateu à porta da alcova de Ana Rosa. Veio ela mesma abrir, muito
pálida, e voltou logo, para se meter de novo na rede.
— Que tens tu, Anica?
— Não estava boa!... Nervoso!...
Mas não encarava com o pai, e suspiros estalavam-lhe na garganta


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Manuel assentou-se pesadamente nu na cadeira, junto dela limpando com o
lenço o rosto, o pescoço e a cabeça.
— Recomendações do Mundico! disse no fim de um silêncio,
disfarçadamente.
— Como?! exclamou Ana Rosa, soerguendo-se em sobressalto e ferrando no
pai o mais estranho e doloroso olhar
— Foi-se! explicou Manuel 0 vapor deve estar saindo neste momento. Lá
ficou ele a bordo! Coitado! talvez seja feliz na Corte!...
— Miserável bradou a moça, com um grito desesperado
E deixou-se cair para trás, na rede, a estrebuchar.
— Bonito! Ana Rosa! Então que é isto, minha filha?.. gritava Manuel,
procurando conter lhe os movimentos crônicos. D. Maria Bárbara! Brígida! Mônica!
O quarto encheu-se. Escancararam-se a porta e as janelas; vieram os sais e
o algodão queimado. Mas, só depois de grandes lutas, a histérica quebrou de forças
e pôs-se a soluçar, extenuada e arquejante. Manuel, todo aflito, não sossegava, de
um para outro lado, na ponta dos pés, falando em voz discreta, indo de vez em
quando ao corredor corredor se o cônego já tinha chegado, e voltando sempre a
coçar a nuca, o que nele indicava extrema perplexidade.
— Vossemecê já quer almoçar? perguntou-lhe a Brígida,
— Vai para o diabo!
O cônego chegou afina, ao meio-dia, com um ar muito tranqüilo de boa
digestão; o palito ao canto da boca
— Então?... informou-se ele de Manuel, levando-o misteriosamente para um
canto da varanda.
— Foi o diabo... seu compadre! A pequena, logo que ouviu a peta, caiu-me
com um ataque; e agora o verás! gritou e estrebuchou por um ror de tempo, até que
lhe vieram os soluços! Um inferno!
— E agora? Como está ela?
— Mais sossegadinha, porém suponho que vai ter febre... Eu não quis
chamar o medico, sem falar primeiro com você...
— Fez bem.
E o cônego recolheu-se a meditar.
— Com os demos!... resmungou por fim. A coisa estava muito mais adiantada
do que eu fazia...
— E agora?
— Agora, é dizer-lhe a verdade!... O que eu queria era saber em que pé
estava a questão... Ela se supõe traída e, para supor tal, é preciso que tenha
concertado algum plano com o melro... E eis justamente o que convém destruir
quanto antes!...
E, depois de uma pausa:


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— Aquela indiferença pela retirada de Raimundo era devida à certeza do
contrário...
Calou-se e perguntou daí a um instante:
— Ela acreditou logo no que você disse?
— Logo, logo! gritou: “Miserável!” e zás! caiu com o ataque!
— E singular...
— O quê?
— Ter acreditado tão facilmente... mas, enfim... conte-se-lhe a verdade!. ..
— Então, espere um instantinho, que...
— Não senhor, venha cá, compadre, vou eu; a mim talvez que a pequena
diga tudo com mais franqueza.
E, inspirado por uma idéia, voltou-se para Manuel:
— Olhe! você, o melhor é fingir que não sabe de coisa alguma...
compreende?
— Como assim?
— Não se dê por achado... finja que estás deveras persuadido da partida de
Raimundo.
— Para quê?
— É cá uma coisa...
E o cônego, revestindo um ar consolador e respeitoso, entrou, com passos
macios, no aposento de Ana Rosa.
A crise tinha cessado de todo; a doente soluçava baixinho, com o rosto
escondido entre dois travesseiros. A boa Mônica, ajoelhada aos pés dela, vigiava-a
com a docilidade de um cão. D. Maria Bárbara assentada perto da rede, exprobrava
a neta, a meia voz, aquele mal cabido pesar por um fato que nada tinha de
lamentável.
— Então, minha afilhada que e isso?... perguntou o padre, passando
carinhosamente a mão pela cabeça da rapariga.
Ela não se voltou; continuava a chorar, inconsolável, assoando de espaço a
espaço o narizinho, agora vermelho do esforço do pranto. Não podia falar, os
soluços secos e muito suspirados, repetiam-se quase sem intervalo. Com um sinal o
cônego afastou Mana Bárbara e Mônica, e, chegando os seus lábios finos ao ouvido
da afilhada, derramou nele estas palavras, doces e untuosas, como se fossem
ungidas de santo óleo:
— Tranqüilize-se... Ele não partiu... está aí... Sossegue...
— Como?
E Ana Rosa voltou-se logo.
— Não faça espalhafato... Convém que seu pai não saiba de coisa alguma...
— Descanse! sossegue! Raimundo não partiu, ficou!
— Vossemecê está me enganando dindinho!...


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— Com que interesse, minha desconfiada?
— Não sei mas...
E soluçou ainda.
— Está bom! não chore e onça o que lhe vou dizer: Saindo daqui, procuro o
rapaz e faço-o ausentar-se por algum tempo, até que as coisas voltem de novo aos
seus eixos; mais tarde ele se mostrará, e então nós trataremos de tudo pelo
melhor... Nec semper lilia florent!...
— E papai?
— Deixe-o por minha conta! fie-se inteiramente em mim! Mas precisamos ter
uma conferência completa, sozinhos, num lugar seguro, onde possamos falar à
vontade. Para ajudá-los preciso pôr-me bem a par do que há! entregue-se pois às
minhas mãos e verá que tudo se arranja com a divina proteção de Deus!... Nada de
desesperos! nada de precipitações!... Calma, minha filha! sem calma nada se faz
que preste!...
E, depois de uma meiguice: — Olhe, venha um dia à Sé, confessar-se
comigo... Sua avó encomendou-me uma missa cantada. Não pode haver melhor
ocasião... Confesso-a depois da missa. Está dito?
— Mas, para quê, dindinho?...
— Para quê?... é boa! para poder ajudá-la,
minha afilhada!...
— Ora...
— Não? pois então lá se avenham vocês dois, mas duvido muito que
consigam alguma coisa!... Se tem confiança em seu padrinho, vá à missa,
confesse-se, e prometo que ficará tudo arranjado!
Ana Rosa tinha já a fisionomia expansiva, sentia vontade até de abraçar o
cônego; aquele bom anjo que lhe trouxera tão agradável notícia.
— Mas não me engane, dindinho!... Diga sério! ele não foi mesmo?
— Já lhe disse que não, oh! Tranqüilize-se por esse lado e venha comigo à
igreja! Tudo se acomodará a seu gosto!
— Jure!
— Ora, que exigência!... que criancice!...
— Então não vou.
— Está bom, juro.
E o cônego beijou os indicadores, traçados em forma de cruz sobre seus
lábios.
— E agora? está satisfeita?
— Agora sim.
— E vai à confissão?
— Vou.
— Ainda bem!


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