Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
CAPÍTULO XV
O paquete havia entrado, na véspera, às duas horas da tarde, fundeando com
um tiro, a que todo o litoral da cidade respondeu com um grito alegre de “chegou
vapor!” e, desde esse momento, Ana Rosa possuíra-se de um sobressalto constante
que a punha enferma; sabia que nele se iria Raimundo, para sempre. “Raimundo,
que ela tanto amara e tanto desejara!... Todavia, era preciso deixá-lo partir, sem uma
queixa, sem Uma recriminação, porque todos, até o próprio ingrato, assim o
entendiam!... E que loucura de sua parte estar ainda a pensar nessas coisas!... Pois
já não estava porventura tudo acabado?... para que então mortificar-se ainda com
semelhante doidice?...”
Não obstante, preferia perdoar-lhe tudo, antes que ele se partisse para nunca
mais voltar. Passou uma noite horrível à procura de um motivo, um pretexto qualquer
para absolver o amante, sentia Uma irresistível vontade de fazer de si uma vitima
resignada capaz de comover o coração menos humano. Já não o queria; não
contava com ele para mais nada, por Deus que não contava! mas desejava vê-lo
arrependido de tamanha ingratidão humilhado. triste padecendo por fazê-la sofrer
daquele modo e confessando as suas culpas e a sua crueldade.
— Oh! se ele me tivesse dado coragem!... monologava a mísera, o que eu
não faria?... porque o amava muito! muito! Sim! é preciso confessar que o amava
loucamente!... Mas aquele silêncio... Silêncio? Que digo eu?... Desprezo! aquele
desprezo insultuoso por mim, que era toda sua, colocou-o abaixo dos outros
homens! Pois então ele tão nobre tão leal com todos, devia proceder assim
comigo?... Abandonar-me em semelhante ocasião, quando sabia perfeitamente que
eu precisava, mais do que nunca, da sua energia e da sua firmeza?... Desconfiaria
de que não o amava? Não! falei-lhe com tanta franqueza... Ah! e ele sabe
perfeitamente que não se pode fingir o que lhe disse, o que chorei! Sim, tinha plena
certeza, o miserável! o que lhe faltava era amor! Nunca me estimou sequer. Ou
pensaria ele que eu seria capaz como as outras de sacrificar meu coração aos
preconceitos sociais?... Mas, então, por que não me falou com franqueza?... não me
escreveu ao menos?.. não me disse que também sofria e não me deu animo?...
Porque, juro, tivesse-o eu, possuísse-o só meu, como marido, como escravo, como
senhor, a tudo mais desprezaria! Juro que desprezada! Que me importava lá o
resto?! e o que eu não seria capaz de fazer por aquele ingrato, aquele homem mau
e orgulhoso?!
E Ana Rosa soluçava, sem conseguir conciliar o sono.
Às seis da manhã estava de pé e vestida no seu quarto. Manuel tinha saldo a
ir buscar o cônego para o embarque de Raimundo. Maria Barbara, ainda de rede,
preparava os seus cachos de seda, mirando-se num espelho, que a Brígida
segurava com ambas as mãos, ajoelhada defronte dela.
Havia em toda a casa o triste constrangimento dos dias de enterro. Ana Rosa,
ao aparecer na varanda, trazia os olhos muito pisados e a cor desbotada, um ar
geral de fadiga espalhado por todo o corpo e duas rosetas de febre nas faces.
Serviram-lhe uma canequinha de café.
— Onde esta vovó? perguntou ela com a voz fraca.
— Esta lá pra dentro respondeu o moleque cruzando os braços.
— Olha, Benedito! dize-lhe que... Está bom não lhe digas coisa alguma...


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E, arrastando vagarosamente a cauda do seu vestido de cambraia e, dando
as suas tranças castanhas, pesadas e fartas ondulações de cobra preguiçosa, ia
voltar, toda irresoluta, para o quarto, quando se deteve com medo de ficar lã dentro
sozinha com a impetuosidade do seu amor e a feminilidade da sua razão. Agora
causava-lhe terror o isolamento; receava que lhe faltasse coragem para acabar
decentemente com aquilo; desfalecera-lhe de todo a energia, que ela afetara ate aí;
ao contrário da véspera, precisava naquele momento ouvir dizer muito mal de
Raimundo, para poder consentir em perdê-lo, sem ficar com o coração inteiramente
despedaçado. Compreendia que precisava de alguém que a convencesse das mas
qualidades de semelhante impostor, alguém que a persuadisse, por uma vez, de que
o miserável nunca a merecera, de que de fora sempre um indigno; alguém que a
obrigasse a detestá-lo com desprezo, como a um ente nojento e venenoso;
precisava afinal de uma alma caridosa, que lhe arrancasse de dentro, à pura força,
aquele amor, como o medico arranca uma criança a feno.
E no entanto, por mais alto que reclamassem as circunstâncias e por mais
forte que gritasse o raciocínio, seu coração só queria perdoar, e atrair o seu amado e
dizer-lhe francamente que, apesar de tudo, o estremecia ainda como sempre, mais
que nunca! A realidade estava ali a exigir em honra do seu orgulho, que tudo aquilo
se acabasse sem um protesto por parte dela; a exigir que Raimundo partisse, que se
fosse por uma vez e que Ana Rosa ficasse tranqüila, ao abrigo de seu pai, mas uma
voz chorava-lhe dentro, uma voz fraca de órfão desamparado, de criancinha sem
mãe, a suplicar-lhe em segredo, com medo, que não estrangulassem aquele
primeiro amor, que era a melhor coisa de toda a sua vida. E esses vagidos, tão
fracos na aparência, suplantavam a voz grossa e terrível da razão. “Oh! era preciso
ouvir muitas e muitas verdades contra aquele ingrato, para suportar tamanha
provação sem sucumbir! Era preciso que uma lógica de ferro em brasa a
convencesse de que aquele homem mau nunca a amara e nunca a merecera!”
Mandou o escravo chamar a avó. Benedito foi ter com Maria Bárbara; e a
moça ficou só na varanda, encostada à ombreira de uma porta a conter e reprimir
nos soluços os ímpetos dos seus desejos violentados, como se sofreasse um bando
de leões feridos.
Um tropel de passos rápidos, que vinham da escada, sobressaltou-a, ia fugir,
mas Raimundo, aparecendo de improviso, suplicou-lhe com a voz tomada pela
comoção, que o escutasse.
Ana Rosa ficou estática.
— Não nos veremos mais, nunca mais, balbuciou o moço, empalidecendo. O
vapor sai daqui a poucas horas. Lê essa carta, depois que eu tiver partido. Adeus.
Entregou-lhe uma carta e, sentindo que lhe fugia de todo o animo, ia a descer,
muito confuso, quando se lembrou de Maria Bárbara. Perguntou por ela, que acudiu
logo, e ele despediu-se, sem saber o que dizia, gaguejando. Ana Rosa, defronte de
ambos, conservava-se imóvel parecia estonteada, não dava uma palavra, não
respondia, não apresentava uma objeção.
— Adeus, repetiu Raimundo.
E tomou, trêmulo, a mão que Ana Rosa tinha desamparada e mole apertou-a
nas suas com sofreguidão e, sem se importar com a presença de Maria Bárbara,
levou-a repetidas vezes à boca, cobrindo-a de beijos rápidos e sequiosos. Depois


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desgalgou de uma só carreira a escada dando encontrões pela parede e tropeçando
nos degraus.
— Raimundo! gritou a moça com um gemido.
E abraçou-se à avó vibrando toda numa convulsão de soluços.
O rapaz saiu e achou-se no meio da rua, distraído apatetado, sem saber bem
para que lado tinha de tomar. “Ah! precisava ainda fazer algumas compras...” Pôs-se
a aviá-las; nem havia tempo a perder correu às lojas. Mas, independente da sua
vontade e do seu discernimento dentro dele alimentava-se por conta própria, uma
dúbia esperança de que aquela viagem não se realizaria; contava topar com
qualquer obstáculo que a transtornasse; confiava num desses abençoados
contratempos que nos acodem muito a propósito, quando a despeito do coração,
cumprimos o que nos manda o dever. Desejava um pretexto que lhe satisfizesse a
consciência.
Entrou em várias casas, comprou charutos, um par de chinelas, um boné,
mas fazia tudo isto como por mera formalidade, como que para justificar-se aos seus
próprios olhos, cada vez mais abstrato sem prestar atenção a coisa alguma. Foi ao
armazém, em que mandara, logo ao romper do dia, depositar as suas malas;
contava, ao entrar aí, receber a noticia de que elas já lá não estavam, que alguém
as havia reclamado que alguém as roubara, e esta circunstância lhe impediria de
sair por aquele vapor; mas qual! todos os seus objetos se achavam intactos e
respeitosamente vigiados. Mandou carregar tudo para a rampa e seguiu atrás,
esperando ainda que na Agencia lhe dariam a noticia de que a viagem fora
transferida para o dia seguinte.
Pois sim!...
Não havia remédio senão ir. Estava tudo pronto tudo concluído, só `lhe faltava
embarcar. Despedira-se de todos a quem devia essa fineza nada mais tinha que
fazer em tenra; as suas malas estavam já a caminho do cais - era partir!
Senha um terrível desgosto em aproximar-se do mar, e contudo era para lá
que ele se dirigia, vacilante, oprimido. Consultou o relógio, o ponteiro marcava pouco
mais de oito horas e parecia-lhe como nunca disposto a adiantar-se. O desgraçado,
depois disso perdeu de todo a coragem de puxá-lo da algibeira; aquela inflexível
diminuição do tempo o torturava profundamente. “Tinha de seguir! Diabo! Só lhe
faltava meter-se no escaler!... Tinha de seguir! E, daí a pouco estaria a bordo, e o
paquete em breve navegando, a afastar-se, a afastar-se, sem tomar atrás!... Tinha
de seguir! isto é: tinha de renunciar, para sempre a sua única felicidade completa - a
posse de Ana Rosa! lá desaparecer deixá-la, para nunca mais a ver! para nunca
mais a ouvir, abraçá-la possuí-la! Inferno!”
E, à proporção que Raimundo se aproximava da rampa sentia escorregar-lhe
das mãos um tesouro precioso. Tinha medo de prosseguir, parava, respirando alto,
demorando-se, como se quisesse conservar por mais alguns instantes a posse de
um objeto querido, que depois nunca mais seria seu, mas a razão o escoltava com
um bando de raciocínios. “Caminha! caminha pra diante!” gritava-lhe a maldita. E ele
obedecia, de cabeça baixa, como um criminoso. Entretanto, Ana Rosa nunca se lhe
afigurou tão bela, tão adorável, tão completa e tão lhe como naquele momento!
chegou a ter ciúme e a censurá-la do intimo da sua dor, porque a orgulhosa não
correra ao encontro dele, para impedir aquela separação. E ia deixá-la
desamparada, exposta ao amor do primeiro ambicioso que se apresentasse, e a


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quem ela se daria inteira, fiel, palpitante e casta, porque todo o seu ideal era ser
mãe! “Inferno! Inferno!” Inferno!”
Raimundo surpreendeu-se parado na rua, a fazer estas considerações, como
um tonto, observado pelos transeuntes; olhou em tomo de si, e pôs-se a caminhar
apressado, quase a correr, para a rampa de embarque. À medida que se
aproximava do mar, ia avultando ao seu lado o número de carregadores de
bagagens; pretos e pretas passavam com baús, malas de couro e de folha-de-
flandres, cestas de vime de todos os feitios, cofos de pindoba, caixas de chapéu de
pêlo e gaiolas de pássaros. Ele continuava a correr. Todo aquele aparato de viagem
que lhe fazia mal aos nervos. De repente, estacou defronte de um raciocínio, que lhe
puxou aos olhos um clarão de esperanças: “E se o Manuel não tivesse ido ao
cais?... Sim era bem possível que ele, sempre tão cheio de serviço, coitado! tão
ocupado, não pudesse lá ir!... E seria uma dos diabos - partir assim, sem lhe dizer
adeus!...” E, como em resposta à oposição de um estranho, seu pensamento
acrescentou: “Oh! como não? Seria uma dos diabos! O homem podia tomar por
acinte!... supor-me ridículo!... Seria, além disso, uma imperdoável grosseria, uma
ingratidão até! Ele foi receber-me a bordo, hospedou-me no seio da sua família,
cercou-me sempre de mi! obséquios!... Não, no fim de contas devo-lhe muitas
obrigações!... Não é justo que agora parta sem despedir-me dele!...”
Passava um cano vazio. Raimundo consultou rapidamente o relógio.
— Rua da Estrela, número 80, gritou ao cocheiro, atirando-se para cima da
almofada. Toda força! Toda força! Não podemos perder um minuto!
E dentro do carro, impaciente, sentiu uma alegria nervosa, que lhe punha em
vibração todo o corpo; enquanto a unha do remorso continuava a escarafunchar-lhe
a consciência. “Oh! mas seria uma grande falta de minha parte!... respondia ele à
importuna. Pois eu devia sair daqui, para sempre sem me despedir do irmão de meu
pai do único amigo que encontrei na província?... juro que chego lá, despeço-me e
volto incontinente...
E a carruagem voava, soprada pela esperança de uma boa gorjeta.
Ana Rosa, quando tornou a si do espasmo em que a prostara a visita de
Raimundo, chorou copiosamente e depois encerrou-se na alcova com a carta, que
ele lhe dera. Abriu-a logo, mas sem nenhuma esperança de consolo.
Entretanto, a carta dizia:
“Minha amiga,
Por mais estranho que te pareça, juro que te amo ainda, loucamente mais do
que nunca, mais do que eu próprio imaginava se pudesse amar; falo-te assim agora,
com tamanha franqueza, porque esta declaração já em nada poderá prejudicar-te,
visto que estarei bem longe de ti quando a leres Para que não te arrependas de me
haver escolhido por esposo e não me crimines a mim por me ter portado silencioso e
covarde, defronte da recusa de teu pai, sabe minha querida amiga, que o pior
momento da minha pobre vida foi aquele em que vi fugir-te para sempre. Mas que
fazer? - eu nasci escravo e sou filho de uma negra. Empenhei a teu pai minha
palavra em como nunca procuraria casar contigo; bem pouco porém me importava o
compromissos que não teria eu sacrificado pelo teu amor? Ah! mas é que essa
mesma dedicação seria a tua desgraça e transformaria o meu ídolo em minha última
a sociedade apontar-te-ia como a mulher de um mulato e nossos descendentes
teriam casta e seriam tão desgraçados quanto eu! Entendi pois que, fugindo, te daria
a maior prova do meu amor. E vou, e parto, sem te levar comigo, minha esposa


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adorada, entremecida companheira dos meus sonhos de ventura! Se pudesse
avaliar quanto sofro neste momento e quanto me custa a ser forte e respeitar o meu
dever; se soubesses quando me pesa a idéia de deixar-te, sem esperança de tornar
a teu lado—tu me abençoarias, meu amor!
E adeus. Que o destino me arraste para onde se quiser, serás sempre o
imaculado arcanjo a quem votarei meus dias; ser a minha inspiração, a luz da minha
estrada; eu serei bom, porque existes.
Adeus, Ana Rosa.
Teu escravo
Raimundo. “
Ao terminar a leitura, Ana Rosa levantou-se transformada. Uma enorme
revolução se havia operado nela; como que vingava e crescia-lhe por dentro uma
nova alma, transbordante. “Ah! Ele amava-me tanto e fugia com o segredo, ingrato!
Mas por que não lhe dissera logo tudo aquilo com franqueza?...” E saltava pelo
quarto como uma criança, a rir, com os olhos arrasados de água. Foi ao espelho,
sorriu para a sua figura abatida, endireitou estouvadamente o penteado, bateu
palmas e soltou uma risada. Mas, de improviso, lembrou-se de que o vapor podia ter
já partido, estremeceu com um sobressalto, o coração palpitou-lhe forte, com um
aneurisma prestes a rebentar.
Correu à varanda.
— Benedito! Benedito!
Ó senhores! Onde estaria aquele moleque?...
— Que vossemecê queria? perguntou Brígida, com a voz muito tranqüila e
compassada.
— A que horas sai o vapor? perguntou a moça sem tomar fôlego.
— Senhora?
— Quando sai o vapor?!
— Que vapor, sinhá?...
— Diabo! O vapor do Sul!
— Hê! Já saiu, sinhá!
— Hein?! o quê? Não é possível, meu Deus!
E, tremendo por uma certeza horrível, correu ao quarto da avó.
— Sabe se já saiu o vapor, vovó?
— Pergunta a teu pai.
Ana Rosa sentiu uma impaciência medonha, infernal; desceu os primeiros
degraus da escada do corredor disposta a ir ao armazém, mas voltou logo, foi à
cozinha e encarregou a Brígida de saber de Manuel se o vapor havia largado Já.
A criada tornou, dizendo, muito descansada, que “sinhô tinha saldo de
manhãzinha cedo, para o bota-fora de nhô Mundico”.
— Vai para o diabo! gritou Ana Rosa colérica.


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E correu à janela do seu quarto, escancarou-a precipitadamente. O sossego
da Rua da Estrela entorpeceu-a, como o efeito de um jato de água fria sobre um
doente de febre.
Depois, veio-lhe a reação; teve um apetite nervoso de gritar, morder,
agatanhar. Pensou que ia ter um histérico; saiu da janela, para ficar mais à vontade;
deu fortes pancadas frenéticas na cabeça. E sentia uma raiva mortal por tudo e por
todos, pelos parentes, pela casa paterna, pela sociedade, pelas amigas, pelo
padrinho; e assistiu-lhe, abrupto, uma força varonil, um animo estranho, um querer
déspota; pensou com prazer numa responsabilidade; desejou a vida com todos os
seus trabalhos, com todos os seus espinhos e com todos os seus encantos carnais;
sentiu uma necessidade imperiosa, absoluta, de entender-se com Raimundo, de
perdoar-lhe tudo com beijos ardentes, com carícias doidas, selvagens, agarrar-se a
ele, rangindo os dentes, e dizer-lhe cara a cara: “Casa-te comigo! Seja lá como for!
Não te importes com o resto! Aqui me tens! Anda! Faze de mim o que quiserem Sou
toda tua! Dispõe do que é teu!”
Nisto, rodou uma carruagem na Rua da Estrela.
Ana Rosa correu à janela, assustada, palpitante. O carro parou à porta de
Manuel; a moça estremeceu de medo e de esperança, e, toda excitada, convulsa,
doida, viu saltar Raimundo.
— Suba! suba pra cá! disse-lhe ela, já no corredor. Suba por amor de Deus!
Raimundo sentiu as mãos frias da moça prenderem as suas. Gaguejou.
— Seu pai? Não quis partir, sem...
— Entre, entre para cá. Venha! Preciso falar-lhe.
E Ana Rosa puxou-o violentamente. O rapaz deixou-se arrastar; supunha
encontrar-se com Manuel.
— Mas... balbuciava ele confuso, reparando, todo trêmulo, que entrava no
gabinete de sua prima. Perdão, minha senhora, porém seu pai onde está?... Vinha
pedir-lhe as suas ordene...
Ana Rosa correu à porta, fechou-a bruscamente, e atirou-se ao pescoço de
Raimundo.
— Não partirás, ouviste? Não hás de partir!
— Mas...
— Não quero! Disseste que me amas e eu serei tua esposa, haja o que
houver!
—Ah! se fosse possível!...
— E por que não? Que tenho eu com o preconceito dos outros? que culpa
tenho eu de te amar? Só posso ser tua mulher, de ninguém mais! Quem mandou a
papai não atender ao teu pedido? Tenho culpa de que não te compreendam? Tenho
culpa de que minha felicidade dependa só de ti? Ou, quem sabe, Raimundo, se és
um impostor e nunca sentiste nada por mim?...
— Antes assim fosse, juro-te que o desejava! Mas supões que eu seria capaz
porventura de sacrificar-te ao meu amor? que eu seria capaz de condenar-te ao ódio
de teu pai, ao desprezo dos teus amigos e aos comentários ridículos desta província


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estúpida?... Não! deixa-me ir, ridículos desta província estúpida?... Não! deixa-me ir,
Ana Rosa! É muito melhor que eu vá!... E tu, minha estrela querida, fica, fica
tranqüila ao lado de tua família; segue o teu caminho honesto; és virtuosa serás a
casta mulher de um branco que te mereça... Não penses mais em mim. Adeus.
E Raimundo procurava arrancar-se das mãos de Ana Rosa. Ela
prendeu-se-lhe ao pescoço, e, com a cabeça derreada para trás, os cabelos soltos e
dependurados, perguntou-lhe, cravando-lhe de perto o olhar:
— O que há de sincero na tua carta?
— Tudo, meu amor, mas por que a leste antes de eu ter partido?
Então, sou tua! Olha, saiamos daqui! já! fujamos! Leva-me para onde
quiseres! Fazer de mim o que entenderes!
E deixou cair o rosto sobre o peito dele, e abraçou -o estreitamente
Raimundo estava imóvel, medroso de sucumbir, entalado numa profunda
comoção.
— Decide! exigiu ela, soltando-o.
Ele não respondeu. Ofegava.
— Pois olha, se não quiseres fugir, farei acreditar a meu pai que és um
infame! Tens medo, não é verdade? Um pois bem, eu lhe direi tudo que me vier à
cabeça chamarei sobre ti todo o ódio e toda a responsabilidade, meu amor! porque
tu és um homem mau, Raimundo, e meu pai acreditara facilmente que abusaste da
hospitalidade que ele te deu. És um miserável. Sai daqui.
Raimundo precipitou-se contra a porta. Ana Rosa atirou-se-lhe de novo ao
pescoço soluçando.
— Perdoa meu amor! eu não, sei o que estou dizendo! Desculpa-me tudo isto,
meu querido, meu senhor! Reconheço que és o melhor dos homens mas não partas,
eu te suplico pelo que mais amas! Sei ,que é o teu orgulho que me faz mau; tens
toda razão, mas não me abandoes! Eu morreria, Raimundo, porque te amo muito,
muito! e nós mulheres, não temos como tu tens, outras ambições além do amor da
pessoa que idolatramos! Bem vês! Eu sacrifico tudo por ti; mas não partas, tem
piedade! Sacrifica também alguma coisa por mim! não sejas egoísta! não fujas! É o
orgulho! mas que nos importa os outros, procuro agradar! Anda! Leva-me contigo!
Eu desprezarei tudo; mas preciso ser tua, Raimundo, preciso pertencer-te
exclusivamente.
E Ana Rosa caiu de joelhos, sem se desgarrar do corpo dele.
— É uma escrava que chora a teus pés! é uma desgraçada que precisa de
tua compaixão! Sou tua! aqui me tens, meu senhor, ama-me! Não me abandones!
E soluçou, empalmado o rosto com as mãos. Raimundo, procurando erguê-la,
vergava-se todo sobre ela. E o contato sensual daquela carne branca dos braços e
do colo da rapariga, e o sarrafaçar daqueles lábios em brasa, e a proibição de tocar


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em todo aquele tesouro proibido, fustigavam-lhe o sangue e punham-lhe a cabeça a
rodar, numa vertigem.
— Meu Deus! Ó Ana Rosa, não chores! Levanta-te pelo amor de Deus!
Ana Rosa continuava a chorar, e um tremor nervoso percorria o corpo inteiro
de Raimundo. Foi nessa ocasião que a lanchinha do Portal soltou o seu primeiro
sibilo, chamando os passageiros retardados; e aquele grito, penetrante impertinente
chegou aos ouvidos do rapaz, ali, na doce reclusão daquele quarto, como uma nota
destacado do coro de imprecações com o público maranhense, formigando lá fora
nas ruas, aplaudia a sua retirada da província. Ele um relance mediu a situação,
calculou a conseqüências ridículas da sua franqueza, lembrou-se das palavras de
Manuel, e afinal o seu orgulho rebentou com impetuosidade de um temporal.
— Não, gritou, repelindo bruscamente a moça.
Precipitou-se para a saída.
Ana Rosa caiu a meio, amparando-se numa das mãos, mas ergueu-se logo,
tornando-lhe a passagem. Em com um gesto altivo, atravessou-se contra a porta, de
braços abertos, sombraceira, nobre, os punhos cerrados. Estava lívida e
desgrenhada; a boca contraía-se-lhe numa dolorosa expressão de sacrifício e
desespero. Arfavam-lhe as narinas e o seu olhar fulgurava terrível e cheio de
ameaça.
Raimundo conservou-se um instante imóvel e perplexo defronte daquela
inesperada energia.
— Não sairás porque eu não quero! disse ela com a voz estalada e surda.
Não sairás daqui, do meu quarto, enquanto não estivermos de todo comprometidos!
— Oh!
Houve então um silêncio angustioso para ambos. Raimundo abaixou os olhos
e pôs-se a meditar, muito aflito. Parecia arrependido e humilhado pela sua fraqueza.
“Por que voltara?...” Ana Rosa foi ter com ele e passou-lhe meigamente o braço
pelas costas. Era outra vez a mesquinha rola medrosa e comovida.
— Tudo que de bom eu podia fazer para casar contigo, bem sabes que já o
fiz... murmurou ela, agora sem animo de encará-lo. Papai não consentiu, na
esperança de dar-me a outro... E eu não me sujeito a isso!... Hei de esgotar até o
último recurso para continuar a ser só tua, meu amigo! E com essa resolução que te
prendo a meu lado!... Pode ser que isso pareça mau e desonesto, mas juro-te que
nunca defendi tanto o meu pudor e a minha virtude como neste momento! Para
salvar-me tenho por força de fazer-me tua esposa, e só há um meio de conseguir
que o permitam, é tomando-me desvirtuada aos olhos de todos e só aos teus me
conservando casta e pura...
E abaixou as pálpebras, toda ela afogada em pejo. Raimundo não fez o
menor movimento, nem deu uma palavra.
Ana Rosa abriu a soluçar.


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— Agora... podes ir quando quiseres... acrescentou, desligando-se dele.
Agora podes abandonar-me para sempre... fico com a minha consciência tranqüila,
porque lancei mãos de todos os recursos para casar contigo... Vai-te! Nunca pensei
é que, nesta última provação, ainda o covarde fosses tu! Vai-te embora por uma vez!
Deixa-me! - E soluçou forte. - Se mais tarde hei de arrepender-me, é melhor mesmo
que se acabe desde já com isto! Eu sou uma infeliz! uma desgraçada!
E chorava.
Raimundo puxou-a carinhosamente para junto dele; afagou-a, chamando-lhe
a cabeça para seu peito.
— Não chores, disse-lhe. Não te mortifiques desse modo...
— Mas não é assim?... queixava-se a mísera, com o rosto escondido no colo
do moço. Por uma outra que não te merecesse mais, farias tudo!... Tola fui eu em
confessar que te amo tanto, ingrato!... Tu não merecias a metade do que fiz por ti!
És um fingido!
E soluçava, mais e mais, como uma criança magoada. O rapaz abraçou-se
com ela e beijou-a repetidas vezes, em silêncio.
— Não chores, minha flor... segredou-lhe afinal. Tens toda a razão...
perdoa-me se fui grosseiro contigo! Mas que queres? todos nós temos orgulho, e a
minha posição ao teu lado era tão falsa!... Acredita que ninguém te amará mais do
que te amo e te desejo! Se soubesses, porem, quanto custa ouvir cara a cara: “Não
lhe dou minha filha, porque o senhor é indigno dela, o senhor é filho de uma
escrava!” Se me dissessem: “É porque é pobre!” que diabo! - eu trabalharia! se me
dissessem: “ porque não tem uma posição social!” juro-te que a conquistaria, fosse
como fosse! “Porque é um infame! um ladrão! um miserável!” eu me comprometeria
a fazer de mim o melhor modelo dos homens de bem! Mas um ex-escravo, um filho
de negra, um — mulato! — E, como hei de transformar todo meu sangue, gota por
gota? como hei de apagar a minha história da lembrança de toda esta gente que me
detesta?... Bem vês, meu amor, tenho posição definida, não me faltam recursos para
viver em qualquer parte, jamais pratiquei a mínima desairosa, que me envergonhe; e
no entanto nunca serei feliz porque só tu es a minha felicidade e eu nada devo
esperar de ti! Ah, se soubesses, Ana Rosa, quanto doem estas verdades...
perdoarias todo o meu orgulho, porque o orgulho de cada homem de bem esta
sempre na razão do desprezo que lhe votam!
Ana Rosa bebeu-lhe, boca a boca estas últimas pala vras.
— Entretanto... prosseguiu ele, vencido de todo, já não tenho coragem para
deixar-te!...— E abraçavam-se. — Como poderei, de hoje em diante, viver sem ti,
minha amiga minha esposa, minha vida?... Dize! fala! aconselha-me por piedade,
porque eu já não sei pensar!...
Um novo assobio de bordo veio interrompê-lo.
— Não ouves, Ana Rosa?... O vapor está chamando...
— Deixa-o ir meu bem! tu ficas...


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E os dois estreitaram-se, fechados nos braços um do outro, unidos os lábios
em mudo e nupcial delírio de um primeiro amor.
Não obstante Manuel e o cônego ainda se deixavam ficar na guardamoria,
depois da decepção da última carruagem.
— Cachorro! exclamava o negociante fora de si, a passear de um para outro
lado, ameaçando o teto com o seu enorme guarda-chuva. Grandíssimo tratante! — E
parando defronte de Diogo:— Caçoou conosco, seu compadre! caçoou conosco, o
desavergonhado! Também, que faça cruz, em casa não me põe mais os pés! sou eu
quem o diz! Nunca mais!
Ouviram-se três silvos repetidos.
— É o último sinal. . disse o empregado da guardamoria. O vapor vai largar.
Suspendeu a escada.
Manuel, com as mãos cruzadas atrás, o chapéu descaído para a nuca, o
corpo a bambolear sobre as suas perninhas curtas, interrogou, muito vermelho, o
cônego:
— E o que me diz desta, compadre?.. Então que me diz! desta?!... Ora já se
viu?...
— Deixe-se disso!... repreendeu o outro. E encaminhou-se para a porta, abriu
o seu guarda-sol de dezoito varetas, e acrescentou, disposto a retirar-se:
— Vamos indo. Meus senhores, vivam! obrigado.
Puseram-se os dois a subir vagarosamente a rampa.
— Ora, meta-se um homem com semelhante gente!... resmungava o
negociante, batendo com a biqueira do chapéu-de-chuva nas pedras da calçada.
Traste! Peralta! Mas também, pode chegar-se para quem quiser!... comigo não conte
mais nada! Canalha!
E continuou a praguejar, numa verbosidade de cólera. O cônego
interrompeu-o no fim de algum tempo:

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