Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
improbus omnia vincit!...
— Como?
— Aquilo e um marido que convém à Anica!...
Assim conversando, ao lado um do outro, acharam-se na rampa de Palácio
Ainda pouca gente lá havia.
— Um bote, patrãozinho! exclamou um rampeiro, aprumando-se defronte de
Manuel e descobrindo a cabeça com arremesso.
— Espere, deixe ver se está o Zé Isca, que é freguês.
O catraieiro afastou-se lentamente, jogando o corpo, no seu andar de pernas
abertas. Os dois desceram ao cais. Apareceu o Isca, e contratou-se a viagem.
— Patrão, podemos ir?
— Deixe vir o doutor. É preciso esperá-lo.
O padre observou que tinha ido cedo demais, enquanto Manuel fazia SS no
chão com a biqueira do guarda-sol.
— Homem! este vapor assim mesmo fez desta vez uma viagenzinha bem
boa!... disse o primeiro, provocando palestra.
— Quinze dias.
— E então?... quando saiu de do Rio?...
— No dia dois.
— Daqui a outros quinze está por lá!... calculou o cônego.
— Não, leva menos! para lã e muito mais favorável a viagem... onze, doze,
treze dias e o máximo.
No fim de algum tempo aborreciam-se de esperar Manuel havia fumado já
quatro cigarros. Raimundo demorava-se.
— Isto já são oito horas! quantas tem você, compadre?
— Oito e um quarto. O rapaz com certeza descuidou-se!... Ó seu Manuel de
sabe que o vapor sai as dez?
— Como não? se ainda ontem à tarde lho mandei dizer!...
— Então há de ser alguma despedida mais demorada... explicou o cônego
com um risinho velhaco. Fugit irreparabile tempus!...
— Isto vai, mas e esquentando demais, seu compadre.
E Manuel limpava e tomava a limpar o carão vermelho, estendendo pela
rampa um olhar suplicante, que parecia chamar o sobrinho.
— Vamos cá para a guardamoria, aconselhou o outro, resguardando-se do
sol.
Um empregado obsequioso ofereceu-lhe logo duas cadeiras.
— V.S.ª por que não se sentam?... Tenham a bondade de estar a gosto...


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— Obrigado, obrigado, meu amigo!
E assentaram-se impacientes.
— V.S.ª vem ao bota-fora do doutor Raimundo?...
— E! Ele já desceu?
— Não o vi ainda, não senhor; porem não poderá tardar. Vão se fazendo
horas!...
Um assovio muito agudo deu o primeira sinal de bordo, chamando os últimos
passageiro Manuel levantou-se logo, foi ate à porta, lambeu com um olhar o
trapiche, consultou sequioso a ladeira de Palácio: “Nada!” Olhou para o relógio, o
ponteiro orçava pelas nove. “Ora sebo! Entendam-se lá com semelhante gente!...”
A rampa já se tinha enchido e já se ia esvaziando. Grupos demorados
acenavam de terra com o lenço para os escaleres que fugiam; choravam com o
rosto escondido nas mãos; outros abraçavam-se por cortesia. Ao lado de protestos e
oferecimentos oficiais, ouviam-se frases quentes de sinceridade, arrancadas pela
dor; diziam-se ternuras; davam-se conselhos; faziam-se carícias; expunham-se, ai,
ao ar livre, em meio do publico o amor e o desespero, como se estivessem entre
família, no segredo da casa. Os botes largavam com grande algazarra dos
catraieiros. Ninguém mais se entendia. Os ganhadores passavam correndo, com as
costas carregadas de malas, de baús e gaiolas de papagaio. Havia grandes
encontrões. Uma mulatinha escrava, gritava que nem doida, lá no fim da rampa, com
os pés na água, agitando os braços soluçando, porque lhe levavam a irmã mais
velha, vendida para o Rio. Os tripulantes praguejavam; os barcos enchiam-se numa
confusão, e a lanchinha do Portal guinchava de instante a instante silvos que
ensurdeciam.
E Raimundo — nada de chegar!
Pouco a pouco foram rareando os grupos. Enxugavam-se os olhos;
guardavam-se os lenços, e os amigos e parentes dos que partiam retiravam se em
magotes, com o passo frouxo, a cara congestionada na ressaca das comoções. O
empregado da policia externa do porto voltou da sua visita ao navio. Só os
exportadores de escravos permaneciam encostados ao portão do cais, para ver a
última baforada do monstro a que confiavam um bom carregamento de negros.
A rampa recaiu afinal no seu habitual sossego, e Raimundo nada de
aparecer.
Manuel suava.
— E esta?! perguntou furioso ao cônego. O que me diz desta, seu
compadre?!
O cônego não respondeu. Cismava.
Nisto, chegou uma carruagem, a rodar vertiginosamente. Os que esperavam
Raimundo acudiram, de pescoço estirado.
— Deve ser ele!... aventou o cônego.
— Diabo! rosnou Manuel, ao ver saltar um homem e entrar lépido na
guardamoria.
Não era Raimundo.


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O vapor chamava, insistia com os seus guinchos impacientes e sibilantes. O
recém-chegado arrastou uma pequena mala para a rua e entregou-a ao primeiro
catraieiro, que pulou de uma nuvem deles.
— Avia, rapaz! Pega daí - E mostrava os outros volumes. - Ligeiro! Ligeiro!
O homem do bote atirou com a bagagem num escaler, gritando para um
moleque que o ajudava:
— Anda! mexe-te! senão arriscamos a não alcançar o vapor!
Estas últimas palavras acabaram de pôr Manuel fora de si. A pobre criatura
suava como o fundo de um prato de sopa.
— E esta, seu compadre?! E esta?! O que me diz desta?!
O cônego não dava palavra, fazia considerações íntimas sorrindo
amargamente à superfície dos lábios.
— Ora! ora! ora! — E o negociante passeava a grandes pernadas na
guardamoria.— Ora! ora, senhores! Esta só a mim!
O cônego bateu com o chapéu-de-sol no chão.
— Astutos astu non capitur!
Os empregados da guardamoria, vestidos de farda, e os curiosos
desocupados, que ali estavam por distração, faziam perguntas a Manuel a respeito
de Raimundo, satisfeitos com aquele episódio prometedor de escândalo.
Arriscavam-se já os comentários e as opiniões.
— Homem, dizia um. Ele, cá pra nos, nunca me pareceu grande coisa!...
— Eu também, acrescentava outro, a falar verdade, nunca pude tragar aquele
cara de máscara!...
— Pois eu cá sabia que ele não havia de ir!
— Nem irá mais! Pilhou-se aqui, adeus!
— Mas que grande patife! Sim senhor!
— Ora! ora, que filho da mãe! resmungava Manuel, a dar voltas no ar com o
seu imenso chapéu-de-sol.
Mas todos correram para a porta, porque uma nova carruagem puxada com
sofreguidão encheu de tropel a Rua do Trapiche.
É o tipo com certeza! bradou um sujeito. A bons horas!
Fez-se no grupo um silêncio ansioso. A sege estacou em frente à
guardamoria. Mas ainda desta vez não era Raimundo.


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