Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância


parte definitivamente no primeiro vapor para o Sul!



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O Mulato

parte definitivamente no primeiro vapor para o Sul!
Esta notícia, dada assim à queima-roupa e em tom firme, despertou-a com
violência.
— Hein? como? parte? muda-se? por quê?...
E fitou o pai, sobressaltada.
— É, ele muda-se... Não quer esperar aqui o dia da viagem..
— Mas por quê, senhores?
O negociante viu-se num grande embaraço; não lhe convinha dizer
abertamente a verdade; dizer que Raimundo se retirava, para fugir ao tormento de
ver todos os dias Ana Rosa, sem esperança de possuí-la. E não atinando com uma
resposta, com uma saída, o pobre homem balbuciava:
— É! o rapaz maçou-se com o que eu lhe disse, e como e senhor do seu
nariz, muda-se! Ora essa! Pensas talvez que ele se sinta muito com isso?... Estás
enganadinha, filha! Foi-me muito lampeiro ao escritório e pediu-me que o
desculpasse contigo. “Que desses o dito por não dito! Que ele precisava mudar de
ares!... Que se aborrecia muito cá pela província! pela aldeola—como ele a chama!”
— Mas por que não veio ele mesmo entender-se comigo?...
— Ora, filha! bem se vê que não conheces 0 Raimundo.. Pois ele é lá homem
para essas coisas?... Um tipo que não liga a menor importância às coisas mais
respeitáveis! Um ateu que não acredita em nada! Até ficou mais satisfeito depois da


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minha recusa! Só parece que estava morrendo por um pretexto para desfazer o seu
compromisso contigo!
— Percebo! exclamou Ana Rosa transformando-se e cobrindo o rosto com as
mãos. E que não me ama! Nunca me amou, o miserável!
E abriu a chorar.
— Hein?! Olá! Então que quer isto dizer... Ora os meus pecados! Ai, que isto
de mulheres não há quem as entenda!
Ana Rosa fugiu para o seu quarto, nervosa, soluçando, e atirou-se de bruços
na rede.
O pai seguiu-a assustado:
— Então, minha filha, que é isto?...
— Diabo da peste!
E a infeliz soluçava.
— Então, que tolice a tua, Anica! Olha, minha filha! escuta!
— Não quero escutar nada! Diga-lhe que pode ir quando entender! Pode ir,
que ate é favor!
— Grande coisa perdes, na verdade! Ora vamos! Nada de asneiras!
Ana Rosa continuava a soluçar. cada vez mais aflita, com o rosto escondido
nos braços; as mangas do seu vestido e os travesseiros da rede estavam já
ensopados das lágrimas. Assim levou algum tempo, sem responder ao que lhe dizia
o pai, de repente suspendeu de chorar, ergueu a cabeça e soltou um gemido rápido
e agudo. Era o histérico.
— Diabo! resmungou Manuel, coçando a nuca atrapalhado. E chamou logo
pelos de casa: D. Maria Bárbara! Brígida! Mônica!
O aposento encheu-se imediatamente.
O cônego Diogo, que ficara na saleta, à espera daquela conferência de
Manuel com a filha, entrou também atraído pelos gritos da afilhada.
— Hoc opus hic labor est!
Nessa ocasião, Raimundo, no seu quarto, passava pelo sono, estendido
sobre um divã. Sonhava que fugia com Ana Rosa e que, em caminho, eram, os dois,
perseguidos por três quilombolas furiosos armados de facão. Um pesadelo.
Raimundo queria correr e não podia: os pés enterravam-se -lhe no solo, como no
tujuco, e Ana Rosa pesava como se fosse de chumbo. Os pretos aproximavam-se,
dardejando os fenos, iam alcançá-los. O rapaz suava de medo; estava imóvel, sem
ação, com a língua presa.
Os gritos reais da histérica coincidiam com os gritos que Ana Rosa, no sonho,
soltava, ferida pelos mocambeiros. Com o esforço, Raimundo pulou do divã e olhou
estremunhado em torno de si; depois, deitou a correr para a varanda.
O cônego, ouvindo-lhe os passos, veio sair-lhe ao encontro.


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— Attendite!
— Ora, até que enfim nos encontramos! disse-lhe Raimundo.
— Pschio! fez o cônego. Ela está sossegando agora! Não vá lá, que lhe pode
voltar o ataque!... O senhor é o causador de tudo isto!...
— Preciso dar-lhe duas palavras incontinente, senhor cônego!
— Homem, deixe isso para outra ocasião... Não vê o alvoroço em que está a
casa?...
— Se lhe digo que preciso falar-lhe incontinente!... Ande! Vamos ao meu
quarto!
— Que diabo tem o senhor que me dizer?!
— Quero tomar alguns esclarecimentos sobre São Brás, percebe?
— Horresco referens!...
E Raimundo, com um empurrão, meteu-se, mais o cônego, no quarto, e
fechou-se por dentro.
— Vá dizer-me quem matou meu pai! exclamou, ferrando-lhe o olhar.
— Sei cá!
E o cônego empalideceu. Mas estava a prumo, defronte do outro.
Cruzou os braços.
— Que quer isto dizer?...
— Quer dizer que descobri afinal o assassino de meu pai e posso vingar-me
no mesmo instante!
— Mas isto é uma violência! tartamudeou o padre, com a voz sufocada pela
comoção.
E, fazendo um esforço sobre si, acrescentou mais seguro:
— Muito bem senhor doutor Raimundo! muito bem! Está procedendo
admiravelmente! É então por esta forma que me pede noticias de seu pai? é este o
modo pelo qual me agradece a amizade fiel, que dediquei noutro tempo ao pobre
homem? Fui o seu único amigo, o seu amparo, a sua derradeira consolação! e é um
filho dele que vem agora, depois de vinte anos, ameaçar um pobre velho, que foi
sempre respeitado por todos! Parece que só esperavam que me embranquecessem
de todo os cabelos, para insultarem esta batina, que foi sempre recebida de chapéu
na mão! Ah, muito bem! muito bem! Era preciso viver setenta anos para ver isto!
muito bem! Quer vingar-se? Pois vingue-se! Que lho impede?! Sou eu o criminoso?
Pois venha o carrasco! Não me defenderei, mesmo porque já me faltam as forças
para isso!... Então! que faz que não se mexe?!
Raimundo, com efeito, estava imóvel. “Ter-se-ia enganado?...” À vista do
aspecto sereno do cônego chegara a duvidar das conclusões dos seus raciocínios.
“Seria crive! que aquele velho, tão brando, que só respirava religião e coisas santas,
fosse o autor de um crime abominável?,..” E, sem saber o que decidir, atirou-se a
uma cadeira, fechando a cabeça nas mãos.
O padre compreendeu que ganhara terreno e prosseguiu, na sua voz untuosa
e resignada:


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— É, o senhor deve ter razão!... Fui eu naturalmente o assassino de seu
pai!... É um rasgo generoso e justo de sua parte desmascarar-me e cobrir-me de
ultrajes, aqui nesta casa, onde sempre me beijaram a mão. O senhor esta no seu
direito! Olhe! agarre aquela bengala e bata-me com ela! Está moço, pode fazê-lo!
está no vigor dos seus vinte e cinco anos! Vamos! Fustigue este pobre velho
indefeso! castigue este corpo decrépito, que já não presta para nada! Então! bata
sem receio que ninguém o saberá! Pode ficar descansado que não gritarei - tenho
defronte dos olhos a imagem resignada de Cristo, que sofreu muito mais!
E o cônego Diogo, com os braços e olhos erguidos para cima, caiu de joelhos
e disse entre dentes, soluçando:
— Ó Deus misericordioso! Tu, que tanto padeceste por nós, lança um olhar
de bondade sobre esta pobre criatura desvairada! compadece-te da pobre alma
pecadora, levada só pela paixão mundana e cega! Não deixes que Satanás se
apodere da mísera. Salva-a, Senhor! perdoa-lhe tudo, como perdoaste aos teus
algozes! Graça para ela! eu te suplico, graça, meu divino Senhor e Pai!
E o cônego ficou em êxtase.
— Levante-se, observou-lhe Raimundo, aborrecido. Deixe-se disso! Se lhe fiz
uma injustiça, desculpe. Pode ir descansado, que não o perseguirei. Vá!
Diogo ergueu-se, e pousou a mão no ombro do moço.
— Perdôo-te tudo, disse; compreendo perfeitamente o teu estado de
excitação. Sei o que se passou! Mas consola-te, meu filho, que Deus é grande, e só
no seu amor consiste a verdadeira paz e felicidade!
E saiu de cabeça baixa, o ar humilde e contrito; mas, ao descer a escada para
a rua, resmungava:
— Deixa estar, que mas pagarás, meu cabrinha apistolado!...

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