Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



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O Mulato
CAPÍTULO X
No dia combinado, às seis horas da manhã, acharam-se Manuel e Raimundo
a bordo do vaporzinho Pindaré, pertencente à então Companhia Maranhense de
Navegação Costeira.
Fazia um tempo abrasado, muito seco, cheio de luz. A viagem era incômoda,
pela aglomeração dos passageiros, os quais, no dizer cediço de um de bordo, iam
“como sardinhas em tigela”.
Tudo aquilo, no entanto, estava muito melhor... considerava Manuel. Agora já
se podia viajar facilmente pelo interior da província!... Dantes é que a navegação do
Itapicuru tinha os seus quês!...
E passou a narrar circunstancialmente as dificuldades primitivas da ida ao
Rosário. “Aquela companhia, assim mesmo, viera prestar grandes serviços à
província!... Deixasse lã falar quem falava, o único inconveniente que ele via era a —
baldeação no Codó! — Isso sim! Tinha o que se lhe dizer, e devia acabar quanto
antes!”
— Felizmente, concluiu, o Rosário é a primeira estação e não temos de sofrer
a maldita maçada!
Ao anoitecer saltaram na Vila do Rosário, em companhia de um antigo
conhecido de Manuel, ali residente havia um bom par de anos. Em Um
portuguesinho de meia-idade, falador, vivo, brasileiro nos costumes e trigueiro como
um caboclo.
— Venha cá pra casa e pela manhãzinha seguirá o seu caminho, oferecia ele
ao negociante. Sempre lhe quero mostrar o meu palácio!
Foi aceito o convite, e os três puseram-se a andar, de mala pendurada na
mão.
— Sabe você, ia dizendo o homenzinho, toda aquela baixa que pertencia ao
Bento Moscoso? pois isso fica-me hoje no quintal! Arrecadei a fazenda da viúva por
uma tuta e mea e hoje está produzindo, que é aquilo que você pode ver! O meu
projeto é levantar uma engenhoca aí perto, onde fica o igarapé do Ribas; quero ver
se aproveito as baixas para a cana, percebe?
E dissertava largamente sobre a sua roga, sobre as suas esperanças de
prosperidade, censurando medidas mal tomadas pelos vizinhos; afinal atirou a
conversa sobre o Barroso. Barroso era a fazenda no para onde se dirigiam os outros
dois.
— São boas tenras, são! Muito limpas, muito abençoadas! O que foi que
levantou o Luís Cancela? E é verdade! se me não engano, creio que ele uma
ocasião me disse que foi você quem lhas aforou. Não é isso?
— E exato, respondeu Manuel.
— Ah! são suas?...
— Não! São deste amigo.


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E Manuel indicou Raimundo, que nesse momento contratava, com um homem
que se mandou chamar, os cavalos para a viagem no dia seguinte.
— São muito boas terras!... o outro. O Cancela já por várias vezes tem-nas
querido comprar.
— Compra-as agora.
E chegaram a casa.
—A minha gente está toda fora declarou o roceiro. Mas não faz mal, temos ai
de sobra com que passar. Ó Gregório!
— Meu senhô!
Veio logo um preto velho, a quem ele se dirigiu para dar as ordens em voz
baixa.
A noite, ao contrário do dia, fizera-se fresca. Depois da cela, cada um se
estendeu na sua rede, preguiçosamente. Raimundo queixava-se de pragas e
maruins; Manuel meditava os seus negócios, toscanejando, e o portuguesinho não
dava tréguas à língua: falava daquelas tenras com um entusiasmo progressivo;
contava maravilhas agrícolas; mostrava-se fanático pelo Rosário. E, no empenho da
conversa, arrastado, chegava a mentir, exagerando tudo o que descrevia.
Raimundo interrompeu-o, para saber se ele conhecia a antiga fazenda São
Brás.
— São Brás!...
E o homenzinho levantou-se da rede com um espanto.
— São Brás! Se conheço! E por aqui V.Sª não encontra quem não saiba a
história dela!...
O outro ardia de curiosidade.
— Tenha então a bondade de contar-ma, pediu, assentando-se. Como vou
andar por essas bandas...
Manuel adormeceu.
— Pois V.Sª não sabe a história de São Brás?... Valha-o Deus, meu caro
senhor, que podia cair em algum malfarrico; mas eu vou ensinar-lhe a reza que
aprendemos com o nosso santo vigário. Olhe! quando V.Sª topar uma cruz na
estrada, apeie e reze, e ao depois siga o seu caminho por diante, repetindo sempre:
“Por São Brás!
Por São Jesus!
Passo aqui,
Sem levar cruz”
Até avistar as mangueiras do Barroso: daí à riba pode seguir descansado,
que lá não chega chamusco!


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— Mas por que toma a gente tais precauções?
— Ora ai está onde a porca torce o rabo! E por causa do diabo de uma alma
danada, que empesta essas garagens... Eu conto a V.Sª!
E o homenzinho, engolindo em seco, contou prolixamente que São Brás, ou
Ponta do Fogo, como dantes lhe chamavam, fora noutro tempo lugar de terras boas
e férteis, onde se podia plantar e colher muito, que abençoadas eram elas pelas
mãos de Deus. Mas, que uma vez aparecera por lá o célebre assassino Bernardo,
terror do Rosário e sobressalto dos fazendeiros, e, depois de uma vida errante pelo
sertão, roubando e matando, meteu-se na Ponta do Fogo e ai estourou. E desde
então nesse desgraçado lugar nunca mais vingara fruto que não tivesse ressaibo de
veneno, nem medrara planta sem mitinza; as águas deixavam cinza na boca, a terra,
se a gente a colhia na mão, virava-se em salitre, e as flores fediam a enxofre; mas,
quem comesse desses frutos, se deitasse nesse chão, se banhasse nessas águas e
cheirasse aquelas flores, ficava por tal modo enfeitiçado, que não havia meio de
arrancá-lo dali, porque o diabo tinha untado o fruto de mel, e perfumado as flores e
amaciado a relva, para engodar o caminheiro incauto.
— Foi isso, continuou o que sucedeu ao pobre José do Eito, quando se meteu
por cá - enfeitiçou-se! Eu era muito novo nesse tempo, mas bem me lembro de o ter
visto tantas vezes, coitado! todo amarelo, morrinhento e resmungão, que logo se
adivinhava que o diabo lhe pregara alguma! E sempre andou assim!... um dia
morreu-lhe a mulher de repente, e ele pouco depois foi varado por um tiro, que
nunca mais ninguém soube donde veio. Daí em diante São Brás ficou tapera. No
lugar em que morreu o José levantou-se Uma cruz, e todos os que passam por lá
rezam por alma do desventurado, até encher certa conta de orações, com que ela
possa descansar!... Enquanto isso não chega, vaga pela tapera a pobre alma
penada, de dia que nem um pássaro negro, enorme, que canta a finados, e de noite
vira-se numa feiticeira, que dança e canta, rindo como as raposas. Quando algum
imprudente atravessa perto, a feiticeira o persegue de tal feitio, que o infeliz, se não
estiver montado, ela o pilha com certeza!
— E se o pilha?
— Se o pilha?... Ah, nem falar nisso é bom! Se o pilha, vira-se logo toda em
ossos e cai-lhe em riba, com tal fúria de pancadas, que o deixa morto!
— E depois?
— Depois, volta a alma para penitência, tendo perdido, por cada pancada que
deu, vinte coroas de padre-nossos. Quando V.Sª for amanhã é bom levar na sela do
seu cavalo um galhinho de arruda, e ao depois de rezar à cruz, vá sacudindo
sempre até as mangueiras do Cancela, sem nunca parar com a reza que lhe ensinei!
— Sim, sim, mas diga-me uma coisa: esse José do Eito não se chamava José
Pedro da Silva?
— Justo! V.Sª o conheceu?
— De nome.
— Pois eu conheci, perfeitamente.
E, a pedido de Raimundo, o portuguesinho descreveu o tipo José, e contou o
que sabia da vida dele. O rapaz escutava tudo com um interesse religioso; não
queria perder uma só daquelas palavras; mas tinha, muitas vezes, que interromper o
narrador, para lhe fazer perguntas, a que o outro respondia em parêntesis rápidos.


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— Pois a D. Quitéria Santiago morreu pouco antes do marido; eu fui vê-la! e
olhe V.Sª que, de bonitona que era, ficou horrível. Estava mais roxa que Uma
berinjela!
— Não tinha filhos?
— Nunca os teve.
— Nem o marido?... Sim... este podia ter algum filho natural...
— Não, que eu saiba, não tinha.
— Nem consta de alguma parenta, que vivesse na fazenda em companhia do
José?...
— Sei cá, mas...
— Alguma irmã de D. Quitéria, ou talvez alguma amiga, hein? Veja se
lembra...
— Qual o quê!... Viviam ao contrário muito sós! D. Quitéria a única parenta
que tinha era a mãe; esta andava sempre de ponta com o genro e não saia da sua
fazenda, que vem a ser aquela em que está hoje o Cancela - a fazenda do Barroso!
É verdade! sabe quem pode informar bem estas coisas? é o Sr. Vigário! ele ainda
vive na cidade; hoje é cônego. Pois era muito unha com carne do José do Eito.
— O cônego Diogo?...
— Justamente! Ele é que era o vigário desta freguesia. Ora quanto tempo já
lá vai!...
— Ah! O cônego Diogo era o vigário desta freguesia, e muito da casa das
Santiagos?...
— Sim senhor! E ele está ai, que a quem quiser ouvir as voltas que deu para
desencantar São Brás! Coitado! nada conseguiu e quase que ia sendo vitima da sua
boa vontade!
— Ele também acreditava na feitiçaria?
— Se acreditava! Pois se ele a viu, que o disse! E olhe V.Sª que o cônego não
é homem de mentiras! Afirmava que havia em São Brás uma alma danada, e não
gostava até que lhe falassem muito nisso!... Proibia-o expressamente, sob pena de
excomunhão! Se acreditava? E boa! Por que foi então que ele abandonou a
paróquia, tendo aqui nascido, gozando da mais alta consideração e recebendo,
como recebia, presentes e mais presentes de toda a freguesia?... Eram bois,
carneiros, capados, muita criação. Ele está ai na cidade, que o diga!
Raimundo caia de conjetura em conjetura.
— Ele era então bastante amigo do José da Silva? o cônego?
— Se era, coitado! Amigo e muito bom amigo!... Quando assassinaram o
pobre homem, o senhor vigário nem quis espargir-lhe a água benta; mandou o
sacristão! Não podia encarar com o corpo do José! E, veja V Sª , meteu-se em casa,
e pouco nada apareceu, até que se retirou para sempre cá da vila! Todos nós
sentimos deveras semelhante retirada; estávamos tão acostumados com ele!... Eu,
nesse tempo, trabalhava nas terras do coronel Rosa; tinha os meus vinte anos e
ainda estava solteiro; assisti a tudo, meu rico senhor! Lembra-me como se fosse
ontem! A fazenda, essa foi logo abandonada; ninguém quis saber mais dela, pois,
todas as noites, quem passasse por ai, ouvia gritos medonhos, de arrepiar o couro!
— Mas, além do José e da mulher, quem mais morou nesse lugar?
— Or'essa! a escravatura e o feitor.
— Não. Digo senhores.
— Ninguém mais.


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— Ah, é verdade! O José era feliz com a mulher? Viviam bem?...
— Qual! Pois se lhe estou a dizer que aquelas tenras são tenras do diabo!
Viviam que nem o cão com o gato! O cônego, ainda assim, era quem os acomodava,
dando-lhes conselhos e pedindo a Deus por eles!
E Raimundo perdia-se novamente em conjeturas. as. “Sempre sombras!...
Sempre as mesmas dúvidas sobre o seu passado!...”
A conversa afrouxou. O portuguesinho deitou-se, e depois de uns restos de palestra,
vaga e bocejado, adormeceu Raimundo sonhou toda a noite.
As quatro da madrugada estavam de pé, selados os cavalos, cheio o farnel
para a viagem, e o guia montado.
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