Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância


parte vestidas de luto, e que, assentadas, fitavam, de cabeça à banda com o olhar



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O Mulato

parte vestidas de luto, e que, assentadas, fitavam, de cabeça à banda com o olhar
cansado e sonolento, o corpo inanimado de Maria do Carmo. Numa rede a um
canto, soluçava Etelvina, escondendo a cabeça entre travesseiros; ao lado, uma
mulata gorda e enfeitada de ouro — sala de chamalote preto e toalha de rendas
sobre os ombros — dizia maquinalmente as frases da consolação. Assentada no
sobrado sobre uma esteira. Amância talhava o hábito de Nossa Senhora da
Conceição, com que a defunta devia ir vestida à fantasia para a sepultura, como se
fosse para um baile de máscaras. Nas paredes, os retratos de família estavam
cobertos por um vasto crepe; o do tenente Espigão horrorosamente pintado a óleo,
com um colorido cru, tinha através do véu, um sorriso duro de beiços vermelhos. No
meio da sala, em um sofá de gosto antigo com encosto de palhinha envernizada,


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decompunha-se o cadáver da velha Sarmento; tinha o rosto coberto por um lenço de
labirinto encharcado de água-flórida; as mãos cruzadas sobre o peito e amarradas à
força por uma fita de seda azul; as pernas esticadas o cabelo muito puxado para
trás, bem penteado, o corpo todo se mirrando hirto um pouco empenado na tensão
dos músculos. Em cima do ventre opaco um prato cheio de sal.
À cabeceira do canapé numa mesinha coberta de rendas, um Cristo colorido,
de braços abertos pendia da cruz, e duas velas de cera derretiam-se no lugar do
bom e do mau ladrão. Logo junto, uma vasilha de água benta com um galinho de
alecrim; mais para a frente, uma Nossa Senhora pequenina, de barro pintado.
Ouviam-se soluços discretos e o crepitar seco das velas.
Raimundo aproximou-se do cadáver e, por mera curiosidade descobriu-lhe o
rosto—estava lívido, com os raros dentes à mostra, os olhos mal fechados
mostrando um branco baço, cor de sebo; dos queixos subia-lhe ao alto da cabeça
um lenço, amarrado para segurar o queixo. Principiava a cheirar mal.
Então, apareceu na sala uma negrinha com uma bandeja de xícaras de café.
Serviram-se.
Raimundo foi levar uma chávena a Ana Rosa, que se achava entre as
senhoras.
— Obrigada, disse ela, chorosa, eu já tomei ainda agorinha mesmo.
De vez em quando ouvia-se um suspiro estalado e o froon nasal das moças
que assoavam as lágrimas. Um grupo de mulheres, de saia e camisa, conversava
soturnamente sobre as boas qualidades e as virtudes da defunta. Tinham a voz
medrosa de quem receia acordar alguém ou ser ouvido pelo objeto de conversação.
— Era pra um tudo!... afirmava uma delas, compungida. Devo-lhas muitas!...
que lhas hei de pagar com padre-nossos! Inda s'tr'oudia, quando me atacou a
pneumonia na pequena, com quem foi que me achei?!... Pois olhe que os doutores
de carta não lhe souberam dar voltas! E hoje, minha rica?... Ela está aí fina e
lampeira, que faz gosto, ao passo que a pobre da senhora D. Maria do Carmo...
Deus me perdoe, até parece feitiçaria! — E apontou para o cadáver com um gesto
desconsolado. — Ao menos descansou, coitada!
— Não somos nada neste mundo!... suspirou, com a mão no queixo, uma
mulherzinha magra e pisca-pisca, que ate então se conservara numa imobilidade
enternecida.
E contou a história de uma sua camarada, que, havia trinta anos, morreu na
flor da idade.
Este caso puxou outros. Foi um cordão de anedotas fúnebres. A mulata
obesa fechou a rosca, narrando, muito sentida, a história de um papagaio de grande
estimação, que ela possuía, e que, um belo dia, cantando, coitado! a “Maria
Cachucha”, caíra para três — morto!
— Credo! exclamou Amância. E, voltando-se para a mulata, com os óculos na
ponta do nariz.
— Nhá Maria! esta espiguilha é toda para o véu, ou tem de se tirar daqui
também os laçarotes?...


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Depois do enterro, quando Maria Bárbara, de volta a casa entrou no seu
quarto, dera logo com a vela de cera gasta até o fim e com a singular mascara do
seu milagroso São Raimundo; ficou aterrada, sem saber o que pensar, e, na sua
cegueira supersticiosa, atirou-se de joelhos defronte do oratório e pôs-se a rezar
fervurosamente.
Nessa noite, apesar da canseira em que vinha, não pode dormir senão pesa
volta da madrugada; e, à força de meditar o caso, acabou por enxergar nele um
milagre. Sim, um milagre, justamente como o explicam os catecismos que se dão na
escola e como a sua própria mestra lhe ensinara—um mistério incompreensível.
“Não havia que duvidar - Deus Nosso Senhor servira-se daquele engenhoso ardil]
para preveni-la de presentes e futuras calamidades!...”
Entretanto, só ao cônego se animou de confiar o fato, e até lhe pediu segredo,
que, se o genro viesse a conhecê-lo, havia de sair-se com alguma das suas. Já lhe
estava a ouvir resmungar com o seu insuportável risinho de homem sem fé
“Pomadas de minha sogra!...” Além disso, se São Raimundo quisesse tomar público
o seu sagrado aviso, não usaria dos meios que empregou!...
— Agora, o que está entrando pelos olhos, senhor cônego, é que aquele
maldito cabra do Mundico tem parte nisto! Deus queira que eu me engane, porém a
coisa toca-lhe a ele por casa!
— Pode ser, pode ser... Davus sum non Edipus!...
— E o que devo fazer?...
— Ofereça uma missa a São Raimundo. Cantada, não seria mau... Uma
missinha cantada!
Ficaram nisto; mas a velha não podia tranqüilizar-se assim só:
afigurava-se-lhe que, em tomo dela, grandes transformações se operavam. Verdade
é que a morte de Maria do Carmo como que viera perturbar o ramerrão daquela
panelinha de Manuel Pescada. Uma semana depois do passamento, chegara de
Alcântara um irmão da defunta, e em seguida à missa do sétimo dia, carregou
consigo as duas ]inconsoláveis sobrinhas. Etelvina, embrulhada no seu vestido
preto, de lã, encarecera o costume de dar suspiros; Bibina, com grande abnegação,
ocultara o cabelo numa coifa de retrós. D. Amância Sousellas, para carpir mais à
vontade a perda da amiga, fora passar algumas semanas no recolhimento de Nossa
Senhora da Anunciação e Remédios, ao calor confortável das rezas e do caldo forro
do refeitório. Eufrasinha, percebendo frieza em Ana Rosa, dera-se por magoada e
não lhe aparecia. “Que, de algum tempo àquela parte, notava-lhe certo aninho de
constrangimento e fastio, bem aborrecido! A Anica já não era a mesma! Não sabia
quem lhe pisara o cachorrinho; tinha plena convicção de estar sendo intrigada por
alguma insoneira, mas também tinha alma grande e deixava correr o barco pra
Caxias!” A repolhuda Lindoca igualmente se retraíra, mas esta, coitada! por
desgosto das suas banhas; já não queria aparecer a pessoa alguma, de vergonha.
Entrara, por conselho do pai, a dar longos passeios de madrugada, enquanto
houvesse pouca gente na rua, para ver se lhe descaiam as enxúndias, mas qual! a
enchente de gordura continuava bolear-lhe cada vez mais os membros. A pobre
moça já não tinha feitio; quando sala era obrigada a descansar de vez em quando,
provocando olhares de admiração, que a irritavam; já não podia usar botinas, ficara
condenada ao sapato de pano, raso, quase redondo; as suas mãos perderam o
direito de tocar nos seus quadris; trazia os braços sempre abertos; o pescoço
apresentava roscas assustadoras; os olhos, o nariz e a boca ameaçavam


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desaparecer afogados nas bochechas Entretanto, afeiçoava-se pela linha reta, tinha
predileções por tudo que era seco e escorrido, olhava com inveja para as
magricelas. Freitas gastava os lazeres a contar tratados de medicina, a ver se
descobria remédio contra aquele mal, o bom homem maçava-se; as cadeiras de sua
casa estavam todas desconjuntadas: “Daquele modo, não lhe chegaria o ordenado
só para mobília” e, como homem fino mandou fazer uma cadeira especial para
Lindoca, com parafusos fortes, de madeira de lei. Viviam ambos tristes.
E tudo isto, todo esse desgosto surdo que minava na panelinha, era atirado
por Maria Bárbara à conta de Raimundo. Queixava-se dele a todos, amargamente;
dizia que, depois da chegada de semelhante criatura, a casa parecia amaldiçoada
“Tudo agora lhe saia torto!” Chegou a pedir ao cônego que lhe benzesse o quarto e
juntou à promessa da missa mais a de dez libras de cera virgem, que mandaria
entregar ao cura da Sé no dia em que o cabra se pusesse ao fresco.
Mas, pouco depois, a sogra de Manuel chamou o padre em particular, e
disse-lhe radiante de vitória:
— Sabe? Já descobri tudo!
— Tudo, o quê?
— O motivo de todas as desgraças, que nos têm acontecido ultimamente.
— E qual é?
— O cabra é “bode!...”
— Bode?! Como?
Maria Bárbara chegou a boca ao ouvido de Diogo e segredou-lhe horripilada:
— E maçom!
— Ora o que me conta a senhora!... exclamou Diogo, fingindo uma grande
indignação.
— E o que lhe digo, senhor cônego! O cabra é bode!
— Mas isso é sério?... Como veio a senhora a saber?...
— Se é sério... Veja isto!
E, cheia de repugnância e trejeitos misteriosos sacou da algibeira da saia o
folhetinho de capa verde, que Dias subtraíra da gaveta de Raimundo.
— Veja esta bruxaria, reverendo! Veja, e diga ao depois se o danado tem ou
não parte com o cão tinhosos! Pois se eu cá senta um palpite!...
E apontava horrorizada para a brochura, em cujo frontispício havia desenhado
um xadrez, duas colunas amparando dois globos terrestres e outros emblemas. O
cônego apoderou-se do folheto e leu na primeira página “Lenda maçônica ou
condutor das lojas regulares, segundo o rito francês reformado.
— Sim senhora! tem toda a razão! Cá estão os três pontinhos da patifaria!...
patifaria!...
E leu na introdução da obra, possuindo-se de uma raiva de partido: “Maçons,
penetremo-nos da nossa dignidade! A retidão de nossos votos, a união de nossos
trabalhos, e a harmonia de nossos corações, alimentem sem cessar o fogo sagrado,
cuja claridade resplandecente ilumina o interior de nossos templos!”


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— Sim senhora! Tem mais essa prenda... resmungou, entregando o folheto à
velha; além de cabra, é bode!
E sem transição, duro:
— É preciso pôr esse homem fora de cá!
— E quanto antes!...
— O compadre está aí?
— Creio que sim, no armazém.
— Pois vou convencê-lo. Até logo.
— Veja se consegue, reverendo! Olhe lembra-me até que seria melhor
desistir de tal compra da fazenda... Esta gente, quando não tinha suja! Não imagina
a arrelia que me faz vê-lo todo o santo dia na mesa de jantar ao lado de minha
neta!... Também nunca esperei esta de meu genro! É preciso pôr o homem pra fora!
Isto não tem jeito! As Limas já falaram muito; disse a Brígida que na quitanda do Zé
Xorro lhe perguntaram se era certo que ele estava para casar com Anica... Ora isto
não se atura! Cada um que ponha o caso em si!... Pois então aquele
não-sei-que-diga precisa que lhe gritem aos ouvidos qual é o seu lugar?... No fim de
contas quantos somos nós?!... Nada! Nada! é precioso pôr cobro a semelhante
coisa. Fale a meu genro, senhor cônego fale-lhe com franque za! Olhe pode dizer-lhe
até que se ele não quiser tratar disto, eu m'encarrego de pôr a peste no olho da rua!
A porta da nua é a serventia da casa! Não vê que entre paredes, onde cheira a
Mendonça de Melo, se tem aquelas com um pedaço de negro! Iche cacá!
— Está bom está bom!... Não se arrenegue, Dona Babu! Pode arranjar-se
tudo, com a divina ajuda de Deus!...
E o cônego foi entender-se com o negociante.
— Homem... respondeu Manuel tendo ouvido as razões do compadre, lá de
recambiá-lo para o diabo, convenho! porque enfim sempre é um perigo que um pai
de família tem dentro de casa!... mas essa agora de não negociar a fazenda, é pelo
que não estou! Seria asnice de minha parte! E boa! Pois se o Cancela me escreveu
quer entrar em negócio, e eu posso meter para a algibeira uma comissãozinha
menos má, sem empregar capital algum e quase sem trabalho - hei de agora meter
os pés e deixar o pobre rapaz às tontas, em risco até de cair nas mãos de algum
finório!... Porque, venha cá seu compadre, mesmo deitando de parte o interesse,
com quem a não ser comigo podia o Mundico, coitado! haver-se neste negócio?
Também a gente deve olhar p'r'estas coisas!...
Ficou resolvida a viagem para o sábado seguinte.
Raimundo acolheu a noticia com uma satisfação que espantou a todos. “Até
que afinal ia visitar o lugar em que lhe diziam do!...”
— Olhe! disse ele a Manuel, tenho um importante pedido a fazer-lhe...
— Se estiver em minhas mãos...
— Esta...
— O que é?
— Coisa muito seria... Em viagem para o Rosário conversaremos.
Manuel coçou a nuca.


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