Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância


parto quotidiano e deslumbrante; ia nascer o sol. Houve uma grande alegria rubra



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O Mulato

parto quotidiano e deslumbrante; ia nascer o sol. Houve uma grande alegria rubra
em torno do ventre de ouro e púrpura, que se rasgou afinal, num turbilhão de fogo,
jorrando luz pelo céu e pela terra. Um hino de gorjeios partiu dos bosques; a
natureza inteira cantou, saudando o seu monarca!
Raimundo, estático ao lado de Ana Rosa, não podia conter o seu entusiasmo.
— Como é belo! como é belo! exclamava ele, apontando para o nascente.
E, numa comoção de pintor, amarrotando entre os dedos o seu chapéu de
feltro, parecia beber avidamente, pelos olhos deslumbrados, aquele maravilhoso
nascimento do sol meridional de junho. Depois, sempre emocionado, segurava o
braço da prima, chamando a atenção desta, sem despregar a vista da paisagem,
para o lindo efeito da luz, filtrada por entre as folhas, na espessura das árvores; para
as gotas de orvalho, que cintilavam como diamantes; para a esfogueada selagem
dos planos afastados; para a luminosa cercadura dos casebres ao longe, em torno
dos quais pasciam bois e acogulavam-se carroções com grandes feixes de capim
novo.
E vinham do campo para o mercado da cidade enormes tabuleiros de
hortaliças, gotejantes da última rega, e pirâmides de ramalhetinhos de vintém, para
se vender às mulatas; e cofos de frutas, que espalhavam no ar um perfume
desenjoativo; e matutos traziam. dependuradas de um pau sobre o ombro, as pacas
e as cutias, caçadas no mato; e os carros da roga passavam gemendo, com as suas
imensas rodas inteiriças; e os caboclos, seguidos pelas mulheres e pelo bandão dos
filhos, num passo sacudido e ligeiro, chegavam da Vila do Paço e de São José de
Ribamar, muito carregados, depois de engolir léguas e léguas a pé descalço, para
vir vender à boca do Caminho Grande o seu peixe pescado e mosqueado na
véspera, os seus beijus fresquinhos, o azeite de gergelim, a massa de água, a
macaxeira e os bolos de mandioca.
Ana Rosa não parecia a mesma daqueles últimos tempos: estava alegre,
despreocupada; dir-se-ia ter voltado a um dos seus dias de colégio. Os ventos gerais
como que lhe levantaram o véu das suas melancolias de donzela e arejaram-lhe o
coração com uma rajada.
— Deixe lá a paisagem, e dê-me o braço, primo! disse ela arquejante, tendo
ido de carreira comprar tangerinas à mão de um roceiro. Ah!... cansada!
E, sem poder falar, prendeu-se ao braço de Raimundo. Este vergou-se sobre
ela, depois de contemplá-la muito.
— Sabe? segredou-lhe, você hoje está bonita como nunca, minha prima!
Suas faces são duas rosas!
— F debique seu... Se me achasse bonita, já me teria pedido a papai...


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— Confesso que nunca a vi tão linda...
— São os ventos gerais! Limparam-lhe os olhos!...
— Não diga brincando! Quer que lhe confesse Uma coisa?... Não sei que
singular efeito me produz esta manhã. F esquisito, mas eu mesmo me desconheço!
Sinto-me transformado! A idéia, por exemplo, da minha sisudez habitual, dessa
gravidade exagerada, de que por mais de uma vez a prima se queixou a mim próprio
parece-me agora tão pueril e ridícula como o estilo do Freitinhas e o orgulho do
Sebastião Campos! F exato! Creia que neste instante lamento não ser mais
expansivo mais alegre mais rapaz! Deploro ter esperdiçado tantas madrugada a
estudar, a matar-me de trabalho; ter adormecido esfalfado ao raiar do dia quando os
outros se levantavam satisfeitos e confortados. Com franqueza toda a obra de uma
geração inteira de investigadores da ciência; tudo quanto ensinam as melhores
academias, não vale a boa lição que em algumas horas de passeio ao seu lado me
dá a natureza, a grande mestra! Com esta única lição renasce-me a mocidade que
eu estupidamente me empenhava em sufocar! Sinto-me disposto a ser feliz,
sinto-me capaz de amá-la, minha querida amiga!
Ana Rosa abaixou o rosto, afogada em pejo e contentamento, sem querer
interrompê-lo, para não desperdiçar uma só daquelas palavras, que lhe faziam tanto
bem. O que Raimundo lhe dizia dava-lhe vontade de chorar e cair-lhe agradecida
nos braços, traduzindo em beijos todas as ternuras, que o pudor vedava aos lábios
proferissem.
Haviam parado, junto um do outro; batia-lhes em cheio no rosto o sol
nascente. Emudeceram. O moço tomou-lhe as mãos, e os dois fitaram-se com um
juramento nos olhos, e r ao falaram mais em amor, enquanto esperavam por Manuel
e Mana Bárbara, que de novo se tinham posto a caminhar.
Meia hora depois chegavam todos ao sitio. Raimundo fazia pasmar com o seu
bom humor confessava-se no momento mais feliz da sua vida; deu até para
brincalhão e ferrou, ao entrar na casa, um abraço em D. Amância, que viera
recebê-los à porta A velha afastou-se, benzendo-se:
— Credo! Pra lá mandado!
Ela já lá se achava, desde a véspera, preparando tudo, arrumando, dando
ordens, ralhando, prometendo castigos, como se estivesse em fazenda própria e
cercada de escravos seus.
A quinta de Maria Bárbara como quase todas as quintas do Maranhão, era
aprazível e rústica. Um velho portal de ferro, com o competente lampião de corrente,
abria sobre duas longas filas de mangueiras seculares, que iam terminar defronte da
casa. formando sombrosa e úmida galeria, onde o sol penetrava horizontalmente,
por entre os grossos troncos nodosos e encascados. Por uma e outra banda sem
ordem nem simetria, viam-se plantações, na maior pane úteis e bem tratadas
destacava-se o verde alegre dos canteiros de hortaliças donde voava um cheiro
fresco de salsa e coentro. Mais para o interior do sitio encontravam-se tanques
cheios esverdeados de limo; sinuosas calhas espalhavam, suspensas por estacas
de acapu, levando água para todos os lados; extensas latadas vergavam ao peso
das abóboras, dos jerimuns e dos maracujás de diversos tamanhos, desde o da
laranja até ao da melancia. Ainda mais para o interior, destacavam-se, em qualquer
dia do ano, o verde-escuro e lustroso das jaqueiras colossais e das árvores da
fruta-pão, ambas com as suas folhas grandes e recortadas caprichosamente,


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contrastando com as massas fuscas da folhagem miudinha dos eternos
tamarindeiros, com os tons dourados do pé de cajá e com os altivos jenipapeiros, as
graciosas pitombeiras, cercados de goiabais floridos e cheirosos. Em outros pontos
adivinhavam-se olhos-d'água pela abundância das juçareiras Parasitas de mil
espécies enfeitavam com as suas flores, extravagantes e admiráveis, as árvores e
os pombais, numa variedade prodigiosa de cores E por toda a parte doidejavam,
cantando, os passarinhos e saltitavam rolas, a mariscar na relva.
A habitação olhava de frente para os dois renques de mangueiras,
franqueando as suas varandas sem parede; toda ela aberta, deixando-se invadir
pelas plantas do jardim que a rodeava. Uma dessas pitorescas vivendas
acaçapadas, muito comuns nos sertões da ilha de São Luís. Grande telheiro
quadrado, telha vã, formando bico na cumeeira e sustentado nas quatro faces por
moitões de piqui pintados de verde, e firmados estes em anteparos de pedra e cal,
que formavam uma espécie de amurada, alta pela parte de fora e rasa pela de
dentro. No meio, distanciado da antepara uns vinte palmos seguros, estava a casa
feita de paredes inteiriças, caiadas de cima a baixo. O chão era todo forrado de
tijolos vermelhos. A entrada uma cancela, três degraus de cantaria, jasmins de Itália,
bancos de pau e uma confusão de trepadeiras, que se enroscavam pelos moitões e
galgavam o telhado, vitoriosamente. erguendo lá em cima os seus rebentões novos,
ávidos de sol.
Esta quinta fora a menina dos olhos de Maria Bárbara; ai passara ela grandes
delicias no tempo do coronel. Ainda estava muito forte e bem conservada, mas,
havia dez anos, desde que a velha foi fazer companhia à neta, achava-se entregue
aos cuidados do português Antônio e ao trabalho de três pretos velhos, que iam
diariamente à cidade vender hortaliças, flores e frutas.
As seis e meia da manhã chegou o bonde com os convidados.
Trazia música. Era uma “surpresa” arranjada pelo Casusa. E este,
encarrapitado na plataforma do cano, doido de entusiasmo, dava vivas a São João,
vivas “ao belo madamismo maranhense!” e vivas à música.
Os músicos romperam com o Hino Nacional.
O Casusa, inteiramente fora de si, rouco já, um bocadinho picado pelo
conhaque, cujo como de delito ele trazia a tiracolo enforcado num pedaço de
cabinho, saltava, ia e vinha, singrando por entre todos, atravessando o bonde com
as senhoras ainda assentadas, fazendo-as apear, assustando-as com os seus
gritos, machucando nas costas dos bancos os dedos dos que desciam, provocando
gemidos, protestos, e fazendo rir ao mesmo tempo. Deu um beijo em D. Amância
que lhe chamou furiosa, “Cachaceiro! Pancada! Moleque!”; bateu na barriga de
Manuel, que o exprobrava por se ter incomodado, feito despesas, contratado
músico.
— É gosto, é gosto, seu Manuel! Não faca caso! Hoje há de sair cinza nesta
pândega!
E os convidados saltavam do bonde. O primeiro a descer foi o Freirinhas, todo
vestido de brim branco de Hamburgo irrepreensível rodaque de botões de osso, uma
enorme cadeia de cabelo prendendo o relógio e dependurado nela um anel de ouro,
onde se lia esmaltado 'Saudade”. Trazia, por causa do pó, umas lunetas azuis,
grandes, verdadeiras vidraças, que lhe davam à grande fisionomia o tom pitoresco
de uma casa de campo; Um chapéu de feltro branco, peludo, alto, a que os gaiatos
da província denominavam “Carneiro” e do qual o dono contava maravilhosas


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propriedades. “Era uma pena!... Podia a gente machucá-lo à vontade sem ofender o
pêlo, de bom que era! Custara vinte mil-réis, mas valia cinqüenta a olhos fechados!”
E, com a bengala de unicorne debaixo do braço, ajudava a sua gorda Lindoca a
descer do bonde com dificuldade. As meninas Sarmento, acompanhadas da tia de
Eufrasinha e um cachorrinho branco e felpudo. que esta trazia ao colo, saltaram,
cheias de espalhafato, muitos risos, latidos, cores vivas nos chapéus e nas
sombrinhas. O famoso cabelo ostentava-se, mais que nunca, em cachos
acastelados e trescalantes de óleo de babosa. O cônego, discretamente risonho e
sempre janota, vinha seguido por um padrezinho magricela, que desfrutava na
província a especialidade de cantar ladainhas; alcunhavam-no de “Frei Lamparinas”.
O Sebastião Campos, vestido de branco como o Freitas, porém de paletó e
chapéu-do-chile, pulara em terra, abraçado a uma grande cesta de busca-pés,
pistolas, carretilhas e bombas.
— E o mantimento! respondia ele aos olhares curiosos.
Tinha paixão pelos fogos.
— Sou perdido por isto! dizia mostrando uma luva grosseira feita de sola, com
que tocava os formidáveis busca-pés.
Nos sábados de Aleluia era o seu luxo queimar um judas defronte da casa;
não perdia fogo de vista nas festas de arraial e sabia fazer bichinhas, carretilhas e
foguetes.
Apresentaram-se também, fora da rodinha do costume, dois novos
convidados; Um levado por Manuel e o outro pelo Casusa. O primeiro era o Joaquim
Furtado da Serra, bom homem, do comércio, muito amigo da família e tapado como
um ovo, o que, alias, não impedia que estivesse rico. Só entendia e só conversava
sobre negócios, gostava de fazer bem e era membro de várias sociedades
filantrópicas. Vivia contente da vida, cheio de amigos e obsequiados, estava sempre
a rir e a falar das suas três filhas. “Não puderam ir à festa de Manuel, coitadinhas!
porque ficaram à cabeceira de Uma doente...” Não queria comendas nem
grandezas; contava a todos como principiara no Brasil descalço, com um barril as
costas, e orgulhava-se, entre gargalhadas, da sua atual independência. O outro era
um rapazola de vinte e dois anos, que à primeira vista, parecia ter apenas dezesseis:
magro, puxado, muito penteado e muito míope, com as unhas burmidas, o colarinho
enorme e os pés apertadinhos em sapatos de polimento. Estudava no Liceu da
província, usava uma cadeia de plaquê brilhantes falsos no peito da camisa e uma
bengalinha equilibrada entre o indicador e o índex da mão direita; tinha uma coleção
de acrósticos e recitativos da própria lavra, uns inéditos e outros já publicados a
dinheiro nos jornais aos quais qualificava desvanecidamente de “seu tesouro!”
Chamava-se Boaventura Rosa dos Santos; era conhecido por “Dr. Faisca” e gostava
de fazer e adivinhar charadas.
Entraram todos em casa, numa desordem, acossados pela música, que
atropelava Uma polca do Colas, e por Uma intempestiva carretilha que soltara
Sebastião. Houve sarilho. José Roberto, debaixo de tempestuosa descompostura,
obrigava D. Amância a dar meia dúzia de voltas pela varanda, indo cair ambos,
perseguidos pelo Joli, sobre um banco de paparaúba. Joli era o cãozinho da
Eufrásia.


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No furor da terrível dança, desprendera-se o coque de Amância e fora parar
no jardim. Joli saltara-lhe logo atrás e destripava-o freneticamente com os dentes.
— Olhe, seu Casusa! Gritou a velha, quase sem fôlego, você não de perca o
respeito, seu pica-fumo! Qua ndo tomar suas monas, meta-se em casa com os
diabos! Credo! Que cachaceiro acabado! Vá tomar liberdade com quem lhas dá!
Diabo do sem brios!
O coque foi arrancado das garras do Joli e restituído à dona.
— Vejam! Vejam em que bonito gosto me puseram o meu coque de pita!
Parece uma rodilha de limpar panelas! Diabo da brincadeira estúpida! Também, em
vez de criar xerimbabos, seria melhor que cada um cuidasse de sua vida, que teria
muito do que cuidar!
E voltando-se para Sebastião:
— Mas o culpado é você, seu Sebastião; com você e que me tenho de haver!
— Não posso perder o meu coque novo!
— Novo quê! . contestou Casusa Eu vi pular de dentro dele uma aranha!
— É novo, e quero outro p'r'aqui!
— Está bom, meus senhores, deixem-se disso, interveio Manuel, e vamos ao
café, que está esfriando!
— Mas o meu coque? Isto não pode ficar assim!
— A senhora terá outro. descanse!
Mal se serviram de café com leite e bolo de tapioca com manteiga, formou-se
uma quadrilha. na qual o Casusa, de par com Eufrasinha, fez o que ele chamava
“pintar o padre''' Ditado este que sobremaneira escandalizava o especialista das
ladainhas. de cujos olhos partiam, por cima dos óculos, chispas repreensivas sobre
aquele.
Este Frei Lamparinas era um homenzinho escorrido, feio, natural de Caxias.
Não conseguira nunca ordenar-se em razão da sua extremada estupidez: soletrava
ainda as ladainhas que havia vinte anos recitava; jamais entrara com o latim. Os
rapazes do Liceu mexiam com ele e atiravam limões verdes por detrás do muro do
convento do Carmo, quando o infeliz passava defronte Tinha uma biografia
engraçada, cheia de disparates mas todos diziam que era bom de coração e não
fazia mal a ninguém.
— O chorado! Venha o chorado! gritavam do fundo da varanda batendo
palmas.
E a música, sem se fazer rogada gemeu a lânguida e sensual dança
brasileira.
De pronto, Casusa e Sebastião pularam ao meio da sala e puseram-se a
sapatear agilmente. com barulho. estalando os dedos e requebrando todo o corpo
Em breve arrastaram o Serra, o Faisca e o Freitas: e as mocas. chamadas por
aqueles, entraram na irresistível brincadeira. Elas rodavam na pontinha dos pés, o
passo miudinho e ligeiro, os braços dobrados e a cabeça inclinada, ora para um


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lado, ora para outro, estalando a língua contra o céu da boca, numa volúpia original
e graciosa.
Os velhos babavam-se.
— Quebra! berrava o Casusa entusiasmado. Quebra meu bem!
E regamboleava furiosamente a perna.
O chorado atingira afinal a sua fase de loucura. Os que não podiam dançar
expectavam, acompanhando a música com movimentos de corpo inteiro e palmas
cadenciado e espontâneas.
— Bravo! Assim, seu Casusa!
— Picadinho! Picadinho!
De repente, ouviu-se um trambolhão e um grito: era o Faísca. que cedera a
um “cambite” do Casusa, indo cair aos pés de Maria do Carmo Todos riram.
— Credo! gritou a velha Pois este homem não me queda agarrar a perna?...
Cruz capeta!
— Não aumente, minha senhora, foi no tornozelo...Este ossinho do pé!
— Mas eu tenho muita cócegas, e, depois do defunto Espigão, ninguém mais
me tocou no corpo!
Daí a pouco, chamavam para o almoço, e o divertimento continuou sem
interrupção.
No dia de São João nunca se abria o armazém de Manuel, e naquele ano a
véspera caíra num domingo! “Eram dois dias cheios!” como dizia satisfeito o Vila
Rica.
Desde a véspera que o Benedito, e mais uma preta, haviam seguido para o
sítio, carregados de fogos e dos paramentos necessários para se armar o altar: na
madrugada do dia foi a Brígida, em companhia de Mônica Lá estava D. Amância
para tomar conta de tudo. Os empregados iriam também todos; não havia, por
conseguinte, necessitado de ficar escravo nenhum em casa.
O quarto dos caixeiros tinha então um aspecto domingueiro: botas
engraxadas sobre os baús; roupas de casimira cuidadosamente estendidas nas
costas de cadeiras; camisas engomadas por aqui e por ali, a espera da serventia, e
um cheiro ativo de extratos para o lenço. Os rapazes vestiam-se. Seriam, quando
muito, oito horas da manhã.
Mas, apesar do aspecto festival dos colegas, Dias conservava-se em trajos
menores, a varrer o soalho.
— Você não se apronta, seu Dias?... perguntou-lhe o Cordeiro, ocupado a
enfiar um par de calcas cor de alecrim. Você não vem conosco à quinta?
— Vão andando, que eu já vou.
Não trocaram mais palavra. Os três saíram, e o Dias, encostando no queixo o
cabo da vassoura, ficou pensativo. Mal ouviu, porém, bater embaixo o trinco da porta
da rua, atirou a vassoura para um canto e desceu cautelosamente à varanda.
A casa tinha a tranqüilidade saudosa de Um lugar abandonado. Só o sabiá
chilreava na gaiola.


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O caixeiro predileto de Manuel fechou à chave a cancela de madeira polida,
que separava a varanda do corredor, e, depois de olhar em torno, seguiu para o
quarto de Raimundo, faiscando, nem ele sabia bem o quê. Pôs-se a esquadrinhar o
que lá havia, não com a curiosidade amorosa da primitiva bisbilhoteira, porém frio,
calculado, com a prudência de quem sabe que está cometendo uma baixeza. E
abria gavetas, lia os manuscritos que encontrava, revistava as algibeiras da roupa
estendida no cabide, folheava os livros, examinando tudo, todos os cantinhos. Em
Uma das malas encontrou um folheto de capa verde, guardou-o logo, depois de lhe
ter lido o frontispício, e afinal, quando já nada mais tinha para dar fé, retirou-se sem
deixar o menor vestígio do que fez. Daí seguiu para o aposento de Ana Rosa, mas
teve logo uma contrariedade: a porta estava fechada; rebuscou a chave na varanda,
pelos cantos, não a encontrou, e subiu então rapidamente ao segundo andar, donde
trouxe um pedaço de cera, com que modelou a fechadura. Em seguida atirou-se
para o quarto de Maria Bárbara, experimentou a porta; estava também fechada. Mas
havia um postigo Dias espremeu-se por esse e conseguiu entrar.
O aposento da velha conduzia com a dona. Sobre uma cômoda antiga, de
pau-santo, com puxadores de metal e coberta por um oleado já puído e gasto,
equilibrava-se um oratório de madeira, caprichosamente trabalhado e cheio de uma
porção variadíssima de santos, havia entre eles, feitos de casca de cajá, de gesso,
de terra vermelha e de porcelana. O Santo Antônio de Lisboa, vindo de encomenda,
com o pequeno ao colo, lá estava, muito rubicundo e lustroso; a Santa Ana,
ensinando a filha a ler: um São José de cores cruas, detestavelmente pintado; um
São Benedito, vestido de frade, pretinho, de beiços encarnados e olhos de vidro: um
São Pedro, cujas proporções o faziam criança ao lado dos outros, uma miuçalha de
santinhos, pequenitos e caricatos, que a gente não podia ver sem rir e que se
escondam na peanha dos grandes; e, finalmente, um grande São Raimundo Nonato,
calvíssimo, barbado, feio, e com um cálice na mão direita. Ao fundo do oratório
litografias de carregação representavam Santa Filomena, a fugida de São José com
a família, Cristo crucificado e outros assuntos religiosos. O grupo dos santos
ressentia-se de uma falta, a de João Batista, que havia desertado para a quinta.
Havia ainda sobre a cômoda dois castiçais de latão, guarnecidos de papel rendado,
com as velas de cera meio gastas; um grupo de biscuit representando a Mater
dolorosa e um menino Jesus, fechado numa manga de vidro, por causa das moscas.
Encostada a parede, uma palma de pindoba benta a qual, segundo a voz do povo,
tinha a virtuosa propriedade de apaziguar os elementos em dias de tempestade,
duas outras palmas casquilhas, enfeitadas de pano e malacacheta, guarneciam os
lados do oratório. Viam-se ainda, por toda a parte, quadrinhos de gravuras e cromos,
onde se liam orações milagrosas, a do Monte Serrate, a do Parto, a da Virgem, e
outras, sem desenho, com que os tipógrafos espertos da província exploravam a
carolice das beatas.
Contrastando com tudo isto, destacava-se, dependurada na parede, uma
formidáveis palmatória de dar bolos, negra, terrível e muito lustrosa de uso.
Defronte do oratório simetrizavam duas molduras envidraçadas, expondo
cada qual uma talagarça cheia de amostras dos diversos bordados de lã, que as
meninas aprendem no colégio. “Panos de tapete” como se diz no Maranhão. Em
uma delas liam-se no centro as iniciais M. R. S. e “Colégio da Trindade em l838”, e
na outra, que estava em melhor estado de conservação “A. R. S. S.” e Uma data
muito mais recente. A julgar por estas letras, os dois quadros tinham sido bordados
por Mariana e Ana Rosa, mãe e filha. Tudo isso foi minuciosamente esmerilhado
pelo Dias; leu as Horas Marianas, apalpou as roupas de Maria Barbara, provou a


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ponta do molho do fumo com que esta “espairecia os passados dissabores”, e.
depois, quando nada mais tinha para esmiuçar, pôs-se a refletir, pensando, no que
devia fazer. Afinal veio-lhe uma idéia, que lhe deu um sorriso de contentamento,
acendeu logo uma das grossas velas de cera, tomou pelas pernas a imagem de São
Raimundo e tisnou-lhe a cara e a careca de encontro à chama do pavio. Depois da
operação, o pobre santo parecia um carvoeiro; ficara tão negro como o seu
companheiro de oratório, o engraçado São Benedito.
Dias contemplou a sua obra, riu de novo, calculando o bom efeito que ela
produziria, colocou em seguida a imagem no seu lugar, e saiu apressado, por lhe
parecer que ouvira rumor na porta da rua. Enganara-se.
Daí a meia hora, vestido de pano preto, segundo o seu invariável costume. o
acreditado caixeiro de Manuel Pescada, tomava o bonde do Cutim, com destino ao
sitio da sogra do patrão.

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