Universidade da Amazônia o mulato de de Aluísio Azevedo nead – NÚcleo de educaçÃo a distância



Baixar 0.58 Mb.
Pdf preview
Página1/33
Encontro31.07.2022
Tamanho0.58 Mb.
#24396
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   33
O Mulato


www.nead.unama.br
1
Universidade da Amazônia
O Mulato
de 
de Aluísio Azevedo
Aluísio Azevedo
NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal
CEP: 66060—902
Belém – Pará
Fones: (91) 210—3196 / 210—3181
www.nead.unama.br
E-mail: 
uvb@unama.br


www.nead.unama.br
2
O Mulato
de Aluísio Azevedo
CAPÍTULO I
Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão
parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras
escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes,
as paredes tinham reverberações de prata polida as folhas das árvores nem se
mexiam as carroças de água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os
prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam
sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não
se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos
faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.
A Praça da Alegria apresentava um ar fúnebre. De um casebre miserável, de
porta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede e uma voz
tísica e aflautada de mulher, cantar em falsete a “gentil Carolina era bela”, doutro
lado da praça, uma preta velha, vergada por imenso tabuleiro de madeira, sujo,
seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom
muito arrastado e melancólico: “Fígado, rins e coração!'' Era uma vendedora de fatos
de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as
ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pele crestada os
ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios
de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sair, atravessava a rua,
suado vermelho afogueado, à sombra de um enorme chapéu-de-sol. Os cães,
estendidos pelas calcadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos,
movimentos irascíveis, mordiam o ar querendo morder os mosquitos. Ao longe, para
as bandas de São Pantaleão, ouvia-se apregoar: “Arroz de Veneza! Mangas!
Macajubas!” Às esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de
sabão da terra e aguardente. O quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava a
sua preguiça morrinhenta, acariciando o seu imenso e espalmado pé descalço. Da,
Praia de Santo Antônio enchiam toda a cidade os sons invariáveis e monótonos de
uma buzina, anunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam,
apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quase todas negras, muito gordas, o
tabuleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris trêmulos e as tetas opulentas.
A Praia Grande e a Rua da Estrela contrastavam todavia com o resto da
cidade, porque era aquela hora justamente a de maior movimento comercial. Em
todas as direções cruzavam-se homens esbofados e rubros cruzavam-se os negros
no carreto e os caixeiros que estavam em serviço na rua; avultavam os
paletós-sacos, de brim pardo, mosqueados nas espáduas e nos sovacos por
grandes manchas de suor. Os corretores de escravos examinavam à plena luz do
sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os
dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhes
com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da
musculatura como se estivessem a comprar cavalos. Na Casa da Praça, debaixo
das amendoeiras, nas portadas dos armazéns, entre pilhas de caixões de cebolas e
batatas portuguesas discutiam-se o câmbio, o prego do algodão, a taxa do açúcar, a
tarifa dos gêneros nacionais; volumosos comendadores resolviam negócios, faziam


www.nead.unama.br
3
transações perdiam, ganhavam tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita
manha de gente de negócios falando numa gíria só deles trocando chalaças
pesadas, mas em plena confiança de amizade Os leiloeiros cantavam em voz alta o
preço das mercadorias, com um abrimento afetado de vogais; diziam: “Mal-rais” em
vez de mil-réis. À porta dos leilões aglomeravam-se os que queriam comprar e os
simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zunzum de feira.
O leiloeiro tinha piscos de olhos significativos; de martelo em punho,
entusiasmado, o ar trágico, mostrava com o braço erguido um cálice de cachaça, ou,
comicamente acocorado esbrocava com o furador os paneiros de farinha e de milho.
E, quando chegava a ocasião de ceder a fazenda, repetia o preço muitas vezes,
gritando, e afinal batia o martelo com grande barulho, arrastando a voz em um tom
cantado e estridente.
Viam-se deslizar pela praça os imponentes e monstruosos abdomens dos
capitalistas; viam-se cabeças escarlates e descabeladas, gotejando suor por debaixo
do chapéu de pelo; risinhos de proteção, bocas sem bigode dilatadas pelo calor,
perninhas espertas e suadas na calça de brim de Hamburgo. E toda esta atividade,
posto que um tanto fingida, era geral e comunicativa; até os ricos ociosos, que iam
para ali encher o dia, e os caixeiros, que “faziam cera” até os próprios vadios
desempregados, aparentavam diligência e prontidão.
A varanda do sobrado de Manuel Pescada, uma varanda larga e sem forro no
teto, deixando ver as ripas e os caibros que sustentavam as telhas. tinha um aspecto
mais ou menos pitoresco com a sua bela vista sobre o rio Bacanga e as suas rótulas
pintadas de verde-paris. Toda ela abria para o quintal, estreito e longo, onde, à
mingua de sol, se minavam duas tristes pitangueiras e passeava solenemente um
pavão da terra.
As paredes, barradas de azulejos portugueses e, para o alto, cobertas de
papel pintado, mostravam, nos seus desenhos repetidos de assuntos de caça,
alguns lugares sem tinta, cujas manchas brancacentas traziam à idéia joelheiras de
calças surradas. Ao lado, dominando a mesa de jantar, aprumava-se um velho
armário de jacarandá polido, muito bem tratado, com as vidraças bem limpas,
expondo as pratas e as porcelanas de gosto moderno; a um canto dormia,
esquecida na sua caixa de pinho envernizado, uma máquina de costura de Wilson,
das primeiras que chegaram ao Maranhão; nos intervalos das portas
simetrizavam-se quatro estudos de Julien, representando em litografia as estações
do ano; defronte do guarda-louça um relógio de corrente embalava
melancolicamente a sua pêndula do tamanho de um prato e apontava para as duas
horas. Duas horas da tarde.
Não obstante, ainda permanecia sobre a mesa a louça que servira ao almoço.
Uma garrafa branca, com uns restos de vinho de Lisboa cintilava à claridade
reverberante que vinha do quintal. De uma gaiola, dependurada entre as janelas
desse lado, chilreava um sabiá.
Fazia preguiça estar ali. A viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e
dava ao ambiente um tom momo e aprazível. Havia a quietação dos dias inúteis,
uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas margens
apostas do, a silenciosa vegetação do Anjo da Guarda estava a provocar boas
sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as árvores pareciam abrir de longe
os braços, chamando a gente para a calma tepidez das suas sombras.
— Então, Ana Rosa, que me respondes?... disse Manuel esticando se mais
na cadeira em que se achava assentado, à cabeceira da mesa, em frente da filha


www.nead.unama.br
4
Bem sabes que te não contrario... desejo este casamento, desejo... mas. em
primeiro lugar, convém saber se ele e do teu gosto... Vamos.., fala!
Ana Rosa não respondeu e continuou muito embebida, como estava, rolar
sob a ponta cor-de-rosa dos seus dedos as migalhas de pão que ia encontrando
sobre a toalha.
Manuel Pedro da Silva, mais conhecido por Manuel Pescada, era um
português de uns cinqüenta anos, forte, vermelho e trabalhador. Diziam-no afilado
para o comércio e amigo do Brasil. Gostava da sua leitura nas horas de descanso,
assinava respeitosamente os jornais sérios da província e recebia alguns de Lisboa.
Em pequeno meteram-lhe na cabeça vários trechos do Camões e não lhe
esconderam de todo o nome de outros poetas. Prezava com fanatismo o Marquês
de Pombal, de quem sabia muitas anedotas e tinha uma assinatura no Gabinete
Português, a qual lhe aproveitava menos a ele do que à filha, que era perdida pelo
romance.
Manuel Pedro fora casado com uma senhora de Alcântara chamada Mariana
muito virtuosa e como a melhor parte das maranhenses extremada em pontos de
religião; quando morreu, deixou em legado seis escravos a Nossa Senhora do
Carmo.
Bem triste foi essa época tanto para o viúvo como para a filha orfanada,
coitadinha, justamente quando mais precisava do amparo maternal. Nesse tempo
moravam no Caminho Grande, numa casinha térrea para onde a moléstia de
Mariana os levara em busca de ares mais benignos; Manuel, porem, que era já
então negociante e tinha o seu armazém na Praia Grande mudou-se logo com a
pequena para o sobrado da Rua da Estrela, em cujas lojas prosperava, havia dez
anos, no comércio de fazendas por atacado.
Para não ficar só com a filha “que se fazia uma mulher” convidou a sogra D.
Maria Bárbara a abandonar o sitio em que vivia e ir morar t com ele e mais a neta “A
menina precisava de alguém que a guiasse, que a conduzisse! Um homem nunca
podia servir para essas coisas! E, se fosse a meter em casa uma preceptora - Meu
bom Jesus! - que não diriam por ai?... No Maranhão falava-se de tudo! D. Maria
Bárbara que se decidisse a deixar o mato e fosse de moda para a Rua da Estrelas!
Não teria que se arrepender... havia de estar como em sua própria casa - bom
quarto, boa mesa, e plena liberdade!”
A velha aceitou e lá foi, arrastando os seus cinqüenta e tantos anos, alojar-se
em casa do genro. com um batalhão de moleques, suas crias, e com os cacaréus
ainda do tempo do defunto marido. Em breve, porém, o bom português estava
arrependido do passo que dera: D. Maria Bárbara apesar de muito piedosa; apesar
de não sair do quarto sem vir bem penteada, sem lhe faltar nenhum dos cachinhos
de seda preta, com que ela emoldurava disparatadamente o rosto enrugado e
macilento; apesar do seu grande fervor pela igreja e apesar das missas que papava
por dia, D Mana Bárbara, apesar de tudo isso, saíra-lhe “má dona de casa”.
Era uma fúria! Uma víbora! Dava nos escravos por hábito e por gosto; só
falava a gritar e, quando se punha a ralhar, — Deus nos acuda! — incomodava toda
a vizinhança! Insuportável!
Maria Bárbara tinha o verdadeiro tipo das velhas maranhenses criadas na
fazenda Tratava muito dos avós, quase todos portugueses; muito orgulhosa; muito
cheia de escrúpulos de sangue Quando falava nos pretos dizia “Os sujos” e quando
se referia a um mulato dizia “O cabra”. Sempre fora assim e como devota, não havia
outra: Em Alcântara tivera uma capela de Santa Bárbara e obrigava a sua


www.nead.unama.br
5
escravatura a rezar ai todas as noites. em coro de braços abertos às vezes
algemados Lembrava-se com grandes suspiros do marido “do seu João Hipólito” um
português fino, de olhos azuis e cabelos louros.
Este João Hipólito foi brasileiro adotivo e chegou a fazer alguma posição na
secretaria do governo da província Morreu com o posto de coronel.
Maria Bárbara tinha grande admiração pelos portugueses, dedicava-lhes um
entusiasmo sem limites, preferia-os em tudo aos brasileiros. Quando a filha foi
pedida por Manuel Pedro, então principiante no comércio da capital, ela dissera:
“Bem! Ao menos tenho a certeza de que é branco!”
Mas o Pescada não compreendeu a esposa, nem foi amado por ela; a virtude,
ou talvez simplesmente a maternidade, apenas conseguiu fazer de Mariana uma
companheira fie!; viveu exclusivamente para a filha. É que a desgraçada, desde os
quinze anos, ainda no irresponsável arrebatamento do primeiro amor, havia eleito já
o homem a quem sua alma teria de pertencer por toda a vida. Esse homem existe
hoje na história do Maranhão, era o agitador José Cândido de Moraes e Silva
conhecido popularmente pelo “Farol”. Fez todo o possível para casar com ele, mas
foram baldados os seus esforços, nem só em virtude das perseguições políticas que,
tão cedo, atribularam a curta existência daquela fenomenal criatura, como também
pela inflexível oposição que tal idéia encontrou na própria família da rapariga.
Entretanto, o destino dela se havia prendido à sorte do desventurado
maranhense. Quem diria que aquela pobre moça, nascida e criada nos sertões do
Norte, sentiria, como qualquer filha das grandes capitais, a mágica influência que os
homens superiores exercem sobre o espírito feminino? Amou-o, sem saber por que.
Sentira-lhe a força dominadora do olhar, os ímpetos revolucionários do seu caráter
americano, o heroísmo patriótico da sua individualidade tão superior ao meio em que
floresceu; decorara-lhe as frases apaixonadas e vibrantes de indignação, com que
ele fulminava os exploradores da sua pátria estremecida e os inimigos da integridade
nacional; e tudo isso, sem que ela soubesse explicar, arrebatou-a para o belo e
destemido moço com todo o ardor do seu primeiro desejo de mulher.
Quando, na Rua dos Remédios, que nesse tempo era ainda um arrabalde, o
desditoso herói, apenas com pouco mais de vinte e cinco anos de idade sucumbiu
ao jugo do seu próprio talento e da sua honra política, oculto, foragido, cheio de
miséria, odiado por uns como um assassino e adorado por outros como um deus, a
pobre senhora deixou-se possuir de uma grande tristeza e foi enfraquecendo e
ficando doente. e ficando feia e cada vez mais triste, até morrer silenciosamente
poucos anos depois do seu amado.
Ana Rosa não chegou a conhecer o Farol; a mãe porem muito em segredo,
ensinara-lhe a compreender e respeitar a memória do talentoso revolucionário, cujo
nome de guerra despertava ainda, entre os portugueses, a raiva antiga do motim de
7 de agosto de l83l. “Minha filha, disse-lhe a infeliz já nas vésperas da morte, não
consintas nunca que te casem, sem que ames deveras o homem a ti destinado para
marido. Não te cases no ar! Lembra-te que o casamento deve ser sempre a
conseqüência de duas inclinações irresistíveis. A gente deve casar porque ama, e
não ter de amar porque casou Se fizeres o que te digo, serás feliz!” Concluiu
pedindo-lhe que prometesse, caso algum dia viessem a constrangê-la a aceitar
mando contra seu gosto, arrostar tudo, tudo, para evitar semelhante desgraça,
principalmente se então Ana Rosa já gostasse doutro; e por este, sim. fosse quem
fosse, cometesse os maiores sacrifícios, arriscasse a própria vida, porque era nisso
que consistia a verdadeira honestidade de uma moça.


www.nead.unama.br
6
E mais não foram os conselhos que Mariana deu à filha. Ana Rosa era
criança. não os compreendeu logo, nem tão cedo procuro compreendê-los; mas, tão
estavam eles morte da mãe que a idéia desta não lhe acudia à memória sem as
palavras da moribunda.
Manuel Pedro, apesar de bom, era um desses homens mais que alheados as
sutilezas do sentimento; para outra mulher daria talvez um excelente esposo, não
para aquela, cuja sensibilidade romântica, longe de o comover havia muita vez de
importuná-lo. Quando se achou viúvo não sentiu, a despeito da sua natural bondade,
mais do que certo desgosto pela ausência de uma companheira com que já se tinha
habituado — contudo, não pensou em tornar a casar, convencido de que o afeto da
filha lhe chegaria de sobra para amenizar as canseiras do trabalho, e que o auxílio
imediato da sagra bastaria para garantir a decência da sua casa e a boa regra das
suas despesas domésticas.
Ana Rosa cresceu pois, como se vê, entre os desvelos insuficientes do pai e o
mau gênio da avó. Ainda assim aprendera de cor a gramática do Sotero dos Reis;
lera alguma coisa; sabia rudimentos de francês e tocava modinhas sentimentais ao
violão e ao piano Não era estúpida; tinha a intuição perfeita da virtude, um modo
bonito, e por vezes lamentara não ser mais instruída. Conhecia muitos trabalhos de
agulha: bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha de contralto que
fazia gosto ouvir.
Tanto assim que, em pequena, servira várias vezes de anjo da verônica nas
procissões da quaresma E os cônegos da Sé gabavam-lhe o metal da voz e
davam-lhe grandes cartuchos de amêndoas de mendubim, muito enfeitados nas
suas pinturas, toscas e características, feitas a goma-arábica e tintas de botica.
Nessas ocasiões ela sentia-se radiante, com as faces carminadas, a cabeça coberta
de cachos artificiais, grande roda no vestido curto, a jeito de dançarina E, muito
concha, ufana dos seus galões de prata e ouro e das suas trêmulas asas de papelão
e escumillha, caminhava triunfante e feliz no meio do cordão das irmandades
religiosas, segurando a extremidade de um lenço do qual o pai segurava a outra.
Isto eram promessas feitas pela mãe ou pela avó em dias de grande enfermidade na
família.
E crescera sempre bonita de formas. Tinha os olhos pretos e os cabelos
castanhos de Mariana e puxara ao pai as rijezas de corpo e os dentes fortes Com a
aproximação da puberdade apareceram-lhe caprichos românticos e fantasias
poéticas: gostava dos passeios ao luar, das serenatas; arranjou ao lado do seu
quarto um gabinete de estudo, uma bibliotecazinha de poetas e romancistas; tinha
um Paulo e Virgínia de biscuit sobre a estante e, escondido por detrás de um
espelho, o retrato do Farol, que herdara de Mariana.
Lera com entusiasmo a Graziela de Lamartine Chorou muito com essa leitura
e, desde aí, todas as noites, antes de adormecer, procurava instintivamente imitar o
sorriso de inocência que a procitana oferecia ao seu amante. Praticava bem com os
pobres. adorava os passarinhos e não podia ver matar perto de si uma borboleta Era
um bocadinho supersticiosa: não queda as chinelas emborcadas debaixo da rede e
só aparava os cabelos durante o quarto crescente da lua. “Não que acreditasse
nessas coisas”, justificava-se ela, “mas fazia porque os outros faziam. “ Sobre a
cômoda, havia muito tempo, tinha uma estampa litográfica e colorida de Nossa
Senhora dos Remédios e rezava-lhe todas as noites, antes de dormir Nada conhecia
melhor e mais agradável do que um passeio ao Cutim, e, quando soube que se
projetava uma linha de bondes até lá, teve uma satisfação violenta e nervosa.


www.nead.unama.br
7
Feitos os quinze anos, ela começou pouco e pouco a descobrir em si
estranhas mudanças; percebeu, sentiu que uma transformação importante se
operava no seu espírito e no seu corpo: sobressaltavam-na terrores acometiam-na
tristezas sem modificável. Um dia, afinal, acordou mais preocupada; assentou-se na
rede, a cismar. E, com surpresa, reparou que seus membros ultimamente se tinham
arredondado; notou que em todo seu corpo a linha curva suplantara a reta e que as
suas formas eram já completamente de mulher.
Veio-lhe então um sobressalto de contentamento mas logo depois caiu a
entristecer: sentia-se muito só, não lhe bastava o amor do pai e da velha Barbara;
queria uma afeição mais exclusiva, mais dela.
Lembrou-se dos seus namoros. Riu-se “coisas de criança!...”
Aos doze anos namorara um estudante do Liceu. Haviam conversado três ou
quatro vezes na sala do pai e supunham-se deveras apaixonados um pelo outro; o
estudante seguiu para a Escola Central da Corte, e ela nunca mais pensou nele
Depois foi um oficial de marinha; “Como lhe ficava bem a farda!... Que moço
engraçado! bonito! e como sabia vestir-se... Ana Rosa chegou a principiar a bordar
um par de chinelas para lho oferecer; antes porém de terminado o primeiro pé, já o
bandoleiro havia desaparecido com a corveta “Baiana”. Seguiu-se um empregado do
comércio. “Muito bom rapaz! muito cuidadoso da roupa e das unhas!...” Parecia-lhe
que ainda estava a vê-lo, todo metódico, escolhendo palavras para lhe pedir “a
subida honra de dançar com ela uma quadrilha”
— Ah tempos! tempos!..
E não queria pensar ainda em semelhantes tolices. “Coisas de criança!
Coisas de criança!...” Agora, só o que lhe convinha era um marido! “O seu”, o
verdadeiro, o lega!! O homem da sua casa, o dono do seu corpo, a quem ela
pudesse amar abertamente como amante e obedecer em segredo como escrava.
Precisava de dar-se e dedicar-se a alguém; sentia absoluta necessidade de pôr em
ação a competência, que ela em si reconhecia, para tomar conta de uma casa e
educar muitos filhos.
Com estes devaneios, acudia-lhe sempre um arrepiozinho de febre; ficava
excitada, idealizando um homem forte, corajoso, com um bonito talento, e capaz de
matar-se por ela. E, nos seus sonhos agitados, debuxava-se um vulto confuso, mas
encantador, que galgava precipícios, para chegar onde ela estava e merecer-lhe a
ventura de um sorriso, uma doce esperança de casamento. E sonhava o noivado:
um banquete esplêndido! e junto dela, ao alcance de seus lábios, um mancebo
apaixonado e formoso, um conjunto de força, graça e ternura. que a seus pés ardia
de impaciência e devorava-a com o olhar em fogo.
Depois — via-se dona de casa; pensando muito nos filhos; sonhava-se feliz,
muito dependente na prisão do ninho e no domínio carinhoso do manco. E sonhava
umas criancinhas louras, ternas, balbuciando tolices engraçadas e comovedoras,
chamando-lhe “mama!”
— Oh! Como devia ser bom!.. E pensar que havia por ai mulheres que eram
contra o casamento!...
Não! Ela não podia admitir o celibato, principalmente para a mulher!... “Para o
homem — ainda passava... vivera triste, só; mas em todo o caso — era um
homem... teria outras distrações! Mas uma pobre mulher, que melhor futuro poderia


www.nead.unama.br
8
ambicionar que o casamento?... que mais legítimo prazer do que a maternidade; que
companhia mais alegre do que a dos filhos, esses diabinhos tão feiticeiros?..” Além
de que, sempre gostara muito de crianças: muita vez pedira a quem as tinha que
lhas mandasse a fazer-lhe companhia, e, enquanto as pilhava em casa, não
consentia que mais ninguém se incomodasse com elas; queria ser a própria a
dar-lhes a comida, a lavá-las, a vesti-las, e acalentá-las E estava constantemente a
talhar camisinhas e fraldas, a fazer toucas e sapatinhos muita lá, com muito amor,
justamente como, em pequenina, ela fazia com as suas bonecas. Quando alguma
de suas amigas se casava, Ana Rosa exigia dela sempre um cravo do ramalhete ou
um botão das flores de laranjeira da grinalda; este ou aquele, pregava-os
religiosamente no seio com um dos alfinetes dourados da noiva, e quedava-se a
fitá-los, cismado, até que dos lábios lhe partia um suspiro longo, muito longo, como o
do viajante que em meio do caminho já se sente cansado e ainda não avista o lar.
Mas o noivo por onde andava que não vinha? Esse belo mancebo, tão
ardente e tão apaixonado, por que se não apresentava logo? Dos homens que Ana
Rosa conhecia na província nenhum decerto podia ser!... E, no entanto, ela amava...
A quem?
Não sabia dizê-lo, mas amava. Sim! Fosse a quem fosse, ela amava; porque
sentia vibrar-lhe todo o corpo, fibra por fibra, pensando nesse - Alguém - íntimo e
desconhecido para ela; esse — Alguém — que não vinha e não lhe saia do
pensamento, esse — Alguém — cuja ausência a fazia infeliz e lhe enchia a
existência de lágrimas.
Passaram-se meses — nada! Correram três anos. Ana Rosa principiou a
emagrecer visivelmente. Agora dormia menos; estava pálida; à mesa mal tocava nos
pratos.
— O pequena, tu tens alguma coisa! disse-lhe um dia o pai, já incomodado
com aquele ar doentio da filha. Não me pareces a mesma! Que é isso, Anica?
Não era nada!...
E Ana Rosa sobressaltava-se, como se tivera cometido uma falta. “Cansaço!
Nervos! Não era coisa que valesse a pena!... “
Mas chorava.
— Olha! Ai temos! Agora o choro! Nada! É preciso chamar o médico!
— Chamar o médico?... Ora papai, não vale a pena!...
E tossia. “Que a deixassem em paz! Que não a estivessem apoquentando
com perguntas!...”
E tossia mais, sufocada.
— Vês?! Estas achacada! Levas nesse “Churra, chrum! chrum chrum!” E é só
“Não vale a pena! Não precisa chamar o médico!...' Não senhora! com moléstias não
se brinca!
O médico receitou banhos de mar na Ponta d'Areia.
Foi um tempo delicioso para ela os três meses que ai passou. Os ares da
costa, os banhos de choque, os longos passeios a pé, restituíram-lhe o apetite e
enriqueceram-lhe o sangue Ficou mais forte; chegou a engordar.


www.nead.unama.br
9
Na Ponta d'Areia travara uma nova amizade — D. Eufrasinha. Viúva de um
oficial do quinto de infantaria, batalhão que morreu todo na Guerra do Paraguai.
Muito romântica: falava do marido requebrando-se, e poetizava-lhe a curta história:
“Dez dias depois de casados, seguira ele para o campo de batalha e, no denodo da
sua coragem, fora atravessado por uma bala de artilharia, morrendo logo a balbuciar
com o lábio ensangüentado o nome da esposa estremecida.”
E com um suspiro, feito de desejos mel satisfeitos, a viúva concluía pesarosa
que “prazeres nesta vida, conhecera apenas dez dias e dez noites...”
Ana Rosa compadecia-se da amiga e escutava-lhe de boa-fé as frioleiras. Na
sua ingênua e comovida sinceridade facilmente se identificava com a história
singular daquele casamento tão infeliz e tão simpático.. Por mais de uma vez chegou
a chorar pela morte do pobre moço oficial de infantaria.
D. Eufrasinha instruiu a sua nova amiga em muitas coisas que esta mal
sonhava; ensinou-lhe certos mistérios da vida conjugal; pode dizer-se que lhe de
amor: falou muito nos “homens”, disse-lhe como a mulher esperta devia lidar com
eles; quais eram as manhas e os fracos dos maridos ou dos namorados; quais eram
os tipos preferíveis; o que significava ter “olhos mortos, beiços grossos, nariz
comprido”.
A outra ria-se. “Não tomava a sério aquelas bobagens da Eufrasinha!”
Mas intimamente ia, sem dar por isso, reconstruindo o seu ideal pelas
instruções da viúva Fê-lo menos espiritual, mais humano, mais verossímil, mais
suscetível de ser descoberto; e, desde então, o tipo, apenas debuxado ao fundo dos
seus sonhos, veio para a frente, acentuou-se como uma figura que recebesse os
últimos toques do pintor; e, depois de vê-lo bem correto, bem emendado e pronto,
amou o ainda mais, muito mais, tanto quanto o amaria se ele fora com efeito uma
realidade.
A partir daí, era esse ideal, correto e emendado, a base das suas
deliberações a respeito de casamento; era a bitola, por onde ela aferia todo aquele
que a requestasse. Se o pretendente não tivesse o nariz, o olhar, o gesto, o conjunto
enfim de que constava o padrão, podia, desde logo, perder a esperança de cair nas
graças da filha de Manuel Pedro.
Eufrasinha mudou-se para a cidade; Ana Rosa já lá estava. Visitaram-se.
E estas visitas, que se tomaram muito íntimas e repetidas, serviram
mutuamente de consolo, ao afincado celibato de uma e a precoce viuvez da outra.
Havia, empregado no armazém do pai de Ana Rosa, um rapaz português, de
nome Luís Dias; muito ativo, econômico, discreto, trabalhador, com uma bonita letra,
e muito estimado na Praça. Contavam a seu favor invejáveis partidas de tino
comercial, e ninguém seria capaz de dizer mal de tão excelente moço.
Ao contrário, quase sempre que falavam dele, diziam “Coitado!” e este -
coitado — era inteiramente sem razão de ser, porque ao Dias, graças a Deus, nada
faltava: tinha casa, comida, roupa lavada e engomada, e, ainda por cima, os cobres
do emprego. Mas a coisa era que o diabo do homem, apesar das suas prósperas
circunstâncias, impunha certa lástima, impressionava com o seu eterno ar de
piedade, de súplica, de resignação e humildade. Fazia pena, incutia dó em quem o
visse, tão submisso, tão passivo, tão pobre rapaz — tão besta de carga Ninguém,
em caso algum, levantaria a mão sobre ele, sem experimentar a repugnância da
covardia.
Elogiavam-no entretanto: “Que não fossem atrás daquele ar modesto, porque
ali estava um empregadão de truz!”


www.nead.unama.br
10
Vários negociantes ofereceram-lhe boas vantagens para torná-lo ao seu
serviço; mas o Dias, sempre humilde e de cabeça baixa, resistia-lhes a pé firme. E,
tal constância opôs as repetidas propostas, que todo o comércio, dando como certo
o seu casamento com a filha do patrão, elogiou a escolha de Manuel Pedro e
profetizou aos nubentes “um futuro muito bonito e muito rico”.
— Foi acertado foi! diziam com o olhar fito.
Manuel Pedro via, com efeito, naquela criatura, trabalhadora e passiva como
um boi de carga e econômico como um usuário, o homem mais no caso de fazer a
felicidade da filha Queria-o para genro e para sócio; dizia a todos os colegas que o
“seu Dias” apenas retirava por ano, para as suas despesas, a quarta parte do
ordenado.
— Tem já o seu pecúlio, tem! considerava ele. A mulher o quisesse, levava
um bom marido! Aquele virá a possuir alguma coisa... é moço de muito futuro!
E, pouco a pouco foi se habituando a julgá-lo já da família e a estimá-lo e
distingui-lo como tal; só faltava que a pequena se decidisse... Mas qual! ela nem
queria vê-lo! Tinha-lhe birra; não podia sofrer aquele cabelo à escovinha, aquele
cavanhaque sem bigode, aqueles dentes sujos, aquela economia torpe e aqueles
movimentos de homem sem vontade própria.
— Um somítico! classificava Ana Rosa franzindo o nariz.
Uma ocasião, o pai tocou-lhe no casamento.
— Com o Dias?... perguntou espantada.
— Sim.
— Ora, papai!
E soltou uma risada.
Manuel não se animou a dizer mais palavra; a noite, porém, contou tudo em

Baixar 0.58 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   33




©historiapt.info 2023
enviar mensagem

    Página principal