Universidade católica de moçambique centro de Ensino à Distância Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa Literaturas Africanas em Língua Portuguesa I código: P0208 Módulo único 22 Unidades


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Literatura Africana Em Língua Portuguesa I
 
Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de: 
 Dimensionar a recensão crítica da poesia guineense; 
 Analisar as perpectivas da nova poesia guineense. 
 Analisar as marcas do “eu poético”. 
RECENSÃO CRÍTICA 
A publicação desta colectânea dá seguimento a textos publicados 
em 1977 em Mantenhas para Quem Luta! (A Nova Poesia da 
Guiné-Bissau) e desenvolve os seus temas primaciais. A palavra-
chave é, naturalmente, o termo povo, cujo significado de 
denotação abrange todas as vítimas da opressão estrangeira, mas 
cuja carga conotativa é muito mais ampla. Nela se integram todos 
os valores morais individuais: esperança irrecusável em “um 
amanhecer diferente” certeza de promover uma pátria do humano, 
modelo ideal de toda e qualquer comunidade humana: “Nós 
avançamos no lamaçal quente da história / mas firmemente nos 
nossos passos.” crença na positividade do ardor revolucionário: 
Nós somos / aqueles que dia e noite / fazem com suas mãos / os 
alicerces da vida”; e isso permite “olhar com confiança / o 
amanhã que hoje construímos”, em pugnacidade contra todas as 
formas da exploração humana: “porque o povo jamais dormiu no 
silêncio!”
Ante esta poesia, porém, situamo-nos nos antípodas duma visão 
idealista e moralística do povo, como a que é perfilhada, por 
exemplo, por Michelet. É evidente que, para o autor, a ideia de 
povo se identifica, como em natural osmose, com o PAIGC. Um 
poema é a este dirigido como homenagem e Amílcar Cabral é 
lembrado como ponto de mira duma poesia cantada, duma poesia-
acção, destinada a alimentar o entusiasmo popular e a cobri-lo de 
glória .O Partido é o indispensável catalisador que converte em 


 
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actos as virtudes inerentes às massas. Sem ele nenhuma 
progressão seria possível — e daí a ansiedade que toma o 
militante na expectativa duma decisão importante dos dirigentes. 
Em tal situação, o artista não pode fazer mais do que dedicar-se de 
corpo e alma à causa do povo (ou do Partido). Galvanizar as 
energias, mobilizá-las na luta contra o invasor, incitar os 
camponeses-guerrilheiros à firmeza com a esperança num 
«amanhecer diferente» — esses são os temas dominantes dos 
versos, que no entanto não se confundem com o discurso da 
propaganda revolucionária. Não são formuladas palavras de ordem 
para o dia a dia, não se denuncia ninguém à vindicta popular. E a 
visão é, de facto, muito mais ampla do que isso. Traz a marca 
duma metafísica popular que desvenda a “harmonia maravilhosa / 
da morte e nascimento” e, através dela, a contribuição da 
degenerescência física para a regeneração das forças naturais. Essa 
ideia relaciona-se, aliás, com o ideal revolucionário, para o qual a 
morte individual contribui para preparar a vitória final: “prontos a 
morrer hoje / para ressuscitar amanhã / no festim do povo. O 
combatente, com a consciência da sua pequenez pessoal, ignora o 
sentimento da morte desde o momento em que pensa em si mesmo 
como um do da cadeia revolucionaria (ver L’Espoir de Malraux). 
Esta poesia, que assim reforça o discurso dos combatentes
desenvolvendo ao máximo o seu aspecto ético e humanitário, não 
é nova para o leitor ocidental. Éluard, Aragon, também sentiram a 
urgência de pôr os seus dotes de escritores ao serviço de um 
empenhamento político e ideológico, quando de situações em que 
os homens confrontavam os seus pontos de vista mesmo na tortura 
e nos massacres. Assim se forjou a apologia incondicional dos 
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