Universidade católica de moçambique centro de Ensino à Distância Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa Literaturas Africanas em Língua Portuguesa I código: P0208 Módulo único 22 Unidades



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Literatura Africana Em Língua Portuguesa I
 
Centro de Ensino à Distância 80 
dominador, de vítima ao carrasco. Existe um dado interessante em Suicídio 
Cultural, pois o protagonista principal da obra é um tal de Kakôlô, que como 
pessoa existe ou existiu de facto na cabeça e na vivência do Aito, mas como 
personagem da história teatral, trata-se apenas de uma figura que representa o 
estado adolescente de África. O Kakôlô de suicídio Cultural, refere-se que a 
África ainda não se encontrou consigo mesmo, encontra-se numa fase atrofiada 
de adolescência, ou seja num simples Kakô, falta-lhe o lô para se transformar 
em KaKôlo. 
Na sua cela de mofle, nos momentos derradeiros da sua vida, enquanto aguarda 
a ehegada do fuzilamento, a personagem rememora até á exaustão, a trajectória 
da sua vida e da sua comunidade desde a mais remota infância até ao corredor 
da mofle, passando pela sua atribulada e revolucionária juventude. 
Paralelamente, é apresentado o quadro de terror que vive na prisão. 
E interessante neste contexto da preservação da identidade cultural através da 
expressão linguística ver como o texto ensaia uma estratégia lúdica com a 
tradução: os diálogos aparecem como «tradução para o português» de uma 
Língua africana virtual (que nunca é nomeada embora o leitor possa, por ilação, 
pensar numa língua etíope). 
Um texto denso e dessacralizante do cânone romanesco, uma apóstrofe aos 
regimes totalitários africanos. Ao mesmo tempo, um romance que se 
desenvolve numa lógica antiépica. em que nem a resistência logra vingar —
embora Kakólo sobreviva— se concordarmos com Hegel, Georges Lukács ou 
Emil Steigcr, Dionisio de Oliveira Toledo segundos os quais a épica, cuja 
origcm etimológica é narração, presentifica um passado distante, um mundo já 
inexistente apresentando heróis que sc tornam, para nós, verdadeiros arquétipos. 
Falar da prosa de ficção São-Tomense é falar de um (sub)sistema ignorado, para 
o que concorre tanto a origem dos autores (maioritariamente metropolitana, 
europeia), a atitude parcial da crítica e a recepção do círculo de Ieitura.
A prosa de ficção no período colonial, parte da literatura colonial de que a 
poesia contestatária dos «poetas da Casa dos Estudantes do Império» se 
constituiu como contradiscurso era, grosso modo, uma literatura que expressava 
as condições existenciais dos portugueses em São Tomé e Príncipe, «província» 
de Portugal, nas suas relações com a natureza tropical e com a massa humana, 
numa perspectiva missionária, funcionando como realização regionalista da 
literatura portuguesa.
Dessa literatura vai emergindo, porém, o «sentimento nativista», com 
subjacência ideologicamente colonial, que gradualmente vai configurando uma 
feição de diferenciação com o sistema literário português. Datando dos anos 30 
do Séc. XX (embora desde o principio do século se assinalem esporadicamente 
crónicas e apontamentos literários sobre as ilhas), é uma escrita que configura 
uma modalidade do discurso colonial, em estreita intertextualidade com essa 
discursividade.
É uma escrita marcada por uma subjacência expansionista que se alicerça na 
celebração das paisagens, na representação do fascínio perante a exuberância da 



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