Universidade católica de moçambique centro de Ensino à Distância Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa Literaturas Africanas em Língua Portuguesa I código: P0208 Módulo único 22 Unidades



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Literatura Africana Em Língua Portuguesa I
 
Centro de Ensino à Distância 67 
e se danaram pelo mundo. 

E a ti, 
Oh! mãe de negros e mestiços e avô de brancos! 
ficou-te esse jeito 
de te perderes na beira de algum caminho 
e te sentares de cabeça pendida 
cachimbando e cuspindo para os lados. 

Mas os teus filhos não morreram, negra velha, 
que eu oiço um rio de almas reluzentes 
cantando: nós não nascemos num dia sem sol!
A África de expressão portuguesa, na sua tridimensão cultural e 
étnica, aí está presente, comungando um mesmo espaço filosófico 
e um mesmo tempo social. 
Se saíssemos, agora, do domínio dos textos poéticos de Tenreiro, 
incluídos no seu primeiro livro, e passássemos a algumas 
considerações extra textuais que, todavia, estão com eles 
relacionadas, poderíamos, penso eu, acentuar a ideia de que a 
escrita desse poeta santomense, pelo menos a inicial, fez o seu 
percurso à margem de qualquer influência negritudinista, que não 
é visível em nenhum momento textual, nem pela citação nem pela 
invocação de autores, como acontece, no seu segundo livro, onde 
o afro-americanismo, por exemplo, está presente. Aliás, se Antero 
de Abreu está certo, quando afirma que só no fim dos anos 1940, 
princípio dos anos 1950, é que os estudantes africanos de 
expressão portuguesa começaram a ter contacto com a poesia de 
Langston Hughes, Guillèn e com os poetas da Negritude (Cf. 
Manuel Ferreira, in Prefácio a Poesia Negra de Expressão 
Portuguesa, Lisboa, 1982), então a poesia de Tenreiro, escrita no 
meio dos ventos neo-realistas do “Novo Cancioneiro” coimbrão, 
sendo coetânea na sua produção da do grupo negritudinista de 
Paris, não teria sido por ele certamente motivada. O facto de fazer 
do homem negro, em particular, e do homem africano, em geral, o 
seu sujeito poético, não pode significar identidade ético-estética 
necessária para uma mesma filiação. Aliás, a negritude esqueceu-
se de que o homem africano é culturalmente e, por vezes, mesmo 
etnicamente, diferente do homem negro. 
Parece-me, portanto, que o uso do conceito de africanitude é 
menos marcado e, por isso mesmo, mais capaz de traduzir a 
dimensão mulata, estética e culturalmente falando, da poesia de 
Francisco José Tenreiro, poeta arrancado cedo à vida e à Africa 
que, no entanto, teve ainda tempo para cantar e louvar numa 
linguagem retoricamente rica e variada, sem jamais perder, 
contudo, a perspectiva social. Tenreiro é bem o exemplo de como 
o social e o estético podem conviver, sem que um submerja o 
outro, procurando-se, antes, o equilíbrio que garanta a qualidade 
artística de que todo o texto necessita para ser verdadeiramente 
literário. 



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