Universidade católica de moçambique centro de Ensino à Distância Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa Literaturas Africanas em Língua Portuguesa I código: P0208 Módulo único 22 Unidades



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Literatura Africana Em Língua Portuguesa I
 
Centro de Ensino à Distância 66 
é terra do sàfu do socopé da mulata
 
— ui! fetiche di branco! —
 
é terra do negro leal forte e valente que nenhum outro! 
 
 
A africanitude é, ainda, essa voz poética que privilegia o amor e a 
humanidade do homem africano, enquanto tal, sem cedências às 
emoções sensuais e rituais que, embora definidoras duma África 
tradicional, já não são mais miticamente olhadas. Privilegia 
também a África do nosso tempo na sua multivalência, onde a 
tradição e a modernidade convivem, aceitando as realidades que a 
história nela plantou regadas embora pelo sangue de milhões dos 
seus filhos. Realidades que a inspiração poética de Tenreiro 
traduziu melhor no seu segundo livro — Coração em África —, 
deixado pronto para publicação que a morte não lhe permitiu ver, 
e onde em poemas, marcados por uma escrita da modernidade 
sem, todavia, prescindir da característica estrutura narrativa 
própria da textualidade negra-africana, tais como “Amor de 
África”, “Mãos” e “Coração em África”, o poeta nos apresenta a 
força do seu estilo irónico, por vezes mesmo sarcástico, e 
agressivamente dialógico, onde a estética jamais fica prejudicada 
pela mensagem social que os textos veiculam. 
A africanitude, em Francisco José Tenreiro, é, por fim, uma 
atitude poética e filosófica, donde a raça e a cor, por si, não têm a 
valorização absoluta que a negritude lhes confere, preferindo-se, 
antes, considerar o homem como um ser universal, onde conta 
mais a alma, a essência, do que a pigmentação da epiderme, 
porque o poeta sabe que o amor e a maldade são acrómicos. E, 
assim, africanitudamente, o poeta pode cantar a sua mátria, nesse 
extraordinário poema que é “Nós, Mãe” e de que respigo esta 
expressiva passagem:
Ah! Brancos, negros e mestiços 
escaldaram o teu corpo de sensações 
com o bafo quente de um vulcão maldito. 
E os teus seios secaram 
o teu corpo mirrou 
e as pernas engrossaram 
enraizando-se no teu próprio corpo. 

E os teus olhos... 

Os teus olhos perderam o brilho 
ao sentirem o chicote 
rasgar as carnes duras dos teus filhos. 
Os teus olhos são poços de água pálida, 
porque cheiraste na velha cubata 
o odor intenso de uma aguardente qualquer. 
Os teus olhos tornaram-se vermelhos 
quando brancos, negros e mestiços instigados 
pelo álcool 
pelo chicote 
pelo ódio 
se empenharam em lutas fratricidas 



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