Universidade católica de moçambique centro de Ensino à Distância Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa Literaturas Africanas em Língua Portuguesa I código: P0208 Módulo único 22 Unidades


particularmente patente no poema “Epopeia” do livro de Tenreiro



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Literatura Africana Em Língua Portuguesa I

particularmente patente no poema “Epopeia” do livro de Tenreiro 
a que nos referimos. Veja-se apenas a estrofe que introduz esse 
poema, onde se lê:
Não mais a África
da vida livre e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
— veias intumescidas dum corpo em sangue! 


 
Centro de Ensino à Distância 65 
Da leitura desta estrofe, surge nítida a consciência do poeta de que 
a África negra, no sentido antropológico, ficava já longe e na 
memória daqueles, seus filhos, que nasceram marcados, histórica e 
afectivamente, pelo tempo em que “Os brancos abriram clareiras/a 
tiros de carabina./Mas clareiras fogos/arroxeando a noite tropical.”
O poema “Epopeia” parece-me, por isso, poder ser considerado 
como o texto emblemático da africanidade poética de Francisco 
José Tenreiro e da sua postura estética, perante a África, a que 
chamo africanitude, isto é, visão dialéctica entre a África negra 
tradicional e aqueloutra pigmentada e alterada, de que a 
colonização portuguesa foi uma espécie, não direi melhor em 
termos absolutos, mas seguramente melhor em termos relativos e, 
sobretudo, diferente das outras civilizações europeias na sua 
dinâmica cultural e civilizacional pela colonização europeia. As 
duas estrofes finais desse poema concretizam, quanto a mim, essa 
visão:
Segue em frente
 
irmão!
 
Que a tua música
 
seja o ritmo de uma conquista!
 
E que o teu ritmo
 
seja a cadência de uma vida nova!
 
 
...para que a tua gargalhada
 
de novo venha estraçalhar os ares
 
como gritos agudos de azagaia! 
 
Por aqui se vê que o futuro, o dessa vida nova preconizada pelo 
poeta, é feito também do passado de que a azagaia nos dá a 
referência, criando-se, assim, um movimento dialéctico em que 
todo o regresso aponta para um progresso. 
A africanitude é, pois, entendida como uma visão dialéctica do 
mundo negro com os outros mundos culturais que com ele 
entraram em contacto, originando um dialogismo discursivo e 
textual realizado através da língua de colonização que o poeta e 
escritor africano transforma de língua de opressão em língua de 
libertação, por meio duma fala africanizada que traz consigo todos 
os sentidos evocados do drama secular do homem negro. 
Dialogismo, por vezes, tenso na sua forma de expressão, para ser 
capaz de traduzir melhor esse drama, sintetizado para a terra de S. 
Tomé e Príncipe na última estrofe do poema de Tenreiro que deu o 
título ao seu primeiro livro — Ilha de Nome Santo. Aí se lê:
Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro
 
onde apesar da espada e duma bandeira multicolor
 
dizerem poder dizerem força, dizerem império de branco
 
é terra de homem cantando vida que os brancos jamais souberam
 



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