Universidade católica de moçambique centro de Ensino à Distância Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa Literaturas Africanas em Língua Portuguesa I código: P0208 Módulo único 22 Unidades



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Literatura Africana Em Língua Portuguesa I
 
Centro de Ensino à Distância 54 
brasileira, em especial da engenharia poética de João Cabral de 
Melo Neto e do concretismo, a poesia de Corsino Fortes explora 
associações fónicas e instaura novas relações morfológicas, 
sintácticas e semânticas entre as palavras. Na estrofe acima, a 
“geometria de sangue & fonema” é vista na economia verbal, com 
o espaço trabalhado com consciência estética, carregando de 
significação a disposição dos versos na página, principalmente na 
palavra ‘goteja’, que cai em letras, gotas. A musicalidade e os 
efeitos cinestésicos, desenvolvidos a partir das referências de sua 
terra, também estão presentes na obra poética de Fortes. Além 
disso, o poeta apresenta parte de sua obra em crioulo e 
simultaneamente em língua portuguesa, em mais um diálogo sobre 
linguagens e culturas que marcam a híbrida identidade cabo-
verdiana, mostrando que o fonema-voz do povo cabo-verdiano é 
representado tanto pelo crioulo quanto pelo português. 
O segundo canto de Pão & fonema chama-se “Mar & matrimónio” 
e reflecte sobre a problemática da evasão. A saída da terra é vista 
não mais como uma fatalidade, porém como possibilidade de 
crescimento do homem das ilhas, que cruza o mar para trabalhar
amadurecer e lutar por sua terra, mesmo estando longe. O poeta 
propõe uma “Nova largada”, em um jogo intertextual com Gabriel 
Mariano (Idem, pp.46-47).
No poema, o emigrante parte fisicamente, mas está casado com 
sua pátria e seu povo, ou seja, sai “de pé nu”, em prol do “pão da 
manhã” (Idem, p. 43), porque “toda a partida É potência na morte/ 
todo o regresso É infância que soletra” (Idem, p. 71). Assim, na 
análise de Mesquitela Lima, esse canto traduz a ideia de que o 
homem cabo-verdiano, disperso pela diáspora, ao regressar, deve 
“ajudar a sua terra a erguer-se como nação, como país livre e 
independente” (LIMA, M. In: FORTES, 1980, p. 85). 
Sumário 
O projecto literário de Corsino Fortes consolida-se com a reunião 
dos seus três livros de poesia na obra intitulada A cabeça calva de 
Deus (2001): os dois primeiros livros, Pão & fonema (1974) e 
Árvore & tambor (1986), somam-se ao terceiro, Pedras de sol & 
substância, publicado com a obra poética. Cada livro apresenta 
uma estrutura particular, e os três compõem uma estrutura 
conjunta e dialógica. Em uma das entrevistas concedidas pelo 
autor, aquando do lançamento de A cabeça calva de Deus, assim 
caracterizou, em linhas gerais, a trilogia: “Acaba por ser todo o 
projecto de independência do povo de Cabo Verde, em que Pão & 
Fonema representa, de facto, os símbolos daquilo que é fome, 
daquilo que é a realidade de Cabo Verde durante séculos, e, por 
outro lado, a exigência pela palavra, liberdade e cultura. Em 



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