Universidade católica de moçambique centro de Ensino à Distância Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa Literaturas Africanas em Língua Portuguesa I código: P0208 Módulo único 22 Unidades



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Literatura Africana Em Língua Portuguesa I
 
Centro de Ensino à Distância 33 
autónoma das paisagens e das gentes cabo-verdianas, no primeiro 
capítulo (II parte) de Chuva Braba, do qual se transcreve um breve 
excerto: 
"Porto Novo não tem montanhas. Ali há vento à solta, mar raso 
por aí fora franjado de carneirada. Há distância: um azul que 
navega e naufraga num mundo sem limite. Lá adiante fica S. 
Vicente, cinzento e roxo, roxo e cinzento, depois é só horizonte. O 
mar, quando cai a calma sobre o canal, desliza ora para o sul ora 
para o norte, consoante a direcção da corrente, como as águas 
dum rio que ora descessem para a foz ora remontassem da foz 
para a nascente. 
As árvores são torcidas e tenazes, têm a riqueza dramática das 
desgraças hereditárias ou das indomáveis perseveranças. Cheira 
a marisco que vem das praias de seixos rolados e areia negra. 
Cheira a poeira das ruas onde há bosta de mistura. Cheira a 
melaço e aguardente, a fazenda e a coiro dos armazéns. Cheira a 
maresia no vento que sopra sobre os telhados. Mas há água 
canalizada da Ribeira da Mesa, um chafariz público onde as 
alimárias bebem, uma horta exuberante no Peixinho e um jardim 
emaranhado e virgem à beira mar. 
Porto Novo é vila de futuro, dizem. Uma estrada paralela à praia 
corta-a ao meio; é a rua principal. No seu portinho aberto de mar 
picado balançam, quase sempre, um ou dois faluchos vindos de S. 
Vicente. O comércio progride. As lojas são providas de toda a 
sorte de bugigangas. Têm fazendas medidas a jardas, lenços de 
cores berrantes, mercearia, quinquilharias, têm espelhinhos, jóias 
artificiais, barros de Boa Vista para todos os usos, alfaias, 
panelas, caldeirões de ferro de três pés, têm tudo. A clientela é 
vasta, quase a terça parte da população dos campos da ilha cai 
ali. Trazem produtos agrícolas, trocam ou vendem, invadem as 
lojas. Deixam os nomes nos livros de conta-corrente; pagam 
prestações. 
Há 
empréstimos, 
dívidas, 
hipotecas, 
juros 
astronómicos. Fornecedores de frescos à navegação do Porto 
Grande, vendedores e vendedeiras do mercado de S. Vicente vão 
ali adquirir frutas, galinhas, ovos, hortaliças, por baixo preço. 
Contrabandistas de aguardente pululam. Até a hora da 
debandada das tropas de burricos, dos homens e mulheres de 
campo, ao meio-dia ou uma hora da tarde, a estrada enche-se 
movimento e gritos num vaivém de feira ambulante, canastras, 
frutas, lenha, gado. Os faluchos zarpam ajoujados. S. Vicente 
devora tudo, pede mais. Uma vela branca e oblíqua cruza com 
outra no meio do canal. À tarde Porto Novo é uma vila morta." 

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