Universidade católica de moçambique centro de Ensino à Distância Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa Literaturas Africanas em Língua Portuguesa I código: P0208 Módulo único 22 Unidades



Baixar 4.82 Kb.
Pdf preview
Página12/81
Encontro09.07.2022
Tamanho4.82 Kb.
#24191
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   81
Literatura Africana Em Língua Portuguesa I
Percurso literário de Cabo Verde 
Entre 1920 e 1930 já existe uma elite muito consciente dos 
problemas que afectam as ilhas "do arquipélago de Cabo Verde". 
Esta gente está sobretudo concentrada em S. Nicolau, S. Antão e 
S. Vicente, e muitos são comerciantes, professores estudantes e 
jornalistas que estão em contacto com as correntes e movimentos 
literários de Portugal, como o modernismo e o neo-realismo. Mas 
é sobretudo o modernismo brasileiro que influencia esta geração 
que se familiariza com Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins 
do Rego, e poetas como Jorge Lima, Ribeiro Couto, Manuel 
Bandeira, e os sociólogos como Gilberto Freyre. A partir, 
sobretudo, dessa altura os escritores de Cabo Verde começam a 
tomar uma consciência cada vez mais nítida da realidade das ilhas, 
a romper com os modelos de tipo europeu. A atenção é focada 
cada vez mais na terra, no ambiente sócio-económico e no povo 
das ilhas. 


 
Centro de Ensino à Distância 13 
O grande passo para a viragem total de temática da literatura 
produzida em Cabo Verde é dado, em 1936, por um grupo de 
intelectuais que lança a revista Claridade. O grupo, que para a 
história literária passou a ser conhecido por claridosos, integra, 
para além de outros, Baltazar Lopes, Manuel Lopes e Jorge 
Barbosa. 
As linhas mestras dos movimentos dos claridosos estão 
praticamente condensadas na obra daquele que também é o seu 
maior responsável Jorge Barbosa. A preocupação fundamental da 
sua poesia é revelar as situações com que diariamente se defronta 
o cabo-verdiano: a fome, a miséria, a falta de esperança no dia de 
amanhã, as secas e os seus efeitos devastadores.
Os grandes tópicos são o lugar, o ambiente sócio-económico e o 
povo; e todos em relação constante com o mar. O mar é o 
elemento provocador do aparecimento de outras duas realidades 
soberbamente tratadas na poética barbosiana: a viagem e o sonho 
de encontrar uma terra prometida. 
A ilha, o mar, a viagem e o sonho são os signos de maior 
densidade na poesia de Jorge Barbosa. Toda essa temática se 
distribui pelas suas três obras: Arquipélago (1935), Ambiente 
(1941) e Caderno de um Ilhéu (1956). Mas, quanto a nós, é em 
Ambiente que Jorge Barbosa se define como poeta inovador, que 
dá à sua poesia uma tonalidade dramática nova, trazida pela 
intimidade, a denúncia, a epopeia do homem isleno vivendo no 
drama. Não resistimos à tentação de citar aqui um poema que, 
quanto a nós, é revelador da dualidade em que Jorge Barbosa 
coloca os referentes de quase todos os seus poemas. Há sempre 
um "eu" em constante tensão com um ambiente exterior. Repare-
se no poema Prisão 
Pobre do que ficou na cadeia 
de olhar resignado, 
a ver das grades quem passa na rua! 
 
pobre de mim que fiquei detido também 
na Ilha tão desolada rodeada de Mar!... 
...as grades também da minha prisão! 
Este poema é paradigmático quando se procura organizar uma 
amostragem comparativa da poesia de Cabo Verde. É que toda a 
poesia dos claridosos, se por um lado rompeu com os diques das 
normas temáticas do colonialismo, não se terá libertado 
completamente de um certo miserabilismo herdado do neo-
realismo português. Esta poesia é toda ela virada para o homem 
cabo-verdiano e o mundo que o rodeia; no entanto não aponta 
grandes soluções. É pois, uma poesia de descrição, profundamente 
lírica, intimista, mais ainda falha de coragem para apontar outra 
solução ao homem cabo-verdiano que não seja a evasão do mundo 



Baixar 4.82 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   81




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal