Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
capítulos na biografia de Victoria Bravo. Ainda que importante, não precisa ser
o último, o psiquiatra dissera. Não tinha sido fácil, claro. Com o tempo, ela
aprendera a redimensionar a dor e a culpa, a acondicionar os traumas e deixar de
buscar explicações, a controlar a angústia. Para que aquilo fosse possível,
isolara-se de sua história (até tinha parado de pesquisar seu próprio nome na
internet). Não podia deixar que tudo voltasse chamando a polícia.
“Não vai me responder?”, o dr. Max insistiu.
Victoria suspirou.
“É passado.”
“Ignorar o passado foi a maneira que você encontrou para seguir em frente, e
funcionou até hoje. Mas, diante do que aconteceu, não dá para continuar assim.
Não pode simplesmente suspender sua vida por causa dessa pichação na parede.
Esse cara é perigoso. Se estiver de volta, você tem que se proteger.”
“Estou me protegendo.”
“Com essa faca? Com essas trancas? O que vem depois? Vai comprar uma
arma? Nunca mais atender o telefone? Abandonar o tratamento, o emprego e a
vida? Você está se sabotando de novo, como fez com a bebida.”
“Não é verdade.”
“Assumir as rédeas não significa ignorar o que veio antes, apagar o que viveu.
Significa ir atrás, entender, enfrentar. Você é capaz disso, Vic.”
Ela não se sentia capaz de nada. O incômodo em seu baixo-ventre subiu pela
garganta e a fez desabar no choro. Um choro convulsivo, guardado a muito
custo. O dr. Max se aproximou para ampará-la. Levou as mãos aos cabelos dela
e os acariciou lentamente. Ele era grande e possuía ombros largos, de modo que
sua presença tinha a solidez protetora de uma muralha. Mesmo não gostando de


sua presença tinha a solidez protetora de uma muralha. Mesmo não gostando de
ser tocada, Victoria aceitou o abraço.
“Por que eu sobrevivi?”, ela perguntou, com o rosto enfiado no peito rígido dele.
O médico não disse nada. Acompanhou-a até o sofá e fez com que se sentasse.
Voltou a envolvê-la com os braços. Victoria se deixou aninhar por aquele corpo
quente. A barba grisalha roçava de leve sua pele. Ela reparou na corrente de ouro
que escorria pelo pescoço moreno do médico. Inspirando fundo, sentiu o
perfume que ele usava, forte e masculino. Por um instante, estranhou aquela
proximidade e cogitou recuar. Mas o dr. Max não lhe inspirava repulsa, e sim
segurança. Ele era seu médico.
Victoria deitou a cabeça nas pernas dele e relaxou um pouco.
“Pode descansar tranquila”, o psiquiatra disse, sério. “Vou passar a noite aqui
com você.”
Esgotada, Victoria continuou de olhos fechados, deixando-se levar pelo cafuné.
Quando pequena, ela amava que o pai fizesse aquilo. Muitas coisas passavam
por sua cabeça, mas começaram a sossegar pouco a pouco, como luzes se
apagando. Antes de mergulhar no sono profundo, um último pensamento passou
por sua mente: o perigo era discreto e sorrateiro, como a coceira que continuava
a formigar em sua perna invisível.
6.
Victoria odiava delegacias. Tinham cor, cheiro e textura muito específicos, que a
faziam recordar: o grito ensurdecedor da sirene, vermelho e azul, vermelho e
azul, o banco de couro repleto de falhas e ranhuras, o tec-tec do ventilador de
teto, o gosto de hortelã das balinhas que os policiais lhe ofereciam no hospital
para que parasse de chorar e respondesse às perguntas que faziam. Victoria
aguardava fazia vinte minutos na sala do delegado titular. O sábado cinzento,
com o céu cheio de nuvens e o vento forte, só piorava seu estado de espírito.
Sentado ao lado dela, o dr. Max tamborilava os dedos da mão direita na mesa
enquanto mantinha a esquerda, enfaixada, sobre as pernas. Ele tampouco parecia
confortável ali. Fizera uma rápida pesquisa na internet: em 1998, José Pereira
Aquino era delegado substituto da unidade da Ilha do Governador e tinha sido o
primeiro policial civil a chegar ao local do crime, depois que tia Emília deparara


primeiro policial civil a chegar ao local do crime, depois que tia Emília deparara
com o espetáculo horroroso e chamara a polícia. Atualmente, Aquino era
delegado titular da 12a DP, na rua Hilário de Gouveia, em Copacabana, a poucas
quadras de onde Arroz morava. Victoria não entendia muito bem por que o
psiquiatra achava tão importante que ela procurasse o mesmo delegado daquela
época, mas concordara em fazê-lo.
Imersa naquele ambiente, as lembranças não paravam de voltar à sua mente.
Na época, logo que saíra do hospital, fora colocada diante de homens altos e
sérios. Tia Emília abraçava seu corpinho, repetindo pela milésima vez que sua
mãe, seu pai e seu irmão tinham viajado para bem longe, para o céu. Fora só
então que a notícia começara a fazer sentido em sua lógica infantil. Ela
entendera que os tinha perdido para sempre e que estava sozinha. Mais tarde,
compreendera também que havia um culpado por aquilo tudo: o Pichador.
Escutara muitas vezes aquele apelido sem saber bem do que se tratava. Ainda
hoje, em seus pensamentos, a figura monstruosa conservava certo caráter
juvenil, como se não tivesse envelhecido. Sua imagem tinha traços esmaecidos,
como um VHS.
Victoria se assustou quando o delegado Aquino entrou na sala e fechou a porta.
Ela ficou de pé e o cumprimentou com um aceno de cabeça.
“Meu Deus, você cresceu”, ele disse, forçando simpatia.
Victoria recolheu os braços para deixar claro que não queria apertar sua mão.
O dr. Max fez aquilo no lugar dela, e o delegado não demonstrou nenhum
constrangimento. Enquanto Aquino dava a volta na mesa e se sentava na cadeira,
Victoria o observou. Ele era um homem calvo, sem pelos nos braços ou no rosto
marcado de quem espremeu espinhas na adolescência. Tinha certo ar cansado,
mas vestia roupas leves, como um turista no calçadão da praia. Parecia aguardar
desesperadamente pelo dia da aposentadoria.
Recostado, Aquino cruzou as mãos sobre a mesa e balançou a cabeça com um
meio sorriso no rosto.
“Impressionante… As pessoas mudam muito em vinte anos”, ele disse.


Era um estranho reencontro. Suas vidas tinham se cruzado em uma situação
extrema. Ao chegar ao local do crime, o policial encontrara tia Emília
desesperada, abraçada à sobrinha-neta desmaiada. Resolvera contrariar o
protocolo, levando Victoria nos braços até a área externa enquanto a ambulância
não chegava. Agora, eles eram como dois estranhos obrigados a dividir a mesa
em uma festa de casamento. Victoria ficou pensando se deveria agradecer. Com
vinte anos de atraso.
“Fiquei surpreso quando avisaram que você estava aqui”, ele disse. “Desculpa a
demora. Um jovem que é a peça-chave de um caso que investiguei e que está em
coma desde 2008 apresentou um sinal de melhora justo hoje. Dá pra acreditar?
Depois de tanto tempo, me ligaram da Clínica Madre Teresa.”
“Parece que é o dia dos casos antigos”, o dr. Max disse.
Aquino mexeu no mouse, fazendo a tela do computador sair do descanso.
“Pedi para digitalizarem seu inquérito policial quando soube que viria”, Aquino
disse para ela. “Mas ainda não recebi.”
Victoria ficou incomodada que ele usasse o pronome possessivo para se referir
ao inquérito, como se toda aquela merda pertencesse a ela, mas continuou
calada. Só ajeitou o lacinho nos cabelos.
“Naquela época, eram papéis e mais papéis, um inferno”, o policial emendou.
“Foi o primeiro grande caso que peguei. Não é todo dia que uma coisa dessas
acontece. Lembro bem os detalhes. O que posso fazer por vocês?”
Victoria virou o rosto para o dr. Max, numa sugestão tácita de que ele deveria
conduzir a conversa. O médico fez um resumo do que Victoria havia lhe
contado, de maneira fria e organizada. Ela achou melhor assim. Era como
assistir a um filme. Aquino escutou tudo de braços cruzados, sem fazer
interrupções, desviando os olhos semicerrados de vez em quando para Victoria.
Quando o dr. Max terminou de falar, o policial perguntou:
“Acha que Santiago voltou e pichou a parede do seu quarto?”
“Existe outra explicação?”, Victoria retrucou.


Ela se deu conta de que era a primeira vez que abria a boca na conversa.
“Alguém pode estar tentando te provocar, algum inimigo. Saíram muitas
notícias. Todo mundo sabe que o criminoso pichou o rosto das vítimas. Alguém
pode estar imitando o desgraçado só para assustar você. Faz vinte anos, garota.
Por que ele voltaria agora?”
“Mas ele está solto, não?”, o dr. Max perguntou, tentando conter o nervosismo,
sem muito êxito.
“Ficou menos de um ano num centro de socioeducação para menores infratores.
Quando completou dezoito, entraram com habeas corpus e ele foi liberado. É
assim que funciona a lei neste país. Santiago tinha dezessete anos quando
cometeu o crime”, Aquino disse, brincando com um clipe entre os dedos.
“A ligação com as vítimas era óbvia: ele estudava na escola dos pais dela. De
resto, nada faz sentido. Mauro era o diretor e mal tinha contato com os alunos.
Santiago tinha sido aluno de Sandra no primeiro grau. Seu boletim era ótimo,
todos disseram que adorava estudar lá, inclusive o pai dele.”
“Santiago estudava na Ícone desde pequeno?”
“Entrou no que era a sexta série, aos onze. Nos anos seguintes, se meteu em
confusões por pichar muros. Nada de mais, coisa de adolescente. Era um aluno
dedicado, ia prestar vestibular pra medicina. Estava no último ano da escola
quando cometeu o crime. Ninguém entendeu…”
“O que ele disse na época?”
“Nos interrogatórios? Nada. Não apontou um motivo, não explicou o spray no
rosto das vítimas…” Aquino fechou os olhos, tentando resgatar as memórias.
“Fizemos uma série de perguntas, mas ele só ficou calado, de cabeça baixa,
remexendo as mãos. Cheguei a pensar que aquele filho da puta fosse doente
mental. Fizeram testes e concluíram que ele teve uma espécie de surto.”
“E ninguém nunca mais soube dele depois que foi liberado?”


Aquino deixou o clipe sobre a mesa num movimento teatral, então virou para o
computador.
“No caminho pra cá, fiz uma pesquisa. Santiago Nogueira Odelli não é tão
comum. No Google, só encontrei matérias referentes ao crime. No nosso sistema
também não consta nada além disso. Ele não apareceu em nenhum boletim de
ocorrência nesses anos todos. Por dirigir alcoolizado, bater na mulher ou
qualquer merda dessas. Tem trinta e sete anos agora. Vai saber. Talvez seja um
sujeito certinho, casado, com filho. Pelos depoimentos, nunca pareceu um
assassino, se entendem o que quero dizer. Era calmo e quieto, como se vivesse
num mundo só dele.”
“Como vocês o pegaram na época?”, o psiquiatra perguntou.
“Santiago praticamente se entregou. Recebemos uma denúncia de que um garoto
tinha sido visto nas proximidades com a roupa suja de sangue, então colocamos
viaturas para perambular pelo bairro e uma delas o encontrou. Ele estava sentado
no meio-fio, numa esquina a poucas quadras do local do crime,
olhando para as mãos ensanguentadas. Não reagiu quando foi preso.”
“Nunca houve dúvida de que foi ele?”
“Encontramos a faca e a lata de spray com o garoto, presa no cinto de
ferramentas.”
“E a família dele?”
“A mãe tinha se mandado. Ou morrido, não lembro. Quem o criava era o pai,
Átila. Um bom sujeito, discreto, trabalhador. Funcionário público, acho. Se
manteve do lado do filho quando a merda toda estourou, claro, mas não ficava
dizendo que ele era inocente nem nada do tipo. Só… aceitou. É isso, ele
aceitou.”
“E ainda mora no mesmo lugar?”
“O pai? Imagino que não. Destruíram a casa na época, quebraram janelas,
picharam paredes. Você pode imaginar. Não é fácil ser pai de um assassino. É
como se a família toda fosse culpada. Como se fosse uma questão de sangue.”


“O que você pode fazer por nós?”, o dr. Max perguntou, e Victoria gostou que
ele tivesse se incluído na situação.
“Vou pedir para um policial ir ao apartamento tirar fotos. Depois, abro uma
ocorrência.”
Victoria baixou os olhos.
“Eu limpei a pichação.”
“O quê?”
“Ela ficou nervosa e pintou a parede”, o psiquiatra a defendeu.
Aquino soltou um suspiro cansado.
“Aí você me complica, garota. Não tenho o que fazer. A prova da invasão foi
apagada, e sem invasão não tem crime. Se ele não levou nada e não agrediu
ninguém…”
Victoria não gostou do tom do delegado. Manteve a cabeça baixa, como uma
criança de castigo. Queria ir embora dali, voltar para casa e passar a tarde sem
pensar em mais nada, muito menos pichações, mortes ou delegacias.
“Você tem fotos recentes de Santiago?”, o dr. Max perguntou.
“Só daquela época. E são poucas. Como ele era menor, os jornais não podiam
publicar.”
Victoria preferia não ver foto nenhuma. Só de pensar nele, a câimbra na perna
invisível já voltava com força. Ela se perguntava se o delegado sabia da perna
mecânica. Teria acompanhado a cirurgia de emergência? Não queria mencionar
o assunto na frente do psiquiatra. Ansiosa, perguntou ao dr. Max:
“Vamos embora?”
O médico parecia não querer sair de mãos vazias.
“Não tem nada que o senhor possa fazer?”
“Não posso me envolver oficialmente, mas vou tentar arranjar o contato do pai


dele. Vocês podem ver se ele tem notícia do filho. Talvez tudo não passe de um
mal-entendido.”
Victoria achou uma péssima ideia, mas o dr. Max se animou.
“Isso seria ótimo.”
“Me liga amanhã e aviso o que consegui.”
Aquino voltou a cruzar os braços, indicando que a conversa tinha chegado ao
fim. Victoria se levantou, fazendo um gesto de cabeça para o delegado, então foi
até a porta, com o psiquiatra ao seu lado, como um cão fiel. Antes de sair da
sala, teve vontade de fazer uma pergunta. Hesitou por um instante, mas o que
tinha a perder? Virou-se para o delegado:
“Se visse Santiago hoje, acha que o reconheceria?”
Aquino pensou um pouco. Passou os olhos castanhos pelo dr. Max e os fixou em
Victoria, dando de ombros.
“As pessoas mudam muito em vinte anos.”
7.
Eram duas horas de viagem até Iguaba Grande. Estavam no carro do dr.
Max — um SUV Chrysler 2010 preto que mais parecia uma van escolar, com
portas traseiras de correr e um bagageiro enorme. Enquanto seguiam pela BR-
101, Victoria pensava em como o veículo parecia impróprio para o psiquiatra:
grande demais, chamativo, exagerado. Um carro daqueles só fazia sentido para
alguém com uma família enorme, com três ou quatro filhos. Ela não achava que
fosse o caso, mas se deu conta de que sabia muito pouco sobre o médico. Sentiu-
se em desvantagem. Ele nunca falava de si mesmo, nem para citar exemplos.
Nas sessões, o assunto era apenas ela. Victoria pensou em como sessões de
terapia eram absurdas: a pessoa contava todas as barbaridades que pensava a um
desconhecido e seguia seus conselhos como se fosse um messias.
Ela tinha reparado no primeiro dia que o dr. Max não usava aliança e deduzira
que ele não tinha mulher ou filhos. O médico parecera do tipo solitário que
passava os fins de semana lendo e estudando, talvez cercado de cachorros.


Agora, diante daquele carro, ela se via obrigada a repensar a hipótese. O dr. Max
devia ser atraente para a maioria das mulheres, não só pela altura, mas pelo
físico bem definido e pelo rosto atípico: reconfortante, mas sisudo; jovem, mas
coberto de pelos grisalhos.
O psiquiatra dirigia como falava: calmo, firme e atento. Ouviam um CD de jazz
instrumental. Victoria passou os olhos pelo carro em busca de pistas. Nada de
sujeira nos tapetes, nenhum brinquedo no banco traseiro, couro intacto,
bagageiro vazio. Era um carro extremamente limpo, mas sem personalidade. Ela
decidiu que investigaria o porta-luvas se o dr. Max parasse num posto de
gasolina para ir ao banheiro. Havia um terço preso ao retrovisor central. Aquilo
também era novidade. Ela nunca havia cogitado que ele fosse religioso.
O celular tremeu no bolso de Victoria, que o pegou e ficou paralisada. O
médico baixou a música.
“Não vai atender?”, ele perguntou.
Era Georges. Victoria já havia decorado o telefone dele.
“Melhor não.”
Ela recusou a ligação e devolveu o aparelho ao bolso.
“É da casa de repouso?”
“Não.”
“Se importa se eu perguntar quem era?”
“Estamos fazendo uma sessão dentro do carro?”
Ele sorriu e balançou a cabeça, sem tirar os olhos do trânsito.
“Estamos só conversando. Como dois amigos.”
“Saí com o escritor na segunda-feira. O nome dele é Georges.”
O dr. Max não conseguiu conter a surpresa e olhou para ela.
“Está falando sério? Por que não me contou antes?”


“Está falando sério? Por que não me contou antes?”
“Aconteceu tanta coisa…” Victoria suspirou. “E não foi nada de mais.”
“Nada de mais?”
“Ele só me convidou para ir num restaurante ali perto. Eu aceitei e a gente
conversou um pouco.”
“E o que achou da conversa?”
“Foi… legal.”
Tinha sido mais que legal, só que ela não queria abrir margem para
interpretações.
“Muito bom, Vic. Muito bom”, o médico disse. “E por que acha que Georges te
ligou agora?”
“Ele me chamou para sair de novo na sexta. Com tudo isso, acabei esquecendo.”
“E não deu nenhuma satisfação?”
“Não sei o que o cara quer comigo.”
“Te conhecer, ué.”
“Me conhecer? Comecei a contar do meu passado e ele ficou chocado.”
“E como esperava que ele reagisse?”
Victoria deu de ombros.
“Pretende encontrar Georges de novo?”
“Não sei.”
E não sabia mesmo. O encontro com o escritor e até mesmo a raiva de Arroz
tinham passado a parecer pequenos demais. Vez ou outra, Victoria se pegava
pensando nela e em Georges fazendo piadinhas e falando banalidades. Algo que
parecia inatingível naquele momento.


“Às vezes, é bom se distrair”, o psiquiatra disse.
“Quem te dá mais trabalho? Eu, o filho do Vampiro de Caxias ou o garoto-cão?”
O dr. Max arqueou as sobrancelhas.
“Não fale assim, Vic.”
Ela apoiou a cabeça no encosto e ficou olhando a estrada pela janela, enquanto
as notas graves dos instrumentos de sopro da música, marcadas por um baixo
firme, reverberavam em seu interior. Esperou que a faixa terminasse para
perguntar:
“Você é casado?”
“Por que quer saber?”
“Esse carro enorme não combina com você.”
“Como achou que fosse meu carro?”
“Menor”, ela disse. “E você não me respondeu.”
“Me separei há algum tempo.”
“Tem filhos?”
“Não, Vic, não tenho. Mas vamos parar por aqui, está bem?”
Ela não conseguia imaginar a aparência da ex-mulher do dr. Max. Era
interessante enxergar o médico como uma pessoa comum, com alegrias e
problemas na vida. Em que momento havia se separado? Por qual motivo? Ela o
tinha traído? Ou fora ele quem arranjara uma amante? Talvez não fosse culpa de
ninguém, apenas o discreto desgaste da convivência diária. Victoria já era
paciente dele quando o divórcio acontecera? Ela não tinha reparado em nada, em
nenhuma variação de humor ao longo dos anos. Era como se a existência do
psiquiatra tivesse se restringido ao consultório, mas então começasse a
transbordar para outras áreas de sua vida. Victoria entendia bem o que ele queria
dizer com “ultrapassar limites”, e não deixava de se perguntar o que significava
estar no carro com seu psiquiatra a caminho de Iguaba Grande para visitar o pai
do garoto que matara sua família.


do garoto que matara sua família.
Iguaba era um dos municípios da região dos lagos. O lugar costumava lotar no
verão e nos fins de semana ensolarados. Comparado a Búzios ou Cabo Frio,
revelava toda a sua decadência: ao longo da orla, estendiam-se quiosques quase
vazios com músicos tocando violão, aparelhos de musculação enferrujados e
uma areia marrom pouco convidativa. A lagoa era mansa, com terra lodosa em
volta e águas mornas e escuras.
Eles chegaram à rua principal no meio da tarde. Estava razoavelmente cheia para
um domingo morno, com seus restaurantes de caldos, supermercados, sorveterias
de qualidade duvidosa, lojas de material de construção, lan houses e pizzarias. O
dr. Max consultou o papel com o endereço que pegara naquela manhã, ao ligar
para o telefone que o delegado Aquino havia passado. Eles seguiram por mais
cinco quadras até o número certo: um portão de ferro verde que servia de entrada
para uma vila de casas simples.
“É a casa dez”, o dr. Max disse.
“Certo”, Victoria disse. “Se importa que eu vá sozinha?”
Ele a observou, sério.
“Tem certeza?”
Ela não tinha. Estava morrendo de medo, mas não queria parecer vulnerável.
“É melhor não ultrapassar mais um limite”, disse, forçando um sorriso.
O psiquiatra concordou. Enquanto tirava o cinto de segurança, Victoria tentou se
acalmar. O canivete suíço estava no bolso traseiro da calça. Ela encarou a mão
enfaixada do médico, que repousava sobre o volante, e se sentiu culpada.
Precisava se controlar. Não pretendia usar o canivete contra o pai de Santiago,
mas não fazia ideia de como ele ia recebê-la.
“Já volto”, disse, abrindo a porta do carro.
Victoria colocou a mochila jeans nas costas e caminhou do jeito mais natural
possível. Não tinha dúvidas de que o psiquiatra a observava se afastar, mas
evitou pensar naquilo. Empurrou o portão e entrou na vila silenciosa, seguindo
pelo meio da rua de terra. As casas eram térreas ou tinham dois andares, com


pelo meio da rua de terra. As casas eram térreas ou tinham dois andares, com
garagem na lateral e jardim na frente. A maioria era protegida por grades com
placas do tipo CUIDADO, CÃO BRAVO, ainda que ela não escutasse nenhum
cachorro latir.
A número dez era igual às outras. Atrás do portão, uma menina se divertia em
uma piscina de plástico. Não devia ter mais do que oito anos e estava
compenetrada em deixar um patinho amarelo submerso. A sombra projetada na
parede fazia lembrar a garra de um monstro de ficção científica. Quando
pequena, Victoria adorava fazer figuras com sombras. A mãe havia lhe ensinado.
Com as duas mãos, imitava cachorros, elefantes e passarinhos. Agora, o desenho
na parede parecia um mau agouro.
Ela se aproximou da grade, observando a menina brincar. Dos fundos da casa,
subia uma fumaça e um forte cheiro de carne na brasa.
“Quem é você?”, a menina perguntou, deitando a cabeça no ombro de um jeito
meigo.
“O Átila mora aqui?”
A menina fez que sim, então pulou fora da piscina, mordeu o patinho amarelo e
saiu correndo para dentro da casa, toda molhada, gritando: “Papaaaaai!”.
Segundos depois, apareceu um homem moreno, com a pele enrugada, cabelos
longos e muito escuros (sem dúvida pintados), olhos pequenos e nariz adunco
que indicava ascendência árabe. Estava de chinelo, short e uma regata que
deixava entrever os pelos debaixo dos braços.
“Meu nome é Victoria”, ela começou, enquanto Átila se aproximava da grade.
“Eu sei. Estava esperando você”, ele disse, sério, já abrindo o cadeado do portão.
“Vamos conversar lá dentro.”
Victoria foi invadida pela sensação de que estava fazendo algo muito errado.
O passado era uma ferida profunda, mas cicatrizada, cuja casca ela havia
aprendido a não cutucar. Ali, diante do pai do assassino de sua família, estava
prestes a arruinar tudo, expondo o machucado em carne viva.
Mesmo assim, ela passou pelo portão e seguiu Átila até a pequena sala de estar.


Mesmo assim, ela passou pelo portão e seguiu Átila até a pequena sala de estar.
A televisão exibia uma corrida de carros. Havia uma pequena adega
abastecida no corredor. Victoria baixou os olhos, evitando as garrafas. Sabia que
um pouquinho de álcool ajudaria a acalmar. Tentou criar alguma distância
emocional e encarar aquela visita como as que fazia com Arroz a apartamentos
ocupados, mas era impossível. A menina passou de novo por eles, seguindo para
a piscina com um pedaço de carne sangrando na mão. Eles continuaram até o
quarto no final do corredor, onde havia uma cama de casal, um armário antigo e
um sofá cheio de roupas e papéis avulsos. Era tudo muito apertado, opressivo.
Átila afastou algumas peças para liberar espaço.
“Fica à vontade”, disse, fechando a porta. Ele sentou na beirada do colchão.
“Minha esposa saiu para comprar bebida. Estou fazendo um churrasco e tenho
que ficar de olho na Valentina. Infelizmente, não posso demorar muito.”
Victoria concordou, esfregando as mãos suadas. A vida familiar corria num
ritmo agradável, e ela havia chegado para sacudir a paz deles. Era uma intrusa.
“Desculpa, não queria atrapalhar”, disse.
“Seu médico me ligou e contou o que aconteceu…” Átila não conseguia encará-
la. Victoria também preferia evitar contato visual enquanto conversavam.
O quarto era todo decorado com motivos náuticos. Havia discos antigos e uma
vitrola em cima de uma caixa. “Não sei do Santiago faz muitos anos. Depois da
tragédia, fui obrigado a me mudar. Os vizinhos me olhavam torto, eu recebia
trotes de madrugada e chegaram a me ameaçar de morte, como se eu fosse
culpado também. Vim pra cá pra ficar longe do Rio. Me casei de novo. Tive uma
filha há sete anos.”
“Ela é fofa”, Victoria disse, tentando ser gentil.
Átila balançou a cabeça:
“Você não vai acreditar em mim, mas Santiago era tão doce quanto ela.
Educado, obediente, não falava palavrão. A gente morava num apartamento em
Jacarepaguá que eu comecei a pagar logo que saí da faculdade. A gente era feliz


Jacarepaguá que eu comecei a pagar logo que saí da faculdade. A gente era feliz
lá. Aí veio a doença da minha mulher. Ela morreu em poucos meses. Câncer. A
perda mexeu muito com a gente. Parecia insuportável ficar naquele apartamento,
naquele bairro. Tudo me lembrava dela. E Santiago era muito ligado à mãe.
Dava pra ver que ele estava machucado, mas não queria falar muito. Você sabe
como é perder quem a gente ama tão cedo…”
“Sei.” Ela engoliu em seco.
“Eu sempre quis morar em casa, cuidar de jardim, essas coisas. Vendi o
apartamento e comprei um lugarzinho na Ilha do Governador, ali na Ribeira. A
escola da sua família ficava a poucos quarteirões a pé e era barata. Era bom
porque Santiago podia ir sozinho.”
Victoria percebeu que Átila não o chamava de filho. Ele seguiu falando.
“Eu saía cedo pra trabalhar e nunca tive condição de pagar empregada. Ele se
deu bem na escola, fez alguns amigos. Talvez fosse uma turma esquisita, meio
mal-encarada, mas pra mim era coisa de pré-adolescente. Eles se vestiam de
preto, escutavam rock barulhento e faziam besteira na rua, como tacar ovo no
para-brisa dos carros ou assustar velhinhos. Achei que fosse algo inocente.”
“Você visitava seu filho no centro de menores?”
“Visitava”, Átila disse, incomodado. “Às vezes.”
“Às vezes?”
“Por um tempo, eu… evitei Santiago. Não era fácil pra mim também.”
“Nas visitas, sobre o que vocês conversavam?”
“Nunca sobre o que ele fez, se é o que quer saber. Santiago estabeleceu essa
condição logo de início. Sempre teve muito interesse por imagens. No centro,
devorava livros de design, arquitetura, fotografia. Ficava me falando a respeito, e
eu só escutava.”
“Ele nunca perguntou sobre mim? Sobre minha família?”
“Uma vez Santiago perguntou sobre seu estado de saúde. Você ainda estava no


“Uma vez Santiago perguntou sobre seu estado de saúde. Você ainda estava no
hospital.”
“Ele queria que eu tivesse morrido?”
“Não, claro que não. Estava arrependido. Ficou feliz quando contei que você
estava bem, que tinha saído da UTI. Não disse que estava feliz, mas eu percebi.”
“Quando seu filho foi solto?”
“Pouco depois de completar dezoito anos. Na época, eu estava morando de favor
com um amigo, em Duque de Caxias. Santiago foi morar comigo, mas já não era
mais o mesmo. Ninguém é o mesmo depois de um lugar daqueles. A prisão para
menores é pior do que a de adultos, vai por mim. Eu não sentia mais nenhuma
conexão com ele. Tinha uma barreira entre a gente.”
“Fora da prisão, ele nunca falou sobre aquela noite?”
Átila negou com a cabeça.
“Até hoje me pergunto por que ele fez aquilo. Mas acho que sempre vai ser um
mistério. Talvez nem ele soubesse responder. Pra mim, nunca fez sentido.
Um dia, um bom garoto invade uma casa com uma faca e mata todo mundo.
Cadê a lógica? Sem dúvida, alguma coisa aconteceu. Algo que mexeu com ele,
com sua alma. Santiago deve ter se metido em coisa feia, confiado nas pessoas
erradas. Mas ele nunca quis me falar. Para meu próprio bem, resolvi seguir em
frente, em vez de ficar remoendo essa história. Você deveria fazer o mesmo.”
“Era o que eu estava fazendo até chegar em casa e ver uma pichação na minha
parede.”
“Talvez não tenha sido ele.”
Havia certa paz na postura de Átila, que estava com a coluna ereta e as mãos
apoiadas nas coxas, como um sábio, dono de todas as verdades relativas ao
homem e à natureza. Um silêncio incômodo ganhou força. A ideia de que outra
pessoa estivesse usando aquela história contra ela parecia absurda a Victoria. Só
podia ser Santiago, ainda que não entendesse o motivo.


“Quando vocês se separaram?”
“Um dia qualquer, sem mais nem menos, acordei e ele não estava mais em casa.
Santiago tinha muita raiva. Dizia que havia sido abandonado na prisão.
Então acho que resolveu me abandonar também. Levou cinco mil reais que eu
tinha escondido numa gaveta.”
“Com quantos anos ele estava?”
“Dezenove.”
“Desde então…?”
“Nem uma ligação.”
“E você não tem fotos dele?”
“Só de criança.”
Átila se levantou e contornou a cama, passando pela janela. Abriu a porta do
armário e subiu no colchão, então enfiou o braço na parte de cima em busca de
alguma coisa.
“Quando ele saiu da cadeia, estava muito mudado, mais pálido. Se recusava a
aparecer em fotos. E eu mesmo não tinha nenhum motivo pra tirar”, continuou,
ficando na ponta dos pés para alcançar o fundo do armário, de onde retirou uma
caixa de papelão empoeirada, do tipo usado para guardar arquivos de escritório.
Átila precisou segurá-la com as duas mãos. Assoprou o pó de cima e desceu da
cama, voltando a se sentar com ela sobre as pernas. Depois de abrir a tampa,
pegou uma foto do topo e estendeu para Victoria. “Essa foi tirada na formatura
do primeiro grau.”
Santiago era um garoto comum, moreno claro, com nariz pequeno acima de duas
linhas que mais pareciam um rasgo do que uma boca. Na foto, devia ter catorze
anos. Havia um orgulho evidente nos olhos pretos. Ele posava sorridente, com
beca e capelo, diante de um fundo acinzentado. O símbolo da escola Ícone (uma
tocha olímpica estilizada) aparecia na altura do bolso.
“Ele estava tão feliz nessa época”, Átila disse, ainda mexendo na caixa.


“Ele estava tão feliz nessa época”, Átila disse, ainda mexendo na caixa.
Retirou um caderno pesado, deixou a caixa de lado e o apoiou sobre as pernas.
“Tem isso aqui também. Um diário que ele escrevia quando tinha uns onze anos,
por recomendação de um psicólogo. Logo depois que a mãe morreu, Santiago
fez umas sessões numa clínica da prefeitura. Parou quando mudamos de bairro,
mas continuou a escrever mesmo assim. Pouco antes de ir embora, pediu pra eu
te entregar o caderno caso você aparecesse. Mas você nunca apareceu. Até
agora.”
O caderno de espiral tinha tamanho médio e era grosso, com capa dura verde-
limão e folhas pautadas já um tanto amareladas. Victoria o folheou. As páginas
preenchidas com caneta azul emanavam cheiro de guardado.
“Pode levar. É seu.” Átila ficou de pé e bateu as mãos nas coxas. “Agora, posso
te pedir um favor? Não me leva a mal, mas… Por favor, não me procura mais. Já
sofri muito com tudo isso, precisei me reinventar. Hoje vivo em paz com minha
família. Não quero mais saber dessa história.”
Ela entendia o lado dele. Concordou, mantendo o caderno junto ao peito.
Parecia pesar toneladas. Átila a acompanhou até a saída, sem trocarem mais
nenhuma palavra. A menina deu tchauzinho para Victoria, enrolada na toalha e
tremendo de frio. Ela reparou que faltava um dente em seu sorriso, e aquele
detalhe a encheu de compaixão. Seguiu pela rua sem saída folheando as páginas,
ansiosa por absorver todas as palavras. Na primeira folha, constava o nome
completo de Santiago, em uma letra grande, redonda e bem cuidada. No alto de
cada entrada, havia dia, mês e ano.
Então uma foto caiu no chão e a fez parar. Victoria a pegou e estudou com
interesse. Nela, havia três meninos abraçados, com cerca de doze anos, usando
bermuda azul-marinho e camisa bege com o logo da escola Ícone. Ao fundo,
apareciam os balanços e a gangorra do parquinho da escola. Santiago era o da
direita, mas ela não sabia quem eram os outros. Uma súbita queda de pressão a
obrigou a se sentar no meio-fio. Victoria levantou a cabeça, respirando fundo e
tentando fixar os olhos em algo que a mantivesse desperta. Daquela distância, o
carro na entrada da vila era apenas um ponto preto. Ela folheou mais um pouco o
caderno, enquanto seu ritmo cardíaco normalizava. As palavras de Átila
reverberavam em sua cabeça. Santiago deve ter se metido em coisa feia,



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