Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
pivete invadiu. A violência era cada vez mais ostensiva naquela região.
Empurrou a porta com cuidado, sem fazer barulho. A sala parecia perfeitamente
arrumada. Passou os olhos por ela. As cadeiras no lugar, as pelúcias organizadas
na estante, ao lado dos livros de aventura e ficção científica. O laptop, a coisa
mais valiosa que ela tinha, continuava sobre o sofá.
Victoria tampouco sentiu falta de algo na cozinha. Pegou a faca mais afiada no
gaveteiro e foi para a porta de correr que levava ao único quarto. Estava fechada,
como a havia deixado. Avançou pé ante pé. Deslizou a porta sobre os trilhos,
pronta para qualquer surpresa. Se gritasse, os vizinhos escutariam. Mas ela não
gritou. Na parede acima da cama, havia um recado em letras garrafais, pichado
em tinta preta:
Victoria sentiu o corpo ceder e foi ao chão, vomitando sobre a roupa. O
líquido quente e malcheiroso escorrendo pela blusa a manteve consciente. Ele
ainda estava no quarto? Caída torta, ela girou a cintura para ajeitar a perna
mecânica e ficar de cócoras. Deixou a faca de lado e apoiou as mãos no chão
para se levantar. A cabeça girava; os cabelos grudavam na boca e nas bochechas
suadas. Tentou levantar, mas seus cotovelos fraquejaram e ela desabou outra
vez.
Os seios e a barriga sentiram o impacto. Victoria rastejou até a cama como quem
luta contra o afogamento e se apoiou no colchão, agarrando o lençol. Levantou
alguns centímetros, sustentada na perna mecânica.
Com a visão turva, varreu o quarto, mas não parecia haver ninguém escondido
ali. Talvez dentro do armário. Reparou em um objeto preto sobre a cama, a
poucos centímetros dela, entre os travesseiros. Parecia um pedaço grande de
carvão. Fixou os olhos nele e compreendeu: era Abu. Coberto de tinta preta. Ela
se esticou até o ursinho de pelúcia e o abraçou contra o peito, enquanto a tinta
manchava seus braços trêmulos, ainda fresca.
Victoria não reagiu como eu pensava. Movidas algumas peças, esperei que ela


perdesse o controle, se sentisse indefesa e me procurasse na mesma hora.
Não foi o que ela fez. Por um lado, estou decepcionado. Por outro, orgulhoso.
Gosto de desafios, gosto que ela quebre minhas expectativas. Torna tudo mais
excitante.
Finalmente, as engrenagens estão girando. Não posso ter pressa. Esperei vinte
anos, preparei tudo. Não vou meter os pés pelas mãos. Pego o telefone e ligo
para o celular dela. Não espero que atenda. Mas é importante que saiba que
estou por perto, que me importo com ela e que pode contar comigo.
Faz parte do plano.
5.
O único feixe de luz vinha do poste na esquina e entrava pela janela da sala, tipo
guilhotina e fechada com dois trincos. Encolhida no sofá, Victoria encarava os
mecanismos que mandara instalar na porta durante a tarde. Tivera que raspar a
conta-corrente para pagar o serviço completo: cinco trancas de três marcas
diferentes. Além da fechadura com espessura tripla e de uma corrente niquelada
para limitar a abertura, duas tetras longas — uma na altura dos olhos e outra
próximo aos pés — e duas travas de segurança. Sob o capacho, uma camada
dupla de plástico-bolha logo denunciaria a chegada de alguém.
Sentia-se um pouco mais segura agora. Queria ter comprado uma porta com
chapas de aço, mas custava uma fortuna. Havia passado a madrugada e a manhã
de quinta-feira lixando a parede do quarto e lavando Abu no tanque. Tinha
esfregado tanto que a pelúcia se rompera debaixo de um dos braços e as bolinhas
de isopor que a recheavam haviam caído. Ela tivera que recolher uma a uma e
costurar Abu de novo. Também comprara uma lata de tinta branca e repintara a
parede. Na sexta, o cheiro ainda era forte e se espalhava pelo apartamento
inteiro. Victoria olhou para o relógio da cozinha, com a sensação de que algo
estava prestes a acontecer. Eram nove da noite.
O barulho lá fora aumentava a cada minuto. As noites na Lapa eram sempre
cheias, misturando gente de todas as tribos nos bares, nas barraquinhas de
sanduíche e de caipirinha espalhadas pela rua, nas casas de samba, reggae ou
forró, nos karaokês e sinucas. Daquele ângulo, ela conseguia vigiar a porta e a
janela ao mesmo tempo. Não dormia havia quase quarenta e oito horas. Seus


olhos estavam pesados, e a cabeça parecia em ponto morto. Cochilava vez ou
outra no sofá, abraçada a Abu, que tinha um tom de cinza esmaecido depois da
lavagem. Despertava suando frio, tomada por pesadelos vívidos, como um
machado estraçalhando a porta de madeira, tal qual no filme O iluminado.
Suas costas doíam. A vontade de engolir uma garrafa inteira de vodca era
imensa. Ajudaria a anestesiar. Sua sorte era que nenhum álcool entrava no
apartamento desde que tinha parado de beber. Já comera os restos de fruta, pão e
iogurte da geladeira. No dia anterior, havia fritado os últimos filés de frango.
Teria que ir ao mercado no fim de semana e precisaria se controlar para não
acabar levando nenhuma garrafa para casa. Próximo à mesa de centro, ao
alcance das mãos, estava a faca de cozinha e o canivete suíço. O celular também
estava ali, com cem por cento de bateria, caso precisasse pedir ajuda.
Seu Beli havia telefonado muitas vezes durante a tarde anterior. Devia estar
preocupado porque ela não tinha aparecido no trabalho nem dado satisfação. O
dr. Max também ligara e enviara mensagens porque Victoria faltara às sessões
de quinta e sexta. Arroz continuava telefonando sem parar e tinha enviado
longas mensagens de áudio que ela não se dera ao trabalho de escutar. Um
número desconhecido vinha ligando desde a tarde de quinta. Pela manhã,
Victoria se lembrara de compará-lo com o do guardanapo que Georges lhe dera e
confirmara que era ele. Devia estar querendo marcar o tal encontro. Diante do
que havia acontecido, a ideia de sair com um desconhecido era absurda. Na
verdade, encontrar quem quer que fosse parecia arriscado demais.
A vontade de Victoria era cimentar a porta e a janela que dava para a rua e se
isolar do mundo. Mas não podia fazer aquilo. A janela era uma rota de fuga
estratégica caso o invasor voltasse. Se aquele fosse um prédio decente, de gente
rica da Zona Sul, haveria câmeras na portaria e nas escadas, e Victoria poderia
descobrir quem tinha entrado e pichado a parede. Pensou em perguntar aos
vizinhos se tinham visto alguém estranho, mas seria perda de tempo. Gente de
todo tipo entrava e saía sem parar daquele prédio. Jackson, por exemplo, vivia
levando clientes para o apartamento. Ela escutava os gemidos através das
paredes, até que se enchia e colocava os fones de ouvido com a música no
volume máximo.
Agora, Victoria não podia se dar ao luxo de se distrair com música. Seu corpo
voltava a pesar, implorando por bebida ou descanso, escorregando pelo sofá,


voltava a pesar, implorando por bebida ou descanso, escorregando pelo sofá,
sugado por um vazio reconfortante. Ela pingava de suor. Àquela hora, a rua
estava abarrotada: era a oportunidade perfeita para o invasor arriscar uma nova
aproximação, de modo que Victoria tinha que se manter acordada. Levantou e
lavou o rosto na pia para se refrescar um pouco. Tirou a calça e a deixou na
banqueta da cozinha, ficando apenas de calcinha e camiseta. Bebeu um copo
d’água e comeu a última banana da fruteira, enquanto tentava desvendar os
barulhos longínquos: a TV ligada no quinto andar, a porta batendo no terceiro, o
chiado do rádio no térreo, risadas estridentes na esquina, passos pesados escada
acima ou abaixo.
Tudo seria mais fácil se ela colocasse uma câmera no corredor, acima da porta,
ou na entrada do prédio. Talvez devesse ligar para Arroz e pedir ajuda para
instalar um sistema de vigilância no apartamento — ele saberia como fazer.
Também poderia pedir o telescópio dele emprestado, para colocar na janela. Ela
havia pesquisado preços de armas de fogo na internet. Além de caras, eram
difíceis de comprar. Arroz devia saber uma maneira mais simples de arranjar
uma.
Victoria voltou a se recostar no sofá, sentindo um incômodo no tornozelo
esquerdo. Retirou a perna mecânica e tentou se concentrar. Durante os primeiros
anos após a cirurgia que removera a perna gangrenada em consequência das
facadas, sentira pontadas dolorosas, como se o membro ainda estivesse ali. O
cérebro queria continuar no comando, não conseguia registrar aquela perda, de
modo que o corpo reclamava dos dedos espremidos como se dentro de uma
sapatilha de balé, das unhas crescendo até se contorcerem de tal modo que
arranhavam o chão e penetravam a carne do pé. Era imaginação, mas ela sentia.
O dr. João Carlos tentara diversos métodos, até que finalmente Victoria
aprendera a fechar os olhos, se concentrar e espelhar a perna direita, a de
verdade, na perna esquerda, inexistente. Assim, seu cérebro tinha a impressão de
cortar as unhas ou coçar o joelho da perna esquerda sempre que ela realizava tais
ações na perna direita. Com o tempo, passou a ser algo automático, como
escovar os dentes pela manhã ou colocar o lacinho antes de sair. Mas, naquele
instante, enquanto a comichão no membro invisível crescia sem parar, ela
fechava os olhos e não conseguia mentalizar nada. Tudo atrapalhava: o calor, a
roda de samba no bar vizinho, a semiescuridão da sala, os calafrios.


Victoria abriu os olhos. De um lado, uma perna fina, branca, havia meses sem
depilar. De outro, um cotoco que se esgotava pouco depois do joelho. Como era
possível que ela conseguisse ver, mas seu cérebro não fosse capaz de processar
aquela ausência? A mente humana era infernal. Aliás, todo o corpo humano era.
Doenças, bactérias, fungos, câncer. Pelo menos a menstruação tinha acabado no
dia anterior.
Um barulho a deixou alerta. Alguém tinha subido a escada e estancara no final
do corredor. Se fosse Jackson voltando para casa, estaria acompanhado de um
cliente. E ainda não era nem meia-noite. Ela aguçou os ouvidos: os passos eram
de uma única pessoa. Botou depressa a perna mecânica. Aquele modelo era o
mais moderno que havia, com movimentos amplos, vácuos aerodinâmicos e fácil
encaixe. A estrutura de ferro tinha peso semelhante ao de uma perna verdadeira,
de modo que Victoria não sentia tanta diferença na hora de caminhar. Ao longo
dos anos, fora trocando de perna conforme crescia, como quem trocava as lentes
dos óculos de grau. Quando chegara a hora de comprar a definitiva, escolhera o
que havia de melhor.
Em silêncio, foi até a banqueta onde estava sua calça. O tornozelo da perna
invisível queimava. Ela apertou a coxa esquerda com as duas mãos, tentando
fazer parar, mas não adiantou. Sufocou a dor mordendo a barra da camiseta. Não
queria emitir nenhum ruído. Encostada à bancada, vestiu a calça e voltou sua
atenção para o corredor. Nenhum barulho de trinco na porta do vizinho, nenhum
movimento nas escadas. Apenas silêncio. Então o estourar do plástico sob o
tapete. Havia alguém do outro lado da porta.
Ela empunhou a faca e se aproximou, mancando. Era como se formiguinhas
venenosas passeassem por seu tornozelo, devorando a carne até encontrar o osso.
Victoria teve o impulso de perguntar quem estava ali, mas o reprimiu. Seu
coração batia num ritmo ensurdecedor. Dizem que o medo tem cheiro e faz
barulho. Ela não sabia ao certo. Ficou encostada na parede ao lado das
dobradiças, com o ouvido colado ao trinco, esperando qualquer sinal. Nada.
Como tinha sido idiota de não instalar um olho mágico! De que adiantavam
trincos, correntes e facas se não podia ver quem estava do outro lado? Esperou
mais um pouco. Mais bolhas estourando e, então, o som do plástico sendo
removido de baixo do capacho. Victoria manteve a faca em posição de ataque e
pegou o celular com a outra mão. Para quem ligaria?


pegou o celular com a outra mão. Para quem ligaria?
Antes de chegar a uma resposta, ouviu passos no corredor. O invasor estava se
afastando. Ia embora? Ou tomava impulso para arrombar a porta? Victoria não
podia continuar naquela indecisão. Era como uma úlcera crescendo dentro dela.
Seria mesmo o Pichador, anos depois? Ou alguém tentando imitá-lo? Ela queria
saber. Tentando não fazer barulho, baixou os ferrolhos e abriu os trincos. Girou a
maçaneta, arriscando uma fresta que permitisse enxergar o corredor mergulhado
no breu. Logo avistou uma sombra parada na beira da escada. Um homem estava
de costas, mexendo em algo. Uma arma? Uma ferramenta para arrombar a
fechadura?
Sem pensar, ela saiu para o corredor, na direção dele. Foi tudo muito rápido.
Já estava bem perto, com o braço erguido, pronta para golpear suas costas,
quando o homem se virou, antevendo o ataque. O cérebro dela demorou uma
fração de segundo para registrar quem era, de modo que a faca desceu. A lâmina
rasgou a mão do dr. Max quando ele tentou segurar o braço de Victoria, que na
mesma hora puxou o cabo. Um largo filete de sangue surgiu na carne. Ela
encarou o ferimento, sem saber o que dizer. Teve vontade de chorar. Engoliu em
seco, muito nervosa, e pediu desculpas.
“Eu estava preocupado”, ele disse, pressionando o corte com a outra mão, como
se não doesse. “O que aconteceu?”
Ela olhou para a porta entreaberta, temendo que alguém os surpreendesse
naquela situação esdrúxula: uma mulher trêmula, uma faca coberta de sangue,
um homem ferido. Levou o psiquiatra para dentro do apartamento e passou todos
os trincos. Buscou água oxigenada e gaze no banheiro e fez um curativo nele
enquanto tentava se justificar. Aquela história estava entalada em sua garganta,
mas colocá-la para fora parecia torná-la mais real e perigosa. Victoria parou um
instante para beber água como o dr. Max sugeriu e voltou a detalhar a pichação
na parede e a instalação das travas na porta. Subitamente, ficou incomodada.
“Como conseguiu meu endereço?”
“Sempre tive seu endereço. Está no seu cadastro no consultório.”
Ela não se lembrava de ter preenchido um cadastro, mas estava bastante
transtornada na época em que começara o tratamento com o psiquiatra.


“Por que não bateu na porta?”
O dr. Max soltou um suspiro, parecendo desconfortável.
“Estou ultrapassando um limite profissional aqui”, ele disse, baixando os olhos
para a mão enfaixada. “Não deveria ter vindo à sua casa, mas fiquei preocupado.
Você não apareceu no consultório nem ontem nem hoje cedo, e não me atendeu.
Passei o dia pensando no que fazer. Então resolvi vir. Minha ideia não era entrar,
era só tocar o interfone e… falar com você. Para confirmar que estava tudo
bem.”
“Aqui não tem interfone.”
“É, eu percebi.”
“Como entrou no prédio?”
“O portão estava só encostado. Fiz meio sem pensar. Antes de bater na porta,
pensei em te ligar de novo. Uma última vez. Aí você me pegou…”
“Me desculpa. Eu não queria te machucar.”
“Você tem que chamar a polícia, Vic.”
“Nem pensar.”
Ele se aproximou da porta, ficando de costas para ela. Passou os olhos pelos
trincos e travas. Parecia a entrada de uma cela.
“Eu…” O psiquiatra hesitou. “Eu posso ir com você.”
Victoria sabia que aquilo ultrapassava outro limite profissional.
“Posso ver a pichação?”, o dr. Max pediu quando ela não respondeu.
“Limpei tudo.”
Ele a observou com uma expressão indecifrável. Victoria não gostou da
desconfiança em seu semblante. Ainda que delírios não fizessem parte de seu
diagnóstico, o psiquiatra a encarava como um louco que dizia ser Napoleão.
“Acredito em você”, ele disse. “Mas por que não quer ir à polícia?”


“Acredito em você”, ele disse. “Mas por que não quer ir à polícia?”
Victoria ficou em silêncio. Após a tragédia, ela tivera infinitas sessões com o dr.
João Carlos até se convencer de que a morte de sua família não devia determinar
seu futuro. A indignação brutal que sentia precisava terminar. É um dos muitos

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