Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Merda. É a mesa do Georges. Victoria ficou paralisada, pensando no que fazer.
“Você leva, gata?”, Margot insistiu.
Ela não tinha como negar. Suspirou, ajeitou o lacinho nos cabelos, torcendo para
que não estivesse muito torto, e pegou a bandeja. Seguiu até a mesa, mantendo
os olhos baixos e tentando controlar o tremor nos braços. Desejou que houvesse
um espelho na parede.


um espelho na parede.
Victoria deixou a xícara ao lado do laptop, evitando contato visual.
“Que bom te ver aqui hoje”, ele disse.
“Quer adoçante, senhor?”
Georges suspirou.
“O que foi? Aconteceu alguma coisa?”
“Adoçante?”, ela insistiu.
“Fiz algo de errado? Fala comigo.”
“Não posso. Estou ocupada.”
Georges se recostou na cadeira.
“Tive um imprevisto ontem… Queria ter vindo, mas…”
“Não é nada disso”, ela mentiu.
“Rolou um trabalho em São Paulo. Devo viajar semana que vem. Mas minha
sexta está livre. E queria muito te ver de novo. Nem precisamos fazer nada.
Podemos só ficar olhando as pessoas na rua, ir a uma livraria ou…”
“Não.”
“Você não pode sexta?”
Ela queria dizer que sim, claro que podia, mas estava chateada que ele não
tivesse aparecido no dia anterior. Georges aproveitou o momento de dúvida para
lhe estender um guardanapo com o número de telefone dele. Victoria olhou ao
redor e pegou o guardanapo depressa, antes que alguém notasse o que estava
acontecendo, e o amassou. Então se afastou da mesa, torcendo para que o
escritor não pedisse mais nada. Trabalhou a tarde toda sem olhar para a mesa
dele. Georges digitava sem parar, como que para provocá-la. Victoria podia
escutar o tec-tec-tec incessante do teclado. Como ele conseguia se manter tão
concentrado? No fim do dia, pediu a conta e Victoria a levou.


concentrado? No fim do dia, pediu a conta e Victoria a levou.
“Sexta então?”, ele disse, deixando quatro notas sobre a mesa.
“Nove, oito-oito-nove-três, um-quatro-três-meia. Me liga”, ela disse, e se
afastou.
No balcão, Victoria contou até trinta para acalmar o coração, que batia forte.
Quando olhou por cima do ombro, Georges já tinha ido embora. Onde ela estava
com a cabeça para passar seu telefone? Ele poderia ter decorado tão rápido? Ou
tinha sido pego de surpresa? Ela preferia não saber. No fundo, o dr. Max tinha
razão. Quanto menos controladora fosse, mais liberdade teria. E aquilo era bom.
A antiga Victoria jamais teria ditado seu telefone.
Pessoas normais saíam com outras às sextas à noite. Além do mais, Georges
podia, sim, ser seu amigo. Era irônico e deliciosamente banal. Ela não precisava
ficar vendo problemas em tudo. O psiquiatra e tia Emília ficariam orgulhosos.
De repente, Victoria se sentiu cheia de compaixão pelo mundo. Estava até
disposta a perdoar Arroz — ele era mais um cara que tinha sido criado para
acreditar que não havia problema em beijar uma mulher à força. Devia ter
aprendido a lição. Talvez fosse hora de responder a suas mensagens.
O céu alaranjado engolia os prédios comerciais do centro do Rio. Victoria
resolveu se sentar na rua do Lavradio para assistir ao sol desaparecer atrás da
catedral em formato cônico. Eram quase oito quando chegou ao prédio. Nem os
bares da esquina, lotados de gente bebendo após o expediente, foram capazes de
incomodá-la. Na portaria, cruzou com Jackson, o vizinho que era garoto de
programa e cujo ponto ficava na Cinelândia, em um banco próximo ao
Starbucks. A julgar pela quantidade de perfume que usava, estava saindo para
trabalhar.
Victoria subiu devagar os lances de escada, apoiada no corrimão, revisitando
distraída os detalhes do instante em que ditara seu telefone para Georges: a
conversa baixa no café, os olhos arregalados dele, o croissant pela metade sobre
a mesa. Tomou o corredor, enquanto buscava as chaves no compartimento
lateral da mochila. A poucos metros, parou: a porta estava arrombada, com a
maçaneta caída sobre o capacho. Seu primeiro pensamento foi: Merda, algum



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