Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Bingo! , Victoria pensou. A esposa obediente que acompanha o marido bem-
sucedido ao redor do mundo.
“Fomos muito felizes aqui”, a dona da casa continuou. “A gente gosta tanto do
apartamento que não vai se desfazer dele. A ideia é alugar para um casal legal e
confiável.”
“Somos nós”, Arroz disse, e deu uma risada exagerada.
Victoria tinha muita vontade de saber o que a mulher pensava deles. Naquele
dia, vestia calça larga de pijama e um blusão azul-marinho confortável, mas não
deixara de colocar o lacinho que sempre usava nos cabelos curtos. Arroz
tampouco tinha uma aparência das mais normais. Era magro e alto, com quase
dois metros, e tinha uma cabeleira preta e volumosa que, quando solta, passava
dos ombros. Caminhava meio encurvado, com os braços longos e as mãos
enormes jogados ao lado do corpo, como um gigante ossudo e deprimido.
Victoria não sabia a idade exata dele. Devia ter uns trinta e tantos, mas se vestia
como um adolescente rebelde: bermudas coloridas, camisetas com referências
pop (a do dia estampava o pôster de Pulp Fiction, mas ela já vira outras de


Laranja mecânica, Breaking Bad, Queen, Iron Maiden…), tênis de corrida e
bonés com a aba para trás, escondendo o cabelo. Era bem provável que a mulher
os enxergasse como um casal alternativo ou só esquisito.
“Aliás, meu nome é Márcia. Muito prazer.”
“Felipe”, Arroz disse.
“Bianca”, Victoria disse.
Márcia os guiou pelo corredor até o restante da casa, enquanto fazia comentários
sobre a vizinhança, o síndico e as comodidades daquela região de Botafogo, que
se tornara um polo gastronômico nos últimos anos. No banheiro, o chuveiro
gotejava, molhando o tapete. Márcia girou a torneira com raiva para fechá-la
direito.
“Crianças…”, disse, com um suspiro. “Enlouquecem a gente às vezes.”
Sobre uma bancada de mármore, havia uma bagunça de vidros de perfume,
loção pós-barba, pentes, sabonetes, uma caixa com esmaltes e um copo alto com
quatro escovas de dente e uma pasta infantil. Victoria deixou que Márcia
seguisse na frente e aproveitou para mexer no copo. Havia duas escovas
menores, uma do Buzz Lightyear e outra da Cinderela. Ambas estavam
molhadas pelo uso recente. Ela pegou a pasta de dente, espremeu um pouco na
palma da mão e lambeu. O gosto reconfortante de morango logo melhorou seu
humor.
O primeiro quarto no corredor era do casal. As portas dos armários estavam
entreabertas, revelando roupas empilhadas. Havia uma guitarra recostada num
canto, próxima à cabeceira oposta da cama bagunçada. Victoria sentiu cheiro de
amêndoa no ar, mas não identificou de onde vinha. Enquanto seguiam para o
segundo quarto, uma menina de cabelos loiros passou correndo por eles,
esbarrando em Arroz enquanto gritava alguma coisa para o irmão.
“Vocês querem ter filhos?”, Márcia perguntou.
Victoria e Arroz se entreolharam.
“Sim”, ele respondeu. “É o plano para o ano que vem.”


“São dois quartos. Enquanto isso, vocês podem usar como escritório ou sala de
TV…”
A mulher continuou falando sobre as vantagens do apartamento e as
possibilidades de organização dos cômodos. Arroz interagia com ela, fazia
perguntas como um cliente interessado. Era impressionante a facilidade que ele
tinha de mentir. Para Victoria, era sempre mais difícil. Ela ficava vermelha e
com os lábios trêmulos.
Arroz entrara na vida dela de modo inusitado: tinham se conhecido havia dois
anos pela internet, em um fórum de The Sims. Na época, Victoria já se tratava
com o dr. Max e as coisas estavam se ajeitando. Depois de meses de conversa
on-line, ela aceitou encontrar Arroz numa lanchonete, incentivada pelo
psiquiatra, que insistia na importância da formação de laços.
Em pouco tempo, Arroz havia se tornado o melhor amigo de Victoria. Ela
gostava do modo como ele ria, com os ombros abertos e jogando o queixo
protuberante para cima e para baixo, gostava de seu entusiasmo por bandas e
filmes que ninguém conhecia. Também gostava do fato de saber pouco sobre
ele: só que morava sozinho em Copacabana, tinha se formado em enfermagem
mas trabalhava com tecnologia e suas grandes paixões eram jogos de tabuleiro e
eletrônicos em geral. Victoria não conhecia outros amigos dele, não sabia de
onde tirava dinheiro (ela se desdobrava para pagar as contas do apartamento e da
casa de repouso com seu salário de garçonete e a aposentadoria da tia-avó), não
tinha ideia do seu nome verdadeiro — Arroz já quisera contar, mas ela havia
tapado os ouvidos. Toda vez que ele vinha com qualquer informação mais
pessoal, Victoria fazia questão de mudar de assunto. Assim, ele também não
podia perguntar sobre a vida dela.
Para Victoria, aqueles encontros de domingo eram sempre divertidos. No início,
ela fora resistente a conhecer o apartamento dele, mas acabara cedendo.
Arroz preparava “estrogonofe falso” (só com champignon e creme de leite),
colocava rock inglês para tocar bem alto no modo aleatório e posicionava a lente
do telescópio Greika na janela, de modo que pudessem ver a rua, a praça e os
prédios do outro lado. Era como um jogo: observavam domésticas limpando
janelas, um jovem estudando saxofone, uma mulher diante do computador,
gringos de pele vermelha se preparando para ir à praia e imaginavam como seria
a vida deles.


a vida deles.
Victoria não sabia como a brincadeira havia evoluído nem se lembrava direito de
quem tinha dado a ideia, mas a partir de algum momento eles decidiram observar
a vida dos outros mais de perto. Arroz agendava visitas a apartamentos
anunciados para alugar ou vender, mas só escolhia os que ainda estivessem
ocupados. Enquanto passeava pelos cômodos, Victoria gostava de observar
minúcias: um porta-joias lascado com uma bailarina na tampa, duas malas de
viagem deitadas no chão cheias de casacos, uma cristaleira com taças
enfileiradas dentro, o estojo de um violoncelo. Ia juntando um detalhe aqui,
registrando uma informação ali e, pouco a pouco, construía o mosaico
imaginário da família. Entendia seus mecanismos, seus orgulhos, suas conquistas
e seus projetos. Era curioso presenciar histórias em andamento, rotinas
interrompidas pela obrigação burocrática de “mostrar o apartamento”, a
privacidade exposta como quadros num museu caótico de quartos, cozinha e
banheiros. Era como se a vida normal daquelas pessoas fosse contagiante.
A visita daquele domingo durou pouco mais de meia hora. Ao final, Arroz
prometeu que entraria em contato, o que com certeza não faria. De volta à rua, os
dois comentaram suas impressões. Ele também achara que a mulher parecia ter
sido atropelada por um trator, mas nem lhe ocorrera desconfiar do marido.
Colocara todo o peso nas crianças e na arte.
“Talvez ela tenha passado a madrugada pintando”, Arroz disse.
Victoria, como sempre, fez com que ele falasse bastante durante o trajeto até o
metrô para que não focasse sua atenção nela. Ainda que tivesse prática, preferia
se garantir quando enfrentava longas distâncias em lugares abertos. Ao chegar à
estação, Arroz sugeriu continuar a conversa num bar ali perto. Ainda estava
claro, e ela concordou. Pediram batata frita, o que havia de mais barato no
cardápio. Arroz ficou entre beber caipirinha ou cerveja, e acabou escolhendo a
segunda opção.
“Quer uma também, Vic?”
“Não bebo, você sabe.”
“Ah, só um pouquinho, vai. Por minha conta. Pra você relaxar.”
Ela odiava que ele insistisse.


“Já disse que não.”
Arroz deu de ombros e cruzou os braços enquanto o garçom enchia seu copo.
Victoria teve uma vontade súbita de pular em cima dele, roubar a garrafa e beber
tudo de uma vez só, mas se conteve. O amigo não tinha culpa: não sabia do
problema dela com bebida. Victoria endireitou a coluna, ajeitou o lacinho nos
cabelos e tentou pensar em outras coisas para evitar o som tentador do líquido
enchendo o copo. A porção de batata frita chegou logo.
“De onde você tirou Bianca?”, Arroz perguntou.
“Do mesmo lugar de onde você tirou Felipe.”
“Perguntei porque Bianca era o nome da minha mãe.”
Ela não queria entrar naquele terreno, então deu de ombros.
“Coincidência…”
“É.”
Ele girou o copo na mão por alguns segundos, pensativo.
“Você pretende casar um dia, Vic?”
“Claro que não”, ela disse na mesma hora, na defensiva. “Nem pensar.”
Era um assunto complexo. Visitar o apartamento de uma desconhecida esgotada
por causa dos dois filhos, ainda que lindos, não era suficiente para que ela
criasse ilusões. Victoria sabia bem como era ter uma família e, de repente, não
ter mais nada. Sabia como era perder tudo num piscar de olhos. Não tinha forças
para aquilo.
Enquanto observava Arroz bebendo, mastigou uma batata frita, reprimindo a
saliva que enchia sua boca. Não bebia havia tempo, mas ainda se sentia no
limite, como se a abstinência tivesse começado no dia anterior. Na pior época,
seus porres não eram de cerveja, e sim de catuaba, vodca e cachaça vagabundas.
A lembrança do gosto adocicado e das dores de cabeça no dia seguinte lhe
causou náuseas. Era hora de ir embora.


causou náuseas. Era hora de ir embora.
“Vou nessa”, disse, ficando de pé.
“Pra casa?”
Victoria fez que sim com a cabeça. Ela morava num pequeno quarto e sala na
Lapa. Gostava do lugar, mas por algum motivo tinha dificuldade de chamá-lo de
casa.
“Vamos juntos”, Arroz disse, virando a cerveja. “Vou encontrar uns amigos ali
perto, no Circo Voador.”
Parecia uma desculpa esfarrapada, mas ela não podia recusar a companhia.
Precisava ser maleável, compartimentar menos as áreas de sua vida, como o
psiquiatra vivia dizendo. Pegaram juntos o metrô até a estação Cinelândia,
conversando sobre séries de TV e inventando histórias sobre as pessoas no
vagão.
Passaram pelo cinema Odeon e seguiram até os Arcos da Lapa, parando em
frente ao Circo Voador lotado, com barracas de comida e bebida, e cambistas
oferecendo ingressos.
“Obrigada pela companhia”, Victoria disse, esperando uma brecha no fluxo de
carros para atravessar a avenida Mem de Sá. “Já vou indo.”
Arroz entrou na frente dela. Ele era mesmo muito alto. Observou-a em silêncio
por um instante. Depois, olhou de relance as pessoas que passavam na direção da
casa de shows, então voltou a olhar para ela.
“Poxa, Vic, você já foi tantas vezes lá em casa…”, ele disse, num tom
lamurioso. “Nunca vai me convidar pra conhecer seu esconderijo?”
Seu falso ar indefeso e a voracidade de seu olhar a irritaram. Victoria cerrou os
punhos e contou até vinte em silêncio, como o médico havia orientado. As unhas
roídas pressionaram as palmas das mãos com força.
“Não quero.”
Ele deu um passo à frente e segurou o braço dela, aproximando o rosto.


Ele deu um passo à frente e segurou o braço dela, aproximando o rosto.
“A gente tem uma conexão especial, Vic. O que falta pra você entender isso?”
“Por favor, para…”
Num gesto rápido, ele a puxou e suas bocas se tocaram. Victoria foi pega de
surpresa. Durou apenas um segundo, mas o corpo dela fervilhava. Victoria
desviou os olhos, percebendo sem querer a sombra de dois garotos encapuzados
do outro lado da rua pichando BOQUETE em letras estilizadas num muro. Uma
energia ruim a dominou, e uma dor que rasgava o cérebro e fazia seus lábios
formigarem surgiu.
“Você é um monstro!”, ela gritou, empurrando-o.
Arroz tropeçou na calçada e caiu próximo a um mendigo que cochilava aos pés
dos Arcos. Victoria foi embora sem olhar para trás. Esbarrou em um grupo de
jovens bêbados que zombaram de sua pressa e quase foi atropelada por um carro
em alta velocidade quando atravessou o posto de gasolina na direção da rua
Riachuelo, passando pelos muros grafitados, pelas ladeiras mal iluminadas e
pelo cheiro de urina que emanava das esquinas imundas. Não conseguia
raciocinar direito. Aquilo não era bom. Tinha que manter o controle, mas era
impossível depois do que Arroz tinha feito. Pensou em ligar para o dr. Max, mas
logo desistiu. Tirou a aliança de latão e jogou em uma boca de lobo.
Chegando ao apartamento, correu direto para o chuveiro, de roupa e tudo.
Continuou se sentindo elétrica, apesar da água quente. Pegou o sabonete e,
escorada na parede, esfregou-o com força na pele. Sem conseguir se conter,
chorou convulsivamente, torta sob o jato d’água, enquanto a espuma escorria por
seu corpo e descia em espiral pelo ralo.
2.
A noite não foi tranquila. A menstruação chegara com força, e as cólicas
pareciam revirar o útero. Victoria se mexeu de um lado para o outro na cama e
levantou cinco vezes durante a madrugada para ir ao banheiro, beber água ou
caminhar pela casa. Quando conseguiu dormir, teve um pesadelo em que era
observada por mil olhos. Acordou gritando, suando frio, com uma pressão
esquisita ao redor do pescoço, como se houvesse algo travado em sua garganta.


Quando amanheceu, encontrou no celular uma infinidade de mensagens de
Arroz pedindo desculpas. Ela não estava a fim de falar com ele nem com
ninguém. Cogitou faltar à sessão, mas sabia que poderia piorar a situação e
estragar a semana que só estava começando. Sentada na privada, tirou o
absorvente, evitando encarar os coágulos. Tomou um banho rápido e, enquanto
se vestia, olhou sem querer o espelho, o que só fez aumentar seu mal-estar. Não
gostava nem um pouco de sua aparência: os olhos azuis sustentados por bolsões
de pele acumulada em um rosto quadrado com maxilar largo. Os óculos de
armação grossa faziam com que se sentisse ainda menos feminina. Era branca
demais (vivia cheia de vermelhidões pelo corpo), e seus quarenta e oito quilos
distribuídos em um metro e sessenta e cinco a deixavam com uma aparência
esquelética. Isso sem falar no resto.
Diante da pia, realizou seu “ritual diário de envenenamento”: clordiazepóxido,
cinquenta miligramas; quetiapina, cinquenta miligramas; ácido valproico,
setecentos e cinquenta miligramas; venlafaxina, cinquenta miligramas;
risperidona, um miligrama. A poção mágica do dr. Max. Engoliu tudo com um
copo d’água.
Victoria pegou o celular, a mochila jeans e Abu, que estava sobre a cama, e foi
para a cozinha. O relógio do micro-ondas confirmou seu atraso. Ela engoliu um
copo de leite e colocou duas bananas escuras na mochila, para comer no
intervalo do trabalho. Deu um beijo em Abu, deixou-o sobre o aparador da
entrada, bateu a porta e se apoiou no corrimão para descer os quatro lances de
escada o mais rápido que podia. A maioria dos prédios naquela região não
contava com elevador ou porteiro, mas isso também tinha suas vantagens: as
chances de cruzar com alguém eram menores. Os vizinhos eram quietos e
solitários, ocupados com a própria vida. Victoria sabia que em seu andar
moravam um senhor cego, duas irmãs de Goiânia, três prostitutas de diferentes
faixas etárias que atendiam no motel com letreiro em néon da esquina e um
garoto de programa que certa vez lhe pedira um liquidificador emprestado.
Era uma segunda-feira nublada. Ela resolveu tomar um caminho mais longo,
ainda que estivesse atrasada, só para não passar pelo lugar de onde tinha fugido
de Arroz na noite anterior. Avançou de cabeça baixa pelo canto da rua do
Lavradio, evitando a calçada invadida por um mar fedorento de executivos
suados, mulheres com bolsas enormes e camelôs gritando a plenos pulmões
como trovadores da Idade Média. Não entendia pessoas que gostavam de fazer
barulho: na verdade, tinha até certo medo delas, e com o medo vinha a irritação.


barulho: na verdade, tinha até certo medo delas, e com o medo vinha a irritação.
Era como um círculo vicioso.
Mesmo com pressa, levou vinte minutos para chegar a pé ao consultório. O dr.
Max passara a fazer parte da rotina de Victoria havia três anos. O dr. João
Carlos, psiquiatra que a tratava desde a infância, havia morrido num acidente de
carro, e o luto só fizera com que ela afundasse ainda mais na merda. Victoria
perdera o emprego no restaurante onde trabalhava como bartender (o dono
percebeu que as garrafas de vodca estavam indo rápido demais e não tardou a
descobrir que ela virava duas doses a cada uma que servia). Os dias eram
contados de ressaca em ressaca. Victoria não sabia onde estaria se o dr. Max não
tivesse aparecido.
Certa noite naquele período obscuro, ela chegou em sua antiga quitinete no
bairro Santo Cristo e decidiu que precisava de um copo de leite quente. Colocou
a panela no fogo, mas acabou pegando no sono no sofá antes de tirá-la. Não
acordou nem mesmo quando uma fagulha alcançou a capa do fogão, derretendo
o plástico e se espalhando depressa. Antes que fosse tarde demais, um vizinho
percebeu o cheiro de queimado e chamou os bombeiros. Dias depois, quando
Victoria ainda estava no hospital, o dr. Max ligou. Um resto de autopreservação
fez com que ela atendesse e aceitasse encontrá-lo no McDonald’s do largo da
Carioca.
“Seu caso me interessa muito”, ele havia dito, sem preâmbulos. “Tenho me
dedicado a analisar o impacto dos traumas de infância na saúde mental e física
do adulto. Para ser honesto, não é algo inédito. Existem milhares de casos de
crianças abusadas ou maltratadas que desenvolveram transtornos como
bipolaridade, depressão, alcoolismo… Há estudos completos sobre o assunto,
inclusive. Mas não pretendo inventar a roda, só quero conhecer melhor os
mecanismos operando. Longe de mim menosprezar a experiência traumática de
outras crianças, mas me especializei em casos mais… extremos. Crianças
envolvidas em grandes tragédias, submetidas a altas doses de violência física ou
psíquica. Atualmente, recebo no meu consultório o Lourenço, filho do Vampiro
de Caxias, e o Samuel, do Lido. Você deve se lembrar deles.”
Claro que ela lembrava. As duas histórias com frequência eram associadas ao
passado dela em matérias jornalísticas. Em 2005, o Fantástico fizera uma


reportagem especial destacando padrões entre os três casos, com tabelas
multicoloridas.
O Vampiro de Caxias era um assassino em série que havia agido em bairros do
subúrbio carioca no início dos anos 1990. O sujeito degolava mulheres e sumia
com a cabeça delas. Depois de cinco anos de investigação e de terror entre a
população, a polícia chegou ao criminoso: um mecânico de quarenta anos, viúvo,
que vivia com o filho em uma casa humilde em Duque de Caxias. Ele realizava
rituais satânicos nos fundos, bebendo o sangue das vítimas e pregando seus
globos oculares em imagens profanas.
Na garagem, a polícia encontrou mais de vinte cabeças apodrecidas dispostas
lado a lado, como uma espécie de santuário. Na época, os jornais afirmaram que
o criminoso obrigava o filho de dez anos a participar dos rituais. Victoria tivera
vontade de perguntar ao psiquiatra se o menino bebia mesmo o sangue das
vítimas junto com o pai, mas se controlara.
O caso do Lido era posterior ao dela. Havia estourado em abril de 2000. O
bebê de uma moradora de rua fora adotado de modo ilegal por um casal de
idosos de classe média que vivia em um apartamento na praça do Lido, em
Copacabana. Os velhos tratavam o garoto, Samuel, como um animal,
alimentando-o com ração, obrigando-o a urinar e defecar em folhas de jornal na
área de serviço e fazendo-o dormir numa casinha, com dois pinschers em
miniatura e um chihuahua. O garoto engatinhava de coleira e apanhava. Quando
a polícia entrou no apartamento, depois de uma denúncia dos vizinhos,
encontrou Samuel, então com onze anos, encolhido em um canto, tremendo e
latindo sem parar. Ele não sabia andar sobre duas pernas ou falar. Não se
enxergava como ser humano.
“Sei que sou a melhor pessoa para cuidar de você, Victoria”, o dr. Max havia
dito. “E não vou te cobrar nada. Preciso de você tanto quanto precisa de mim.”
Se ele tratava de Lourenço, o menino que bebia sangue, e de Samuel, o garoto-
cão, talvez pudesse mesmo fazer algo por ela. Victoria gostara da objetividade
do médico, que não apelara para promessas vazias ou chantagens emocionais.
Na semana seguinte, começaram as sessões diárias. Um ano depois, elas
passaram a se restringir às segundas, quintas e sextas. Aceitar o tratamento tinha
sido a melhor decisão da vida de Victoria.
O consultório ficava no décimo oitavo andar de um prédio comercial na rua do


O consultório ficava no décimo oitavo andar de um prédio comercial na rua do
Ouvidor. Às sete e meia em ponto, ela tocou a campainha e começou sua
contagem mental. O médico apareceu no olho mágico e girou o trinco quando
Victoria estava no número onze.
“Que bom te ver, Vic”, ele disse, caloroso como sempre.
Depois do que havia acontecido no dia anterior, ela não tinha vontade de
encostar em quem quer que fosse. Cruzou os braços e passou direto, sentando-se
na poltrona mais perto dos janelões, abraçada à mochila no colo.
O dr. Max a acompanhou com os olhos, fechando a porta sem dizer nada. Era
um sujeito alto, forte, de pele morena e tão lisa que parecia resultado de cirurgias
plásticas. Cultivava uma barba grisalha e uma cabeleira volumosa, também
grisalha, com fios longos e brilhantes. Sempre vestia roupas claras — naquele
dia, uma calça de brim cinza e camisa branca que dava forma aos ombros largos.
Sua imagem austera confortava Victoria, e ela teve a certeza de que tinha feito
bem em não faltar à sessão.
“Sem lacinho hoje?”, ele perguntou, cruzando as pernas.
Victoria levou a mão aos cabelos. Merda! Saíra tão transtornada que havia
esquecido. Ajeitou uma mecha e desceu o braço devagar, tentando disfarçar a
surpresa.
“Resolvi mudar.”
Era uma mentira descarada, mas ele não ia contradizê-la.
“Mudar é sempre bom. E as segundas-feiras são ótimas pra isso. Melhores do
que as sextas, sem dúvida.”
Além dos cabelos grisalhos, o dr. Max tinha um senso de humor antigo, ainda
que devesse estar entre os trinta cinco e quarenta anos. Ele pegou a caderneta da
mesinha ao lado e a pousou sobre as pernas, deixando a caneta a postos.
“Você parece irritada. Aconteceu alguma coisa?”
“Nada de anormal.”


Um silêncio impertinente preencheu a sala. O psiquiatra sabia que Victoria
continuava a mentir, e os olhos pretos dele ziguezagueando pelo rosto dela
mostravam isso. Com o tempo, Victoria também havia aprendido um pouco
sobre linguagem corporal e ganhara maior consciência sobre seus gestos.
Contudo, por mais que tentasse se controlar, às vezes era impossível não roer as
unhas, encolher os ombros ou retesar a boca. Todos os detalhes a denunciavam.
Ela endireitou a coluna e manteve as pernas juntas, como uma aluna bem-
comportada. Buscou fixar os olhos agitados em algum ponto na altura da camisa
branca do dr. Max. Um fiapo escapava do botão pouco abaixo do colarinho.
Aquela pequena desordem a incomodou ainda mais. O psiquiatra não diria nada
até que Victoria decidisse falar. O comando da conversa era dela, e não havia
por que esconder do médico o que acontecera no dia anterior. Afinal, era para
aquele tipo de coisa que estavam ali.
Com os lábios crispados, Victoria confessou que tinha encontrado Arroz e
visitado outro apartamento ocupado, como costumavam fazer aos domingos.
Mesmo que o médico nunca tivesse feito nenhum comentário sobre o assunto,
ela sabia que ele a julgava e tirava conclusões a partir do hábito. De qualquer
maneira, acabou contando que Arroz a acompanhara até a Lapa e, na hora da
despedida, forçara um beijo. Procurou falar de modo calmo, pausado, sem
revelar toda a raiva que a invadia. O dr. Max vivia dizendo que era importante
aprender a controlar as emoções.
“E como você se sentiu?”, ele quis saber.
Victoria soltou um suspiro:
“Não acho que tenha exagerado. Ele é que foi um babaca.”
“Está irritada com a atitude dele ou com o que ela representa?”
“Como assim?”
O dr. Max mantinha a expressão indiscernível.
“Não tenho por que defender seu amigo, Vic. Sem dúvida, foi errado ele te beijar


“Não tenho por que defender seu amigo, Vic. Sem dúvida, foi errado ele te beijar
à força. Muito errado.” O psiquiatra deixou a caneta sobre a mesinha, como se
não precisasse anotar mais nada. “Mas despertar o interesse de um homem…
isso por si só incomoda você?”
“Não quero despertar nada em ninguém.”
“Infelizmente, não depende de você. É natural que as pessoas se interessem
umas pelas outras.”
Victoria não achava que o fato de Arroz ter se declarado tinha muito a ver com
ela. Pensava a mesma coisa dos homens que olhavam para seus seios pequenos
sob a blusa do uniforme ou lançavam cantadas enquanto ela lhes servia
cappuccinos e crepes: paqueravam qualquer uma que vissem pela frente.
“Nem sei como conversar com um homem.”
“Você conversa comigo há anos, Vic.”
Ela levantou o rosto, passando as mãos suadas na calça. Não enxergava o dr.
Max como homem, mas como médico. Eram coisas bem diferentes.
“Bom, é importante deixar claro que não há motivo para que as pessoas não se
interessem por você”, ele continuou, baixando a voz.
“Não estou pronta para me envolver com ninguém. Não estou pronta nem para
fazer amigos.”
O dr. Max recuou, recostando-se no espaldar da poltrona. Entrelaçou as mãos
diante da barriga e olhou de relance para o caderninho, hesitando em pegá-lo
novamente. A sala estava mais fria, e os pelos dos braços de Victoria se
eriçaram. Ela torceu para que a sessão já estivesse no fim.
“E a moça que trabalha no café com você?”, o psiquiatra perguntou.
“Margot?”
“Você me disse que ela foi legal com você uma vez.”
Victoria deu de ombros. Margot era pouco mais velha do que ela (devia ter uns
vinte e seis) e trabalhava atrás do balcão, controlando os pedidos que saíam


vinte e seis) e trabalhava atrás do balcão, controlando os pedidos que saíam
da cozinha e entregando bandejas às garçonetes. Era morena, tinha cabelos
longos e sorriso largo. Certa noite, em meio a uma tempestade de verão, Victoria
aceitara uma carona dela até seu prédio. No trajeto de pouco menos de quinze
minutos, Margot havia contado sua vida amorosa inteira, incluindo detalhes
sobre diversos namorados, o desempenho de cada um na cama e a melhor
maneira de ter prazer com sexo anal. Margot dera até dicas para convencer um
cara a aceitar um ménage com outro. Victoria se mantivera em silêncio. Ela
imaginava como seria ter uma amiga, e a ideia a perturbava em todos os
aspectos. Amigas contam tudo umas às outras, acontecimentos, sentimentos,
desejos e uma infinidade de coisas que Victoria não tinha a intenção de
compartilhar com ninguém. Além disso, a alegria e o carinho de Margot eram
excessivos. Ela era feliz demais.
“Melhor não.”
“E o escritor que vai ao café de vez em quando?”, o psiquiatra perguntou.
“Você já me falou dele algumas vezes. Parece simpático e gosta das mesmas
músicas que você.”
“Sobre o que eu conversaria com ele? Mortes e minha vida de merda?”
“Você não precisa ter vergonha da sua história.”
“O cara vai sair correndo na mesma hora. Sou só mais uma garçonete que ele
paquera.”
“E daí se for isso? Vocês não precisam terminar a noite na cama. Foi difícil
conhecer o Arroz, não foi? E isso já tem o quê? Mais de um ano. Talvez seja
hora de se aproximar de outras pessoas, vencer o medo.”
Ela se irritou. Só podia ser provocação.
“Não tenho medo. Nunca foi uma questão de medo…”
O psiquiatra esperou que continuasse, mas Victoria se calou. Outra mentira.
Ela olhou o relógio de pulso: já haviam passado dois minutos do horário do
término da sessão. Ela levantou aliviada, já colocando a mochila nas costas.


“Antes de ir… Lembra que eu gravava nossas sessões no começo?”
“Claro, por quê?”
O dr. Max ficou de pé e foi até um móvel. Abriu a terceira gaveta e passou os
dedos longos por uma série de pequenos cassetes organizados por data. Ela
sempre achara antiquado que o psiquiatra usasse um gravador em vez do celular,
mas nunca dissera nada a respeito. Combinava com o estilo dele. Depois de
alguns minutos, o dr. Max encontrou a fita que estava procurando e sacudiu-a no
ar.
“Esta aqui é da primeira consulta. Se importa que eu toque?”
“Tenho que ir pro trabalho.”
“Só o finalzinho. Acho importante que você se escute. Não vai demorar.”
Ele pegou um gravador na gaveta e colocou a fita. Passou a gravação para a
frente, parando algumas vezes para ver se já estava no ponto certo. Victoria
ouviu trechos de frases e perguntas entrecortadas. Voltou a se sentar, fechando
os olhos e apoiando os braços na poltrona. Era como ser transportada ao
passado. A gravação tinha poucos anos, mas a sensação era de que se tratava de
outra pessoa. Aos vinte e um, sua voz ainda era fina e hesitante como a de uma
criança, e o álcool embaralhava o ritmo das palavras.
O psiquiatra finalmente encontrou o que queria. Sua voz potente se elevou na
gravação, pontuada por ranhuras de som:
“Por que acha que as pessoas fazem sexo, Vic?”
Houve quinze segundos de silêncio na gravação. Então veio a resposta, numa
voz inebriada:
“Para sentir dor.”
3.
Sentada em uma das mesas externas do bar Amarelinho, na praça da Cinelândia,
Victoria já estava arrependida. O sujeito do outro lado da mesa mantinha os
olhos fixos no cardápio, enquanto ela amassava um guardanapo sobre as pernas
e se perguntava como tinha ido parar ali. Uma série de equívocos, sentimentos


e se perguntava como tinha ido parar ali. Uma série de equívocos, sentimentos
confusos e talvez algum alinhamento inédito dos astros tinham feito com que ela
aceitasse o convite de Georges para sair depois do expediente.
Até então, ele não significava nada para ela, era apenas um desconhecido que
frequentava o café quase todos os dias. Georges chegava cedo, escolhia sempre a
mesma mesa de canto, próximo aos janelões e à tomada onde ligava seu laptop, e
passava horas digitando e ouvindo playlists new wave no Spotify. Toda vez que
ela se aproximava para servir mais café ou oferecer salgados recém-saídos do
forno, ele minimizava o arquivo de Word, baixava o headphone para a nuca e
começava uma conversa aleatória com ela. Era provável que fosse apenas um
roteirista frustrado ou um cara que ganhava a vida postando baboseira em redes
sociais. Pagava sempre em dinheiro, por isso ela não sabia seu nome e o
chamava apenas de “o escritor” quando se referia a ele mentalmente. Agora,
sabia que era Georges.
O garçom se aproximou para saber se já estavam prontos para fazer o pedido.
“Não estou com fome”, Victoria disse. Segundas-feiras eram os dias mais cheios
no Café Moura. Ela trabalhava da manhã até o fim da tarde, e no intervalo havia
engolido depressa um rissole e as duas bananas da mochila. Mastigara tão
depressa que se sentia empanturrada. “Você vai comer?”
“Estou sem fome também.” Georges apoiou os cotovelos na mesa. “Quer uma
cerveja?”
“Não bebo. Mas pede pra você.”
“O que você quer?”
“Uma coca.”
“Ótimo! Um porre de coca pra mim também!” Georges soltou uma risadinha e
devolveu o cardápio ao garçom. “Fiquei feliz que você aceitou meu convite.”
Victoria baixou os olhos e conteve o impulso de roer as unhas. Seus dedos
estavam quase em carne viva. Antes que o silêncio se instalasse, ela perguntou o
que ele fazia todos os dias no café. Sabia que era assim que as pessoas comuns
conversavam. Enquanto carregava bandejas entre as mesas, havia escutado fatias
de conversa, negócios sendo fechados, reencontros de velhos amigos e


declarações de amor malsucedidas. Com sorte, a noite terminaria antes que ele
tivesse tempo de perguntar qualquer coisa sobre ela.
Georges não se incomodou em abrir a própria vida. Pelo contrário, falou pelos
cotovelos, atropelando palavras e gesticulando muito, enquanto seu corpo
escorregava pela cadeira. Victoria via sua boca se mover depressa, mas não
prestava atenção. O bar estava cheio, e o cheiro de cerveja velha a deixava entre
o enjoo e a tentação. O burburinho fazia crescer a sensação de que todos
olhavam para ela. O encontro mal tinha começado e já estava dando errado.
Tudo o que Victoria queria era estar deitada no sofá, com Abu nos braços, vendo
um desenho animado na televisão. Quando Georges foi ao banheiro, ela cogitou
levantar e ir embora sem dizer nada.
O garçom trouxe as latinhas de refrigerante e dois copos com gelo e limão.
Georges se serviu enquanto continuava com sua ladainha. Dava para ver que ele
não era muito habilidoso em primeiros encontros — não que Victoria entendesse
do assunto, mas reconhecia os sinais. Ela acabou concluindo que havia aceitado
o convite por uma espécie de vingança mesquinha pelo que Arroz havia feito.
Sentiu-se ainda pior.
“Ei, você está me escutando?”, ele perguntou, com o copo cheio estendido.
Victoria ergueu o copo também, no automático.
“A que vamos brindar?”, Georges quis saber.
Ela pensou por um instante:
“Ao David Bowie.”
“Quê?”
“Você não gosta de Bowie?”, Victoria perguntou.
“Gosto, mas… Por que ele?”
“Porque também gosto. É algo de que nós dois gostamos.”
Ela bebeu o copo todo e se serviu novamente, esvaziando a latinha. Coca-cola a


Ela bebeu o copo todo e se serviu novamente, esvaziando a latinha. Coca-cola a
ajudava a ficar desperta. Não queria parecer alheia à conversa com Georges, ou
desinteressada.
“Continua falando de você”, Victoria pediu.
“Onde eu parei?”, ele perguntou, mas logo lembrou. “Em Londres… Eu tinha
vinte e nove anos. O tal retorno de Saturno… dizem que a gente muda muito
nessa fase. Fui pra Londres na cara e na coragem. Era peixe com batata frita todo
dia, morava numa república zoada, longe pra cacete, um inferno, mas também
um paraíso. Minha ideia era melhorar o inglês, viver de escrever peças de teatro
e contos pra revistas. Acabei conseguindo um trabalho numa livraria local, juntei
alguma grana, mas no fim das contas nada deu certo. E o frio não era pra mim.”
Victoria percebeu que havia algo ali.
“Nada deu certo?”
“Acabei conhecendo uma inglesa…” Ele começou a bater o pé direito num
movimento sutil, mas revelador. “Alison. Ela era artista plástica, linda, animada.
A gente se apaixonou. Ou pelo menos eu me apaixonei. Morei com ela por um
tempo. Me concentrei mais no trabalho, até comecei a escrever um livro.”
Victoria também tinha vontade de escrever um livro. Já havia rascunhado alguns
inícios, mas sempre se perdia no enredo ou se frustrava com as personagens
muito parecidas com ela. Depois de algum tempo, jogava tudo fora.
“Aí ela me trocou por um iraniano que conheceu numa exposição pouco antes de
a gente completar quatro anos”, ele continuou.
“E você voltou pro Brasil.”
“É.” Ele terminou a coca-cola e fez sinal ao garçom pedindo outra.
O assunto ainda o machucava, era evidente. Em certo sentido, Georges era a
exata imagem do escritor conturbado: cabelos meio desgrenhados, óculos de
armação grossa, barba por fazer e camisa com a manga dobrada até a altura do
cotovelo. Ao mesmo tempo, havia algo novo nele, uma entrega infantil que não
era comum em artistas ou intelectuais, em geral tão blasés e inacessíveis.


Georges não tinha problema em responder a nenhuma pergunta, contava tudo em
detalhes, como se já fossem íntimos e não precisassem guardar segredos.
“Às vezes, faço uns frilas de tradução de manuais”, ele disse. “Entendo tudo de
instalação de válvulas de banheiro, se você precisar. Mas resolvi tirar dois anos
sabáticos pra terminar de escrever meu romance com a grana que economizei. O
tempo e o dinheiro já estão quase acabando, e ainda falta muito pra terminar o
livro. Sei lá o que vai ser. Mas tenho que arriscar. É tudo ou nada.”
Ela gostava do ritmo da fala dele, acelerado, cheio de informações, como se
temesse deixar algum detalhe de fora. Quando havia uma pausa no jorro de
palavras, não soava como defesa, mas como autocomiseração. Eram detalhes,
coisas que em geral a irritariam, mas que em Georges soavam autênticas. Ele era
fácil de ler: um sujeito normal, com problemas de gente normal, que enxergava
sua própria vida como uma tragédia grega, ainda que não fizesse a menor ideia
do que era ser um fodido de verdade.
O desejo de sumir dali diminuiu. Victoria se sentiu tão relaxada que abriu a boca
num bocejo.
“Eu sei”, Georges disse, com um sorriso. “Minha vida dá sono.”
Ele era bom em piadinhas autodepreciativas. Victoria pensou que talvez fosse
depressivo.
“Desculpa, não é nada disso. É que eu estou exausta.” Ela franziu os olhos numa
expressão cansada. “Como você foi parar no café em que eu trabalho?”
“Eu tinha que te conhecer, ué. Estava escrito.”
“Não, sério…”
“É legal trabalhar num lugar com vitrine. Ver as pessoas passando na rua,
imaginar de onde elas vêm, para onde vão.”
Victoria quis falar da brincadeira que fazia com Arroz, mas preferiu não misturar
os dois universos.
“E é importante ter um motivo para me vestir”, ele continuou. “Moro sozinho.
Dá preguiça de tirar o pijama em casa, e o trabalho não rende. Escolhi o Café


Dá preguiça de tirar o pijama em casa, e o trabalho não rende. Escolhi o Café
Moura por acaso. E você trabalhar lá tornou tudo melhor e mais bonito.”
“E por que sempre paga em dinheiro?”
A pergunta o pegou de surpresa.
“Você é observadora, hein? Não confio em cartão de crédito. A gente gasta sem
perceber. É mais ou menos o motivo pelo qual não entro mais nas redes sociais.
Tempo é dinheiro.”
O sorriso dele era honesto. Ela sabia reconhecer um quando via. Georges não era
exatamente um homem bonito, mas sua pele morena combinava com a densa
cabeleira preta, e o modo como apertava os olhos ao falar era simpático.
“Também não tenho perfil em redes sociais. Nunca tive”, Victoria disse. Mas

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