Uma Mulher no Escuro


parte inferior de seu corpo pesava como um saco de areia, de modo que ela não



Baixar 1.39 Mb.
Pdf preview
Página34/37
Encontro10.07.2022
Tamanho1.39 Mb.
#24203
1   ...   29   30   31   32   33   34   35   36   37
Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected

parte inferior de seu corpo pesava como um saco de areia, de modo que ela não
podia fazer nada. Enquanto resfolegava, conseguiu liberar a mão esquerda da
cinta num movimento brusco e baixar o braço. Sentiu uma ardência percorrer
todo o ombro, como uma corrente elétrica. Em vez de levar a mão à outra fivela
para se soltar, ela a estendeu para Arroz, num gesto convidativo.
“Espera”, disse, forçando uma voz rouca, íntima. “Me dá sua mão… meu
príncipe.”
Reuniu todas as suas forças para sorrir. Fixando os olhos nele, mostrou os dentes
e projetou os lábios de modo sedutor. Arroz ficou imóvel, encarando-a à
distância, como se temesse se aproximar.
“Eu preciso beber mais…”, ela disse. Apertou os olhos e balançou a cabeça,
tentando fazer os cabelos caírem sobre o rosto, como Sandra usava. “Sou eu…
sua Rapunzel. Estou aqui pra você.”
A expressão dele se transformou. Num átimo, ela viu o menino surgir nos olhos
ocos. Posicionado entre as pernas de Victoria, ele tirou os dedos de dentro dela e
guardou a faca, trêmulo. Aquilo a encheu de coragem.
“Me beija…”, ela pediu.
Hesitante, ele caminhou na direção dela. Seu semblante era de uma criança
indefesa e assustada, com a boca entreaberta e os olhos vidrados. Quando
Victoria tocou na mão dele, percebeu Arroz se arrepiar no mesmo instante. Sua


Victoria tocou na mão dele, percebeu Arroz se arrepiar no mesmo instante. Sua
pele estava fria. Ela acariciou os dedos dele e foi subindo pelo braço, até chegar
ao pescoço e depois ao queixo. Puxou-o de modo sutil pela nuca, sem perder o
contato visual.
“Me beija, meu príncipe”, repetiu, num gemido. “Eu quero.”
Ele se inclinou sobre ela. Quando estava prestes a beijá-la, sua expressão se
modificou, num misto de desprezo e prazer. A centímetros de seu rosto, ele
sorria.
“Acha mesmo que vou cair nessa?”, Arroz disse. “Você queria me abandonar,
igualzinho a ela.”
Por um instante, Victoria foi tomada por uma completa indiferença, consciente
de que o plano de seduzir o assassino não daria certo. Sentiu uma vontade louca
de gargalhar. Estava tão cansada. Só queria um pouco de paz. Nada além daquilo
importava. Nem a morte. Pelo menos, seria o fim de tudo. Ele piscou. Estavam
tão próximos que sentia seu hálito.
“Quando percebi que você estava se enxovalhando com Georges, tratei de tirar o
desgraçado do caminho…”, ele disse, voltando a empunhar a faca.
“Mesmo assim, você não me deu a menor chance. Me decepcionei tanto… Pelo
menos, uma noite. Uma noite como aquelas. Depois, não preciso mais de você.”
Com a vista embaçada, tudo parecia etéreo. Havia cada vez mais manchas
pretas diante dos olhos de Victoria. Acabaria ali. Ele ia estuprá-la e matá-la logo
depois. Quando tia Emília denunciasse o desaparecimento dela à polícia, já seria
tarde demais. Arroz desceu a calça jeans e a cueca e arreganhou as pernas dela.
Lentamente, enquanto ele se distraía em masturbar o membro enrijecido,
Victoria baixou o braço livre e, dobrando um pouco o tronco para a esquerda,
desconectou a coxa da perna mecânica. O barulho metálico foi quase
imperceptível, e ela o disfarçou com um gemido de dor. Com a ponta dos dedos,
tocou a parte superior da prótese e, esticando-se um pouco mais, conseguiu
segurá-la na mão esquerda.
Arroz se aproximou entre as pernas dela, repetindo baixinho uma espécie de


mantra. Vamos brincar, vamos brincar, vamos brincar… Posicionou-se para
penetrá-la. Antes que ele fosse adiante, Victoria girou o corpo sobre a mesa e,
tomando impulso, bateu com a estrutura de ferro na cabeça dele. O calcanhar da
perna mecânica atingiu a testa, afundando a pele e criando um rombo. Arroz
bambeou e caiu para trás. Sem perder tempo, Victoria soltou a fivela que prendia
o outro punho e se sentou, sentindo uma dor visceral que nascia na lombar e
subia até o pescoço. Então se jogou no chão com as mãos estendidas, tentando
não se machucar muito na queda.
Apesar da dor insuportável, ela não parou. Arrastou-se até a prótese, caída no
extremo oposto da garagem. Apoiada à parede, conseguiu ficar de pé no mesmo
instante em que Arroz se levantava. Ele tentou alcançar a faca, mas Victoria
desceu a perna mecânica nas costas dele. Quando Arroz tentou se proteger, levou
outro golpe na bochecha, que abriu um corte profundo. Ao perceber que não
conseguiria manter o equilíbrio, Victoria se jogou de joelhos em cima de Arroz.
Segurando a perna mecânica com as duas mãos, subiu e desceu os braços,
esmagando a cabeça dele como se fosse um pilão. Seus ombros ardiam muito,
mas ela só parou de bater quando a estrutura de ferro começou a se desmontar
em suas mãos. Arroz não se movia mais. Ao olhar para baixo, Victoria enxergou
apenas uma massa disforme e escura de carne, sangue e cabelos.
30.
Victoria mal conseguia acreditar que havia sobrevivido. Acordara no hospital
com tia Emília ao seu lado, solícita, mas muda. Os acontecimentos recentes
estampavam as capas dos principais jornais do país. Tudo parecia surreal. Ela
precisaria de algum tempo para assimilar. Não sabia de onde havia tirado forças
para rastejar até a casa e telefonar para a emergência antes de desmaiar. A
polícia havia encontrado Victoria no chão da sala. Santiago estava morto na
garagem e Georges estava algemado a um cano, em péssimas condições. Tinham
sido encaminhados depressa ao hospital.
No início da tarde, o delegado Aquino entrou no quarto para informar que
Georges havia se recuperado. Estava do lado de fora e queria falar com ela. Pela
janela, Victoria observou o horizonte. Era um dia claro e bonito. A luz do sol se
esparramava sobre o Rio de Janeiro e refletia nos prédios espelhados do centro
da cidade.
“Deixa ele entrar”, disse.


“Deixa ele entrar”, disse.
Minutos depois, Georges apareceu na porta, apoiado em muletas. Vestia a roupa
branca de hospital e tinha o rosto pálido, com olheiras profundas e um ferimento
na altura do nariz. Apesar disso, ele sorriu ao vê-la. Caminhou a passos curtos na
direção dela, parando ao lado da maca, onde encostou as muletas. Fixou os olhos
no curativo que ela tinha no pescoço.
“Vic… Como está se sentindo?”
“Viva”, ela respondeu.
E era verdade. Sentia a energia de quem passou muito tempo debaixo d’água e
finalmente chegou à superfície. Georges passou os olhos pelos aparelhos a que
ela estava conectada.
“Eu errei feio”, ele disse, com a cabeça baixa. “Me aproximei de você pelo
motivo errado… Mas não imaginei que… Que eu ia me apaixonar. Quando
aconteceu, eu parei de escrever na mesma hora. Você não merecia. Tentei te
contar a verdade, me abrir com você… Mas foi tão difícil! Você podia pensar
que eu era Santiago… Que eu pichei a parede… Fiquei com medo de te perder,
entende?”
Ela não respondeu, de modo que ele continuou:
“Naquela noite, tentei ir atrás de você, pra me explicar e pedir desculpas, mas
Arroz apareceu de repente. Ele me sequestrou, Vic. Me manteve em cativeiro
todos esses dias, me torturando, fazendo mil perguntas de como eu tinha
conseguido te conquistar, o que eu tinha feito…” Ele balançou a cabeça, como
se tentasse reorganizar as ideias. “Mas agora… Agora a gente tem a chance de
passar uma borracha em tudo.”
Ele se inclinou, colocando as mãos dela entre as dele.
“Eu te amo, Vic. Te amo muito”, disse, encarando-a nos olhos. “Vamos
recomeçar?”
Georges se aproximou para um beijo, mas ela virou o rosto sutilmente e pediu
para ele se afastar.
“Depois do que aconteceu… Eu não sei.”


“Depois do que aconteceu… Eu não sei.”
A decepção surgiu nos olhos dele. Ficaram se encarando, em silêncio.
Subitamente, o rosto de Victoria se iluminou.
“Mas talvez você possa me ajudar”, ela disse. “Quero escrever minha história.”
CHICO CERCHIARO
RAPHAEL MONTES nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Escreveu os
romances Suicidas, Dias perfeitos, O

Baixar 1.39 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   29   30   31   32   33   34   35   36   37




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal