Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
O que estou fazendo? , ela se perguntou depois de algum tempo. Era como
procurar uma agulha em um palheiro. Nada garantia que as crianças
continuavam estudando ali ou que apareceriam aquele dia. Ela já estava
perdendo as esperanças quando uma picape prata encostou na frente do portão.
A porta traseira se abriu e uma menina um pouco mais velha que a da foto
desceu, com uma mochila nas costas e uma lancheira vermelha nas mãos. Devia
ter uns sete anos, usava arco nos cabelos curtos e meias brancas que subiam até
as canelas. Victoria abriu espaço entre as crianças, aproximando-se do carro,
enquanto o menino descia para se juntar à irmã. O vidro do carona foi baixado e,
do banco do motorista, uma mulher acenou para eles e desejou “boa aula”, então
ficou esperando até que passassem pelo portão e sumissem no interior do
colégio.
Victoria não conseguiu reagir: era mesmo Sofia. Seus olhares se encontraram
por um segundo, antes que o vidro automático voltasse a se fechar e o carro
fosse embora. Fez sinal para um táxi e mandou que seguisse depressa o fluxo.
Na altura da Cobal do Humaitá, avistou a picape. Seguiram pela rua Jardim
Botânico, até que a picape ligou a seta para a direita e entrou em um
estacionamento. Victoria pagou a corrida e desceu. Viu Sofia entregar a chave
do carro ao manobrista e fazer algum comentário num tom de intimidade. A
mulher passou bem perto dela, a menos de um metro. Victoria teve o impulso de
abordá-
la.
Sofia caminhava de maneira objetiva, mas sem pressa. Entrou em uma padaria
no quarteirão seguinte, fez um pedido e se sentou em uma das mesas dos fundos.
Victoria observava a tabela de preços, como se fosse uma cliente, em uma
tentativa de se acalmar. A câimbra na perna invisível era mais forte do que
nunca. A garçonete se aproximou da mesa de Sofia com um sanduíche e um
suco, e Victoria intuiu que era o momento: sentou-se diante dela antes mesmo
que começasse a comer.


que começasse a comer.
“Desculpa, a gente se conhece?”, Sofia perguntou, baixando o copo. O tom não
era grosseiro, só curioso.
“Victoria”, ela disse, com a voz trêmula. “Sua sobrinha.”
Sofia recuou instintivamente. Encolhida na cadeira, passou os olhos pelo rosto
de Victoria, como se buscasse ali algum vestígio de sua genética. De perto, Sofia
era ainda mais parecida com o irmão — tinha os mesmos olhos caídos, as
mesmas bochechas secas que deixavam o rosto afunilado. Havia também algo na
reação apática dela que fazia Victoria se lembrar do pai.
“Preciso falar com você”, Victoria disse, diante do silêncio da outra.
“Como me encontrou?”
“Não foi fácil, mas…”
“Esquece”, Sofia interrompeu. “Não me interessa. Vai embora, por favor?”
Victoria não se moveu. Sofia amassou o guardanapo de papel sobre a mesa e
ficou de pé.
“Espera!”
Os funcionários e alguns clientes das mesas próximas olharam para as duas
mulheres. Sofia voltou a sentar.
“O que quer de mim?”
Victoria não sabia a resposta. Uma confissão, talvez.
“Eu deveria chamar a polícia”, disse. “Rapunzel.”
“O quê?”, Sofia retrucou, piscando nervosa. “Do que está falando?”
“Sei que você é Rapunzel. A mulher por quem Santiago se apaixonou.”
Sofia cruzou os braços, na defensiva.
“Você trabalhava na escola. Quando meus pais descobriram, você fugiu para os


“Você trabalhava na escola. Quando meus pais descobriram, você fugiu para os
Estados Unidos. E agora vive escondida. Porque tem medo.”
“Me deixa em paz, menina”, Sofia disse. Seus olhos eram como um deserto.
Ela voltou a ficar de pé e ajeitou a bolsa no ombro.
“Aquelas crianças”, Victoria disse, quando a outra já se afastava. “São seus
filhos? Ou só uma desculpa pra se aproximar de outras vítimas?”
Sofia retesou a boca numa expressão de ódio. Apontou o indicador para o rosto
de Victoria.
“Se afasta da minha família”, gritou. “Ou sou eu quem vou chamar a polícia!”
Ela foi embora depressa. Victoria tentou se acalmar e ignorar as pessoas ao
redor. Depois que aceitou o copo d’água que o garçom lhe ofereceu, arrependeu-
se de ter se apresentado para Sofia. Ela ia tirar as crianças da escola e sumir do
mapa outra vez. Victoria estava elétrica demais para voltar para casa. Tinha
diversas chamadas perdidas de tia Emília e do dr. Max no celular, mas não
queria falar com eles. Cogitou pegar um táxi até a delegacia, mas perdera toda a
certeza. O tom ofendido e furioso de Sofia não parecia de uma pessoa culpada.
Ou seria possível que ela não sentisse remorso algum?
Victoria resolveu voltar ao Santo Inácio na hora da saída, meio-dia e meia.
Aquilo a deixava com três horas livres. Saiu da padaria para evitar os curiosos e
se sentou em um café. Estava inesperadamente faminta, então pediu um
croissant e depois mais outro enquanto esperava. Como Sofia reagiria ao vê-la
na porta da escola? Faria um escândalo ou finalmente contaria a verdade? Talvez
ela e o marido se revezassem no transporte das crianças. Se quem aparecesse
fosse ele, Victoria tentaria outra abordagem.
Quando olhou para o relógio, já era meio-dia e dez. Pagou a conta e saiu.
Caminhou duas quadras sob o sol escaldante, suando muito. Na escola,
encontrou um muro baixo na sombra bem próximo do portão e se sentou. Pouco
antes do horário, a picape prata entrou na fila dos carros que aguardavam a saída
dos alunos. Victoria ficou de pé, esperando ser notada. O pisca-alerta da picape


foi ligado, e Sofia desceu batendo a porta. Ela segurou Victoria com brutalidade
pelo braço.
“O que está fazendo aqui?”
Na mesma hora, os filhos dela passaram correndo pelo portão. Sofia forçou um
sorriso.
“Me esperem no carro.”
“Quem é ela, mãe?”, a menina perguntou.
Sofia pensou um instante.
“Uma nova amiga da mamãe.”
Sem perguntar mais nada, as crianças entraram.
“Essa história não tem nenhuma importância agora”, Sofia parecia tentar se
acalmar. “Por que não segue com a sua vida e esquece isso?”
“Santiago está me ameaçando. Por sua causa.”
“Te ameaçando?”
“Eu preciso entender”, Victoria disse, e estava sendo sincera.
Sofia pensou um instante. Levou-a até o carro e abriu a porta do carona.
“Entra.”
Victoria hesitou. Sofia tentaria matá-la? Na frente das crianças? Como se
pudesse ler seus pensamentos, a mulher disse:
“Vamos conversar. Não é isso que você quer?”
Victoria entrou e, durante todo o caminho, ficou em silêncio. Sofia perguntou
aos filhos sobre a manhã na escola, como se fosse um dia normal. Os dois
narraram detalhes como quem tinha vivido uma grande aventura: a aula de
português, a aula de educação física (em que a menina quase tinha se
machucado) e a aula de matemática, a preferida dela. Sofia parecia uma ótima
mãe, que mantinha um diálogo aberto com os filhos. Não combinava em nada


mãe, que mantinha um diálogo aberto com os filhos. Não combinava em nada
com a sádica que Victoria havia fantasiado. Quando já chegavam perto da rua
Farani, em Botafogo, Sofia ligou para casa e pediu pelo viva-voz que a babá
descesse para buscar as crianças. Minutos depois, as duas estavam sozinhas no
carro.
“Onde você mora?”, Sofia quis saber.
“Não preciso que me deixe em casa.”
“Onde você mora?”
Se não cedesse algo, Victoria acabaria não conseguindo nada. Ela passou o
endereço, concluindo com certo temor que agora estavam em igualdade. Foram
menos de quinze minutos até a Lapa, em silêncio absoluto. O zumbido baixo do
ar-condicionado tinha algo de fantasmagórico. Sofia encostou o carro em um
recuo a poucos metros do prédio de Victoria.
“Sempre tive medo de que você me encontrasse”, ela disse, encolhendo os
ombros. “Sou feliz com meu marido e com meus filhos, mas… Você tem o
direito de fazer suas perguntas.”
Victoria ficou surpresa, ainda que não entendesse aonde ela pretendia chegar.
“Eu tinha onze anos quando fui morar na casa do meu irmão”, Sofia continuou.
“Era 1986. Na época, ele e Sandra moravam juntos na Ilha do Governador e me
acolheram. Eu ainda estava muito triste por ter perdido meu pai de um jeito tão
súbito. Era uma criança, uma menina assustada…”
Sofia falava com o rosto voltado para a frente, o olhar fixo em algum ponto vago
e distante na esquina. Ela se ajeitou no banco de couro, produzindo um ruído
incômodo, então continuou:
“Certa noite daquele ano, Sandra deitou na cama comigo, disse que ia me
proteger dos monstros, que eu não precisava ter medo… E ela… Ela me abraçou
e começou a me tocar… Meus cabelos, minha nuca, minha boca, depois minha
barriga.”
Victoria não soube como reagir.
“A cada noite, ela avançava mais um pouco.” Sofia apertou o volante com força.


“A cada noite, ela avançava mais um pouco.” Sofia apertou o volante com força.
“Colocava as mãos dentro da minha calcinha e lambia minha nuca.
Durante o dia, voltava a ser a tia Sandra, e era como se nada tivesse acontecido.
Como se eu tivesse sonhado.”
“Você está mentindo…”, Victoria disse. A frase soou patética em voz alta.
“Foram meses. Um dia, Sandra colocou os dedos dentro de mim. Me machucou
tanto que resolvi contar pro meu irmão, sem saber direito o que aquilo tudo
significava. Achava que podia confiar nele. Mas Mauro disse que estava
decepcionado comigo, que eu não devia contar aquela mentira pra mais
ninguém, que estava muito errada. E eu aceitei. Tinha onze anos. O que mais
podia fazer?”
Sofia esticou a mão para o painel e baixou a temperatura do ar-condicionado.
A atmosfera tinha ficado mais pesada e escura. Victoria quase não respirava.
“Uma noite, enquanto aquilo acontecia de novo, eu me lembro de virar o rosto e
tentar pensar em outra coisa… Então eu vi… meu irmão na porta, com os olhos
vidrados em mim. Foi só aí que entendi que ele também participava.
Observando.”
“Não acredito em uma palavra do que está dizendo.”
“Você me pediu a verdade”, Sofia disse. “Essa loucura continuou por anos. Eu
tinha pesadelos frequentes e uma enorme dificuldade de fazer amigas na escola,
de me relacionar, mas não ligava nada daquilo ao que acontecia comigo à noite.
Como contar uma coisa dessas pra alguém? Eu tentava dizer pra mim mesma
que não era nada, que a tia Sandra só fazia carinhos, mesmo que às vezes eu
ficasse dolorida, mesmo que meu irmão tivesse começado a pedir que ela fizesse
mais e mais coisas… A culpa era minha, não deles.”
Victoria estremeceu. Sentia pavor de Sofia, embora fosse uma mulher ainda
menor que ela.
“Quando fiz dezesseis anos, eles pararam. Era como se eu não servisse mais”,


“Quando fiz dezesseis anos, eles pararam. Era como se eu não servisse mais”,
Sofia disse, ainda de perfil, então comprimiu os lábios, que tremiam. “Tentei
seguir em frente, esquecer aquela história. Sabe como é… Minimizei a
gravidade do abuso. Disse a mim mesma que muita coisa podia ser fruto da
minha imaginação. Talvez eu estivesse exagerando. Afinal, eles eram queridos
no bairro, donos de uma escola… Eric era um bebê lindo. Eu não podia estragar
tudo. Inventei mil desculpas pra mim mesma e achei que o pior tinha passado.”
Ela virou o rosto, finalmente encarando Victoria. Seus olhos estavam muito
vermelhos e sua voz saiu embargada. “Mas nunca é tão simples. Eu não
conseguia manter nenhum relacionamento. Tinha nojo de pensar em beijo, sexo,
qualquer tipo de proximidade. A razão disso não era tão clara pra mim. Eu me
sentia culpada, defeituosa. Tinha errado, de alguma forma. Continuei morando
com eles depois de completar dezoito anos e aceitei trabalhar na Ícone. Por
algum tempo, fui feliz. Gostava de trabalhar com crianças, gostava de ver o Eric
crescendo. E, quando você nasceu, era a coisa mais linda do mundo. Achei que
estava tudo bem.”
Victoria buscou algum traço de perversidade na expressão de Sofia, algum
prazer em lhe contar tudo aquilo, mas não encontrou. Havia apenas angústia e
resignação.
“Foi só em 96, quando eu já trabalhava na escola fazia três anos, que descobri
que não era a única vítima deles.” Sofia deixou uma lágrima escorrer pelo rosto.
“Viajei com umas colegas para Búzios, mas voltamos pro Rio mais cedo do que
o planejado. Quando cheguei em casa, escutei os gemidos nos fundos da casa.
Fui devagarzinho até a garagem e…” Seu rosto se retraiu, cheio de nervosismo e
horror. “Na mesa, Sandra estava fazendo sexo com um menino tão novo que mal
tinha pelos. Era um dos alunos. Eu não conseguia acreditar. Tentei contornar a
garagem, então vi meu irmão… Ele estava em um banquinho, de onde assistia a
tudo pelos buracos na parede, se masturbando. Ao lado dele, tinha uma câmera
em um tripé.”
Victoria se sentia seca. Não conseguia sequer chorar.
“Não dormi naquela noite”, Sofia continuou. “Levantei de madrugada e entrei na
garagem. A mesa estava de volta ao lugar, mas acabei encontrando uma caixa
com negativos de fotos. Eles abusavam de várias crianças da escola, meninos e
meninas. Era como um jogo do casal, um fetiche. Em uma das fotos, Sandra


meninas. Era como um jogo do casal, um fetiche. Em uma das fotos, Sandra
fazia sexo com dois garotos. Um deles era o que tinha se matado na escola anos
antes. Mauro me flagrou mexendo na caixa e tivemos uma briga terrível. Ele me
ameaçou de morte. E me expulsou de casa na mesma hora.”
Sofia enxugou o rosto com as mãos trêmulas.
“Decidi quebrar o silêncio. Fui pedir ajuda da única pessoa em quem eu podia
confiar. Emília… Aquela desgraçada era minha tia. Em vez de acreditar em
mim, falou que eu era uma ingrata mentirosa. Preferiu manter as aparências a
enfrentar a podridão da família. Preferiu acreditar que eu estava inventando. E eu
não tinha as fotos para provar. Por isso, fugi. Fugi de mim mesma.”
Finalmente, Victoria conseguiu se mover. Fez que não com a cabeça, mas algo
borbulhava dentro dela. A história tinha a potência dos fatos. Por mais horrível
que fosse, Sofia não parecia estar mentindo.
“Onde estão as fotos?”, Victoria perguntou, ainda que pouco importasse.
“Se a polícia não encontrou quando varreu a casa depois do assassinato, só pode
ter sido a Emília…”
As duas mulheres se encararam em silêncio por menos de um minuto. Victoria
se mexeu para aliviar o incômodo na perna invisível. Tinha vontade de sair
correndo.
“Nos primeiros anos nos Estados Unidos, esse assunto me atormentava.
Sandra e Mauro eram criminosos codependentes, um encontro de almas cruéis.
Ela era uma abusadora exibicionista e ele era um voyeur pedófilo. Pensei em
denunciar os dois. Mas que prova eu tinha? Hoje, sei que uma acusação dessas
acabaria com a reputação deles, mesmo que nada fosse provado. Assim eu
protegeria os alunos, além de você e seu irmão. Fui covarde. Tive medo,
vergonha, dor. Sem as fotos, coloquei na cabeça que a polícia não acreditaria em
mim, já que nem minha tia havia acreditado. E eu já tinha sofrido tanto. Então
conheci meu marido, Fred, e casamos.” Sofia sorriu, mas logo voltou a fechar o
rosto. Havia tristeza em seus olhos. “Quando vi a notícia sobre a tragédia, fiquei
arrasada. Seu irmão não merecia morrer. Ele não tinha culpa. Nem você.”
“Não acredito”, Victoria repetiu, embora sua voz sugerisse o contrário. “Meus


“Não acredito”, Victoria repetiu, embora sua voz sugerisse o contrário. “Meus
pais não eram assim.”
Sem suportar mais, ela abriu a porta do carro e saiu. Pensou que as pernas
bambas não sustentariam o peso do corpo, mas estava estranhamente forte e
bem-disposta. O bafo quente da rua embaçou seus óculos.
“Tem uma coisa que não te contei”, Sofia disse antes que ela batesse a porta.
“No dia em que cheguei de Búzios e vi os dois na garagem, abusando do
menino, também vi…” Ela suspirou. “Vi você, com dois aninhos, do lado do
meu irmão, de olhos arregalados, atenta a tudo… Enquanto tirava fotos, aquele
monstro colocava você para assistir às coisas horrorosas que faziam na garagem.
Você também foi vítima deles, Victoria.”
28.
Victoria entrou no apartamento num rompante e deixou a porta entreaberta.
Todo o seu corpo ardia, como se mergulhado num caldeirão fervente. Tia Emília
estava na poltrona, próximo à mesinha com telefone fixo. De pé, o dr. Max
digitava depressa no celular.
“Minha filha”, tia Emília disse, assustada. “A gente estava atrás de você!
Aonde você foi? O que aconteceu?”
Victoria não respondeu. Sentia-se machucada e traída. Aceitou o abraço do
médico e se deixou guiar até o sofá. Ele a sentou com cuidado, mas ela não
queria ficar sentada.
“Encontrei Sofia”, disse. “Rapunzel é minha mãe, não é?”
Tia Emília apertou as mãos no colo. Ergueu a cabeça, impassível.
“Do que está falando?”
O dr. Max passou um lenço na testa dela para enxugar o suor.
“Você está com febre”, ele disse.


“Quero que me conte a verdade”, Victoria insistiu, tentando soar calma, ainda
que fosse impossível.
Olhou de relance para o médico. Ele havia passado o braço ao redor dela e tinha
a expressão preocupada. Victoria queria que ele fosse embora.
“Eu te avisei pra não procurar Sofia!”, tia Emília disse.
“Meus pais… Eles agiam juntos, seduziam alunos.”
“Que loucura é essa?”
Em geral, conseguia perceber quando tia Emília mentia. Mas agora o rosto dela
era como uma pintura que não se deixava revelar. Victoria estava diante de um
impasse: a menos que ela confessasse, teria que escolher em quem acreditar.
“Sofia é cruel e mentirosa”, tia Emília insistiu, buscando os olhos do dr. Max, na
esperança de que ele dissesse algo.
Num gesto discreto, o psiquiatra se afastou de Victoria.
“Preciso de um copo d’água”, disse, e foi para a geladeira.
Victoria voltou a atenção à tia-avó.
“Sofia contou que eles tiravam fotos na garagem. Fotos de sexo com criança”,
ela disse, ofegante. “Como a polícia nunca encontrou nada?”
“Seu pai era um homem bom, que amava sua mãe, você e seu irmão! Como pode
duvidar disso?”
Era difícil aceitar que a tia-avó mentia descaradamente sobre algo tão sério.
Ela precisava de provas. Provas que mostrassem que aquilo tudo era uma
invenção macabra. Bem no fundo, ainda tinha esperanças de que Sofia estivesse
mentindo.
“Essas fotos nunca existiram”, tia Emília disse, com veemência.
“Para de mentir, filha da puta.”
A voz grave pegou Victoria de surpresa. Ela virou a cabeça para ver quem tinha


A voz grave pegou Victoria de surpresa. Ela virou a cabeça para ver quem tinha
falado. Por um instante, pensou que estava delirando, mas, na bancada da
cozinha, o dr. Max havia assumido uma nova postura, com a coluna ereta e os
braços caídos ao lado do corpo. Seu rosto estava sério, com a boca retesada
emanando um som perturbador de dentes batendo sem parar, como se ele
enfrentasse um frio de muitos graus negativos.
“O que você disse?”, tia Emília perguntou, confusa.
Sem responder, ele deu três passos na direção dela e a estapeou. O som seco
despertou em Victoria um desejo louco de murchar e desaparecer. Ela abriu a
boca para protestar, mas notou que o médico tinha uma faca na outra mão.
“Conta pra ela!”, ele gritou. Antes que tia Emília pudesse reagir, o dr. Max
envolveu-a em um mata-leão e posicionou a lâmina na jugular dela. “Conta!”
Victoria tentou se ajeitar no sofá, mas derrapou, sem conseguir firmar os pés.
“Sofia nunca fez nada… Era Sandra…” A voz do dr. Max saiu sedenta. Toda a
sobriedade de médico havia desaparecido, substituída por uma frieza distante.
“Você sabe a verdade!”
“Não sei do que está falando”, tia Emília disse, quase sem voz. Continuava
imóvel, com as mãos nos braços da poltrona. O dr. Max pareceu perturbado ao
vê-la chorar baixinho, como se lembrasse que ela era humana. Ele levantou o
rosto para Victoria.
“Não acreditei quando Rapunzel me desejou”, ele disse, com os olhos apertados.
“Com aquele sorriso perfeito, aquela voz… Eu não podia recusar… O
carinho, o prazer…”
Victoria não conseguia discernir se ele falava de modo confuso ou se era ela
quem estava perdendo a consciência. O pânico a dominava por completo: o dr.
Max era Santiago. Ela e tia Emília estavam sozinhas no apartamento com o
assassino de sua família. O homem que sabia tudo sobre a vida dela.
“Por favor, não”, Victoria conseguiu dizer, deslizando a mão pela calça em
busca do canivete.


busca do canivete.
“O que você fez com as fotos?” O dr. Max apertou o cabo da faca. Com qualquer
movimento brusco, abriria a garganta de tia Emília. “Conta, velha filha da puta!”
Victoria começou a gritar. Não era algo consciente. A cabeça latejava, como se o
cérebro estivesse sendo rasgado com arame e ficasse em carne viva. Por um
instante, teve esperança de que algum vizinho ouvisse e chamasse a polícia. Max
afastou um pouco a faca e empurrou tia Emília da poltrona. A mulher ainda
tentou se sustentar na bengala, mas não conseguiu. Como uma boneca, caiu no
chão. Victoria urrou ainda mais alto, pedindo ajuda.
“Cala a boca ou mato ela”, o dr. Max disse. “Agora!”
Imediatamente, Victoria engoliu em seco. O formigamento nos braços e no peito
era intenso, e a pele coçava. Apoiou-se no encosto do sofá, tentando ficar de pé
mais uma vez, mas deslizou pela almofada, batendo de lado com a cabeça no
chão. Deitada, ela viu a sala girar sem nitidez. Estava tendo uma crise de pânico.
As mãos desesperadas tentavam alcançar o bolso lateral da calça jeans, mas o
gesto demandava muito esforço. Finalmente, conseguiu. Apertou o cabo do
canivete entre os dedos.
“Naquela noite, quando cheguei na casa, logo encontrei a caixa de fotos…
Aberta… Ao lado do corpo de Mauro”, tia Emília começou a dizer, ainda no
chão, recostada à parede. Apesar de tudo, sua voz era calma, como se ela já
estivesse morta. “Tinha uma porção de imagens degradantes, nojentas… jogadas
no chão do quarto. Guardei tudo no meu carro enquanto a polícia não chegava.”
“Você sabia!”, o dr. Max gritou.
“Era uma vergonha… Eu queimei tudo… todas as fotos.”
Victoria aproveitou a distração do dr. Max para tomar impulso. Com o canivete
em punho, pulou em cima dele. Num movimento rápido, o psiquiatra ergueu o
braço, desviando do golpe, e girou a faca no ar, abrindo um rasgo na lateral da
barriga de Victoria. Tonta, ela bateu contra o móvel e deixou o canivete escapar
de seus dedos e escorregar para debaixo do sofá. Ainda de pé, levou a mão ao
ferimento para estancar o sangue.
Irritado, o dr. Max avançou para cima dela. Ele era enorme e perigoso. Na


Irritado, o dr. Max avançou para cima dela. Ele era enorme e perigoso. Na
contraluz, sua sombra parecia a de um gigante com um machado. Seus cabelos
grisalhos estavam desgrenhados. Nada nele lembrava o homem limpo e correto
com quem Victoria havia se tratado todos aqueles anos. Em desespero, ela
recuou e tropeçou no tapete, rastejando pelo chão e deixando um rastro de
sangue que escapava pela blusa rasgada. O dr. Max a pressionou contra a parede.
Ela tentou empurrá-lo, mas não tinha forças para nada. Encolheu-se, apavorada,
pressionando o ferimento com as mãos.
“Me ajuda”, balbuciou. “Preciso de um médico.”
Tia Emília se apoiou nas almofadas do sofá e tateou com a bengala, em uma
tentativa de ficar de pé. Deu três passos na direção dele, erguendo o apoio como
uma espada. O dr. Max anteviu o golpe e segurou os braços dela. Socou-a com
força, deixando-a com um inchaço vermelho no rosto, logo abaixo do olho
esquerdo. A boca sangrava devido a um corte no lábio superior. Gotas de sangue
pingavam também do nariz. Ela parecia uma máscara de borracha deformada.
“Pode me matar, eu mereço”, tia Emília disse, caída no chão, semiconsciente.
Seu olho inchado piscava sem parar. “Mas leva ela pro hospital, pelo amor de
Deus!”
As forças de Victoria se esvaíam. Seu queixo apontava para o alto, e a boca
estava escancarada em busca de ar. Intuiu que morreria ali, sangrando diante da
tia-avó e do homem que matara toda a sua família. Não havia rota de fuga. Ele ia
terminar o que havia começado anos antes. Victoria só não entendia por que a
tinha deixado viva por tanto tempo. Por que não havia acabado com ela naquela
noite, junto com seus pais e seu irmão? Com a bengala, o dr. Max desferiu um
golpe final que fez tia Emília silenciar. Depois, voltou a se aproximar de
Victoria, agachando-se para passar os dedos na testa dela carinhosamente.
“Você me lembra tanto ela… Rapunzel…”, ele disse, colocando a mão na nuca
dela e erguendo de leve a cabeça. “Eu queria proteger você, mas… Deu tudo
errado… Vocês… Vocês se apaixonaram, e eu… Eu não consegui… O que eu
sinto por você…”
Sem resistir, o dr. Max aproximou o rosto dela e a beijou. Foi um beijo sedento,
desesperado, que a sufocou por alguns segundos. Enojada, Victoria girou a


desesperado, que a sufocou por alguns segundos. Enojada, Victoria girou a
cabeça e tentou cuspir, mas a saliva apenas escorreu pelo canto da boca.
Num átimo de segundo, teve a impressão de que a porta do apartamento se
moveu. Um vizinho teria escutado seu pedido de socorro? Virou-se para o dr.
Max, que estava de costas para a entrada e a encarava fixamente, movendo a
boca sem parar. Ela não escutava o que ele dizia.
Alguém entrou na casa. Quando ultrapassou a faixa de luz que chegava da
janela, Victoria o reconheceu. Sem perder tempo, Arroz avançou na direção do
psiquiatra, pulando sobre ele com os braços erguidos e agarrando seu pescoço. O
dr. Max perdeu o equilíbrio e caiu para o lado, mas manteve a faca firme nas
mãos. Arroz o segurou pelo punho, impedindo que desferisse o golpe, então
socou seu estômago. Os dois rolaram no chão. Arroz era mais alto, mas também
mais magro. Victoria viu quando a lâmina do dr. Max raspou no braço dele.
Logo depois, Arroz conseguiu chutar seu rosto. A faca voou longe, para perto da
mesinha de centro.
Apesar da dor, Victoria se esticou para pegá-la. Arroz estava embaixo do dr.
Max, levando socos na cabeça. Ele girou o corpo e empurrou o médico,
conseguindo uma vantagem. Victoria estendeu a faca para o amigo, que a enfiou
no peito do dr. Max num só golpe. No mesmo instante, o psiquiatra parou de
lutar e seu corpo amoleceu. Uma lufada de sangue escapou da boca dele antes
que caísse no chão, sem vida, com os olhos vidrados. Depressa, Arroz se
desvencilhou dele e ajudou Victoria a se sentar recostada à mesinha. Ela testou o
pulso da tia-avó: estava viva. Colocou a cabeça dela em seu peito e deu tapinhas
em seu rosto.
“Acorda, acorda”, disse, ansiosa.
Foi invadida por uma dose de conforto quando tia Emília tossiu. Arroz voltou da
cozinha com dois panos de prato molhados. Usou um deles para estancar o
ferimento na barriga de Victoria, dando a volta na cintura dela. Então pediu
ajuda para enrolar o outro no próprio braço.
“Ele está morto”, Arroz disse, mais para si mesmo. “Está tudo bem.”


A tia-avó abriu os olhos lentamente, recobrando a consciência.
“Me desculpa… Fiz tudo pensando no seu bem, minha filha”, disse, atropelando
as palavras.
“Você acabou com a vida de Sofia. Inventou que ela era uma pervertida. Eu
fiquei totalmente no escuro quanto ao cara que estava me perseguindo. Por sua
causa!”
A irritação a fez sentir pontadas no abdômen. Arroz colocou tia Emília deitada
no sofá e encarou Victoria, que gemia de dor. Sua blusa branca estava
completamente vermelha.
“Você precisa ir logo pro hospital.”
Ela concordou. Tinha perdido muito sangue. Estava ansiosa e com medo, mas
também aliviada, tudo ao mesmo tempo.
“Chama uma ambulância”, tia Emília sugeriu.
“Não vai dar tempo”, Arroz disse, ficando de pé. “Eu levo ela.”
Com cuidado, ele ajudou Victoria a se deitar no chão antes de erguê-la nos
braços. Com o rosto a poucos centímetros de distância, ela o encarou. Queria
dizer muitas coisas a Arroz. Queria se desculpar. E agradecer. Mas não havia
tempo. Ele passou com ela pela porta e começou a descer as escadas do prédio.
Victoria fechou os olhos, deixando-se levar pela segurança daquele colo. Sua
consciência ia e voltava, mas agora ela intuía que tudo terminaria bem. Pouco a
pouco, a serenidade voltava, ainda que o ferimento chamuscasse horrivelmente.
Quando chegou ao térreo e foi colocada no carro, quase podia flutuar.

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