Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Outro detalhe sobre o qual não mentiu, Victoria pensou.
“Talvez esteja escondido, usando dinheiro vivo”, Aquino disse. “Se for o caso,


vai aparecer mais cedo ou mais tarde.”
“Se Georges não é Santiago, que motivos teria para se esconder?”, tia Emília
insistiu.
Aquino suspirou.
“Bom… Também mandei verificar se algum corpo com o perfil dele foi
encontrado nas últimas semanas. Por enquanto, nada.”
A tia-avó e o dr. Max o bombardearam com mais perguntas. Aquino deu
respostas breves, ansioso para ir embora. Recusou o cafezinho que tia Emília lhe
ofereceu. Já na porta, disse para Victoria:
“Não acredito que esteja correndo risco imediato. E não tenho contingente para
manter os policiais com você…”
Victoria entendeu o que ele queria dizer e não se importou. Mesmo dentro de
casa, andava com o canivete suíço no bolso, porque não confiava neles. Mais
tarde, no quarto, foi invadida por uma espécie de alívio. De modo tortuoso, a
confirmação de que Georges não era Santiago arrefecia a mágoa. Mas ela logo
rejeitou o pensamento. Nada justificava o que ele havia feito. Seguiu até a janela.
Era uma terça-feira quente e, mesmo no crepúsculo, a rua ainda estava cheia,
com pessoas suadas de paletó ou terninho. Levantou a cabeça, até sua vista
alcançar o posto de gasolina. A viatura policial não estava mais na esquina.
Victoria pesquisava no computador sobre jornalismo investigativo e crimes
célebres. Mais cedo, havia buscado o nome Georges Abnara e encontrado um
breve currículo dele, com informações da Universidade Federal de Minas Gerais.
Georges havia cursado comunicação social. Havia links sobre Georges Abnara
pai, que era mesmo neurologista. Victoria encontrara um número de telefone do
consultório dele. Sem pensar muito, ligara. O telefone havia chamado por alguns
segundos antes que uma mulher atendesse. O dr. Abnara falecera anos antes.
Agora, aquele telefone pertencia a uma clínica odontológica. Quando desligou,
sentiu uma súbita vontade de beber algo forte, mas sufocou o desejo. A perna
invisível começava a arder.


Passeou por matérias sobre o livro A sangue frio, de Truman Capote, e 50
anos de crimes, sobre casos policiais brasileiros de grande repercussão. Na
pesquisa, deparou com um texto recente sobre os crimes do Pichador. Hesitou
um pouco antes de clicar. A matéria havia sido escrita por uma jornalista de um
periódico popular. Além de fazer uma retrospectiva das mortes do passado, o
texto mencionava o assassinato de Átila, pai de Santiago.
“Há algo de cruel sobre o passado. Ele não pode ser mudado”, o dr. Max havia
lhe dito certa vez. O psiquiatra tinha razão. Ler aquela matéria a deixou com um
enorme incômodo. Quando se deu conta, estava tremendo e ardendo em febre.
Zonza, gritou por tia Emília, que a conduziu depressa para debaixo do chuveiro.
A água gelada a fez estremecer. Começou a chorar, sem conseguir se conter. Sua
vida tinha saído dos trilhos, e ela não sabia mais como lutar. Estava esgotada. De
repente, não viu mais nada.
Ao entreabrir os olhos, percebeu a silhueta do dr. Max contra a luz que entrava
pela janela. Ele estava deitado de lado na mesma cama que ela, com o cotovelo
apoiado no colchão. Ficou em silêncio até que Victoria se recuperasse.
“Você desmaiou”, ele disse.
Ela não falou nada. Continuou deitada até se dar conta do que a incomodava
tanto: a proximidade. O dr. Max nunca havia chegado tão perto. Ele vestia uma
camiseta branca sem estampa por dentro da calça clara e estava descalço. Os
pelos do peito escapavam pela gola. Com aquelas roupas simples, os cabelos
molhados e perfumado, parecia que tinha acabado de sair do banho. Pela
primeira vez, ela o enxergou como um homem. Foi invadida pela imagem do dr.
Max se masturbando na poltrona do consultório.
“Investigar essa história está te fazendo mal”, ele disse. “Podemos voltar a fazer
sessões diárias, se quiser.”
Mantinha os olhos fixos nela. Victoria se recusava a acreditar que seu psiquiatra
tivesse algum interesse sexual por ela, mas se perturbou com aquele olhar. Ela
balançou a cabeça, tentando espantar os pensamentos obscenos. Não queria
sessões diárias.


sessões diárias.
“Esquece Sofia e o que ela fez com aqueles meninos”, ele disse. “Esquece
Georges. Deixa tudo nas mãos do delegado. Ninguém precisa ser seu passado,
Victoria.”
No meio da tarde, seu Beli apareceu para uma breve visita e saiu com tia Emília
para fazer compras no supermercado. Minutos depois, quando o interfone tocou,
ela se surpreendeu ao escutar a voz de Arroz. Fazia alguns dias que o amigo não
a visitava. Abriu a porta e ficou esperando, apoiada na maçaneta, enquanto ele
subia os lances de escada.
“Você está parecendo uma vampira”, ele disse, abrindo os braços. “Há quanto
tempo não vê a luz do sol?”
“Cuidado pra eu não te morder”, Victoria respondeu, forçando um sorriso.
Arroz vestia jeans, camisa social azul-clara e mocassins, como se tivesse
acabado de sair do escritório. Ele deu dois passos à frente para olhar em volta.
“Sua tia-avó está?”
“Saiu, mas já deve voltar. Por quê?”
“Você não vai acreditar.” Ele sorriu. “Encontrei Sofia.”
Victoria perdeu o equilíbrio por um instante. Seu coração batia mais forte,
pressionando os pulmões e a deixando sem ar.
“Sofia Landers”, Arroz disse. “É o sobrenome do marido americano.”
Ele a conduziu pelo braço até o sofá. Victoria transpirava nas mãos, nas axilas,
no pescoço, embaixo dos seios e entre eles. Não resistiu em perguntar:
“Como descobriu?”
“Fiz uma lista com todas as Sofias brasileiras que se casaram com americanos
entre 1997 e 1998. Analisei uma a uma. Por isso demorou tanto”, Arroz disse.
“Agora, quer saber o mais importante?”


Victoria fez que sim.
“Ela veio para o Brasil há três anos”, ele continuou. “Sofia está morando aqui,
no Rio de Janeiro.”
27.
O relógio marcava seis e meia da manhã. Do quarto, Victoria conseguia ouvir os
roncos de tia Emília. Sem pensar muito, ela pegou algum dinheiro na bolsa da
tia-avó e foi até a porta. Era a primeira vez em semanas que saía de casa.
Estranhamente, não estava com medo, mesmo que a adrenalina a deixasse um
pouco sufocada. Pegou um táxi até a rua São Clemente, onde ficava o Colégio
Santo Inácio. Pais e crianças chegavam de carro, bicicleta ou a pé. Apesar de
odiar multidões, Victoria se aproximou do portão onde dois homens
uniformizados controlavam o fluxo de alunos.
No dia anterior, Arroz tinha lhe mostrado o perfil de Sofia Landers numa rede
social. A mulher da foto aparentava ter quarenta e poucos anos. Tinha um sorriso
discreto e cabelos castanhos e secos caindo atrás dos ombros, além dos limites
do quadrado, com uma única mecha branca, como se fosse uma vilã de desenho
animado. O nariz pequeno e a boca fina lembravam Mauro. Na biografia,
constava apenas seu ano de nascimento — 1975 — e a cidade onde morava —
Rio de Janeiro. Suas principais postagens tratavam de literatura — a crise das
livrarias no Brasil, a força das pequenas e médias editoras, resenhas e artigos
publicados em revistas literárias. Havia fotos de três ou quatro livros que ela
havia traduzido do inglês. Algumas fotos a mostravam em paisagens bonitas ou
cercada de amigos, em geral em cafés ou eventos de lançamento. Nas fotos de
corpo inteiro, o cabelo de Sofia descia até a cintura. Rapunzel.
Ainda que seus gostos pessoais ficassem evidentes, Sofia revelava muito pouco
sobre a vida íntima no perfil. Em um álbum de viagem, aparecia ao lado de um
homem com cabelos ruivos e olhos claros. Provavelmente o americano com
quem havia casado. Os dois estavam abraçados em um píer, diante de um mar
revolto. Sorriam e trocavam um olhar cúmplice. Era um casamento de fachada?
Ou Sofia teria parado de seduzir crianças depois de conhecer o marido?
Em um álbum mais antigo, de 2014, havia fotos do casal com duas crianças
negras — um menino e uma menina, aparentemente gêmeos, com três ou quatro
anos. Entre outras coisas, os comentários diziam “parabéns”, “feitos um para o


anos. Entre outras coisas, os comentários diziam “parabéns”, “feitos um para o
outro” e “família linda”. Finalmente, em uma foto de 2016, Sofia aparecia
abraçada às crianças num pátio escolar, com um jardim verde ao fundo. Depois
de pesquisar, Victoria descobriu que o brasão no uniforme das crianças era do
Colégio Santo Inácio.

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