Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
e seus segredos mais bem guardados. Sei que visita a tia-avó quando está de
folga, que adora passar o sábado em casa e que frequenta sozinha sessões de
cinema à meia-noite. Eu a acompanho à distância. Perco noites de sono
observando a única janela de seu apartamento e pensando nela.
As poucas horas que passamos juntos a cada semana são deliciosas, repletas de
sutilezas, de palavras não ditas, de olhares carregados de sentido. Mas Victoria
é escorregadia. Já estamos nessa há muito tempo, sem que haja qualquer
evolução. Um passo, depois outro, então de volta ao início. Sinto que é o
momento de avançar, de conquistar mais espaço. Minhas mãos suam, meu
coração palpita. Mal vejo a hora.
Desta vez, não tenho dúvidas de que será maravilhoso.
1.
Na esquina do prédio, Victoria parou um instante, pegou a aliança de latão no


Na esquina do prédio, Victoria parou um instante, pegou a aliança de latão no
bolso da calça e a vestiu na mão direita, enquanto Arroz fazia o mesmo com a
aliança dele. Ela olhou para cima até encontrar a placa amarela de ALUGA-SE
pendurada na janela do quarto andar. Havia dois vasos de flores no parapeito e
um adesivo grande colado no vidro, ilegível àquela distância. O prédio era
antigo, com fachada pintada de bege e um bonito arco de mármore na entrada.
“Não foi difícil agendar”, Arroz disse, com um sorriso cúmplice.
Seguiram lado a lado pela calçada de pedras portuguesas, sem dar as mãos. O
porteiro interfonou para o apartamento 407 e a subida deles foi autorizada.
Saindo do elevador, Victoria e Arroz tomaram um corredor largo com tapete
vermelho até a porta. Ela tocou a campainha, já escutando os sons lá dentro: um
programa de TV infantil, alguém correndo pelo piso de madeira, a porta de um
armário batendo e então o giro da chave.
A mulher que abriu não devia ter mais do que quarenta anos, mas parecia saída
de uma guerra: os cabelos presos num coque mal-ajambrado, a blusa branca com
manchas do que parecia ser molho de tomate, o rosto cansado. Arroz a
cumprimentou enquanto Victoria colocava estrategicamente as mãos nos bolsos,
fazendo um gesto com a cabeça que tornava desnecessário outro cumprimento.
Não era pessoal: ela evitava ao máximo qualquer proximidade física. A anfitriã
abriu passagem e disse para ficarem à vontade. Aquele era o momento de que
Victoria mais gostava: o primeiro contato com o lugar, com os cheiros, com as
cores, com os móveis, com os moradores. Um bombardeio de pequenas
informações bastante reveladoras.
A sala era ampla e bonita, com uma mesa redonda próxima à porta, pedaços de
moldura recostados nos cantos, latas de tinta abertas, alguns quadros abstratos
presos às paredes, diversos brinquedos espalhados pelo chão e um sofá preto
onde um menino de cabelos loiros de uns seis anos estava deitado, com os
joelhos dobrados, assistindo a um desenho animado no tablet ( O show da Luna,
se Victoria não estava enganada). O garoto não tirou os olhos da tela quando eles
entraram.
Victoria se aproximou da janela com a placa amarela para ver de perto o adesivo
no vidro: AQUI MORA GENTE FELIZ, com quatro bonequinhos tipo palito de
mãos dadas — papai, mamãe, um menino e uma menina. Era provável que a


mãos dadas — papai, mamãe, um menino e uma menina. Era provável que a
mulher fosse artista plástica, mas estava claro que, no momento, sua principal
função era
ser mãe — bastava reparar nos bolsões sob os olhos, típicos de noites em claro.
Devia ser casada com um homem que era tanto provedor quanto machista: ele
ganhava o dinheiro, ela carregava as crianças nas costas.
Ao virar para a dona da casa, Victoria reparou que também era observada.
Havia um incômodo no ar, advindo da sutil perturbação causada pela visita de
estranhos.
“Noivos?”, a mulher perguntou, forçando simpatia.
“Isso”, Arroz disse, mostrando a aliança. “Vamos casar daqui a três meses.”
“A gente mora aqui desde que casou. Mas meu marido foi transferido pra
Houston e vamos todos pra lá.”

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