Uma Mulher no Escuro



Baixar 1.39 Mb.
Pdf preview
Página29/37
Encontro10.07.2022
Tamanho1.39 Mb.
#24203
1   ...   25   26   27   28   29   30   31   32   ...   37
Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Meu Deus, preciso de uma vodca, ela pensou, estudando os olhos de peixe morto
da médica. Arroz se aproximou com a mochila jeans nas mãos.
“Vic”, ele disse, cuidadoso. “Você não se lembra de nada do que aconteceu
depois que começou a beber? Ninguém se aproximou de você na rua?”
Ela balançou a cabeça em negativa, sentindo pontadas na testa.
“Por quê?”
Arroz só apertou as alças da mochila. Jackson encarava o colo dela, como um
assediador ousado. Victoria se surpreendeu ao olhar também e notar uma
coloração acinzentada em seu peito. Então sentiu o peso das expressões faciais e
levou as mãos às bochechas. A pele estava plástica, com crostas de tinta seca.
Foi como se todo o seu sangue abandonasse o corpo. Ela girou o tronco para sair
da maca.
“Calma, calma”, a médica disse. “Você vai se machucar.”
“Está tudo bem”, Arroz garantiu.
Mas Victoria não escutou. Apoiou-se nos cotovelos e tomou impulso para
encarar o reflexo no vidro da janela. Seu rosto trazia resquícios da tinta que a
enfermeira estava limpando. Parecia uma carranca monstruosa. Desesperada, ela
arrancou o cateter e jogou as pernas para fora da maca. A enfermeira e a médica
a seguraram, empurrando-a para que continuasse deitada. A falta de ar a impedia
de se defender. Quando abriu a boca para gritar, a pele se esticou e a tinta seca se
desfez, caindo em pedacinhos sobre o uniforme da enfermeira que se
aproximava com a seringa. Victoria não queria dormir, mas seus olhos pesaram
antes mesmo que todo o sedativo fosse aplicado.
Era pior que um pesadelo. Beli conversava baixinho com tia Emília, sentada em
uma cadeira ao lado da maca. Arroz estava do outro lado, contando pela
milésima vez os detalhes de como a tinha encontrado caída entre dois carros no
meio-fio, coberta de tinta e com o braço sangrando. Aos pés dela, o dr. Max e


meio-fio, coberta de tinta e com o braço sangrando. Aos pés dela, o dr. Max e
Aquino escutavam atentamente. Vez ou outra, o delegado fazia anotações ou se
aprofundava em algum detalhe. Não, nem Arroz nem Jackson tinham visto
alguém suspeito nas redondezas. Sim, a mochila estava próximo a ela. Sim, a
tinta já estava seca quando tinham chegado.
Fazia mais de meia hora que conversavam, olhando-a preocupados, mas também
condenando-a. Victoria se sentia exposta. Sua intimidade tinha virado assunto
público, um inquérito policial em que todos tinham algo a dizer.
Enquanto as vozes se sobrepunham, ela mal tinha espaço para o luto. Onde
estava com a cabeça quando começara com aquilo? Como tinha acreditado por
um segundo que poderia ter um namorado, como uma pessoa normal? Sentia-se
péssima por ter se apaixonado por Georges.
Quando Arroz terminou seu relato, o delegado folheou os papéis que Victoria
tinha na mochila e fez mais algumas perguntas. Ela não via razão para tanta
repetição. Assim que ligara para Aquino, Arroz havia contado sobre o ataque a
Georges e a teoria de Victoria de que ele era Santiago. O delegado chegara ao
hospital pouco depois e havia esperado Victoria acordar para dizer o endereço do
prédio comercial, então mandara uma viatura ao local. Enquanto aguardavam, o
delegado insistia em cavoucar o assunto, dissecá-lo, como se algo inédito
pudesse surgir de repente. Se Georges estivesse morto, quem a tinha pichado?
As coisas não encaixavam.
Aquino leu um texto de Georges em voz alta:
Os dois visitam apartamentos anunciados para alugar ou vender. De início,
cogitei que pretendessem alugar um imóvel juntos, mas ao que tudo indica se
trata apenas de uma brincadeira, uma vigilância da vida cotidiana que, sem
dúvida, caracteriza o esforço desesperado de Victoria em evitar o abandono,

Baixar 1.39 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   25   26   27   28   29   30   31   32   ...   37




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal