Uma Mulher no Escuro



Baixar 1.39 Mb.
Pdf preview
Página28/37
Encontro10.07.2022
Tamanho1.39 Mb.
#24203
1   ...   24   25   26   27   28   29   30   31   ...   37
Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
aquele barulhinho gostoso. Tssss. Pinto os dedos pequenos, os braços finos e
ossudos e o pescoço, cobrindo-a por inteiro, como uma boneca de porcelana.
Depois, sigo para a parte inferior do corpo.
Quando estou acabando, ela mal parece ter forma humana. Lembra mais os
restos de uma grande fogueira de festa junina. Ainda falta o mais arriscado: o
rosto. Mesmo bêbada, Victoria pode acordar e me reconhecer. Mas preciso
fazer isso. Ela merece ser punida. Por tudo o que fez e tem feito comigo. Com
cuidado, picho o queixo, a boca, as bochechas, os cabelos e a testa, até tudo
ficar completamente escuro. Por um instante, ela ameaça acordar. Tssss. Tssss.
Nem o som nem o cheiro fazem com que desperte. A camada de tinta se acumula
no rosto e escorre pelo meio-fio.
Parece até uma obra de arte.
24.
Água caía sobre o rosto de Victoria quando ela abriu os olhos. Zonza, sugou o ar
como quem se recupera de um afogamento. Georges está morto, foi seu primeiro
pensamento. Eu o matei. Estava deitada em uma maca baixa e encarava o teto
branco. Tudo ao redor era branco: as paredes, o lençol, as roupas, os aparelhos.
Mas não o batom da mulher de uniforme debruçada sobre ela, que piscou e
recuou.
“Que bom que acordou”, a enfermeira disse, livrando-se do pano imundo que
segurava. “Vou chamar a médica.”
O cérebro de Victoria latejava. O gosto de algo velho e pastoso lhe dava náuseas.
Tinha dores por todo o corpo, especialmente na cabeça, nos seios e na barriga.
Duas pessoas se aproximaram. Arroz e… Ela demorou alguns segundos para
reconhecer o homem de cabeça raspada, camisa justa e braços definidos cobertos
de tatuagens enormes. Era Jackson, seu vizinho de porta. Ela abriu a boca e
expulsou as palavras por entre os lábios ressecados:
“Há quanto tempo estou aqui?”
“Algumas horas”, Arroz respondeu, sério.
“Não lembro o que aconteceu.”


“Não lembro o que aconteceu.”
“Milagre seria lembrar”, Jackson disse. “Você estava péssima.”
Victoria acompanhou o olhar dele e viu seu punho esquerdo enfaixado. Por um
instante, voltou a sensação dolorosa do caco de vidro cravado na carne. Ela tinha
mesmo feito aquilo? Arroz chegou mais perto.
“Como está se sentindo?”
Péssima, Victoria quis responder. Em vez disso, perguntou:
“Como vim parar aqui?”
“Fiquei assustado quando você ligou. Eu não sabia onde o Georges morava,
então fui direto pro seu prédio, enquanto tentava falar com você”, Arroz disse.
“Fiquei batendo na porta. Aí o Jackson chegou e pedi ajuda.”
“A gente saiu pra te procurar pela Lapa. Por sorte, uma amiga minha tinha te
visto. Ela faz ponto ali na praça Paris”, Jackson explicou. “Nunca imaginei que
você fosse dessas. Sempre tão quietinha.”
Arroz fuzilou Jackson com os olhos, então disse:
“Você estava tremendo, com o braço sangrando. Preferi te trazer pro hospital.
O que aconteceu, Vic?”
Ela não sabia dizer. Manteve a cabeça recostada no travesseiro alto. Tinha
uma imagem fixa em mente: Georges caído e ensanguentado.
“Matei o Georges”, disse, mais para si mesma.
“O quê?”
Tentando organizar os pensamentos, Victoria contou a eles tudo de que se
lembrava: as chaves na mochila, o prédio comercial, as fotos e as páginas
impressas… A história ia ficando turva conforme ela descia as escadas do prédio
e terminava antes mesmo de chegar ao térreo. Para onde tinha ido depois? A dor
de cabeça e o amargor no céu da boca deixavam claro que havia bebido — e


de cabeça e o amargor no céu da boca deixavam claro que havia bebido — e
muito. Mas Victoria não conseguia se lembrar de ter comprado a bebida, muito
menos de ter dormido na rua.
“Cadê minha mochila?”, ela perguntou, ansiosa.
“Guardei”, Arroz disse.
“Você precisa chamar a polícia. O delegado Aquino, da décima segunda
delegacia… Ele sabe do meu caso.”
“Eu também sei, Vic…”, Arroz disse. Ele baixou os olhos e pigarreou. “Sobre
seu passado. Depois que você contou que estava sendo ameaçada, eu tinha que
fazer alguma coisa… Investiguei sua vida e descobri tudo na internet. O
assassino te procurou? É ele que está te ameaçando?”
Arroz não tinha como saber do diário ou da pichação na parede do quarto, mas já
era o bastante para deixá-la envergonhada. Mesmo com ressaca, a vontade de
beber voltou. Victoria recolheu os braços, forçando os cotovelos contra o
colchão para se levantar, mas o cateter em sua mão deu uma fisgada, e ela se
conteve.
“É melhor você não se mexer”, Jackson disse.
“O delegado precisa saber”, ela argumentou. “Acho que Georges é Santiago.”
Arroz arregalou os olhos.
“Como assim?”
“Pega minha mochila.”
Ele se afastou da maca no mesmo instante em que a porta se abriu. Era a médica,
acompanhada da enfermeira de antes. Em movimentos automáticos, colocou
uma lanterninha diante dos olhos de Victoria, pediu que abrisse bem a boca e
mediu sua pressão.
“Você está desidratada, mas o soro deve resolver”, a médica disse. “O
resultado de alguns exames só sai no final da manhã, talvez no início da tarde.


Vou te passar um sedativo e a enfermeira vai terminar de te lavar.”
“Me lavar?”

Baixar 1.39 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   24   25   26   27   28   29   30   31   ...   37




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal