Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
“Foi praticamente impossível encontrar registros dos dias de alcoolismo de
Victoria. Encontrei um único boletim de ocorrência, datado de 11 de outubro de
2015, quando um síndico de um prédio de Ipanema chamou a polícia porque ela
dormia no jardim, completamente bêbada.”
Ela se apoiou na lataria de um carro para ficar de pé e voltou a beber, tropeçando
pela rua do Catete abraçada à garrafa. Sabia que não aguentaria muito tempo,
mas não tinha problema. Não pretendia ir para casa nem para a
delegacia. Só queria aquela letargia calmante para sempre. O fim de todos os
problemas.
“Foda-se Sofia, foda-se Santiago, foda-se todo mundo”, Victoria gritou, sentindo
a liberdade explodir em seus pulmões. Ao atravessar a rua na direção da praça
Paris, quase foi atropelada por um táxi, que freou a tempo. A buzina não a fez
caminhar mais depressa. Na rua Augusto Severo, travestis e prostitutas entre os
carros estacionados a observaram vagar como um trapo. Num declive, ela voltou
a tropeçar. Tonta, encolheu-se na calçada, bicando a garrafa de vodca como uma
mamadeira. Pescou mais uma anotação da mochila.
Após a tragédia, Victoria estudou no colégio Positivo até os doze anos, quando


entrou para o Pedro II do centro, próximo de onde morava com Emília, no
bairro Santo Cristo. A documentação dos anos escolares é pouco relevante:
notas medianas em quase todas as matérias, com algumas vermelhas em
matemática. Victoria se recusava a tirar fotos na escola. Conversando com
professores da época, a maioria se lembra dela mais pela tragédia do que por
sua personalidade. ” Ela parou um instante para beber o último gole. “Em sala,
Victoria era reclusa, dispersa e irritadiça. Jamais apareceu em nenhum
encontro de ex-alunos. Concluiu os estudos num supletivo. Ao que tudo indica,
nunca teve amigos ou namorados. Sempre fez questão de se manter invisível.
Bêbada. Bêbada e invisível. Victoria lambeu o bico da garrafa e, com raiva, a
bateu contra a parede. Ficou apenas o gargalo em sua mão, que ela aproximou do
punho esquerdo. Um simples rasgo extravasaria o ódio, acabaria com tudo.
Talvez até a levasse à sua família. Sem hesitar, Victoria cravou o vidro no braço,
mas não sentiu nenhuma dor. Tentou girar o caco para aprofundar o corte, mas
não tinha forças. Nem aquilo conseguia fazer direito. Achou graça e riu
baixinho, enquanto assistia ao sangue vazar entre seus dedos e gotejar no chão.
Minutos depois, o riso e o choro calaram e só restou um ronco profundo.
Escondido entre os carros, observo Victoria no chão e sinto pena, mas também
raiva. Por que as coisas precisam ser desse jeito? Por um instante, tento ficar
otimista. Talvez o que aconteceu sirva para repensar os próximos passos e agir
com cautela. Quando ela quase foi atropelada, pensei em intervir.
Victoria não pode colocar tudo a perder.
Depois foi o caco de vidro… Se ela fosse capaz de se matar, eu teria que
impedir. Agora, ela dorme. E ronca alto, o que me deixa seguro para chegar
mais perto. Olho para os lados, para a rua quase deserta. Ninguém nos observa.
Com a ponta do sapato, cutuco a bunda e as costas dela. Seu corpinho sacoleja,
mas não faz menção de despertar. Perfeito. Retiro o spray da mochila, me
agacho e agito.
O som da bolinha de metal no interior da lata reverbera. Me posiciono de modo
que Victoria não me veja se abrir os olhos de repente e aproximo o bico da
palma da mão dela, então pressiono a válvula. É poético o funcionamento de
uma lata de grafite: tinta e gás liquefeito se misturam e se expandem criando



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