Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Quando peço algo do cardápio, ela não me encara e recusa qualquer
aproximação física. É curioso que não tenha intimidade com qualquer outra
figura feminina, tanto no trabalho como fora. As outras garçonetes que puxam
conversa com ela são imediatamente repelidas. Em conversa comigo, as
funcionárias Ellen Dantas e Margot Camargo definiram Victoria como
esquisita. Segundo Margot, Victoria não tem impulso sexual. “Duvido que tenha
transado ou sequer beijado na boca”, a colega afirma.
Victoria folheou um bloco com anotações em caneta vermelha. Borderline? ,
estava escrito na primeira página. Na seguinte, repleta de rasuras, havia uma
lista.
Autopercepção negativa
Sentimentos crônicos de vazio
Insônia?
Perda de memória?
Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la Acessos psicóticos
Traços histéricos
Muitas páginas depois, numa letra apressada, um comentário chamou sua
atenção:
Victoria se esforça para esconder o evidente problema motor ao circular pelo
salão do café. Parece acreditar que ninguém percebe seu caminhar sutilmente
irregular.
“Victoria?”


“Victoria?”
Seu coração disparou, mas ela reprimiu o grito. Era Georges chamando da
antessala, um tanto irritado. Ela tirou o canivete do bolso, mas se sentiu patética.
Jamais conseguiria se defender dele com aquilo. Os olhos desesperados
buscaram algo sobre a mesa. Agarrou o peso de papel e recuou depressa. Por que
não tinha suspeitado antes? Georges era Santiago, parecia óbvio! As idas
constantes ao café e a aproximação dele não haviam sido por acaso. Era tudo
calculado para… para… para quê?
A maçaneta girou enquanto ela erguia o braço. Mal Georges se projetou para
dentro, Victoria desceu o peso de papel na cabeça dele com toda a força. O
impacto machucou a mão dela, mas fez o corpo dele perder sustentação. Georges
ainda tentou dizer alguma coisa, mas Victoria desferiu outro golpe no queixo e
um na bochecha. A raiva era tanta que ela só parou quando o peso de papel
escorregou e rolou até a perna de Georges, caído torto, imóvel e com o rosto
coberto de sangue.
Em desespero, ela limpou as mãos na roupa, seguiu até a janela e se largou no
chão, sentindo um aperto que ia da ponta do pé de plástico até a virilha. Sem
conseguir respirar, com o coração acelerado, passou os olhos pela sala sufocante.
Não podia desmaiar. Não com Georges ali… Daquela distância, ela não
conseguia ver se ele estava vivo, e não tinha coragem de se aproximar. Guardou
os fichários, fotos e páginas impressas que conseguiu pegar na pressa. Tudo
serviria de prova contra ele. Com a mochila abarrotada, correu até a porta,
evitando encostar no corpo inerte. Imaginou Georges se levantando e agarrando
o pé dela, arrancando um pedaço da panturrilha com a boca. Terminando o
serviço depois de vinte anos, ela pensou.
Ofegante, saiu da sala sem olhar para trás. O elevador demorou a chegar e o
corredor parecia vazio demais para ficar esperando. Resolveu tomar as escadas.
A perna invisível, ardendo em chamas, atrapalhava. Apoiada no corrimão, olhou
para trás ao escutar um barulho. Alguém descia as escadas? Esforçou-se para ir
mais rápido. No térreo, jogou o corpo contra a porta, caindo no chão. O porteiro
ficou de pé no susto. Victoria recolheu as folhas, levantou e saiu correndo o mais
rápido que podia.


rápido que podia.
O ar da noite não ajudou em nada. Os carros que passavam zunindo quase
estouravam seus tímpanos. Na esquina seguinte, ela encontrou um boteco e
entrou. Estendeu uma nota de cinquenta (a única que restava na carteira) e pediu
uma garrafa de vodca. Assim que o atendente entregou a garrafa, ela abriu e deu
um gole. A bebida vagabunda desceu ardendo e deu um alívio imediato na perna
invisível. Victoria saiu bebendo do bar. Aos poucos, seu corpo e sua mente
entravam num maravilhoso estado entorpecente, que calava mágoas e paralisava
gestos.
Seguiu em frente, arrastando a perna esquerda e se apoiando nos muros e grades
imundos. Uma folha escapando da mochila, amassada entre os dois zíperes,
acabou rasgando quando Victoria se encostou em uma parede áspera.
Ela se agachou para pegar o pedaço, sem querer deixar nada para trás. Caiu de
bunda no chão, encarando as letras embaralhadas. Leu em voz alta, como quem
declama um poema:

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