Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
, Victoria concluiu. Claro que sabia. Era como se ele a acompanhasse o tempo
inteiro.
Sem conseguir esvaziar a cabeça, ela deitou no sofá com um marca-texto e as
folhas. De algum modo, seus pais haviam descoberto a sórdida relação de Sofia
com Santiago. Victoria podia imaginar a reação deles. Era repugnante e absurdo,
ainda mais dentro de uma escola. Se o assunto vazasse, era provável que a Ícone
fosse obrigada a fechar as portas. Cortando relações com Sofia e impedindo que
os dois continuassem a se encontrar, Mauro devia ter acreditado que o assunto
estava resolvido.


Victoria sublinhou os trechos que confirmavam que Sofia era Rapunzel. Ainda
que as casas do bairro fossem parecidas, a descrição da garagem feita por
Santiago (“nosso cantinho”) era bem próxima da casa de infância: mesa de
madeira, teto preto, algumas luminárias. Sofia marcava seus encontros quando a
família saía.
Após horas de leitura, Victoria estava cansada, mas precisava conversar com
alguém. Falar em voz alta a ajudava a raciocinar. Colocou a perna mecânica,
vestiu um jeans largo e uma blusa confortável e se penteou depressa na frente do
espelho. Guardou o canivete suíço e as páginas do diário na mochila. Pegou um
ônibus e desceu no aterro do Flamengo, próximo à praça do Russel. Andou as
três quadras até o prédio de Georges. Então se deu conta de que não podia
simplesmente aparecer no apartamento dele, e decidiu ligar quando chegou à rua
do Catete. Georges atendeu no segundo toque.
“Onde você está?”, ela perguntou.
“Indo pra casa. Fui visitar um amigo no hospital”, ele disse. “Por quê?
Aconteceu alguma coisa?”
“Novas páginas.”
“Meu Deus, quando?”
“Hoje.”
“Posso ir direto pro seu apartamento.”
“Não precisa. Te encontro no seu.”
Ela desligou. Como já estava perto, entrou em uma padaria para fazer hora.
Sentou perto da vitrine e pediu um café duplo. De onde estava, conseguia ver a
entrada do prédio de Georges, com arco de mármore esverdeado, e acompanhar
o movimento da rua. Detestava aquela hora do dia, quando o comércio fechava
as portas e todos se encaminhavam para sua respectiva toca após o expediente.
Sentia certa vibração negativa no ar quando anoitecia.
Já estava ali fazia dez minutos quando viu Georges sair de um prédio comercial


Já estava ali fazia dez minutos quando viu Georges sair de um prédio comercial
— o número 53 — e guardar algo na lateral da mochila. Victoria o reconheceu à
distância pelo jeito de andar e mover os braços. Georges baixou o rosto e seguiu
na direção do prédio dele, o 61. O que ele estava fazendo a quatro prédios de
distância de onde morava, quando tinha acabado de dizer que estava saindo de
um hospital? Ela tentou se acalmar. Devia haver uma explicação.
Pagou a conta e saiu, passando diante do prédio comercial para dar uma olhada.
Decidiu entrar e seguiu até o porteiro, que estava com os olhos fixos em um jogo
de futebol no celular. Acima da cabeça dele, havia uma tabela enorme com os
números das salas por andar. Victoria a observou por alguns segundos, à procura
não sabia do quê.
“Precisa de ajuda?”, ele perguntou.
“Não, é que… Eu estava na padaria e acho que vi um amigo da época da escola
saindo daqui”, ela disse, com seu melhor sorriso. “Tentei ir atrás, mas não
consegui. Um branquinho, de óculos, com o cabelo caindo na testa.”
“O seu Georges?”, o porteiro perguntou.
“Isso. Ele trabalha no prédio?”
“Alugou o 303 há uns meses…”
“Pena que não alcancei! Queria tanto falar com ele…”
“Acho que o seu Georges mora aqui perto, mas não sei onde.”
“Ele vem todos os dias?”
“Não, só às vezes.”
Ele a encarou, com ar de desconfiança:
“Como a senhora se chama? Quer deixar algum recado?”
Victoria recuou. Deu qualquer nome e foi embora. Não conseguiria tirar mais
nada dele. De todo modo, já tinha respostas suficientes: não havia se tratado de
uma visita a um amigo. Georges tinha alugado uma sala naquele prédio, na
mesma quadra de onde morava. Para quê? Na calçada, atormentada, decidiu ligar
para Arroz. O amigo atendeu depressa, mas ela não disse nada por alguns


para Arroz. O amigo atendeu depressa, mas ela não disse nada por alguns
segundos, sem saber exatamente o que queria.
“O que aconteceu, Vic?”, ele perguntou. “Você está bem?”
“Não sei… É só que… Se alguma coisa acontecer comigo, queria avisar que
estou indo encontrar o Georges. O escritor do café…”
“Espera aí, Vic! Explica isso!” Arroz parecia nervoso como nunca. “Se está
com medo, não vai encontrar esse cara!”
Sem responder, ela desligou e colocou o telefone no mudo. Não podia desistir
agora. Tocou o interfone e tomou o elevador até o sétimo andar. Georges a
esperava na porta, com a mesma roupa em que ela o vira (jeans e camisa social
amarelo-claro), mas tinha tirado os sapatos.
“Acabei de chegar”, ele disse, com um sorriso. “Você veio rápido!”
Victoria se esforçou para sorrir também.
“Peguei um táxi.”
Ela entrou na casa dele e passou os olhos pela sala simples. Sobre o sofá, estava
a mochila. Georges se aproximou e Victoria virou o rosto para que ele só
pudesse beijar sua bochecha.
“Senta aí um instante”, ele disse, e foi para a cozinha.
Ela limpou a fina camada de saliva do rosto. Não se sentia nem um pouco
confortável ali. De repente, tudo parecia montado para construir a imagem de um
escritor meio sem grana, disposto a começar do zero. Era verdade? Victoria
tentou recordar a primeira vez que Georges tinha aparecido no Moura. Achava
que havia sido no início do ano.
“Acabei de passar o café”, Georges disse, voltando com duas xícaras e
oferecendo uma a Victoria. Ele deu um gole e deixou a sua na mesa de centro
para acariciar o rosto dela. “Estava morrendo de saudades.”
“Eu também. Liguei pra você assim que li as páginas.”
“Fez bem.”


“Fez bem.”
“Seu amigo está bem?”, ela perguntou, casualmente.
“Sim, sim. Foi só uma apendicite.”
Victoria não conhecia nenhum amigo de Georges. Mesmo depois de meses, ele
nunca mencionara nenhum. Vivia se lamentando que desde que voltara da
Europa não tinha se aproximado de ninguém. Aquilo tornava sua mentira ainda
mais fraca.
“O que tem no diário dessa vez?”, ele quis saber.
Victoria estendeu as folhas, sem querer levantar suspeitas.
“Tenho certeza de que Rapunzel é Sofia, a irmã do meu pai”, explicou. “Ela
abusava dos alunos na garagem dos fundos da minha casa. Meu pai descobriu e
cortou relações com ela, que acabou fugindo para os Estados Unidos.”
“Meu Deus!”, Georges disse, parecendo realmente surpreso.
“Tem mais: Santiago empurrou Igor do quinto andar numa briga. Não foi
suicídio.”
“Está escrito aqui?”
Ela fez que sim. Georges mergulhou nas folhas de caderno. Pouco depois,
levantou os olhos para Victoria.
“Bebe seu café ou vai esfriar.”
Ela pegou a xícara e fingiu dar um golinho. Não ia aceitar nada que viesse dele.
Talvez fosse exagero, mas não podia arriscar. Enquanto Georges lia, com os
cotovelos apoiados nas pernas e o queixo em uma das mãos, parecia inofensivo.
Por que estaria mentindo?
Victoria levantou e deu a volta na poltrona, se colocando atrás dele para
acompanhar a leitura. Quando Georges chegou ao trecho em que Santiago
entrava na garagem com Rapunzel, ela se inclinou para apontar uma frase e
deixou a xícara escorregar do pires, derrubando o café no ombro dele. Georges
se levantou depressa, sentindo o café quente queimar a pele, e deixou as folhas
de lado para desabotoar a camisa. Victoria se apressou em pedir desculpas.


de lado para desabotoar a camisa. Victoria se apressou em pedir desculpas.
“Não tem problema.” Ele usou a camisa para se enxugar. “Pelo menos não
molhou as folhas. Já volto.”
Victoria tinha pouco tempo. Correu até o sofá e abriu o zíper da mochila. No
compartimento maior, encontrou o laptop, um estojo e um guarda-chuva preto.
Na lateral direita, uma garrafinha de água. Na lateral esquerda, duas chaves —
uma tetra e outra comum —, presas a um chaveiro simples. Escondeu as chaves
no bolso traseiro do jeans e fechou a mochila. Então recolheu as xícaras e
deixou-as na cozinha, onde se serviu de um copo d’água. Georges voltou de
bermuda e camiseta lisa.
“O que pretende fazer agora?”, ele perguntou.
“Não sei ainda… Talvez ir à polícia. Com essas páginas, eles podem me ajudar a
encontrar Sofia.”
Ela precisava ir embora dali depressa, antes que Georges sentisse falta das
chaves.
“Só queria sua opinião…” Ela enfiou a mão no bolso para se certificar de que o
canivete continuava lá.
“Está tudo bem, Vic? Você parece… diferente.”
“Só estou com um pouco de pressa. Prometi a tia Emília que passaria lá hoje.
E está ficando tarde.”
Georges foi na direção dela, parecendo desconfiado.
“Por que não liga e avisa que vai amanhã?”
“Prefiro ir hoje.”
Georges suspirou. Ele a fez jurar que não tomaria nenhuma decisão precipitada.
Victoria assentiu, controlando a vontade de sair correndo.
Combinaram de se encontrar no dia seguinte, quando ela saísse do trabalho. Ao


Combinaram de se encontrar no dia seguinte, quando ela saísse do trabalho. Ao
deixar o prédio, foi tomada por um alívio enorme. Olhou para a janela de
Georges, mas ele não estava lá. Só por garantia, foi até a esquina antes de dar
meia-volta e seguir para o prédio comercial.
O porteiro do turno da noite lia a Bíblia sobre a bancada. Confiando que
centenas de pessoas entravam e saíam dali todos os dias, Victoria apertou as
alças da mochila e seguiu pelo vão acarpetado na direção dos elevadores, dando
apenas boa-noite ao passar por ele, que mal levantou os olhos. Nervosa, ela
subiu para o terceiro andar. O corredor era estreito e sem personalidade, com as
paredes bege e um largo tapete de borracha preta. Na maioria das portas, havia o
número da sala e uma plaquinha com identificação, como BAYÃO SERVIÇOS
CONTÁBEIS ou DRA.
LUIZA SAMPAIO — CIRURGIÃ-DENTISTA. No 303, havia apenas o
número. A porta era comum, de madeira, sem olho mágico. Com as mãos
trêmulas, Victoria pegou as chaves no bolso e abriu a porta devagar.
À primeira vista, o espaço era muito pequeno, uma espécie de antessala sem
janelas. Contava apenas com uma poltrona e algumas revistas. Mas havia outra
porta adiante. Victoria encostou a porta de entrada e seguiu até ela. Por um
segundo, imaginou Georges se materializando atrás dela, com a expressão
indignada e o dedo em riste. Olhou por cima do ombro, mas não havia ninguém.
O outro cômodo era um pouco maior. Havia muitas caixas de papelão
empilhadas e um armário embutido ali. Na extremidade oposta, abaixo da janela,
havia uma mesa metálica com gavetas e uma cadeira de rodinhas. Ela caminhou
pelo piso de sinteco, desviando das caixas. Quase tropeçou em um monte de
papéis e precisou acender a lanterna do celular para seguir em frente. Viu que
Arroz havia ligado mais de dez vezes e enviado quase uma centena de
mensagens.
Sobre a mesa, encontrou diversos fichários, além de blocos de notas, canetas, um
peso de papel colorido e um computador antigo, com um monitor enorme.
Victoria abriu o primeiro fichário. Logo no topo, havia uma foto dela saindo do
Café Moura, de cabeça baixa, vestindo jeans e blusa preta. Havia sido tirada com
bastante zoom. As fotos seguintes acompanhavam seus movimentos indo do
centro até seu prédio, na Lapa. Parecia o trabalho de um detetive particular de
filmes noir. Ela se sentou para investigar as outras pastas. Havia fotos dela
encontrando Arroz, visitando a tia-avó na casa de repouso e entrando no prédio


encontrando Arroz, visitando a tia-avó na casa de repouso e entrando no prédio
onde ficava o consultório do dr. Max. A cada imagem, era como se uma parte
dela fosse arrancada a dentadas — um lobo feroz abocanhando seu espírito.
Em outra pasta, viu matérias de jornal sobre o caso do Pichador e CDs
etiquetados: “Fantástico, 8/2002”, “Cidade Alerta, 7/2004”, “Retrospectiva,
12/1998”. Na gaveta, fotos datadas dos últimos seis meses, tudo organizado com
post-its coloridos e clipes, além de páginas de texto impresso.

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