Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Os três só podem ter sido amaldiçoados. A frase não saía da cabeça de Victoria.
Era uma coincidência aterradora: um se matou na sexta série, outro apresentou
distúrbios psiquiátricos e um terceiro virou assassino. Toda vez que deixava o
pensamento viajar, Victoria chegava a respostas que beiravam o sobrenatural
para explicar a tragédia que se abatera sobre os meninos, como se algo de
diabólico conduzisse o destino deles em uma espiral de loucura e crueldade. Era
assustador.
Em uma quarta-feira chuvosa, ela tomou um banho quente, vestiu um casaco e
uma capa de chuva, pôs o canivete no bolso e tomou o ônibus para a casa de
repouso enquanto escutava “Under Pressure” na função repeat pelos fones de
ouvido.
Tia Emília estava deitada na cama de solteiro, com os óculos na ponta do nariz,
lendo a Bíblia. Ela ergueu a cabeça ao vê-la, sorriu e fez sinal para que se
aproximasse. As duas não se encontravam havia semanas — nunca tinham
ficado tanto tempo sem se falar desde a morte dos pais de Victoria.
Ao abraçar o corpo franzino da tia-avó, com cheiro de água de colônia, Victoria
se deu conta da saudade enorme que sentia. Como pudera se afastar tanto? A
discussão que a magoara parecia despropositada em retrospectiva. Tia Emília a
benzeu como de costume, fazendo o sinal da cruz diversas vezes e pedindo a


benzeu como de costume, fazendo o sinal da cruz diversas vezes e pedindo a
proteção de todos os santos, numa sequência de nomes que, ao longo dos anos,
Victoria havia decorado. Depois, segurou a mão da sobrinha-neta e acariciou seu
rosto.
“Quais as novidades, minha filha?”
O tom da pergunta era animado, o que deixava claro que ela também estava
disposta a esquecer a briga. Tanta coisa havia acontecido, mas Victoria preferia
não contar.
“Nenhuma”, respondeu.
Como num acordo tácito, tia Emília não insistiu com perguntas sobre o
“amigo” de Victoria. Assuntos delicados estavam proibidos até segunda ordem.
Conversaram sobre os acontecimentos recentes na novela das oito e sobre as
notícias de corrupção que ocupavam o noticiário nacional. Três horas se
passaram num piscar de olhos. Pouco depois do meio-dia, a enfermeira entrou no
quarto para avisar que estava na hora do banho.
“Eu ajudo”, Victoria disse.
De início, tia Emília foi contra, porque era vaidosa e não gostava de ficar nua na
frente de ninguém (quando entrara na casa de repouso, tinha travado uma
pequena guerra para impedir que as enfermeiras a despissem), mas a sobrinha
não precisou insistir tanto. Victoria afastou o cobertor e ajudou a tia-avó a se
levantar, então lhe entregou a bengala.
Seguiram a passos lentos até o banheiro, onde Victoria desceu as alças do
vestido de tia Emília, analisando suas costas levemente arqueadas enquanto
dobrava a roupa sobre a bancada da pia. A calcinha bege subia até a altura do
umbigo. Victoria a tirou e levou tia Emília pelo braço até o chuveiro, onde
esfregou a pele murcha com sabonete. A mulher estava nitidamente incomodada
com o olhar dela, o que a fez desviar o rosto. Um silêncio pesado se pronunciava
entre as duas.
Minutos depois, a enfermeira bateu na porta do banheiro.
“Estão acabando?”


“Estão acabando?”
“Já é hora do almoço?”
“Ainda não. É só que… O correio acabou de passar e tem uma encomenda pra
senhora”, a enfermeira falou, com a voz abafada pela porta. Então riu,
constrangida. “Diz ‘urgente’.”
Victoria deixou tia Emília se penteando diante do espelho e foi até a porta.
Segurou a maçaneta com a mão trêmula e abriu uma fresta para pegar o envelope
que a enfermeira lhe estendia. Não era muito pesado. Pelo tato, já conseguia
imaginar o conteúdo. Não havia mais nada além do carimbo vermelho, nenhum
remetente.
“O que é isso, minha filha?”, tia Emília perguntou.
Victoria engoliu em seco, suando frio. Encarou a tia-avó. Seu estômago se
revolvia. Ela não conseguia pensar numa mentira convincente. Rasgou o lacre
para confirmar: era mais um maço de folhas do caderno.
“Fala comigo, Victoria!”, tia Emília insistiu. “Você está branca, minha filha!”
Aquilo estava saindo dos limites. Já havia saído, mesmo que Victoria tentasse
negar. Ela colocou o envelope debaixo do braço e ajudou a tia-avó a se vestir.
Levou-a até a cama e sentou bem perto.
“Preciso que seja honesta comigo”, disse, com a voz tensa. “Já viu essas folhas
de caderno antes? Já recebeu isso?”
“Não, nunca… O que é? Tem a ver com Sofia?”
A curiosidade de tia Emília iluminou a mente de Victoria. De repente, como em
um jogo de peças, tudo pareceu se encaixar.
“Preciso que me escute… É importante. Santiago conheceu uma menina em
1993, quando estudava na Ícone, e começou a sair com ela. Ele a chamava de
Rapunzel, um apelido. Mas por que não usar o nome real? Sofia trabalhava na
escola nessa época…”, Victoria insinuou, cuidadosa. Entrava em terreno


perigoso. “Fiquei imaginando a comoção que uma inspetora tão jovem causava
nos alunos, principalmente nos meninos…”
Tia Emília fechou o rosto, baixando a cabeça para resmungar.
“O que foi?”, Victoria perguntou.
“Não adianta esconder nada de você, não é? É tão teimosa.”
“A briga do meu pai com Sofia teve a ver com um aluno? Algo que ela fez com
Santiago?”
Tia Emília ficou imóvel, com a boca retesada e os olhos bem abertos.
“Só sei a história por alto”, ela começou, com um suspiro. “Preferi me manter
distante na época. Sofia era uma pervertida. Uma louca. Era inspetora e ficava se
encontrando com um garoto bem mais novo. Um aluno. Quando seus pais
descobriram, abafaram o caso, mas proibiram, claro. Sofia ficou fora de si,
surtou, falou coisas horrorosas, fez ameaças… Foi um pesadelo. Eu não sabia
quem era o aluno, mas quando Santiago fez tudo aquilo tirei minhas próprias
conclusões. Nunca falei pra ninguém porque não queria manchar a imagem da
família mais do que Sofia já havia manchado. E não faria diferença nenhuma.
Está satisfeita agora?”
“Satisfeita” não era a palavra certa. Quando o caso começara, Santiago tinha
doze anos e Sofia, dezenove. Era repugnante.
“Ela está te enviando cartas, é isso? Está te chantageando?”
“Ninguém está me chantageando”, Victoria respondeu.
“E essas folhas? São o quê?”
“Nada, não precisa se preocupar. A polícia está cuidando do assunto.”
Se mencionasse Santiago, tia Emília nunca mais ia deixá-la em paz. Diante da
insistência dela, Victoria prometeu que a visitaria mais vezes e contaria se
acontecesse alguma coisa. Deu um beijo na testa da tia-avó, em despedida. Saiu
da casa de repouso com a cabeça prestes a explodir. Agora sabia o motivo pelo
qual intuíra que era importante encontrar Sofia: ela era a razão para Santiago ter


qual intuíra que era importante encontrar Sofia: ela era a razão para Santiago ter
feito o que fez. Ela era Rapunzel, a menina por quem ele tinha se apaixonado.
Victoria não resistiu a abrir o envelope e ler depressa as novas páginas enquanto
o ônibus sacudia no caminho para casa. Ao entrar no apartamento, cogitou reler
o que já tinha para compreender melhor, mas estava tão enjoada que foi se
deitar, abraçada a Abu. Uma certeza amarga a perturbava: os três meninos
tinham sido mesmo amaldiçoados. Por Sofia.
22.
DIÁRIO DE SANTIAGO

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