Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
George Martin. Esquece esse espaguete e vai pra casa pensar em dragões! Na
verdade, é o que as pessoas devem dizer quando ele está fazendo qualquer outra
coisa. É foda! Se a gente sofre pressão, imagina ele.”
Victoria sorriu. Não era o melhor consolo do mundo, mas pelo menos Arroz
estava tentando.
“Nem todo mundo é Stephen King, né?” Ele deu um sorriso. “O cara é
impressionante. Acho que ele não gosta de comer, dormir, jogar video game nem
nada do tipo. Só escreve, e faz isso com os pés nas costas. Um livro de
quinhentas páginas atrás do outro. Pra ele, não tem pressão. Infelizmente, acho
que a gente está mais pra George Martin do que pra Stephen King nessa vida.”
20.
Victoria já havia escutado falar da Legião da Boa Vontade, a LBV, uma entidade
voltada para a assistência social. Um funcionário usando uma camisa com o logo


voltada para a assistência social. Um funcionário usando uma camisa com o logo
da entidade — um coração com “paz na terra aos homens de boa vontade”
escrito ao longo de uma corrente — guiava Victoria e Georges pelo Centro
Educacional José de Paiva Netto, no bairro de Del Castilho, e explicava as
atividades realizadas com as crianças carentes no espaço, que contava com salas
de aula e quadras poliesportivas.
Após tomarem o elevador, eles chegaram ao refeitório cheio, porque era hora do
jantar. Pelo menos duas centenas de crianças brincavam e conversavam em meio
a garfadas ou enquanto se serviam no bufê. Em uma mesa mais distante, d.
Mirela os aguardava. Era uma senhora de cabelos brancos com laquê, óculos de
armação grossa e uma postura elegante, apesar de vestir jeans e camisa azul-
marinho também com o logo da entidade. As mãos cheias de anéis estavam
pousadas sobre uma pasta fina de papel pardo.
“Preferem conversar em outro lugar?”, ela perguntou, sem se levantar para
cumprimentá-los. “Para mim, aqui está bom. Gosto de ficar de olho nas minhas
crianças.”
Georges estendeu a mão para que Victoria se sentasse ao lado dele no banco,
mas ela preferiu ficar na cabeceira, mais perto da mulher.
“Obrigada por receber a gente”, Victoria disse.
D. Mirela fixou os olhos escuros nela.
“Eu não queria… Odeio falar do passado. Estou velha o suficiente para querer
me agarrar ao tempo que me resta. Sou feliz com o que faço e com o que tenho:
Jesus Cristo, este lugar, minhas crianças… A maioria vai embora daqui a pouco,
às oito. São filhos de pais carentes, que trabalham o dia todo e não têm com
quem os deixar. As crianças me ensinam muito. Mais do que eu seria capaz de
ensinar a elas.”
Um breve silêncio se fez. D. Mirela mexia os dedos de maneira lenta, arrastando
a pasta de papel pardo de um lado para o outro, num movimento automático.
“Seu filho era amigo de Santiago e de Igor”, Victoria disse, calma. “Igor morreu
quando eles estavam na sexta série. A senhora se lembra disso?”
“Eu morava na rua da escola. Fui uma das primeiras a chegar, antes mesmo da


“Eu morava na rua da escola. Fui uma das primeiras a chegar, antes mesmo da
ambulância. Acredite em mim: não é algo que se esqueça. Uma criança
desmontada no pátio de um campo de futebol, ensanguentada… Igor caiu todo
torto, com as pernas e os braços próximos um do outro, como se tivesse…
achatado, passado numa prensa, uma coisa horrível.”
Victoria se esforçou para não imaginar a cena.
“Tinha um spray do lado dele”, ela continuou. “Eles já tinham mania de pichar
naquela idade. Quando soube o que Santiago fez anos depois, fiquei muito
mexida. Pichar a cara de alguém morto de preto é tão… cruel.”
“Seu filho e Santiago continuaram amigos até o terceiro ano?”
“Sim… Minha impressão é de que a morte de Igor impactou tanto aqueles
meninos que eles ficaram ainda mais próximos. Criaram um universo próprio”,
d. Mirela disse. “Logo depois que aconteceu, Gabriel começou a se fechar. Aos
catorze, teve o primeiro surto psicótico. E só piorou nos anos seguintes.”
“O que a senhora achava de Santiago?”
“Parecia um garoto normal.”
“Alguma vez seu filho falou do motivo para Santiago ter feito o que fez?”
“Existe motivo para invadir uma casa, matar três pessoas e pichar o rosto delas?
Gabriel ficou tão surpreso quanto qualquer um de nós.”
Mirela também se recusava a chamar Gabriel de filho, como Átila em relação a
Santiago.
“Me fala mais sobre os surtos do seu filho”, Victoria retomou.
“Começaram de repente. Ele parecia mais ansioso e angustiado. Achei que era
coisa da adolescência. Às vezes, passava a tarde trancado no banheiro, sem fazer
nada. Ou então ficava agitado e falava sozinho. Eu o levei ao médico e ele foi
diagnosticado com hiperatividade, sintomas psicóticos e compulsão sexual. Era
tão estranho pra mim… Um menino quieto, criado segundo os ensinamentos de
Deus. Tinha feito catecismo e primeira comunhão. Passei a ficar mais atenta. Ele
se trancava no banheiro sete ou oito vezes ao dia, por uns dez minutos, acho que


se trancava no banheiro sete ou oito vezes ao dia, por uns dez minutos, acho que
para se tocar.”
“Gabriel fez tratamento?”
“Fez, mas não melhorou muito. Não conseguia se concentrar, vivia arrumando
problema na escola. As notas foram por água abaixo, o boletim vinha todo
vermelho. Ficava sempre de recuperação e não repetia por pouco. A Ícone não
era exatamente uma escola difícil. Foi no colegial que veio a primeira acusação.
Três meninas foram à diretoria dizer que Gabriel as tinha atacado.”
“Atacado?”
“Apesar de tudo, não acreditei que ele faria uma coisa dessas. Às vezes, a gente
é mesmo cega. Elas contaram que Gabriel invadiu o banheiro e baixou a calça…
Então tentou fazer com que elas pegassem nele e…” D. Mirela fechou os olhos,
envergonhada. “Não havia câmeras nos corredores, então elas não
tinham provas. Gabriel só foi suspenso por uma semana e transferido de turma.”
Victoria deixou que a mulher se recuperasse antes de perguntar:
“Mas houve uma segunda acusação?”
“Meu filho entrou na faculdade de farmácia só Deus sabe como. Parecia um
milagre. Por um tempo, cheguei a acreditar que ele havia mudado. Gabriel não
tinha amigos, mas parecia mais… tranquilo, não sei. Só que já no segundo
período duas moças, uma aluna e a responsável pela faxina, o acusaram de
estupro. E tinham provas. A aluna fez exame de corpo de delito. Estava cheia de
machucados. Ele tinha amarrado a coitada com cordas e batido muito nela. O
DNA de Gabriel estava no corpo todo dela. Ele foi preso, julgado e condenado.
Então diagnosticaram o transtorno de personalidade. Ninguém nunca tinha
falado naquilo antes. Mas essas coisas quando vêm são todas de uma vez, não
é?”
Com o indicador, ela empurrou a pasta na direção de Victoria, que a abriu e
passou os olhos pelas poucas folhas. Além de uma cópia da condenação de
Gabriel, havia um relatório médico do manicômio judiciário Heitor Carrilho
sobre ele.


“O juiz determinou que Gabriel fosse encaminhado a um hospital penitenciário.
Sofri muito, ele era tudo o que eu tinha. Mas ele merecia. Fazer o que fez com
essas mulheres… Precisei aceitar que Gabriel era um pervertido, um sádico. E
isso não tem perdão.”
Havia uma frieza assustadora na voz dela.
“Sinto muito”, Victoria disse.
“Não sinta. Sou feliz com minhas crianças…”
“Seu filho continua internado?”
“Infelizmente, não. Ele fugiu… há seis anos.” D. Mirela empurrou os óculos
quadrados sobre o nariz. “Não sei direito o que aconteceu. Ninguém sabe. Parece
que houve um princípio de incêndio no manicômio. O alarme disparou e gerou
uma confusão enorme. Gabriel se aproveitou da situação para escapar como se
fosse um dos médicos.”
“Como ele fez isso?”
D. Mirela recolheu os braços e os escondeu debaixo da mesa. Sua aparência
subitamente frágil fez Victoria pensar em tia Emília. Ainda que estivesse
chateada, sentia falta da tia-avó.
“O médico que cuidava de Gabriel morreu”, ela disse, engolindo em seco.
“Ele o matou e saiu pela porta da frente.”
“Em seis anos, seu filho nunca procurou a senhora?”
“Se me procurasse, eu o entregaria à polícia ou aos médicos. Em nome de Jesus,
Gabriel não pode viver em sociedade. Ele estuprou pelo menos duas moças,
matou um homem e fez questão de nunca mais aparecer… Eu falhei.
Falhei como mãe. A culpa também é minha”, ela disse, crispando os lábios. “É
melhor que não tenha me procurado. Essas crianças são meus filhos agora.”
D. Mirela voltou a colocar as mãos sobre a mesa e manteve a coluna ereta, como
se nada daquilo a abalasse. Ajeitou uma mecha de cabelo e encarou Victoria sem


se nada daquilo a abalasse. Ajeitou uma mecha de cabelo e encarou Victoria sem
qualquer emoção no rosto.
“A polícia me entregou um diário de Santiago”, Victoria mentiu. “Seu filho é
mencionado em diversos momentos. Em julho de 1993, Santiago se aproximou
de uma menina que ele chama de Rapunzel. Gabriel a conhecia?”
“Acho que não. Na verdade, não sei. É possível. Gabriel nunca se abriu comigo,
e depois da morte de Igor só piorou. Conhecer aqueles dois foi a pior coisa que
aconteceu na vida dele. Os três só podem ter sido amaldiçoados. Todos se
perderam na vida. Nenhum deles foi feliz.”
D. Mirela ficou de pé, dando a conversa por terminada. No caminho até a área
externa, contou a Victoria e Georges sobre as crianças de que mais gostava no
lugar. Ao portão, Victoria agradeceu pela atenção dela e se despediu com um
aceno. A mulher abriu um sorriso amarelo e virou as costas, seguindo o trajeto
ladeado de pedras coloridas até desaparecer no interior do prédio.
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