Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Victoria não se cansa de me surpreender. Jamais acreditei que seria capaz de
voltar à Ilha do Governador. E aí está ela, na casa onde tudo começou. Às
vezes, eu adoraria entrar na cabeça dela. Entender o que pensa, o que sente,
como age. Então, alterar uma ou duas coisinhas para ficar tudo perfeito. Os
outros dois me atrapalham, rodeiam a vida dela, oferecem ajuda e dão
conselhos.
Talvez seja hora de considerá-los peças do tabuleiro, usá-los a meu favor, e,
caso ameacem demais, eliminá-los de vez. Continuo confiante de que tudo vai
dar certo. Não posso me irritar, não agora. Mesmo sem saber, ela está muito
perto. Perto da verdade. Perto de mim.
Vejo Victoria atravessar o portão depois de se despedir de Rayane e caminhar
tensa na direção do táxi com o pisca-alerta ligado. Uma ideia me invade, me
enchendo de entusiasmo. Como não pensei antes? Agora parece tão óbvio!
Seguro a respiração e tento ficar calmo. Baixo os olhos, imaginando o que está
por vir. Falta pouco. Falta pouco.
18.
Victoria ligou para seu Beli e pediu folga naquele dia. Preocupado, ele
perguntou se havia alguma novidade sobre Santiago. Ela garantiu que estava
tudo bem, mas precisava descansar um pouco. Havia coisas demais acontecendo
ao mesmo tempo. No caminho para casa, ficou abraçada a Georges, encolhida
contra seu peito largo com pintas subindo para o pescoço que mais pareciam
constelações. Tentou se distrair contando-as em silêncio, mas era impossível.
Não conseguia pensar em outra coisa: uma criança de doze anos havia se
suicidado na escola dos pais.
Por que nunca tinha ouvido falar naquilo? Ela nem era nascida na época, mas
ainda assim… Como tia Emília nunca havia comentado nada? Algo havia se


ainda assim… Como tia Emília nunca havia comentado nada? Algo havia se
modificado dentro de Victoria depois da conversa. Até então, a Ícone era o
paraíso em seu imaginário, um lugar perfeito que Santiago havia destruído.
Agora, parecia que ela tinha vivido uma ilusão. Chegando à Lapa, encarou pela
janela do carro a rua cheia de gente: executivos, comerciantes e grupos de
adolescentes. Santiago poderia estar entre aquelas pessoas e ela nunca saberia. A
sensação de vulnerabilidade era enorme.
Diante do prédio, Victoria deu um beijo leve de despedida em Georges e abriu a
porta do carro, respirando o ar poluído do centro da cidade. Caminhou depressa
na direção da entrada, mas parou ao ver um menino na esquina, com um sorriso
diabólico. Victoria recuou, encostou na parede e levou a mão ao bolso,
procurando o canivete suíço. O menino avançou na direção dela. Victoria
respirava pesado. Pensou em gritar, mas só apertou os olhos e fechou as mãos
com força ao redor do canivete. Os sons da rua torturavam seus tímpanos e
dificultavam os pensamentos.
Ele não a abordou… Quando ela viu, já estava distante, seguindo para o outro
lado da rua. Menos de dez segundos tinham se passado, mas parecia muito
tempo. O táxi continuava parado na frente do prédio. Victoria correu até a janela
do carro, ainda com o peito ofegante e a cabeça zonza, e pegou Georges
desprevenido.
“O que aconteceu?”, ele quis saber.
“Nada, é só que…” De repente ela mudou de ideia. “Quer subir comigo?”
Georges aceitou, com uma expressão entre a surpresa e a curiosidade. Era a
primeira vez que Victoria o convidava. Para comemorar, ele propôs fazer
espaguete ao sugo, sua especialidade. Estavam os dois famintos. Enquanto
Georges colocava a água para ferver, Victoria aproveitou para esconder Abu e
outros bichinhos de pelúcia, bibelôs e sua coleção de lacinhos no armário. Ligou
a TV no mudo e tirou do canal de desenhos animados que costumava ver.
Quando ele se sentou no sofá, ela deitou a cabeça em suas pernas. O rosto do
garoto na rua, o olhar condenatório de Rayane, o bairro esquecido no tempo…
tudo a sufocava. Estava ficando paranoica? Pensou em um copo de uísque e
sentiu a boca salivar. Engoliu em seco, voltando a se sentar. Georges estava a
centímetros de seu rosto.


“Preciso que você me escute”, ela disse, cheia de coragem. Sem pensar muito,
contou sobre os problemas de alcoolismo. Falou sem pausas, enquanto a água
fervia no fogão, mas Georges não a interrompeu. Ao final, ela fez questão de
deixar claro que estava sóbria havia dois anos, mas que ainda era um desafio, e
que cada dia que ficava sem beber era uma conquista.
Georges sorriu, fazendo carinho nela.
“Obrigado por me contar.”
Logo o rosto dele se fechou numa expressão pensativa, e Georges pareceu
desconfortável.
“O que foi?”, ela perguntou.
Ele deu de ombros:
“Nada, esquece.” Voltou a abraçá-la. “Foi uma sorte ter encontrado você.”
Victoria não entendeu de onde saíra aquilo, mas preferiu não insistir. Os dois
ficaram em silêncio, com a respiração entrando no mesmo compasso. Depois de
algum tempo, ela se levantou para ir ao banheiro e Georges foi para a cozinha
ver o macarrão. Não tinha sido fácil se abrir, assim como não tinha sido fácil
voltar à casa onde vivera os piores momentos de sua vida, mas ela tinha
conseguido. Sentia-se mais forte agora.
Diante do espelho, Victoria resolveu tirar o sutiã, que a apertava. Apoiada na
pia, desceu a calça jeans e ficou apenas de calcinha e blusa. A perna de borracha
e metal destoava do restante do corpo. Parecia meio humana, meio robô.
Divertiu-se com a comparação e se achou bonita daquele jeito. Ela não precisava
ser perfeita. Afinal, quem era? Abriu a porta do banheiro e foi para o corredor. A
surpresa de Georges quando ele levantou a cabeça e a percebeu seminua, de
braços cruzados, a encheu de coragem. Victoria se aproximou e baixou os braços
sobre a bancada.
“Eu quero”, disse baixinho, sem conseguir acreditar naquilo.
Georges desligou o fogo e se aproximou, dando um beijo nela enquanto
segurava seu corpo com as mãos quentes. Deitou-a no sofá e a admirou à
distância. Depois, se aproximou para beijá-la inteira, tirando sua blusa e


distância. Depois, se aproximou para beijá-la inteira, tirando sua blusa e
deixando seus óculos na mesa de centro. Victoria sentiu certa perturbação com a
saliva e os sussurros de excitação enquanto ele lambia seu pescoço. O peso do
corpo dele a deixou ligeiramente sem ar. Georges se afastou para perguntar se
estava tudo bem.
“Continua”, ela pediu, esforçando-se para compreender todas as sensações.
Eles foram para a cama. Victoria estava com medo e ansiosa, mas queria
acreditar que valeria a pena. Enquanto Georges descia a língua pelos seus seios,
ela manteve os olhos bem abertos, observando a cabeça dele, que se movia num
vaivém. Soltou um gemido quando Georges tentou penetrá-la. Ele recuou,
arfando, e prometeu que iria com mais calma. Com a vista embaçada, ela
estudou cada variação em seu rosto — o brilho nos olhos, as bochechas e a boca
contraídas, as narinas bem abertas.
Ela subiu nele, assumindo o controle. Apesar do incômodo, a visão de Georges
em êxtase fez crescer em Victoria uma satisfação, como uma rede elétrica
percorrendo um circuito que ia da boca ao baixo-ventre, passando pela nuca e
pelos seios. Minutos depois, Georges gritou, entre o gozo e a surpresa.
Ela saiu de cima dele, deitando-se extasiada. Era inacreditável: pela primeira
vez, havia conseguido ter intimidade com alguém. Sentia como se houvesse
descoberto um pouco mais sobre si mesma. Ao lado dela, Georges recuperava o
fôlego enquanto a acariciava e pedia desculpas por ter terminado antes dela.
Victoria não sabia o que dizer. Ficou olhando para Georges suado sobre o lençol,
sentindo-se devassa e potente. Sentindo-se mulher.
19.
Victoria reparou que o consultório estava diferente. Os quadros na parede eram
novos — no lugar das duas pequenas imagens campestres, havia uma fotografia
em preto e branco de um olho através de uma lente distorcida e outra de folhas
secas sobre um piso de ladrilhos antigos. Ela não gostou das imagens,
especialmente do olho, que parecia observá-la. Era uma péssima escolha para a
parede de um lugar onde pessoas contavam suas intimidades. Sobre a mesa,
havia um arranjo de vidro com rosas brancas que conferia certa poesia ao lugar.
“Ganhei de uma paciente”, o dr. Max comentou, ao vê-la se demorar nas flores.


“Ganhei de uma paciente”, o dr. Max comentou, ao vê-la se demorar nas flores.
Victoria nunca tinha dado nada para ele. Achava que psiquiatras não podiam
aceitar presentes. Por um instante, sentiu-se ingrata por nunca ter pensado em
agradecer por tudo o que fazia por ela. Quis se desculpar, mas ficou quieta. Ao
se sentar na cadeira, teve a impressão de que a poltrona do psiquiatra estava um
pouco mais próxima. Ele a encarava com as pernas descruzadas, as mãos sobre
as pernas e o olhar calmo. Para justificar o cancelamento da sessão anterior,
Victoria o atualizou sobre os últimos acontecimentos: as páginas de diário
passadas por debaixo da porta e a decisão de voltar à casa de seus pais depois de
vinte anos para conversar com Rayane.
Ele não pareceu surpreso. Deu apenas um meio sorriso e quis saber como tinha
sido para ela.
“Difícil.”
“Imagino”, ele disse, num tom condescendente. “E o que mais?”
“Na verdade, achei que ia me sentir muito pior… Cheguei a pensar que não ia
conseguir, mas, quando estava lá, apesar da sensação ruim, tudo parecia tão
distante do que eu tinha conhecido e vivido. A escola, a casa dos meus pais…
Era outro mundo.”
Ela contou da morte de Igor e mencionou que pretendia conversar com d.
Mirela, mãe de Gabriel, assim que Rayane lhe passasse o contato.
“Posso ir com você, se quiser”, ele se ofereceu.
Victoria baixou os olhos, hesitante.
“Não precisa, Georges vai”, ela disse.
“Claro, claro.” O dr. Max sorriu, entrelaçando os dedos. “Como estão as coisas
com ele?”
Do jeito mais natural possível, ela explicou que continuavam a sair e que
estavam felizes, mas não se sentia à vontade para confessar que perdera a


virgindade. Seria estranho demais falar sobre aquilo com o psiquiatra.
“Ele tem me apoiado”, ela continuou, de modo vago. “Com tudo o que vem
acontecendo, é bom ter alguém como Georges ao lado.”
“Você está assumindo responsabilidades e enfrentando seu passado, o que é
ótimo”, o dr. Max disse. “O perigo é viver no limite das emoções. Ou tudo ou
nada. Visitando o bairro dos seus pais, você não sente nada. Com Georges, sente
tudo. A impulsividade é seu motor. Já pensou por que age assim?”
A pergunta a irritou profundamente.
“Cada um cumpre um papel na sua vida, Vic”, o psiquiatra continuou. “O
escritor, seu vizinho, seu chefe, o Arroz…”
“Você também?”
“Eu também. E Santiago, claro.”
“Ele não cumpre nenhum papel na minha vida.”
“Santiago é sua compulsão. Invadir sua casa, grafitar a parede, passar folhas do
diário por debaixo da porta. É como se quisesse manter você presa a ele,
estabelecer um diálogo.”
“E se eu não quiser conversar com Santiago?”
“Talvez você não perceba”, o dr. Max disse, sério, “mas, ao correr atrás dessa
história, já está fazendo isso.”
Victoria chegou mais cedo ao trabalho. O Café Moura não estava tão cheio —
era aquela breve hora de descanso entre o caos do café da manhã e o do almoço.
Margot perguntou se estava tudo bem, mas Victoria não queria conversa. A
sessão com o dr. Max a tinha deixado num insuportável estado de nervos. Pela
primeira vez, cogitava procurar outro psiquiatra — ou talvez deixar a terapia e
continuar apenas com os remédios. Se ele pretendia testar abordagens tão
diretas, que encontrasse outra cobaia. Ela estava de saco cheio.
De modo geral, os dias seguintes foram ruins. Victoria havia experimentado uma


De modo geral, os dias seguintes foram ruins. Victoria havia experimentado uma
liberdade inédita ao ir para a cama com Georges, mas precisava de um tempo
para assentar os sentimentos. Disse aquilo a ele de forma clara em um encontro
na quinta à noite. Ainda tinha dificuldades com a overdose de intimidade.
Mesmo dizendo que entendia, Georges começou a ficar estranho logo depois.
Em alguns encontros, parecia incomodado, aéreo; em outros, tenso e
preocupado, observando-a fixamente, como se quisesse lhe dizer alguma coisa.
Apesar de tudo, continuava romântico e divertido, com frequência a elogiava e
dizia que a amava. Quando chegava atrasado, se desculpava, sorrindo. “Estava
esperando?”, perguntava. Aquilo tinha virado uma piada interna.
Ele deixou de frequentar o café à tarde com a desculpa de que pegara uma
tradução para fazer. Os dois continuaram a trocar mensagens pelo celular e a se
encontrar de vez em quando, mas ela percebia que algo havia mudado. Tentou
não se abalar. Depois de um início acelerado, era natural que as coisas
arrefecessem, o que não significava que estivessem piorando. Além disso, ela
tinha mais com que se preocupar. A provocação do psiquiatra havia sido
certeira: ao ler as páginas do diário e buscar as pessoas daquela época, Victoria
aceitava o jogo do assassino. Investigar o passado talvez fosse justo o que
Santiago desejava que ela fizesse. Às vezes, sentia vontade de arremessar tudo
para o alto e queimar as folhas do caderno, mas não conseguia.
Em um final de semana, decidiu pesquisar notícias sobre a tragédia. Com
surpresa, notou que as principais recordações que trazia da época — sobre o
bairro, a escola e a casa — eram embasadas nas fotos de jornal que tinha visto na
adolescência: o portão da escola, a fachada da casa, a entrada de carros na lateral
e até a pracinha do bairro estavam lá, nas páginas velhas, em fotografias em
preto e branco sob manchetes apelativas. Ela leu o material com cuidado, mas
Sofia não era mesmo mencionada em nenhuma reportagem.
Voltou a ligar para Rayane para ver se tinha conseguido o contato da mãe de
Gabriel. Com a voz lenta, como se mergulhada numa garrafa de gim, a mulher se
desculpou pela demora, dizendo que as últimas semanas tinham sido uma
loucura, porque havia finalmente conseguido alugar a casa e se mudara às
pressas. Ela prometeu que retornaria em breve com o telefone de d. Mirela.
Sozinha em casa, de madrugada, Victoria se flagrava na janela, observando os
pedestres pelo telescópio, ou rodeada de papéis, fotos e reportagens antigas,
encarando a porta do apartamento fechada, cheia de trincos, como se pudesse se


encarando a porta do apartamento fechada, cheia de trincos, como se pudesse se
abrir a qualquer momento. O silêncio de Santiago mantinha seus dias em
suspenso. Pesadelos vívidos interrompiam suas noites. Como alguém no
corredor da morte, tudo o que lhe restava era esperar.
Em um domingo, Arroz telefonou para Victoria, convidando-a para visitar um
apartamento próximo à estação de metrô Cardeal Arcoverde. Ela resolveu
aceitar. Uma multidão munida de isopores e cadeiras de praia descia os
quarteirões na direção da orla, fazendo muito barulho. A mistura de cheiros —
batata frita, maresia, suor e areia — a deixou com dor de cabeça. Viu Arroz
chegando com o fluxo de pessoas seminuas. Parecia um ser de outro planeta:
vestia jeans escuro e camiseta preta de manga comprida com o logo da DC
Comics. Estava bastante suado nas têmporas e no pescoço, mesmo com os
cabelos compridos presos num coque no alto da cabeça ossuda.
Visitaram um apartamento que estava para alugar na rua Duvivier, onde três
idosas viviam. Muito simpáticas, elas explicaram detalhes sobre o condomínio e
suas comodidades, então guiaram os dois pelos cômodos, incluindo uma
biblioteca enorme com livros encadernados cheirando a mofo e um quarto com
uma parede repleta de pôsteres de bandas dos anos 1980, o que Victoria achou
peculiar. Uma das senhoras — a que parecia mais perspicaz — perguntou se eles
eram mesmo um casal. Arroz confirmou, pegando a mão de Victoria para beijar.
Os dois ficaram pouquíssimo tempo no apartamento. Para ela, conhecer a
intimidade alheia já não tinha a mesma graça.
Enquanto desciam no elevador, Arroz a chamou para um “estrogonofe falso”
na casa dele, como nos velhos tempos. Victoria estava com fome e aceitou. O
apartamento continuava o mesmo: bagunçado, repleto de nerdices nos lugares
mais inusitados (só no banheiro, havia uma lista ensinando a mijar de pé com
roupa de jedi e uma cortina de plástico ensanguentada que remetia a Psicose).
Ele colocou um álbum de músicas new wave para tocar enquanto cozinhava.
Após servir os pratos, comentou que ela estava um pouco abatida.
“Você continua sendo ameaçada?”


Victoria não sabia responder. Sentia-se exposta e confusa. Santiago parecia
querer torturá-la, e estava conseguindo. Naquele momento, a intenção dela era
contar tudo para Arroz e acabar com aquela barreira patética na amizade deles,
mas não era tão fácil. Victoria ficava cansada só de pensar no assunto.
“Estou bem”, ela se obrigou a dizer.
“E o Georges?”
Victoria hesitou por um instante.
“A gente se gosta, Arroz”, ela disse, constrangida. Não queria voltar àquele
assunto. Provou o estrogonofe e elogiou: “Está ótimo”.
“Algumas coisas não mudam”, ele respondeu, irônico.
“Me fala de você.”
Arroz engasgou com a comida.
“De mim?”, perguntou, tossindo muito.
“É, de você. De onde você vem, quem é sua família, como se tornou quem é.”
Ele baixou os talheres e limpou os lábios com um guardanapo. Victoria entendia
sua surpresa. Depois de anos de amizade, só agora estava pronta para dar aquele
passo.
“Começo pelo meu nome?”
Ela sorriu, dando de ombros.
“É um bom começo.”
“Vinícius”, ele disse, nervoso, então endireitou a coluna. “Vinícius Rizzo.
Muito prazer.”
Ele estendeu a mão, e ela a apertou.
“Vinícius? Sempre te achei com cara de Pedro ou Eduardo.”


“Gosto do meu nome. Sabia que é o único nome masculino sem as letras A, E, O
e R?”
“Não sabia”, ela respondeu, balançando a cabeça. “E por que Arroz?”
“Por causa do Rizzo, sobrenome do meu pai. A pronúncia é igual à de ‘arroz’
em italiano. Por isso, me deram esse apelido na escola, e nunca me importei.
Passei até a usar como nick.”
Enquanto comiam, Arroz contou que era o mais velho de cinco irmãos homens
criados em Pernambuco. A mãe era dona de casa e o pai era militar.
Viajara pelo mundo a serviço como mecânico de voo antes de se aposentar.
Arroz contou que tinha o hábito de observar a vida dos moradores da
cidadezinha em que vivia pelas frestas das paredes de madeira. Começou a
trabalhar cedo e teve que amadurecer rápido. Havia rompido as regras da família
ao se arriscar na cidade grande: seus irmãos continuavam no Nordeste, mas ele
tinha se mudado para o Rio na cara e na coragem para estudar enfermagem.
Depois abandonara a faculdade para se dedicar à informática. Ela entendia por
que ele mantinha alguns hábitos infantis com mais de trinta anos. Era sua
maneira de compensar a falta da infância. Arroz entrou em tantos detalhes de sua
vida enquanto lavavam louça que Victoria teve a impressão de que ele tampouco
tinha com quem conversar.
“E você?”, ele perguntou, sentando-se no sofá. “Vai me contar algo a seu
respeito?”
“Meu nome você já sabe.”
“Estou falando do resto.”
Ela pensou por um instante:
“Ainda não.”
Arroz soltou um muxoxo.
“Me sinto numa panela de pressão”, ela disse, sentando-se no sofá. “Parece que


“Me sinto numa panela de pressão”, ela disse, sentando-se no sofá. “Parece que
vou explodir a qualquer momento.”
Ele se aproximou e colocou as mãos sobre as dela.
“Posso te dar uma dica? Toda vez que se sentir pressionada, pensa no George
Martin.”
“O produtor dos Beatles?”
“Não, o cara que escreveu Game of Thrones”, Arroz disse. “Sempre que tenho
um problema no trabalho ou levo bronca de algum cliente, penso nele.”
“Por quê?”
“Até pouco tempo, ele era um gordinho nerd que ninguém conhecia. Aí as
histórias que escrevia viraram série de TV e todo mundo passou a ver e a
comentar, o que é ótimo, claro, mas as temporadas alcançaram os livros, e tem
muita gente com medo de que ele morra antes de terminar de escrever tudo. Mas
não tem jeito… Ele demora pra escrever. Mesmo com todo o sucesso, continua a
ser o mesmo gordinho nerd de antes… Tem cara de quem gosta de dormir muito,
comer bem, beber e encontrar os amigos. Imagina como as pessoas ficam
olhando pra ele quando está num restaurante… Você deveria estar escrevendo,

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