Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Tsssss. De onde Victoria conhecia aquele barulho? Tsssss. Um cheiro forte
invadiu o quarto e ela sentiu a cabeça girar. Tapou o nariz e fechou a boca, como
fazia ao mergulhar na piscina, mas não conseguiu segurar por muito tempo.
Tossiu baixinho. O invasor estagnou, percebendo sua presença. Antes que ele se


Tossiu baixinho. O invasor estagnou, percebendo sua presença. Antes que ele se
agachasse, Victoria deixou Abu para trás e rolou para fora da cama. Saiu
correndo sem olhar para trás. Sabia que o homem estava atrás dela.
“Mamãe! Papai!”, gritou no topo da escada. A voz ecoou até se perder na
imensidão da sala.
Desceu correndo. Um breu completo engolia a cozinha. A sala estava iluminada
apenas pela televisão ligada no mudo, que exibia um filme. As bandeirinhas
coloridas e as letras de “Feliz aniversário” continuavam coladas no espelho com
fita adesiva. Ainda havia embalagens vazias de docinhos, pratos de plástico
usados e guardanapos amassados sobre a mesa. No chão, bexigas pisoteadas e
migalhas de bolo e pão de cachorro-quente que tinham caído durante a festa.
Ela deu a volta no sofá para chegar à saída dos fundos. Ao se aproximar, viu a
porta de correr entreaberta. Duas pernas brancas se estendiam sobre o batente,
como sacos de açúcar caídos. Victoria logo reconheceu a camisola. Correu na
direção da mãe e se agachou, desesperada. Sangue saía do peito dela, no ritmo
da respiração precária. Ainda estava viva, mas Victoria não tinha coragem de
encostar nela. Havia sangue demais.
Corre, a mãe fez com os lábios, sem produzir som. A garganta dela parecia uma
boca escancarada em um sorriso esquisito.
A luz da televisão ficou mais clara de repente, e Victoria pôde ver melhor o rosto
da mãe. Estava completamente preto, como se coberto por uma tinta viscosa. A
menina amava a mãe, amava o pai, amava o irmão. Precisava fazer alguma
coisa. Chamar a polícia ou… Ela correu até o móvel da TV e escalou as
prateleiras para chegar ao telefone. Discou depressa o único número que sabia de
cor e esperou. Atenderam rápido.
“Tia Emília, me ajuda”, Victoria conseguiu dizer antes de ser puxada para trás
com violência.
O fone se espatifou. O invasor espremeu o corpinho dela contra o sofá e montou
em cima dele, imobilizando suas pernas e tapando sua boca com a mão.
Victoria ainda estava aprendendo a rezar o pai-nosso e tentou se lembrar das
frases iniciais. Não conseguiu. Agitou os braços, mas o invasor era mais forte.
Os óculos dela voaram longe. Notou o rosto embaçado do homem, os cabelos


Os óculos dela voaram longe. Notou o rosto embaçado do homem, os cabelos
cacheados na altura dos olhos pretos. Ele ergueu o braço direito, segurando a
faca enorme que tremeluziu no contraste com a luz, pingando sangue. Victoria
fechou os olhos no primeiro golpe. Uma dor lancinante se espalhou depressa por
todos os músculos conforme a lâmina rasgava a perna. Veio outro. Sua energia
ia embora, não adiantava lutar…
Então, de repente, as investidas cessaram. O invasor jogou a faca longe e pegou
algo no cinto de ferramentas. Sacudiu o objeto e mirou na direção dela. A
menina reuniu forças e gritou o mais alto que podia, mas era tarde demais.
Sentiu de novo o cheiro ruim, os olhos arderam e um gosto amargo desceu pela
garganta.
Tsssss.
Na madrugada de seu aniversário de quatro anos, Victoria mergulhou na
escuridão.
VINTE ANOS DEPOIS
Não é fácil ser Victoria Bravo. Eu a observo todos os dias. Conheço seus
horários, suas manias, seus lugares preferidos. Sei quais remédios toma, de que
desenhos animados mais gosta, o que compra no mercado. Conheço seus medos

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