Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
falou que tocava muita punheta pensando nas professoras, tipo a Sofia, a
Sandra e a Ana Luísa, ele havia escrito. Pelos cálculos dela, naquela época Sofia
tinha dezoito anos e trabalhava como inspetora na escola. A frase confirmava
sua intuição de que Sofia e Santiago estavam ligados, as histórias se
encontravam em algum ponto.
Tomada por um novo fôlego, decidiu reexaminar todo o conteúdo das caixas.
Com uma lupa, esquadrinhou cada detalhe das fotos de família em busca de uma
criança ou adolescente que pudesse ser Sofia. Não havia mesmo ninguém. Entre
os documentos, muita papelada inútil: notas fiscais, folhas de pagamento dos
professores, contratos de locação, provas corrigidas, rascunhos de circulares da
escola escritas à mão por Mauro, listas de chamada e fichas de inscrição de
alunos novos. Leu as datas com cuidado, na esperança de encontrar uma lista da
turma de Santiago. Rapunzel talvez estivesse entre as meninas. Infelizmente,
nenhum dos anos batia.
Depois de algum tempo, ela encontrou um comprovante de pagamento de 1993


Depois de algum tempo, ela encontrou um comprovante de pagamento de 1993
com o logotipo da escola assinado por Sofia Bravo. Não sabia a que se referia,
mas aquela era a única evidência física da existência da tia. Victoria continuou a
folhear os documentos, mesmo com os olhos pesando de sono.
Encontrou o contrato de compra e venda da casa dos pais, assinado por tia
Emília, representante legal dela na época, e sentiu um arrepio percorrer seu
corpo. Como não tinha reparado? O nome da compradora era Rayane Fagundes
Motta. Ela era mencionada no diário de Santiago. Era a garota por quem ele
tinha se interessado nos primeiros meses na escola, antes de conhecer Rapunzel.
Era uma coincidência aterradora. A garota por quem Santiago foi apaixonado
comprou a casa dos meus pais, Victoria pensou, engolindo em seco.
Victoria começou a se sentir mal quando o táxi passou na frente do 17o Batalhão
da Polícia Militar. O carro reduziu a velocidade nas duas lombadas, e as sutis
freadas lhe trouxeram um misto de emoções ruins, fazendo sua
determinação escorrer com o suor. Quantas vezes não tinha percorrido aquela
mesma rua com os pais e o irmão no caminho para casa? Foram os policiais
militares daquele batalhão que atenderam ao chamado de tia Emília quando
encontrou os corpos na casa. O rosto de sua mãe pichado de preto, com a
garganta aberta à lâmina, voltou à memória com uma força que não tinha fazia
anos. Sentada no banco traseiro, Victoria buscou o olhar de Georges, deu a mão
a ele e se perguntou pela milésima vez se estava fazendo a coisa certa.
Pela manhã, havia mostrado as novas páginas do diário e contado sobre o
contrato de venda da casa. Quando telefonara para o número que aparecia ali, a
própria Rayane havia atendido.
“Por que não vem aqui tomar um café?”, ela disse depois que Victoria explicou
o motivo da ligação.
Victoria não queria voltar à Ilha do Governador, mas era sua chance de descobrir
mais informações sobre Santiago e Rapunzel. Ela não visitava o bairro havia
anos e temia o que o retorno poderia lhe causar. Além de cólicas intensas, como
se giletes rasgassem seu baixo-ventre, ela sentia um formigar intenso na ponta
do pé esquerdo — sua intuição lhe dizendo com todas as letras que não deveria
estar ali.
Com a cabeça recostada na janela, ficou surpresa em perceber que suas


Com a cabeça recostada na janela, ficou surpresa em perceber que suas
recordações não eram tão diferentes da realidade. O lugar havia parado no
tempo. O carro seguia pela estrada do rio Jequiá, com a água calma da baía da
Guanabara à sua direita, onde barquinhos de pescadores descansavam. Mais à
frente ficava a ACM Rio, toda gradeada, com quadras de tênis, basquete, vôlei e
piscinas onde ela fizera natação quando tinha três anos. Eles dobraram à
esquerda na rua Maldonado e seguiram até a praça Iaiá Garcia, que fora rodeada
por restaurantes, padarias e quiosques depois que o ponto das barcas que levava
ao centro do Rio se mudara para aquela área. Antes, o local era mais bucólico,
cheio de flores e com alguns poucos estabelecimentos.
O bairro era residencial, e a maioria das casas tinha dois andares, portão baixo e
janelas gradeadas, com garagem nos fundos e jardim na frente, exatamente como
a dos pais dela. A pintura das fachadas variava do branco ao bege, em geral
revestida de caquinhos em tons pastel. O prédio da Ícone era o mais alto da
região, com seis andares, e ficava na rua Campo da Ribeira, bem na esquina com
a Marechal Ferreira Neto, onde começava a ladeira. Para chegar à antiga casa de
Victoria, era inevitável passar pelo cruzamento. Quando se aproximavam, ela
cogitou virar o rosto, mas se forçou a continuar de olhos abertos e enfrentar o
que fosse preciso.
“Para aqui um instante”, pediu ao taxista.
Georges a encarou, surpreso.
“Tem certeza de que quer fazer isso?”
Victoria tinha a impressão de que não conseguiria dar mais do que dois passos
para fora, mas não ia desistir. Saiu do carro junto com Georges. As grades da
escola tinham sido substituídas por um portão verde, a área do pátio fora
transformada em estacionamento e a fachada estava pintada de branco e tinha
desenhos em dourado. Alguns fiéis abraçados a Bíblias surradas entravam e
saíam da Igreja Universal. Ela se deteve antes de passar pelo portão e apertou o
braço de Georges, zonza. A palavra “morto” lhe veio à mente.
Em silêncio, Victoria voltou para o táxi. O carro deu a volta no quarteirão e
entrou na rua Lourenço da Veiga antes de dobrar à direita na Maldonado e parar
diante da antiga casa dela. A perna mecânica chamuscava, como se veias
inexistentes latejassem. Ela tinha vontade de arrancar a prótese e jogá-la pela
janela do carro, mas só abriu um botão da blusa, para respirar com mais
facilidade, e passou os olhos pelo lado de fora. A rua estava calma. A casa de d.


facilidade, e passou os olhos pelo lado de fora. A rua estava calma. A casa de d.
Teresinha, que morrera anos antes, parecia abandonada, enquanto a casa dos pais
de Victoria tinha sido pintada de outra cor e recebido novas grades. Presa ao
portão, havia uma placa suja de ALUGA-SE. Tudo está morto, Victoria pensou.
Só sua árvore favorita da infância — que agora parecia muito menor —
continuava ali, indiferente ao passar dos anos.
Na adolescência, Victoria adorava passar as madrugadas lendo. Tinha devorado
os clássicos de ficção científica, principalmente Isaac Asimov e Philip K. Dick,
além de sucessos de fantasia como O Senhor dos Anéis e Harry Potter, que
havia surgido mais ou menos na época em que ela estava na escola. Por muito
tempo, seu sonho tinha sido receber uma carta de Hogwarts e deixar para trás
sua história de merda. Como Harry, ela era órfã, então acreditava que tinha
grandes chances. Infelizmente, a carta nunca havia chegado. Em suas leituras,
imaginava a aparência das personagens e, mais tarde, era comum que sentisse
uma espécie de incompatibilidade quando assistia às adaptações para o cinema.
Simplesmente, as personagens que ela imaginara eram muito melhores do que os
atores escolhidos.
Rayane lhe dava aquela mesma sensação de incompatibilidade enquanto
arrastava os pés e se apoiava nos móveis, guiando os dois pela casa para mostrar
as reformas que ela e o marido tinham feito. Victoria percebeu que ela estava
levemente alterada, ainda que não fosse nem meio-dia. Os olhos pesados, o
ritmo lento da fala e a voz embargada não deixavam dúvida. Algum desvio de
trajeto tinha levado a Rayane do diário a se transformar naquela mulher com um
vestido puído que mais parecia a capa de um liquidificador. O cabelo preso num
coque murcho e o rosto inchado de quem não tinha uma noite decente de sono
havia meses faziam parecer que ela tinha cinquenta anos, quando não devia ter
mais do que trinta e cinco.
A mulher os conduziu pelo térreo, explicando que derrubara a parede que dividia
a sala de jantar e a cozinha. Por mais que Victoria tentasse, era impossível criar
uma distância emocional. Havia lembranças demais: o corrimão da escada pelo
qual gostava de escorregar, as pilastras na sala onde sua mãe pendurava
esculturas esotéricas, o cantinho onde Eric ficava por longos minutos de castigo,
o espelho grande para o qual ela olhava enquanto brincava no colo do pai. Onde
costumava ficar a casinha de boneca — sua casa dentro da casa —, próximo à
escada, agora havia um minibar. Victoria deu uma olhada nos rótulos das


escada, agora havia um minibar. Victoria deu uma olhada nos rótulos das
garrafas.
“Como você está?”, Georges perguntou, passando o braço por sua cintura.
Ela enxugou os lábios, afastando-se sutilmente do abraço dele.
“Bem.”
Rayane se sentou no sofá e acendeu um cigarro. Explicou que vivia sozinha na
casa havia seis meses, desde que seu marido fora embora.
“Quero me mudar para um lugar menor. Coloquei a casa pra alugar. Mas
também estou disposta a vender”, ela disse. “Você tem interesse?”
Victoria esfregou as mãos suadas. Era uma ideia absurda. Ela negou com a
cabeça.
“Imaginei”, Rayane disse, amargurada. “Segundas são os piores dias para mim.
Fico me lembrando dele neste sofá, com as pernas esticadas sobre a mesa,
bebendo cerveja e vendo o jornal na TV. Esse silêncio me sufoca.”
“Seu marido também estudou na Ícone?”, Georges perguntou.
“Não, no São Bento”, ela disse, com orgulho incontido. Era um colégio de
padres bem conhecido no Rio.
“Há quanto tempo você mora aqui?”
“Quinze anos… Compramos a casa por um preço bem baixo quando casamos,
porque ninguém queria… Vocês sabem… Por causa de tudo o que aconteceu”,
ela disse, olhando para o bar. Então suspirou fundo. “Bobagem, claro. As
pessoas são muito supersticiosas.”
“Você já morava no bairro na época do crime?”
“A casa dos meus pais era aqui pertinho. Minha mãe mora lá até hoje.”
“E onde você estava naquela noite?”
“Não sei, foi uma noite como qualquer outra. Só me lembro do dia seguinte,
quando avisaram que as aulas tinham sido suspensas e ficamos sabendo o que


quando avisaram que as aulas tinham sido suspensas e ficamos sabendo o que
tinha acontecido.”
Rayane amassou a guimba no cinzeiro, prendeu outro cigarro nos dentes e o
acendeu com um isqueiro de metal, encarando Victoria. Aquele olhar fixo, quase
condenatório, a incomodou.
“Sabia que Santiago era apaixonado por você?”, Victoria perguntou.
“Vários garotos eram apaixonados por mim. Eu era muito bonita”, Rayane disse,
inclinando-se para mexer em uns livros grandes na mesa de centro.
“Santiago nunca teve a menor chance comigo. Era meio bobo, magrelo, com
braços fininhos e olhar assustado. Sempre gostei de homem de verdade. Ele era
uma criança. Mesmo com dezessete anos, quando fez o que fez, ainda parecia
um menino espichado, com o cabelo liso caindo sobre a testa e uma voz
irritante.”
“E você reparou em alguma mudança nele ao longo dos anos?”
“Que tipo de mudança?”
“Bom, ele conheceu uma menina. Rapunzel.”
“Rapunzel? Sério?”, ela disse, soltando uma risada alta.
“É um apelido”, Victoria explicou. “Santiago começou a se relacionar com ela.
Imagina quem pode ser?”
Rayane soprou a fumaça, pensativa. Então, deu de ombros.
“Não faço a menor ideia.”
Ela ficou de pé e seguiu até o bar para se servir de uma dose de uísque.
“Aceitam?”
Georges negou. Victoria olhou para ele e voltou a encarar a garrafa. Queria
muito dizer “sim”. Um único gole já ajudaria a relaxar.
“Quer?”, Rayane insistiu, em tom cúmplice.


“Quer?”, Rayane insistiu, em tom cúmplice.
Victoria fez que não, tentando reorganizar os pensamentos. Ajeitou-se no sofá e
colocou as mãos sobre a perna mecânica na tentativa de fazer o incômodo
passar.
“Meu pai tinha uma irmã e a colocou para trabalhar como inspetora. Você a
conheceu?”
“Não tenho certeza.”
“O nome dela era Sofia.”
“Não me lembro de nenhuma Sofia.”
Rayane estava sendo menos útil do que ela havia imaginado. Principalmente
bêbada.
“E do Igor?”, ela perguntou. “Você se lembra dele?”
A mulher voltou a se sentar, cruzando as pernas.
“Igor? Acho que não…”
“Era um garoto popular da sua turma. Vocês se beijaram na semana de
atividades quando estavam na sexta série.”
Rayane semicerrou os olhos, negando com a cabeça. Victoria estendeu a foto
encontrada dentro do caderno: três meninos de uniforme captados no momento
do recreio, a julgar pela pele suada, pelas roupas amassadas e pelo parquinho ao
fundo. Santiago tinha um braço caído ao lado do corpo de modo desleixado,
enquanto o outro estava sobre os ombros dos colegas. O menino do centro era o
mais bonito, com cabelos loiros, olhos de um verde intenso e um sorriso levado.
Sua postura, com os braços cruzados, sem encostar em nenhum dos colegas, era
de liderança. O da esquerda lembrava Santiago, apesar de ser um pouco mais
baixo e troncudo, com os ombros largos e a testa protuberante.
“Ele deve ser um desses dois”, Victoria disse, apontando.
Rayane bateu os olhos na foto enquanto tragava o cigarro. Gargalhou e deu uma


Rayane bateu os olhos na foto enquanto tragava o cigarro. Gargalhou e deu uma
tossida rouca, que engoliu com uma dose de uísque.
“Meu Deus, agora lembro”, disse, posando o copo na mesa de centro. “Como
pude esquecer? É este aqui.” Ela apontou o menino do centro, fazendo um
discreto carinho na fotografia. “Ele era mesmo lindo…”
“Igor ficou amigo de Santiago na sexta série”, Victoria disse.
“Sim, e o outro chamava Gabriel. A mãe dele ainda é muito amiga da minha.
Eram vizinhas. Posso tentar conseguir o telefone dela depois, se quiserem.”
“Sim, por favor”, Georges disse.
“Os três pichavam muros, carros e coisas do tipo”, Victoria retomou.
“Continuaram amigos até se formarem?”
“Vocês não sabem?” Ela deu um meio sorriso, revelando os dentes enegrecidos.
“Igor se matou quando estávamos na sexta série.”
Victoria demorou meio segundo para registrar a informação:
“Como é?”
“Foi em setembro, acho”, Rayane disse, sem esconder o prazer em contar a
história. “Igor se jogou do quinto andar da escola e caiu no campão durante o
recreio. Chamaram uma ambulância, mas não adiantou de nada. Ele morreu na
hora. Chegaram a supor que tivesse subido na janela para pichar a fachada da
escola e tropeçado sem querer.”
Georges e Victoria ficaram em silêncio.
“Na época, espalharam o boato de que a escola ia ser fechada por causa do
acidente”, ela continuou. “Mas isso não aconteceu. Colocaram trancas nas
janelas. Só os professores tinham as chaves.”
“E por que você disse que ele se matou em vez de dizer que ele caiu?”
“Porque é o que acho. Mas não tenho como provar.”


“Igor não gostava da escola? Ou estava com algum problema?”
“Isso eu não sei…”
“E você? Gostava da escola?”
“A Ícone era como qualquer outra escola”, ela disse. “Um inferno.”

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