Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
20 de julho de 1993, terça
Por causa das férias, continuo sem encontrar minha Rapunzel. Passo o dia todo
em casa sem fazer nada. Hoje fui pra casa do Igor quando meu pai saiu pra
trabalhar. O primo dele, Jean, e o Gabriel já estavam lá. Acho que o Jean joga
basquete, ou só estava com uma camisa de time, não sei. Ele meio que me
ignorou no início e ficou contando pro primo sobre as garotas que ele namora.
São cinco — duas loiras, uma morena, uma negra e uma ruiva. Ele disse que a
ruiva é a que fode melhor e ficou rindo. Não vi graça, mas ri também. Daí ele
disse que com dezessete anos é muito fácil transar, que todas as garotas dão
mole pra você. Quero muito ter dezessete.
Quando a mãe do Igor saiu pro trabalho, o Jean abriu a mochila e mostrou as
latas de spray que tinha trazido. É o Jean que compra o spray pro Igor e que
ensina tudo pra ele sobre como chegar nas meninas, conversar com elas e tal.
A gente saiu com as latas, mas não foi na direção da pracinha, e sim na do
instituto dos índios, onde tem menos gente. Na frente de um muro descascado,
perto das pedras no beira-mar, a gente começou a pichar. O Jean ensinou como
fazer o traço mais firme, parece que ele é profissional. O Igor não tem o menor
talento pra desenho, e o Gabriel é o melhor de todos, mas acho que ele só picha
por causa do Igor.
Quando olhei, o Jean estava sentado na pedra, com a mão na boca, acendendo
alguma coisa. Ele disse que era maconha, assoprou a fumaça em mim e
perguntou se eu queria. Eu não quis, mas o Igor e o Gabriel aceitaram. Eles
ficaram nas pedras, conversando baixinho e rindo, passando a maconha um pro
outro. Fiquei um pouco mais longe. Meu pai me disse que quando era
adolescente um amigo dele morreu de maconha.
No fim da tarde a gente começou a voltar. O Jean subiu em um Corsa vermelho
que estava estacionado perto e ficou pulando em cima do carro.


Sacudia tanto que parecia que as janelas iam estourar e os pneus iam sair
rolando. O Igor subiu no carro junto e começou a pichar o teto e as janelas. O
Gabriel pichou uma porta e eu fiz o mesmo do outro lado. A gente riu muito
pensando como ia ser engraçado o dono encontrar o carro vermelho todo preto.
Colado no muro do instituto dos índios, tinha um mendigo dormindo na calçada,
com umas roupas velhas e uns pedaços de papelão dobrados. O Igor se
aproximou na ponta dos pés, esticou o braço e colocou o spray bem no nariz do
mendigo. Então apertou e encheu a cara dele de tinta. O mendigo acordou na
mesma hora, assustado e gritando. A gente saiu correndo e foi rindo até a casa
do Igor. A mãe dele chegou tipo cinco minutos depois. O Jean deu um spray de
presente pra cada um. Ele é legal. Fiquei mais um pouco na casa do Igor e,
enquanto a gente lanchava, perguntei se ele não ficava mal de pichar a cara do
mendigo. Ele disse que não. Que não tem humilhação maior do que pichar a cara
de alguém. E que tem gente que merece ser humilhada.
[…]
26 de julho de 1993, segunda
A primeira coisa que pensei hoje foi que falta só uma semana para as aulas
voltarem. Fiquei feliz. A segunda coisa foi que eu tinha que devolver as fitas que
aluguei no fim de semana. Na verdade, devia ter devolvido domingo, mas seu
Ernesto é legal e sempre me deixa devolver na segunda de manhã. Meu pai diz
que ele é hippie. Tomei café, rebobinei as fitas e fui pra locadora, aí fiquei
conversando com seu Ernesto. Uma hora, não sei o motivo, pensei que ele
também deve tocar punheta. E pensei que meu pai deve tocar também. É
engraçado todo mundo viver sabendo que todo mundo toca punheta quando vai
no banheiro. Ou será que não é todo mundo? Talvez o padre Heitor não toque.
Quando saí da locadora, vi a Rapunzel do lado de fora de um restaurante, mas
tinha muita gente perto e ela nem olhou direito pra mim, só continuou falando,
linda, rindo como riu quando a gente estava pertinho. Fiquei chateado de não
poder dar um beijo nela na frente de todo mundo. Mas também fiquei feliz só de
olhar por uns minutinhos. Falta só uma semana. Uma semana.
[…]



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