Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
Espero que sim, ela pensou, mas só conseguiu dizer:
“Não sei.”
“Podemos ir ao cinema amanhã.”
Victoria bateu a porta e esperou o elevador chegar ao sétimo andar. O prédio
tinha um corredor enorme, com dezenas de apartamentos por andar. Na portaria,
encontrou o botão para abrir a porta e, respirando o ar abafado da rua
mergulhada na noite, acessou o mapa do celular para saber onde estava. Georges
morava entre o Catete e a Glória. Ele tinha dito aquilo no primeiro encontro, mas
Victoria havia se esquecido. Ela pediu um táxi pelo aplicativo e em poucos
minutos estava em casa. Deixou o canivete sobre a pia e se despiu encarando o
espelho. Sua aparência era tenebrosa, com a pele branca maculada pelo curativo,
os cabelos desgrenhados e os olhos encavados.
Tomou um banho longo, pensando no que tinha acontecido e no absurdo de dar
seu primeiro beijo em meio àquele furacão, mas a imagem de Georges, com seu
rosto simples, seu cheiro de café doce e seu olhar sincero ao falar sobre a perna
mecânica, voltava para acalmar o nervosismo. Não adiantava ficar se torturando.
Aquele tipo de coisa não se escolhia, ela concluiu enquanto se enxugava. Vestiu
o pijama, invadida por uma alegria rara. Deitou e fechou os olhos, mas não
conseguiu dormir de imediato. Era assim se apaixonar? Um calor que vinha não
sabia de onde, a cabeça zonza com os pensamentos e o coração descontrolado?
Quero você, Vic. Ela nunca tinha escutado aquilo antes. De repente, todos os
problemas pareciam menores… Talvez a vida não fosse tão ruim. Talvez ela
pudesse ser feliz.
Romper barreiras, trocar carinhos, avançar na intimidade, mas sem parecer
grosseiro — é esse o complexo jogo que Victoria tem travado comigo. Duas
casas adiante, então um retrocesso, depois mais um avanço, e mais um
retrocesso. Agora estamos melhores do que nunca. Tudo tem seguido como o
previsto. Ela foi ao delegado e está lendo o diário. Pouco a pouco, se abre
comigo, confia em mim, se entrega. Infelizmente, ainda tem coisas que esconde,
que prefere guardar para si. Eu entendo. É esse íntimo — esse núcleo
inescrutável — que quero acessar. E, quando conseguir, ela vai entender tudo.
Seremos só nós dois. E mais ninguém.


14.
Victoria chegou à casa de repouso pouco depois das dez e meia. Tia Emília já
estava de banho tomado e fazia caça-palavras recostada na cama. Havia um
crucifixo de bronze preso à parede logo acima de sua cabeça. Parada na soleira,
Victoria observou a tia-avó por um minuto, enquanto tentava acalmar a angústia.
Não era fácil. Tinha acordado tarde, após uma noite de sono perfeita em que
recuperara suas energias. As três mensagens enviadas por Georges — um bom-
dia com coraçõezinhos, além de sugestões de filmes para verem à tarde — a
deixaram de bom humor, mas logo depois ela se dera conta de que era quarta-
feira. Não adiantava adiar o confronto ou ficar protegendo tia Emília. Havia
coisas demais vindo à tona. Ela precisava estar preparada e alerta.
Entrou no quarto e deixou a mochila de lado. Beijou a testa da tia-avó e abriu um
sorriso para ela, ganhando tempo. Estava abafado ali, mas tia Emília parecia não
se importar.
“Não consigo achar a palavra ‘sombra’”, ela disse, chateada. “Está me deixando
louca.”
Victoria se sentou na cama, próximo à cabeceira, e observou a página amarelada
com o diagrama de letras e os traçados pouco firmes feitos à caneta vermelha.
Tia Emília levantou o rosto, fez o sinal da cruz na sobrinha-neta e depois
acariciou sua bochecha.
“Esse batom fica muito bem em você, minha filha”, ela observou. “Quando vai
me apresentar seu novo amigo?”
Victoria ruborizou. Havia visto um tutorial no YouTube que ensinava a fazer
maquiagens simples e rápidas. Comprara na farmácia um hidratante facial com
cor para esconder as olheiras e um batom discreto para ressaltar a boca. Não
pensou que tia Emília fosse reparar.
“Você está parecendo sua mãe”, ela disse, com um sorriso. “Os cabelos
compridos, o brilho nos olhos…”
Victoria tinha pensado a mesma coisa ao se olhar no espelho naquela manhã.
Mas, pela primeira vez, não se achara uma versão piorada dela. E decidira sair
sem o lacinho nos cabelos.


sem o lacinho nos cabelos.
“Encontrei com ele outro dia”, Victoria disse, como quem apresenta um dado
objetivo.
“Que bom! Que bom, minha filha. E vão sair de novo?”
Victoria não queria deixar que a tia conduzisse a conversa. Havia ensaiado
tudo o que precisava falar.
“Tia Emília, aconteceram algumas coisas na última semana…”
“Que coisas?”
Victoria foi direto ao ponto:
“Quem é Sofia?”
Tia Emília abriu a boca por um instante. Então fechou o rosto, sacudindo a
cabeça e apertando a caneta vermelha nos dedos enrugados.
“Não sei do que você está falando.”
“Da irmã do meu pai.”
“Que história é essa agora?”, ela perguntou em um tom rude, até então inédito.
“Por que eu nunca soube que meu pai tinha uma irmã?”
Tia Emília a encarou sem dizer nada.
“Me conta”, Victoria insistiu. “Preciso saber.”
“Quando meu irmão ficou viúvo, ele ainda era muito jovem… Ou achava isso,
pelo menos. Tinha cinquenta e cinco anos. Seu pai tinha acabado de conseguir o
primeiro emprego e saído de casa. Então, meu irmão começou a sair com…
prostitutas… Um dia, engravidou uma. Ele fez o teste, claro, e era mesmo filha
dele. Uma filha temporã. A mulher não queria cuidar da criança. Então seu avô
decidiu que Sofia ficaria com ele.”


Victoria podia imaginar como tia Emília havia reagido à notícia da gravidez.
Muito religiosa, tinha noções rígidas de família e de certo e errado.
“Como meu pai lidou com a ideia de ganhar uma irmã de repente?”
“Ele ficou feliz. Na época, tinha vinte e poucos anos e já morava sozinho.
Dava aulas em cursinhos e tinha vontade de abrir uma escola”, ela disse. “No
fundo, não fez muita diferença para ele. Às vezes, ele até ajudava, ficando com a
bebê nos fins de semana e coisas assim. Mais tarde, aos trinta e poucos, Mauro
abriu a Ícone e conheceu sua mãe, que tinha sido contratada como professora de
matemática. Eles se apaixonaram. Antes, Mauro era mais focado na carreira.”
Victoria já havia escutado aquela história centenas de vezes. Tia Emília estava
desviando do assunto.
“E a senhora? O que achava da Sofia?”
“É claro que fiquei chocada na época. Decepcionada também. Era uma pouca-
vergonha… Mas, quando vi a menina, me derreti toda. Era uma bebê linda.
Chorona e indefesa…” Tia Emília pensou um instante e acrescentou: “Só
quando ela cresceu é que foi revelando sua genética”.
“Como assim?”
“Sofia não tinha boa índole. Não era como a gente. Era como se quisesse punir
seu pai por ser o filho legítimo.”
“E meu avô não fazia nada?”
“Imagina ser pai solteiro quando já se está na idade de ser avô… Ele comeu o
pão que o diabo amassou. Quando meu irmão enfartou, Sofia tinha onze anos.”
“E aí ela foi morar com meu pai?”
“Isso, em 86. Foi um período muito difícil. Ele e Sandra tinham se conhecido um
ano antes e já estavam morando juntos. É claro que a mudança da Sofia mexeu
um pouco com a rotina de todo mundo, mas nada grave. Eu também ajudava na
medida do possível.”


medida do possível.”
“Minha mãe se dava bem com Sofia?”
“Sandra era professora primária, sempre foi habilidosa com crianças. Sofia era
uma peste, quebrava coisas pela casa, arrumava briga na escola, se escondia por
horas e fazia todo mundo procurar por ela… Com o tempo Sandra conseguiu
colocar a menina mais ou menos nos trilhos. Mas Sofia estava sempre
insatisfeita. Acho que ela nunca se sentiu parte da família de verdade. Era
desdenhosa, rebelde. Essa é a palavra, rebelde. Uma vez me chamou de ‘megera
desgraçada’ porque não dei uma bicicleta pra ela. Isso com doze anos!”
Victoria sorriu. Era típico da tia-avó guardar um rancor bobo como aquele.
“Quando meu irmão nasceu a Sofia ainda morava com meus pais?”
“Isso.”
“Quando ela foi embora?”
“Não lembro direito. Tinha uns vinte e poucos.”
Victoria tentava estabelecer uma cronologia, mas era difícil. Eric havia nascido
em 1988, quando Sofia tinha treze. Então ela saíra de casa em 95 ou 96, quando
Victoria tinha só um ou dois anos.
“E o que aconteceu?”
“Como assim?”
“Ela foi para os Estados Unidos de repente?”
Victoria logo percebeu o deslize. O rosto de tia Emília ficou branco.
“Como sabe dos Estados Unidos? Não vai me dizer que aquela infeliz entrou em
contato com você…”
“Me responde, tia.”
“Não quero falar mais nada.”
“Por favor”, Victoria disse, inclinando o corpo e pegando as mãos de tia Emília
nas suas, toda carinhosa. “Me diz. Por que a Sofia foi para os Estados Unidos?”


nas suas, toda carinhosa. “Me diz. Por que a Sofia foi para os Estados Unidos?”
“Não sei. Ela só foi.”
Era evidente que tia Emília estava mentindo.
“E nunca mais te procurou? Você era tia dela!”
“Sofia nunca teve uma ligação com a família.” Havia uma raiva contida em sua
voz. “Tem gente que é assim, desgarrada, sem sentimento. Nem todo mundo
é bom, minha filha.”
“E quando a morte dos meus pais e do meu irmão saiu nos jornais, por que ela
não me procurou?”
“Nem sei se ela soube…”
“Você tem algum contato dela? O sobrenome do americano com quem casou?”
“Não tenho nada”, tia Emília respondeu, de má vontade. “Não entendo seu
interesse nessa garota.”
“Essa garota é sua sobrinha… É minha tia. Quero falar com ela.”
“Falar o que, meu Deus?”
“Acho estranho ela nunca mais ter aparecido.”
“Sofia era uma perdida na vida. Terminou os estudos na Ícone, mas não queria
prestar vestibular. Era preguiçosa e acomodada. Mauro resolveu dar uma chance
para ela na escola e a colocou pra trabalhar como inspetora. Sofia ajudava a
cuidar dos alunos. Isso durou dois ou três anos. Até que ela arrumou problema e
seu pai teve que pôr a própria irmã na rua. Aí, ela foi embora.”
“Que problema?”
“Estou cansada de mal-entendidos, culpa e rancor. Já sofri muito com minha
própria sobrinha me virando as costas. Tentei fazer tudo certo, juro que tentei.
Mas ela fez a escolha dela.” Tia Emília começou a chorar. “Minha filha, por
favor, vamos mudar de assunto?”


favor, vamos mudar de assunto?”
Victoria não respondeu. Talvez o dr. Max estivesse certo em dizer que ela se
alternava entre criança mimada e mulher madura. Só que a adulta estava
ganhando força, e tia Emília tinha dificuldade em aceitar que ela não era mais a
garotinha que escutava e obedecia em silêncio.
“Promete que vai esquecer Sofia?”, a tia-avó perguntou, como se lesse seus
pensamentos.
“Não.”
“Só penso no seu bem.”
“Por favor, tia…”
“Sofia fugiu de todos nós. Não faz sentido ir atrás daquela ingrata. Ela só vai
abusar de você, sugar tudo o que puder oferecer e então te jogar fora. Foi assim
que fez com meu irmão, depois com seu pai e com sua mãe… É uma pessoa má,
mentirosa, filha de uma prostituta… Por que quer saber de alguém assim? Você
está me decepcionando, Victoria.”
Tia Emília a encarou por mais um segundo, com a boca retesada e a expressão
severa. Então baixou os olhos, abriu a revistinha e segurou a caneta na mão
trêmula. Sem falar mais nada, voltou a caçar palavras.
15.
O cinema com Georges à tarde acabou sendo agradável — Victoria assistiu ao
filme de mãos dadas com ele e não se sentiu incomodada. Em alguns momentos,
quando o volume da música aumentava ou a cena se arrastava, ele se inclinava
um pouco de lado e falava algo em seu ouvido ou beijava sua bochecha. Victoria
aceitava a princípio, mas logo virava o rosto e murmurava: “Vamos ver o filme”.
Não queria atrapalhar as outras pessoas na sala escura. Comeram pizza em um
restaurante pequeno, numa ladeira de Santa Tereza, enquanto conversavam sobre
o filme e sobre o que fariam no fim de semana. Sim, ela queria encontrá-lo no
fim de semana. Tudo era muito novo, mas Victoria preferia a companhia dele a
ficar em casa ansiosa, pensando no que Santiago estaria planejando. Ela tinha a
impressão frequente de que estava sendo observada, mas o canivete no bolso e o
telescópio na janela a deixavam um pouco mais segura.


telescópio na janela a deixavam um pouco mais segura.
Na sexta, eles foram a uma exposição de um pintor inglês no CCBB e, no
sábado, a uma peça de teatro chamada Ensina-me a viver, sobre um jovem
depressivo que vivia pensando em suicídio e então começava a sair com uma
senhora de oitenta anos bastante alegre e excêntrica. Em geral, Victoria não tinha
paciência para histórias românticas, mas achou aquela bem bonita. Ficou
pensando que os casais precisavam mesmo ser complementares: a ideia de se
juntar a alguém parecido não fazia o menor sentido para ela. Victoria sentia que
ela e Georges eram uma espécie de soma contraditória: ele era leve,
despreocupado e romântico (vivia dizendo que ela era linda e inteligente),
enquanto ela era mais contida, silenciosa e misteriosa, de acordo com ele. O
segundo beijo na boca acabou vindo naturalmente, e daquela vez Victoria não
recuou. Achou gostoso até.
Na semana seguinte, em um jantar, ele comentou que ela parecia tensa e
preocupada, Victoria pediu desculpas e contou o que estava acontecendo. Não se
ateve à pichação na parede e ao diário de Santiago, falando também sobre Sofia.
Só não conseguiu contar de seu histórico de alcoolismo, mas pretendia fazê-lo
no futuro. Não queria estabelecer uma relação baseada em segredos, pois sabia
muito bem como machucavam. Ela mesma não tinha mais visitado tia Emília por
causa da briga das duas. Georges escutou tudo com atenção e prometeu ajudá-la
no que fosse possível, mas Victoria não queria preocupá-lo com aquilo. Ele a
fazia se sentir bem e esquecer os problemas, pelo menos quando estavam juntos.
Foi o que ela lhe disse enquanto passeavam na orla da praia. Então Georges a
enlaçou, beijou sua cabeça e disse: “Finalmente, uma ínfima declaração de amor
para este pobre escritor”. Victoria sorriu. Adorava as gracinhas dele.
Georges buscou ele próprio informações sobre Sofia, mas não conseguiu nada.



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