Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
VICTORIA VAI TE PROCURAR. ENTREGUE A ELA E TE DEIXO EM PAZ.
O delegado a encarava com uma expressão apática, os olhos meio caídos como
se estivesse prestes a mergulhar em um sono profundo. Ela sabia que precisava
dizer alguma coisa.
“O que tinha dentro do pacote?”, perguntou, mas a voz saiu fraca.
“Não sabemos”, Aquino disse. “Bruna só encontrou o bilhete, que deve ter vindo
junto. Átila não te entregou nada?”


Victoria fez que não.
“Ele desobedeceu o bilhete e foi assassinado.”
“É.”
“Mas é estranho que o objeto tenha desaparecido. Se não entregou, o que Átila
fez com ele?”
“Jogou fora?”
“E não jogou o bilhete junto?”
“Não tenho todas as respostas, delegado.”
“Onde você estava essa madrugada?”
“Em casa”, ela disse. Lendo o diário de Santiago, completou em pensamento.
“Tinha alguém com você?”
“Não.”
“E só saiu para ir ao trabalho?”
“Recebi um amigo de manhã. Por acaso sou suspeita?”
“Não”, ele disse, sem parecer convincente. “Claro que não.”
“Posso ir embora?”
“Depois do que você me contou… depois do que aconteceu com Átila… o
principal suspeito é o próprio Santiago.”
“Então ele voltou.”
Era horrível dizer aquilo em voz alta. Seus pelos se arrepiaram.
“Talvez seja só o que querem que a gente pense. O que sabemos é que alguém
está buscando atingir você. Pichando sua parede e tentando te mandar algo pelo
Átila.” Aquino se inclinou sobre a mesa. “Faz alguma ideia do que essa pessoa


pode estar querendo?”
“Pensei que fosse seu trabalho descobrir essas coisas.”
Victoria estava esgotada. A sala abafada e o tec-tec torturante do ventilador de
teto só pioravam a sensação. Seu ritmo cardíaco acelerou, mas ela se sentia
sonolenta. O delegado desceu os óculos para a ponta do nariz e digitou algo no
computador. Então deu um clique duplo em um arquivo, passando os olhos em
busca de alguma informação.
“Deu um trabalho infernal conseguir o inquérito do caso. Como ele era menor de
idade, a coisa é toda sigilosa. Ao completar dezoito, a ficha é zerada. Mas,
enquanto relia, me lembrei de algo que estranhei na época. Talvez você possa
me ajudar”, Aquino disse. “Sabe alguma coisa sobre a relação do seu pai com a
irmã mais nova dele?”
“Como assim?”
“Sofia tinha vinte e três anos na época do crime. Tentamos conseguir um
depoimento, mas ela morava nos Estados Unidos desde os vinte e um.
Trabalhava lá e tinha casado com um americano. Nunca conversamos com ela.
Sei que ela mudou para o exterior por causa de uma briga com seu pai. Mas
nunca achei que fosse motivo para não colaborar com a polícia. O irmão, a
cunhada e o sobrinho dela tinham sido assassinados. E ainda tinha você, viva.
Ela nunca te procurou?”
Victoria empalideceu. Não fazia a menor ideia de quem era Sofia.
“Nunca a conheci”, disse, tomada por um sentimento de urgência. “E preciso
ir.”
Ela se apoiou na mesa para ficar de pé. As pernas fraquejaram, mas Victoria
conseguiu sair da sala. Subitamente, não se sentia no controle da própria
respiração, dos próprios movimentos. Tudo se acumulava: a parede pichada, a
morte de Átila. E agora… Sofia! Como nunca soubera da existência da tia? De
que briga o delegado estava falando?


Olhou para as mãos envolvendo com firmeza as alças da mochila. Apoiada no
corrimão, desceu aos tropeços os três degraus que levavam à rua. O trânsito de
Copacabana a invadiu em cheio: buzinas superdimensionadas, gente de todos os
lados, rindo, comendo, falando ao celular. O ar cheirava a esgoto. Seus olhos se
encheram d’água e a garganta travou. Sentiu um gosto de remédio no céu da
boca. Todo o seu corpo tremia. Ao tentar atravessar a rua, a vista escureceu.
Antes de perder a consciência, Victoria sentiu o braço batendo contra o asfalto
áspero e quente.
13.
O mundo se reestruturava aos poucos. Primeiro, um cheiro forte de álcool etílico
— entorpecente e sedutor. Depois, o som de louça na cozinha, uma torneira
ligada, o zumbido do ar-condicionado e a brisa fresca no rosto. Uma textura
diferente na nuca e nos braços — plástico frio, em vez do tecido rugoso do sofá
com que estava acostumada. Ainda grogue, Victoria concluiu que não estava em
casa.
Ergueu-se assustada, respirando fundo e olhando em volta. Estava deitada em
um sofá de couro escuro, com a cabeça sobre um travesseiro volumoso, de pena
de ganso. Não conhecia aquela sala. Em seu braço, havia um curativo, feito de
gaze e esparadrapo. Ela foi dominada por um pavor intenso enquanto tentava
recordar seus últimos passos. Não conseguiu. Antes que se levantasse, Georges
apareceu, com duas xícaras fumegantes nas mãos.
“Finalmente você acordou”, ele disse, com um sorriso. “Café com bastante
açúcar.”
Georges se sentou no sofá e estendeu uma xícara para ela. Victoria teve que ficar
meio de lado para não encostar nele. Envolveu a louça quente com as palmas das
mãos, reconfortada pelo calor e pelo cheiro forte de cafeína.
“Não machucou muito”, ele disse, olhando para a gaze. “Fica tranquila.”
“Como vim parar aqui?”, Victoria perguntou, hesitante.
“Vi como ficou quando atendeu a ligação no café e resolvi ir atrás de você.”
“Você me seguiu do centro até Copacabana?”


“Te vi pegar um táxi no ponto e entrei no seguinte.” Ele baixou os olhos.
“Desculpa. Talvez pareça estranho, mas… fiquei preocupado com o que você
disse. Sobre precisar se proteger.”
Victoria continuou a encará-lo em silêncio. Não sabia o que dizer. Georges se
viu forçado a continuar.
“Esperei no saguão da delegacia. Você saiu tão atordoada que nem me viu.
Então desmaiou na calçada. Acordou logo depois, muito nervosa. Te dei um
calmante e pegamos um táxi. Não lembra?”
Era tudo muito vago, como um caldo borbulhante e pouco espesso. Algumas
imagens vieram à mente dela, mas logo se diluíram. Ela já tivera apagões antes,
principalmente na época em que se entupia de bebida barata.
“Tive que sair pra comprar gaze”, ele continuou. “Quando voltei, você já estava
no décimo sono. Não acordou nem enquanto eu fazia o curativo.”
Ela passou os olhos pela sala improvisada, sem personalidade, típica de um
homem recomeçando a vida sozinho. No canto, havia uma estante simples com
livros de não ficção ao lado de uma mesa metálica de trabalho com duas cadeiras
de plástico. Ao centro, ficava um abajur pequeno, um tapete puído e um sofá-
cama que não parecia nada confortável. Nas janelas, havia cortinas com
blecaute.
“Bem-vinda à minha casa”, ele disse, deixando sua xícara ao lado da dela no
chão.
Aos poucos, a conversa com o delegado voltava à consciência de Victoria.
Átila estava morto. Talvez tivesse sido assassinado pelo próprio filho. O pai de
Victoria tinha uma irmã mais nova de que ela nunca tinha ouvido falar. Ou só
havia se esquecido dela porque era pequena demais na época? Se fosse o caso, o
que mais acontecera no passado que seu cérebro — por imaturidade ou
autodefesa — havia tratado de apagar? E sua tia-avó? Por que não falava sobre a
tal Sofia? Victoria quis ficar de pé, mas decidiu ir devagar e ficou só estudando o
rosto de Georges. Ela sempre odiara manter contato visual, mas com ele era
diferente. Não havia julgamento, só uma porta aberta.


diferente. Não havia julgamento, só uma porta aberta.
“Já viu O fantasma da Ópera?”, ele perguntou, depois de algum tempo.
“Já, por quê?”
“A sua cara. É como Christine acordando nas catacumbas do teatro, no
esconderijo dele.”
Victoria ergueu a sobrancelha, irônica.
“E o que você esconde por trás da sua máscara?”, ela provocou. “Um rosto
queimado?”
“Não sei se quero ser o fantasma, na verdade. Ele não termina com a Christine.”
Victoria desviou o rosto, envergonhada. Observou o corredor e tentou supor as
dimensões do apartamento de acordo com sua extensão. Parecia haver dois ou
três quartos. Ela não fazia ideia de em qual parte da cidade estava.
“Tenho que ser honesto com você”, Georges disse. “Quando você desmaiou, tive
que mexer na mochila para buscar seu celular e tentar ligar para alguém.”
“E…?”
“Encontrei um caderno lá dentro. Achei que fosse seu, então vi o nome.
Santiago é o menino que matou sua família, eu sei. E saiu nos jornais que o pai
dele foi assassinado. Por que você está andando com isso, Vic?”
Ela ficou chocada.
“Você leu o caderno?”
Ele se ajeitou no sofá, desconfortável.
“Dei uma folheada”, confessou.
“Não devia ter feito isso. Não é da sua conta.”
Victoria queria ir embora. Ainda deitada, levou a mão ao bolso e percebeu que o
canivete não estava ali. Nervosa, fez menção de levantar. Como se lesse seus


canivete não estava ali. Nervosa, fez menção de levantar. Como se lesse seus
pensamentos, Georges pegou algo na mesa de centro. Ela logo reconheceu o
canivete nas mãos dele.
“Isso é meu”, disse.
Georges estendeu o canivete para ela, que o pegou na mesma hora, erguendo o
tronco.
“Ainda não entendi direito no que você se meteu, mas parece perigoso”, ele
disse, inclinando-se para segurar os ombros dela. “Quero ajudar.”
“Não precisa.”
Victoria se esquivou dele e girou o corpo, tomando impulso.
“Me escuta”, Georges insistiu. “Não é um canivete que vai te proteger.”
“Se não me deixar ir, vou te machucar.”
Ele ergueu os braços, em sinal de rendição. Afastou-se para a porta e a
destrancou.
“Pode ir embora, se quiser”, disse. “Mas queria que me escutasse antes.”
Victoria não queria escutar nada. Girou o corpo e sentou, apoiando os pés no
chão. No mesmo instante, sentiu o piso frio. Quando olhou para baixo,
confirmou que estava descalça. Despontando da calça jeans, ao lado do pé
direito com as unhas curtas e sem esmalte, viu o pé mecânico, bege, com
ranhuras ridículas simulando dedos.
“Tirei seu tênis pra você ficar mais confortável”, Georges disse.
Ela manteve a cabeça baixa, dominada por um misto de vontade de chorar, gritar
e beber.
“Eu já sabia”, Georges disse. “Percebi algo diferente no jeito como andava pelo
salão do café. Depois do nosso encontro, fiz algumas pesquisas. Encontrei um
jornal da época dizendo que você tinha sido submetida a uma cirurgia.
Investiguei e descobri sobre a remoção da perna esquerda. Isso só aumentou
minha admiração por você. Fiquei pensando na mulher incrível que é. Com tudo


minha admiração por você. Fiquei pensando na mulher incrível que é. Com tudo
o que aconteceu, e aí está você, firme, forte… e linda.”
Victoria se sentia exposta. Envolveu o corpo com os braços e ficou cutucando o
curativo com o indicador.
“Não precisa ter vergonha”, Georges continuou, se aproximando dela. Ele se
sentou no chão, com as pernas cruzadas, e ergueu a cabeça. “A verdade é que eu
sempre me achei muito infeliz, injustiçado pela vida. Tive depressão na
adolescência. Mas nada… nada se compara ao que você passou. Depois que te
conheci, fiquei pensando como era vergonhoso eu me fechar para o mundo,
reclamar das dificuldades, da traição da minha ex… Você me tornou uma pessoa
melhor, Vic. E é só isso que a gente pode querer, não acha? Alguém que nos
torne melhores.”
Victoria fechou os olhos, deixando que uma lágrima escorresse pelo rosto.
Não estava pronta para aquilo, muito menos naquele momento. Como podia se
interessar por alguém numa situação tão absurda? Era errado. Quis explicar a
ele, mas as palavras não saíram.
“Não vou ser dramático a ponto de dizer que não vou suportar se me ignorar”,
ele continuou. “Mais do que ninguém, você sabe que a gente é capaz de suportar
qualquer coisa e se reinventar. Mas gosto muito de você. Sinto que confiou em
mim. Me contou da sua vida. E me mostrou uma nova maneira de encarar os
problemas. A perna mecânica não é sua fraqueza, é sua força.”
Ele estendeu os braços e ergueu o pé esquerdo dela, sentando no sofá e apoiando
a perna mecânica em seu colo. Então subiu a barra da calça, revelando a
estrutura completa, com as conexões aerodinâmicas e o enchimento da
panturrilha. Antes que Victoria recuasse, Georges aproximou o rosto e beijou o
pé de plástico. Sorriu para ela e depois voltou a atenção à perna, subindo o rosto
lentamente enquanto dava vários beijinhos, como se ela pudesse sentir o contato
de sua boca.
Victoria continuou imóvel, sem saber como reagir. Havia um peso enorme em
suas costas, o estresse de tudo o que vinha acontecendo, mas fazia tanto tempo
que ninguém cuidava dela. Georges conhecia seu segredo, algo que quase
ninguém sabia. E, no fim das contas, não parecia tão ruim… Quando os beijos
de Georges chegaram acima do joelho, ela sentiu o toque através do jeans, a sutil
pressão da boca e o desenho molhado deixado pelos lábios.


pressão da boca e o desenho molhado deixado pelos lábios.
Ele escorregou para mais perto e, sem dizer nada, a abraçou. Victoria percebeu a
respiração agitada em sua nuca e o coração dele batendo forte. Uma tensão
elétrica percorreu todo o seu corpo. Georges virou o rosto e aproximou sua boca
da dela. Victoria queria muito beijá-lo, mas nunca tinha feito aquilo.
“Eu…”, ela tentou dizer.
Georges a puxou para si, encarando-a de perto.
“Quero você, Vic.”
Suas bocas se tocaram, primeiro de leve, depois calorosamente, embaçando os
óculos dela. Victoria não sabia direito o que estava fazendo, mas ele a envolveu,
apoiando em seguida a mão direita de modo delicado em seu rosto. Então levou
a boca ao ouvido dela e repetiu que a queria, depois deu beijinhos em seu
pescoço e voltou à sua boca, com mais vigor.
“Calma”, ela disse, afastando-o de leve.
Foi só quando soltou todo o ar dos pulmões que Victoria se deu conta de que
estava prendendo a respiração. Menos de um minuto havia se passado, mas
pareciam horas. Os dois se encararam em silêncio. Quando ele se aproximou
para um novo beijo, ela ficou de pé, ainda sentindo um formigamento nos lábios.
Desviou os olhos de Georges e percebeu o caderno de Santiago sobre a mesa de
centro. Guardou-o na mochila e passou a mão no rosto, recuperando o fôlego aos
poucos.
“Desculpa… Eu não queria te deixar desconfortável”, ele disse.
“Tenho que ir para casa.”
Victoria se recostou na parede para calçar os sapatos e ajeitar os cabelos,
evitando olhar para ele. Algo novo e potente se passava em seu interior, mas ela
ainda não sabia o que era e preferia não demonstrar nenhuma emoção. Também
sentia uma espécie de dormência em diversas partes do corpo, principalmente
onde ele a tinha beijado e abraçado.


“Te vejo de novo?”, Georges perguntou.

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